22 outubro 2023

Argentina: os próximos passos

 

A esperança de que nosso Norte continue sendo o Sul

Uma inquietude nos atravessa a todos: o risco de colhermos uma amarga derrota amanhã, nas eleições argentinas. Como tem sido corriqueiro nos pleitos dos últimos anos, na América Latina, o espantalho assustador da direita ressurge de suas fundas trevas, mais ameaçadora, mais ignóbil, mais empolada, propondo suas soluções esdrúxulas, política e economicamente irrealizáveis, e que estão mais de acordo com as normas do pacto com a violência, sem qualquer apego ao diálogo, em que a sociedade, manipulada pela retórica grosseira, entrega seu destino às vozes que a desejam destruir. No contexto da crise política e da inflação galopante, as vagas promessas de solução, de uma nova era, sem corrupção, sem Estado, sem subsídios, consegue capturar corações e mentes, principalmente - e isso me impressiona - de jovens. 

Na quinta-feira, assisti a uma palestra da socióloga Verónica Gago, que nos mostrou de um lado o processo de mobilização feminista no enfrentamento da crise e de outro, o tamanho do buraco criado pela financeirização do capital, aprofundando o endividamento das famílias. O crédito sem a mediação salarial tornou-se uma alternativa desesperada para as famílias ao menos subsistirem, "envididarse para vivir". O quadro atual não indica uma solução a curto prazo para a inflação, hoje em torno de 120% ao ano. As perspectivas de estabilidade econômica, e o consequente apaziguamento social e político, serão mais satisfatórios quanto mais sério for o cronograma da governabilidade, abrangendo a grande parcela da população, menos favorecida, recompondo os programas sociais, a preservação do poder de compra dos trabalhadores e aposentados, os direitos trabalhistas, de moradia etc. 

Em outras palavras, a opção mais sensata no momento seria a vitória de Sergio Massa, da coalizão Unión por la Patria. Ainda que seja ministro da economia de um governo que falhou ou se omitiu em muitos aspectos, é o candidato que reúne mais serenidade, e talvez capacidade, para desenvolver um projeto de contemple algum tipo de pacificação nacional e que possa gerar desenvolvimento econômico sem graves rupturas. Torço muito para que a Argentina encontre o espírito de sua seleção de futebol, unida e determinada a jogar do modo mais eficiente para vencer. Como na poesia de Benedetti, cantamos porque llueve sobre el surco/ y somos militantes de la vida/ y porque no podemos ni queremos/ dejar que la canción se haga ceniza.



19 outubro 2023

As ternas memórias de Julio Escobar



Uma boa notícia em um mês conturbado: entrou em edição final meu livro de contos, As Ternas Memórias de Julio Escobar e outras rememorações, pela editora Mondru. Segundo o editor Jeferson Barbosa, o livro estará presente na Flip, em novembro, e outras feiras e eventos que a editora participará ainda neste ano. Em seguida, segue a divulgação pelos apoiadores da pré-venda a partir de dezembro, quando devo receber meus exemplares. 

Segundo o editor, há sobreposto à capa alguns padrões, que tentam ampliar a ideia de fragmentos da memória e até de caminhos e reconstrução da memória por meio da escrita. Trata-se do sombreamento losangular que recobre a capa. A escolha foi feita entre sete opções, e penso que é a imagem que melhor retrata o tema do conto-título. O tom azulado foi uma opção pessoal ao eleger as cores, os tipos gráficos, a estética das capas. 

O esforço agora é possibilitar o lançamento ainda neste ano. Houve algum atraso em relação ao cronograma original, que indicava que o livro estaria pronto por volta de agosto. Seja como for, ele seguirá seu curso, vamos aguardar a divulgação e a pré-venda, para então tomarmos uma decisão sobre um lançamento presencial. 

O mais importante é que, por parte da editora, houve muito cuidado na edição, o que acreditava que ocorreria pela relação profissional mantida, sempre com muito respeito ao autor. No que diz respeito ao texto final da obra, também houve, de minha parte, uma atenção inédita, quando decidi submetê-lo a uma revisão profissional, que me pareceu bem feita. Isso, aliado ao conjunto de contos que compõe o livro, desenvolvido sob uma temática principal - a memória, a rememoração - me permite dizer que se trata de um trabalho maduro e criteriosamente bem-sucedido. 

Mesmo os contos mais antigos, e ali estão presentes dois - escritos há mais de trinta anos - não desafinam na montagem orgânica da obra. Alguns outros passaram por profundas reescrituras, visando dar mais consistência às narrativas e valorizar a relação com o tema principal. Foi o caso, por exemplo, de Formas de contemplar o espaçoCoriolano Salvatore, Rodolfo evoca. Ficará a cargo dos leitores se aprovam o resultado final.



08 outubro 2023

Por que não haverá solução



Creio que a parcela mais crítica e atenta dos cidadãos do mundo já desconfiam aonde este novo enfrentamento entre palestinos e israelenses vai levar: a lugar nenhum, ou, a nenhum aprendizado. O mundo com suas lideranças bochornosas de hoje, riscou da agenda a palavra negociação. O que deve prevalecer é a palavra ameaçadora e o ato belicoso, vindo por trás um orçamento bilionário de contratos com armamentos. É o que acontece na Ucrânia, onde a UE prefere torrar mais de 130 bilhões de euros ao longo de um ano e meio, em armas enviadas ao Zelenski, com resultados bastante incertos, do que procurar uma negociação direta com a Rússia e cessar com a sangria desatada. Para que o descalabro não seja tão assustador ao pobre cidadão comum, é necessária uma contínua cobertura acrítica das mídias sobre o que se passa por lá. 

No caso do Oriente Médio, o ataque do Hamas suscitou uma enérgica reação conjunta desses mesmos governos entorpecidos contra o ataque terrorista, desta feita executado em minúcias e em grande escala. Quando as mortes ocorrem aos borbotões pela ação policial lá no morro, trata-se da consequência de uma ação cirúrgica e necessária para conter a criminalidade. Para o bem dos bairros classe-média do entorno. Ninguém quer saber quantos morreram ou o nível da violência policial para aquietar as almas criminosas. Mas quando há uma ação oposta, uma invasão "do morro ao asfalto", o pânico exige que o Estado Policial reaja à altura, acabando com a violência dos marginais. É mais ou menos o que ocorre em Gaza. 

Enquanto os ataques cirúrgicos de Israel têm a função de eliminar bases terroristas, sem a contagem precisa de vítimas, isso pouco importa e conta com a absoluta complacência da comunidade internacional. Mas quando surge um ataque maciço palestino, que deveria provocar ao menos um questionamento incômodo, o mundo, esse mundo de lideranças frívolas, reage em uníssono, como se o que ocorre naquela parte do planeta fosse uma novidade. Não é. A violência conta-gotas da ocupação israelense é uma narrativa censurada.

O que vai ocorrer é que o ataque do Hamas será contido e a montanha de cadáveres resultante será varrida para baixo do tapete, com a conta apresentada unicamente para o grupo político palestino. Não haverá aprendizado, nem negociação. Não convém, afinal, para quê mexer nesse vespeiro e trabalhar diplomaticamente pelo estabelecimento de dois Estados soberanos e livres? O problema da solução armada é uma opção que a cada confronto foge ao controle. Os falcões do Pentágono, ou da Otan, ou vamos lá, da ONU, têm dificuldades em aceitar que novos jogadores, com muito cacife diplomático, sentem-se à mesa e mostrem como aprenderam a jogar o jogo da guerra. Esses insignes falcões desaprenderam a arte do blefe, e mesmo assim querem impor que a banca vença o jogo, com a truculência do passado, mas produzindo a ignorância do futuro. 

A ladainha é repetida, não negociamos com terroristas, como se uma fração de terrorismo também não estivesse entranhada em suas ações. Sentimentos se misturam, hipocrisia, arrogância, prepotência, desprezo... O inimigo pagará um preço como nunca conheceu antes... Nesse quadro, o Hamas é o menor dos problemas. A imposição de subserviência se estabelece; pronto, não haverá negociação, não existe espaço para o diálogo, para as narrativas com versões da mesma história, e o mundo morboso deverá se orgulhar da força da Verdade e replicar em suas redes digitais a vitória, ou o impasse provocado pelos "terroristas". Lamentáveis serão os desfechos. Não fazem ideia do que semeiam, mas parece que não se preocupam com isso, nem com a fome, com a destruição, com o aquecimento global, com nada.


05 outubro 2023

15 anos!


Há quinze anos, no embalo da febre dos blogs, lancei o Chá nas Montanhas, sem muita pretensão, a não ser dispor de um canal em que pudesse publicar minhas impressões políticas e culturais, além, claro, de divulgar meus textos literários - crônicas e pequenos contos. Um pouco antes, havia passado por uma primeira experiência que durou um ano e meio, o Caminhos da Liberdade. Por alguma razão, considerei aquele blog insuficiente, e ao encerrá-lo, fiquei seis meses preparando o lançamento deste Chá nas Montanhas.
 
Com o passar dos anos, ao contrário do desgaste que costuma pressionar os blogueiros, sinto-me estimulado a publicar meus textos aqui, com uma regularidade que se mantém desde o início. Nunca o blog ficou três semanas sem uma postagem. Postagens sempre criadas, textos produzidos e não copiados, e em grande parte delas, ilustradas com imagens de meu acervo pessoal. Desse modo, o leitor de visitas indica mais de 91 mil visualizações, 788 postagens em 5.475 dias, que propiciaram um livro de crônicas publicado, O que aparentemente nos resta, e outro inédito, para vir a lume em breve, Pétalo nauseabundo. 

Creio que, por meu entusiasmo e quase necessidade de escrever aqui, o blog deverá continuar por um longo tempo, quem sabe por mais 15 anos! Logo, serão 100 mil visualizações e 800 postagens, o que me dá grande satisfação. A comemoração da data inclui todo esse imenso número de leitores silenciosos, os quais agradeço de coração.

Viva o Chá nas Montanhas!