13 abril 2015

Eduardo Galeano



Nos últimos anos, perscrutei o Uruguai ao sabor das palavras de Galeano e Benedetti. Passei a colecionar suas obras e em certo momento, a lê-los com avidez. Foram persistentes referências inseridas na grandeza de seus escritos, não mais os abandonei. Apresentaram-me o pequeno Uruguai de seus sonhos e de suas vidas, e o transcenderam, fazendo-me apaixonar pela simplicidade da vida, pela grandeza de nossa América Latina. Mário Benedetti partiu há seis anos, Eduardo Galeano hoje, em uma silenciosa manhã. Saudade que permanecerá latente, tomada pela imagem de uma mesa discreta, nos fundos de um café, e que de tempos em tempos tomarei lugar para desfrutar de poéticas reflexões, compartilhando seu generoso sorriso.

Acima, deixo o que considero a mais bonita de suas entrevistas, no programa Sangue Latino, com Eric Nepomuceno. 



10 abril 2015

As catacumbas do golpismo



Afora as urdiduras do enfrentamento político presentes no Chile, que conformavam um processo opositor ao projeto socialista da Unidade Popular, ocorriam ações à margem da legalidade constitucional, o ovo da serpente gestado para, no tempo certo, disseminar o caos que envenenaria a democracia do país. No vídeo acima, Im Zeichen der Spine (Con el signo de la Araña), produzido em 1973 por uma equipe de cineastas da RDA (uma interessante aventura, descrita com detalhes aqui), podemos acompanhar a tal da vanguarda anti-marxista que avança implacável, a tristemente conhecida frente nacionalista Pátria e Liberdade, que desfrutaria da plena liberdade de direito então vigente para sabotá-la, em favor do golpe cívico-militar. Vemos as sinistras lideranças, portadoras um discurso político mais robusto, ainda que equivocado, e jovens com a mais completa incapacidade de formular um discurso contra aquilo que lutam, o comunismo. Vicejam em catacumbas escuras e quando podem, emergem no espaço público, para dar plasticidade às representações fascistas, sob o signo da aranha.

Está claro que o conteúdo ideológico é um embuste estimulado por forças poderosas e ocultas, com o claro objetivo de minar e posteriormente romper com a ordem constitucional. A partir do décimo minuto, entra em cena uma figura patética, Ernesto Muller, meio-irmão de Roberto Thieme, o então prófugo secretário-geral de Pátria e Liberdade. Após uma mise-en-scène que ilustra o perfil autoritário do movimento, nos descreve o significado do símbolo da aranha. Chamo a atenção para essas duas personagens fatídicas, Muller e Thieme, que a partir de ideais e ações golpistas, promovem o surgimento de uma Frente nacionalista que servirá de ponta de lança para a deposição do governo Allende. Com o golpe, Pátria e Liberdade se dissolve e Muller e Thieme tornam-se nada mais do que peças secundárias na engrenagem pinochetista. Anos mais tarde, Roberto Thieme daria uma entrevista acusando Pinochet de traidor. 

Seja como for, o mesmo espírito sinistro que alimentou o golpismo dessa direita inconsequente ressurge na ribalta do cenário político brasileiro (Rogério Chequer), venezuelano (Leopoldo López), alimentados sabe-se lá por quais interesses.