09 outubro 2008

A síndrome de Grouchy


Três e meia da manhã, não tenho como escapar das nossas tribulações. Não resistirei por muito mais, logo deitarei, esgotado, nesta noite calorenta, calada para além da conta. A cidade está irreconhecível neste princípio de feriado, as pessoas parecem ter desaparecido, em busca de outros rincões menos abafados. Verão quente, cujas noites não poupam os corpos, entorpecendo o espírito. O tempo na cama foi suficiente para a transpiração grudar-me nos lençóis mal-cheirosos, aumentando o desconforto da insônia. No lugar de remoer os impasses, passei a acalentar tua imagem dócil, dormitando à espera do alvorecer. Esqueci por um momento o embate com o clima sufocante ao recordar, ainda que de modo vago, teus laivos de carinho que sempre gostaram de me surpreender. Não que tenha sublimado a lembrança de tuas zangas, mas me engalfinhei em desejos fagueiros, vagando por gratas memórias de convivência intensa, experiências já um tanto distantes, mas... o certo é que por alguma razão deixei os registros do passado para me fixar em um futuro fugidio, em ti, soturna e imóvel na cadeira de balanço, abraçando-me com teus olhos de súplica silente, expressando tudo o que não falaste ao longo dos anos, mas que, através dessa aproximação memorial, me permitiu vislumbrar. Desse futuro improvável chegou-me a sensação cristalina de tuas chagas não cicatrizadas, deste seu olhar expectante. Pesou-me a dor íntima de teu olhar, essa quietude envelhecida, desassistida nos estertores da vida, olhando-me não em desafio, mas em alquebrada serenidade. Indaguei o porque dessa antevisão plena de sensações ambíguas, em um cenário onde qualquer manifestação nada mais acrescentaria. Mergulhei em abstrações e não tive como deixar de pensar na síndrome de Grouchy, o general que sucumbiu vencendo: sua destreza nos golpes táticos não anulou o estupor do fracasso estratégico... Nossas vidas clamavam por uma chance, enquanto nos desperdiçávamos com movimentos esvaziados, cingindo-nos de dor. Na janela aberta da sala, minhas idéias se embaralham com a percepção indulgente da paisagem. Em meio a uma noite de calor e insônia desponta a lua cheia, enquadrada na única fenda disponível entre os edifícios. Deixo-me enlevar por um anseio brumoso que escorre em meio a sensações múltiplas, sem dispor de nada a não ser a lua cheia.


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