20 setembro 2018

As marcas do neoliberalismo


As consequências nefastas das políticas neoliberais sempre afetaram de maneira dramática as classes menos favorecidas. Nas economias que integram o capitalismo periférico, os efeitos mostram-se mais devastadores: se por um lado atende as expectativas de uma pequena casta social, por outro expande a precariedade nas classes trabalhadoras. 

A partir dos cartuns de Angeli que recupero de meus arquivos, temos uma singela exposição de como avançava o processo de exclusão social, no final do segundo governo FHC. Passados vinte anos, com a retomada do projeto neoliberal pelo governo golpista, é possível constatar, em um perverso exercício retrofuturista, a permanência de nosso flagelo social.






16 setembro 2018

Novas formas de enfrentamento político

Mulheres se mobilizam com a Revolução russa.

As entrevistas em canal aberto de televisão mostram, nestas eleições, o quanto ficaram ultrapassadas não só por seu formato de perguntas e respostas, como pela amplitude limitada de temas debatidos e, o que é pior, pela isenção questionável dos jornalistas. Tem sido essa a impressão firmada nas entrevistas do Jornal Nacional da TV Globo, onde a bancada assume uma postura pouco íntegra, intervindo de maneira acintosa sobretudo quando o candidato é do campo popular, como foi o caso de Ciro e mais recentemente, de Haddad. Parece não existir uma norma que conduza com isonomia o conjunto de entrevistas, aprofundando a impressão de que o jornalismo patronal nada mais é do que um instituto publicitário a serviço dos candidatos que melhor respondem suas expectativas.

Nesse sentido, resta saber quais serão os resultados das campanhas digitais, se de fato exercerão um papel significativo, a ponto de desbancar as campanhas por plataformas impressas (jornais e revistas) e eletrônicas (TVs). As campanhas no espaço público, corpo a corpo, já tinham sido as primeiras a sofrerem com o desenvolvimento das comunicações, com o surgimento dos palanques eletrônicos de TV a partir dos anos 1970. Agora, as redes digitais, com tudo o que possa representar de bom e ruim, parecem ganhar terreno. Ainda considero, por todos os problemas já identificados de robotização de informações ou ações de hackers, que há um considerável ganho de informação, sendo o indivíduo o responsável por suas escolhas, crer ou não em bobagens supérfluas, crer ou não no processo histórico.

Recentemente acompanhamos uma avalancha de mulheres organizadas pelas mídias digitais a rechaçar a candidatura de Bolsonaro. Tudo ocorreu de maneira incrivelmente veloz, em menos de uma semana, dois milhões de mulheres reagindo com logos emojis, figurinhas, GIFs, frases, símbolos em contraposição à ascensão do candidato nas pesquisas, logo após o atentado que sofreu em Juiz de Fora, há dez dias. Tudo muito rápido e recortado, significações fragmentárias a compor um feixe de sentidos. O certo é que não há mais como se alegar neutralidade, ou pior, desconhecimento de causa. É o tempo do assédio fragmentário, e não resta dúvida que temos de fazer um esforço para compreender a realidade que nos cerca, para além das bolhas de relações que compartilhamos.

A má-fé ou a submissão ao conforto do senso comum, que se satisfaz em reproduzir todo tipo de informação, principalmente aquelas sem fundamento, é o ponto a ser observado e mensurado no processo comunicacional sob as tecnologias digitais. Lamentavelmente a formação escolar de nossa população, precarizada de seu sentido crítico desde o fim do governo João Goulart, faz com que largas parcelas sociais, envolvidas pelo discurso dominante do combate à corrupção como mote para o fim imediato das mazelas, se deixem levar pelo canto da sereia do senso comum disseminado e muitas vezes subvertido pela má-fé. Senti isso claramente nos derradeiros anos de minha docência, onde alunos com insuficiente formação de nossa sociedade se entusiasmavam com a poderosa descoberta de autores como Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, dentre outros. 

O painel indica luta sem quartel nestes próximos vinte dias, suficiente para a ascensão das candidaturas progressistas, como também para a consolidação da violência discursiva de linhagens fascistas. As redes digitais permitem, e é no que acredito desde suas origens, incorporar pessoas em coletivos e movimentos dispostos a participar com ideias construtivas, e com elas compreender e interagir na realidade da vida social de modo consistente. Sigo para a festa Lula Livre na Paulista!




12 setembro 2018

11 de setembro



O Palácio de La Moneda sob ataque, manhã de 11.09.1973 


Ontem, 45 anos do golpe cívico-militar no Chile. Uma efeméride sempre lembrada, por sua violenta intervenção social, política e histórica. Impressiona retomar os fatos em sua cronologia, observar tanta brutalidade e traição, misturada ao silêncio dos partidos e corporações que apoiavam a UP e não souberam prestar seu apoio. É terrível ver e rever o drama de Allende e um punhado de destemidos, dentro do Palácio de La Moneda, imolados e inumados em nome da práxis revolucionária. Passado todo esse tempo, resulta observarmos o nome de Allende forte no panteão dos representantes mais significativos da luta por uma sociedade livre e autônoma, enquanto seu oponente golpista amarga o descrédito moral, lembrado por seu caráter virulento e por suas práticas corruptas.

Acompanhei em tempo real os acontecimentos do 11 de setembro de 1973 chileno, a partir dos relatos radiofônicos de então, em uma programação produzida pelo Museo de La Memoria y los Derechos Humanos. Eu já conhecia diversos áudios ali postados, como os comunicados do presidente Allende, as ordens dos militares durante os combates pela Moneda, os comunicados oficiais dos militares em cadeia radiofônica, as descrições dos acontecimentos por repórteres in locu, porém, chamou atenção a organização cronológica dos fatos, como um relato prolongado de toda a jornada, que termina no final da tarde com a proclamação da junta militar. Um drama e horror sem fim, pois aquela página sinistra só seria virada 15 anos mais tarde, com a vitória do NO nas urnas.

Também foi ontem a definição da cabeça de chapa do PT, com Haddad e Manuela, em vez de Lula e Haddad. Houve uma pequena cerimônia de 34 minutos, em frente à polícia federal (com minúsculas) de Curitiba, com falas de Gleisi Hoffman, presidente do partido, fazendo um arrazoado das circunstâncias que levaram o partido a optar, no crepúsculo do prazo, pela conformação definida. Em seguida, Haddad fez uma precisa arguição ligando o compromisso do partido com a herança de Lula, frisando a tarefa futura, a retomada do Estado do bem-estar social, cujas conquistas foram duramente demolidas nestes dois últimos anos.


01 setembro 2018

O que aparentemente nos resta

Eduardo Lima, Família Silva 

Uma série de coisas ficam claras com os desdobramentos políticos nos últimos dois anos no Brasil, a partir do golpe institucional que nos leva gradualmente à beira do abismo. A expansão metódica dos conceitos liberais na economia, longe de alcançar resultados, conduz a uma vertiginosa concentração de renda, com efeitos sociais previsíveis a médio prazo. A ideia corporativa de gestão prevalece nos altos escalões econômicos e avança no aprendizado acadêmico, como o único caminho para o sucesso individual. Com isso, o pensamento crítico social perde espaço, e mais grave, torna-se um fardo para que a engrenagem da exploração do trabalho prevaleça sem contestação.

No plano jurídico, vimos anteontem o supremo tribunal federal (assim mesmo, em letras minúsculas) confirmar seu aval à terceirização irrestrita, vale dizer, à precarização irrestrita do trabalho. E ontem, no aniversário de dois anos do lamentável impeachment de Dilma Rousseff, que a cada dia se imprime na história como um ato imaginado e perpetrado pelas elites políticas e econômicas em conluio com interesses forâneos - que na época convencionou-se chamar de "ponte para o futuro" - o tribunal superior eleitoral (também em minúsculas) decidiu pela impugnação da candidatura de Lula. Não há mais qualquer escrúpulo da nossa famigerada elite, originária nas classes senhoriais escravocratas e que perduram os modos e costumes, agora mantenedoras não do escravismo, mas do precariado.

Para onde quer que lancemos um olhar analítico, percebemos a degradação dos direitos. Submetida a uma ordem a se investigar sua real amplitude, as instituições que deveriam zelar pelo bom funcionamento da sociedade, tornam-se instrumentos de ampliação do controle social pelo ideário corporativo. As salvaguardas morais foram ou são paulatinamente implodidas, e o que nos resta é uma luta silenciosa e inglória contra esse monstro invisível, que leva de roldão o sentido de nação. Para completar, o cinismo combinado com desfaçatez da mídia patronal, em marcha acelerada ao ocaso, e que no desejo de salvaguardar algum poder, abre mão do papel social de informar para assumir um esdrúxulo comportamento servil, pautando a rapinagem do governo Temer.

É como se o poder econômico sufocasse em uma gigantesca câmara de gás as classes menos favorecidas da sociedade, escapando do caos produzido com seus helicópteros, sem o menor contato com o drama social. A Argentina segue seu calvário sob as mãos irresponsáveis do governo Macri, com a economia em desintegração, quase insolvente, agora praticamente entregue ao beneplácito do FMI. O sentimento entre os círculos responsáveis da sociedade é que mais dia menos dia o default se estabelecerá, em circunstâncias próximas ao que ocorreu em dezembro de 2001. Os primeiros casos de saques a supermercados começam a corroer a ordem social em seu impulso mais primitivo, a luta por alimento.

Penso na patética contribuição que as hordas dominantes pretendam com suas políticas econômicas, aversas à taxação de suas riquezas, na forma de impostos. Não significa com isso eliminar os ricos, mas fazê-los contribuir na proporção de suas posses, em uma sociedade profundamente desigual, em que os mais pobres são fortemente punidos pela restrição aos direitos e segregados em sua atávica condição de párias, condenados como diz David Graeber aos empregos de merda. No final das contas, condenados a não ter tempo para poder refletir e imaginar.  

Mas cinismo e desfaçatez parecem moedas vencidas no prosseguimento do avanço neoliberal. A sociedade de Monte Pelèrin evolui a passos largos expandindo seus think tanks e assumindo postos-chave nas instituições de poder, os agentes que implementam o liberalismo como princípio da organização social, como propõe von Mises. As empresas assumem o lobby político e o pentágono (com minúscula) a segurança militar, o que faz com que privatização, redução de impostos e eliminação do Estado do bem-estar social deixem de ser mera abstração elaborada em uma montanha para se disseminar como a única opção econômica. Esses agentes implementadores do liberalismo, seres subservientes e "motivados", não se restringem a patifes corruptíveis. Tornam-se, pelo adestramento sofisticado, em seres ideologicamente opositores à concepção do Estado do bem-estar social, que os coloca como representantes de uma nova ordem a serviço da "libertação do indivíduo". Mais que tudo, incorporam com determinação o desafio de acabar com os comunistas.

Não é difícil imaginar como esse trabalho ideológico se impõe montanha abaixo, rumo às planícies dos descamisados. Pela sedução à "livre iniciativa", pelo adestramento (retomo esse termo, aplicado ao treinamento de animais) educacional, pelos "modernos" conceitos de gestão e liderança disseminados nas empresas, pelo estímulo ao empreendedorismo individual, a prática dos usos e costumes neoliberais forma convicção quase inquebrantável no subconsciente das pessoas, que não mais encontra formas de resistir, mas a aceitar de maneira escarrada, sem peios, que "os ricos devem enriquecer, pois isso é melhor para todos".