30 outubro 2008

Il capo Benega




De onde estava, poderia permanecer observando-o por quanto tempo fosse, pois além dele seguir absorto na conversa animada que travava com amigos, eu estava a certa distância, num canto obscuro do balcão. Sim, não havia dúvidas, era ele, um dos meus ídolos anônimos da infância, craque de futebol do bairro, campeão por diversas vezes nos campeonatos que eu presenciava silente, à beira do campo, envolvido por suas artimanhas e por suas arrancadas decisivas. Um artista! Invariavelmente, uma grande platéia tornava-se testemunha de seu senso de colocação, de sua liderança, mas não tenho dúvidas que a escumalha reunia-se para saber qual seria a jogada encantada do dia, que animaria as rodas dos bares ao longo da semana, até o jogo seguinte.

Pois bem, ali estava ele, após tantos anos. Pereira, não, Barena..., o nome não tinha meio de saltar à mente. Decerto por essa razão eu não tenha arriscado a dirigir-lhe a palavra... Na verdade, não creio que ele me reconhecesse, pois a legião de fãs anônimos que Barrag..., Benat... granjeara naqueles tempos fora estupenda. Mantive-me, assim, num conveniente silêncio passivo, sem perder de vista meu antigo ídolo.


Sorvia meu café com goles mais espaçados, para poder desvelar mais dele, agora num outro momento. Havia um pobre resquício da sua aura: era o líder da roda de amigos, movendo-se entre eles com rompantes de seu estilo lépido e insinuante. Se fossem adversários e no meio houvesse uma bola, certamente já teriam sido fintados, pois os caras o ouviam tão desarmados e de modo tão ingênuo, quanto se postavam seus antigos marcadores... Os movimentos das mãos retomavam a agilidade das pernas irreverentes... Mesmo a calvície, a barriga mais proeminente, o sorriso menos aterrador preservavam algo do espírito incisivo do belo craque... Fosse como fosse, insistia em perscrutá-lo, pois vê-lo reavivava uma lembrança vívida, ainda que um pouco embotada pelos longos anos passados. Berra..., Ben..., Benega, sim... isso, Benega!! Um impulso de entusiasmo, seguido de um gesto amplo, quase denunciou minha presença furtiva...


Um quase desejo de ir até ele se formalizou (mas ainda desta vez quis contemporizar, reavivando mais passagens daqueles inocentes domingos matutinos, talvez para ganhar tempo e com isso um pouco mais de confiança, sei lá...) para no momento seguinte se desvanecer de modo definitivo, pois Benega e seus comparsas (eu saberia disso alguns anos mais tarde) saíram do Café, entre baforadas e gargalhadas, para mais um golpe insidioso...



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