17 julho 2017

Política nas Periferias.



Publico abaixo a parte inicial de meu mais recente estudo, com base na pesquisa da Fundação Perseu Abramo sobre a percepção política nas periferias paulistanas, publicada no início de 2017. Tomo como referencial para a pesquisa autores que me são caros sobre os aspectos socio-políticos e econômicos do Brasil, tais como Darcy Ribeiro, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Milton Santos, dentre outros. 

Também me utilizo das análises de alguns dos inúmeros artigos que vieram a lume em decorrência da pesquisa da FPA. A metodologia se complementa com a etnografia realizada junto a moradores dos bairros periféricos que trabalham ou circulam na região da avenida Paulista, e que contribuíram de modo decisivo na reflexão teórica. 

A produção deste artigo tem como objetivo sua apresentação e discussão nas XII Jornadas de Sociologia, que se realizarão na Faculdade de Ciências Sociais da UBA, Buenos Aires, entre 22 e 25 de agosto deste ano. O título: "Os descompassos de uma modernidade desigual:  a política nas periferias de São Paulo"


1. Introdução
            Em março de 2017 a Fundação Perseu Abramo divulgou a pesquisa Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo[1], que teve como principal objetivo compreender “os elementos que têm formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo”. Para tanto, partiu-se de uma hipótese inicial que abordava um primeiro momento, as novas dinâmicas socioeconômicas criadas nos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), baseadas na ampliação dos mercados de trabalho e de consumo, bem como à distribuição de renda e mobilidade social, e um segundo momento, decorrente da retração econômica em decorrência da crise do capitalismo mundial, onde as classes populares passaram “reagir informada por horizontes menos associativistas e comunitaristas e mais por diretrizes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição”.

            A questão levantada em diversos debates nas mídias e em encontros das esquerdas foi se, com a expansão dos empregos formais, mobilidade social e mais consumo, as classes populares de fato “passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado”. Se sim, como se desenvolveu esse processo? O certo é que as mídias tradicionais e as mais à direita no espectro político passaram a considerar o fracasso das políticas do PT no governo, como o caso do famigerado MBL (Movimento Brasil Livre), de orientação liberal, que em suas páginas na internet decretava que “Pesquisa do PT mostra que periferia é de direita”. Os debates mais à esquerda fizeram leituras que no geral rechaçaram essa possível compreensão de um liberalismo ideológico em gestação nas classes populares. Conforme Ivana Bentes[2], “o que estamos vendo (ao longo da pesquisa) é o declínio, como modelo subjetivo, da figura do ‘trabalhador’ do chão de fábrica, uma esquerda fordista que precisa se reinventar (...)”. As repercussões, vindas dos setores intelectuais e da academia, assumiram uma postura muitas vezes “hierárquica”, ao conceber as periferias como um objeto de observação antropológico, desconsiderando a mobilização de seus anseios, sua Weltanschaaung, a visão de mundo muitas vezes esclarecedora. Bentes, embora se coloque frontalmente contra a interpretação de uma periferia liberal em razão dos últimos pleitos eleitorais – eleições gerais em 2014 e eleições municipais em 2016 – não se furtou em dizer que “o pragmatismo popular brasileiro não cabe nas polarizações e está em disputa”, deixando no ar uma delicada sugestão de que a escolha popular não transcorre necessariamente em função de seus interesses, ainda que fragmentados, individualizados, mas a partir da disputa das “estruturas superiores”, entre os agentes e as instâncias políticas de direita e de esquerda.

            Já para o sociólogo Gabriel Feltran, da UFSCar[3], a perda de votos das esquerdas nas periferias ocorreu em decorrência do abandono das práticas políticas desenvolvidas pelas comunidades de base ligadas à igreja católica e pelos sindicatos, e pior, “quando (as esquerdas) se tornaram moralmente iguais aos demais políticos tradicionais”. Na entrevista, Feltran destaca um aspecto presente na fala de alguns entrevistados por mim, sobre a inexistência do voto ideológico, tão em relevância nos debates intelectualizados. Segundo o sociólogo, “é um voto que concebe o mundo a partir da proximidade, da relação pessoal, da confiança na ética do candidato, um voto próximo e moral”, e não há como formar interpretações morais de condenação por esse pragmatismo.
            Para alguns autores, o equívoco começa ao se considerar a distribuição de renda e a mobilidade social ocorrida nos anos Lula-Dilma como o surgimento de uma “nova classe média”. Como afirma Marilena Chauí, os programas sociais do PT não constituíram uma nova classe média no Brasil, mas a criação de uma nova classe trabalhadora, e discorre sobre a questão,
Esta nova classe trabalhadora é que absorve a ideologia da classe média: o individualismo, a competição, o sucesso a qualquer preço, o isolamento e o consumo. Sendo assim, não é que exista uma nova classe média, mas sim uma nova classe trabalhadora que é sugada pelos valores da classe média já estabelecida.[4]

                Já tínhamos neste depoimento, três anos antes da crise institucional que depôs Dilma Rousseff, uma percepção da assimilação de valores da classe média pelas classes populares, ou como a autora denomina, nova classe trabalhadora. O economista Marcio Pochman compartilha do mesmo ponto de vista, ao realizar um extenso trabalho sobre o governo Lula, e em trabalho minucioso que avalia as políticas econômicas e sociais que produziram expansão do emprego formal, redução da pobreza e consequentemente da desigualdade da renda, além de programas sociais bem-sucedidos (dentre eles, o Bolsa Família; o Luz para Todos; Minha Casa, Minha Vida etc) consignando a retomada da mobilidade social. Para Pochman, ainda que tenha havido mudanças no padrão de consumo e melhoria na distribuição de renda na base piramidal da sociedade brasileira, tal como ocorreu anteriormente nos países industrializados europeus que adotaram o padrão fordista de desenvolvimento (1950-1973, os anos dourados do capitalismo), não houve a “constituição de uma nova classe social, tampouco permite que se enquadrem os novos consumidores no segmento da classe média”. (POCHMAN, 2014, p.71)

            O sociólogo Jessé Souza vai mais longe em seu argumento questionador sobre essa hipotética ascensão de uma nova classe média. Em sua análise, o fato de um professor universitário e um trabalhador industrial qualificado auferirem renda similar não significa que estilos de vida ou hábitos de consumo semelhantes, e que também não garantiria um pertencimento de classe, e assim, haveria “muitas diferenças entre o estilo de vida da classe média estabelecida e os trabalhadores precarizados e superexplorados que estão longe de ser transpostas”[5]. No mesmo texto, observa um outro ponto importante, a zona de estratificação social intermediária, que possui uma renda entre R$ 1.000 e R$ 5.000 impediria análises mais criteriosas, “as denominações “classe C” e “nova classe média” são infelizes, posto que transmitem a impressão de que o Brasil está se tornando aquilo que não é: um país em que os remediados são a maioria e no qual a pobreza vai tornando-se um problema residual”, e conclui dizendo que essa sub-gente[6] ou na verdade, mais apropriadamente, batalhadores da periferia, como camada social é uma incógnita politicamente, e em sua luta pela autoconfiança, pelo autorrespeito, pela autoconfiança, “não são como desejam os arrivistas de direita ou os bovaristas de esquerda”.

            O importante dessa explanação é a evidência de que as camadas urbanas mais pobres da população, concentradas às margens dos bairros com mais infraestrutura de serviços, não incorporaram de maneira completa as conquistas sociais e os valores pertencentes às classes médias, como o tempo livre para os filhos como forma efetiva de acesso escolar ao conhecimento (capital cultural), propiciando com isso além da formação gradual do espírito crítico, as oportunidades em um mercado de trabalho competitivo. Tais tipos de herança imaterial da classe média não são considerados em uma sociedade cada vez mais impregnada por valores estatísticos, por uma visão economicista reproduzida principalmente pelos meios de comunicação hegemônicos, e assim “o que vai ser chamado de “mérito individual” mais tarde e legitimar todo tipo de privilégio não é um milagre que ‘cai do céu’, mas é produzido por heranças afetivas de ‘culturas de classe’ distintas, passadas de pais para filhos” (SOUZA, 2009, p.23). As classes média e alta exploram o corpo dos subcidadãos da ‘ralé’ a baixo preço, e com isso acumulam o tempo necessário para ser reinvestido em trabalho produtivo e reconhecido. Como contrapartida, o estigma do fracasso permanece atado à ralé, como signo de sua hipotética incompetência atávica, compreendida muitas vezes como preguiça ou falta de vontade de vencer, em um mercado cada vez mais competitivo.  




[2] Artigo "A Periferia não é binária", disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/a-periferia-nao-binaria/, acesso 01.07.2017.
[5] Artigo "O Brazil não conhece o Brasil", disponível em: https://fpabramo.org.br/2017/04/20/o-brazil-nao-conhece-o-brasil/, acesso 01.07.2017.
[6] Em seu livro “Ralé Brasileira – quem é e como vive”, Jessé Souza define essa camada como “uma classe inteira de indivíduos, não só sem capital cultural ou econômico em qualquer medida significativa, mas desprovida, esse é o aspecto fundamental, das precondições sociais, morais e culturais que permitem essa apropriação”. (SOUZA, 2009, p.21)



05 julho 2017

Enquanto isso

Bilbao, agosto de 1989

O drama político em nosso país, ou diria melhor, a sangria política, patrocinada por essa gangue golpista e seus asseclas, prossegue com relatos pouco animadores. Uma vez ali instalados, persistem cometendo os mais tenebrosos atos, como a entrega de nosso patrimônio aos abutres do mercado internacional. Tudo dentro de uma incrível incompetência, como a sugerir que o projeto de governo se resuma à máxima destruição da nossa civilização, tão desigual, porém com muitas conquistas acumuladas ao longo dos anos.  

Os canalhas que assumem, e sempre é bom lembrar, amparados por uma justiça omissa e uma mídia tendenciosa, produzem os estragos contratados sem o menor constrangimento. Segue desta forma o sucateamento de nossos principais setores produtivos, de nossa educação pública, a destruição acelerada de nossa Amazônia, a entrega de ativos fixos para o capital internacional, o aprofundamento da violência policial nas ocupações, a demolição dos direitos trabalhistas e previdenciários, tudo sob uma resistência popular débil, marcada por manifestações cada vez mais esquálidas da esquerda. Ou seja, uma gangue contratada que assumiu o papel de eliminar nossa delicada autonomia como nação, edificada em 13 anos sob o Estado do bem-estar social.

As patéticas vozes da classe-média, que fizeram coro para a derrubada de um governo constitucional, agora se escondem acovardadas, como se nada lhes dissesse respeito. Nenhuma surpresa, dessa classe nada se pode esperar de alentador. Como disse o prof. Milton Santos, "se a realização da história, a partir dos vetores de cima é ainda dominante, a realização de uma outra história a partir dos vetores de baixo é tornada possível". Resta saber como se dará a retomada do pleno estado de direito – e o consequente banimento da política desses canalhas a serviço de interesses escusos. A luta continua, nunca esta frase teve tanta significação simbólica.


26 junho 2017

Cidadão Ranulfo

La manos de la protesta,  Oswaldo Guayasamin

Acabo de desligar o gravador, Ranulfo me diz "essa entrevista pode ajudar a você, mas a mim não vai fazer diferença", assim mesmo, sem rodeios. Durante os pouco mais de dez minutos manteve uma postura altiva, sem se intimidar. Sua fala é firme, escorreita, ainda que me desafie enquanto entrevistador, parece gostar da oportunidade de falar, ou pelo menos de ter uma chance de expor seu argumento crítico, como se ele o tivesse desenvolvido aos bocados, ao longo dos 64 anos de vida. 

A memória dos fatos é incisiva, "cheguei aqui há 47 anos, mas não foi debaixo de uma carroça", e quando pergunto se voltou para Salvador, "cheguei aqui em maio de 1970 e voltei lá em outubro de 1994, uma vez só". Ainda que rigoroso na descrição de sua apreensão do mundo, não relaciona sua condição de morador de rua com a atávica ausência de políticas públicas. Acompanha as notícias do mundo pelo rádio, pela TV, não sente falta de um aparelho para navegar na internet, mas ainda quer ter um celular para entrar em contato com as pessoas. Eu me pergunto, quais pessoas? De todo modo, quando o encontrei, estava em papo aberto e reto com outro "carroceiro", em uma esquina do Paraíso.

Ranulfo é o segundo sem-teto que entrevisto e como o primeiro, fez questão de mostrar seus documentos, deixando a impressão de que é constantemente abordado pela polícia. Pergunto se a lei costuma incomodá-lo, não compreende, preciso explicar melhor o que quero dizer. E me responde com um exemplo, "ali em frente daquele prédio que tem a mulher (que se indispõe com ele, foi a primeira coisa que me contou quando me aproximei) a prefeitura me pagou 100 conto para ajudar a mudar de lugar uma placa que estava no lugar errado, à noite a polícia encostou desconfiada que eu estava roubando e deixei que o pessoal esclarecesse os policiais. No meio da confusão, falei pra eles resolverem enquanto eu ia tomar meu conhaque".

Fumava um cigarro atrás do outro, não por nervosismo. Eu fazia as vezes da mídia, segundo suas palavras, por isso não sentia inconveniente em falar, mas por certo alguma ansiedade, o que explica seu início com respostas enfáticas quase agressivas. Eu entendia que a calibragem do tom viria com a conversa, e mesmo dizendo-lhe mais de uma vez a razão da entrevista, Ranulfo não se sentiu satisfeito. Sua solidão perene em meio à multidão indiferente criara uma crosta de proteção, que servia igualmente de distanciamento.

Ranulfo se informa pela mídia dominante, TV e rádio, e faz questão de se informar sobre política. É forte sua decepção, mas coloca-se a disposição para falar do tema, “nunca votei no PT, quando vi meu candidato (Maluf) estampado junto com a Marta ali no outdoor, eu falei ‘mas nunca você ganha o meu voto’ e não votei mais”. Tento explorar essa posição, ele não facilita e expõe um arrazoado com sua firme dicção, ainda que confuso, "direito adquirido não se mexe", questionando as mudanças projetadas pelo governo golpista, "agora aos 65 eles querem mais 15 anos de contribuição (...) então vou ter de morrer ali debaixo", apontando para a carroça. Comento que lhe darei um livro de Che Guevara, ele ensaia em espanhol "el comandante Che" e pede que deixe "naquela portinha, com a pessoa que estiver lá que depois eu pego" e se afasta, sem se despedir. Nossa entrevista terminou como começou, sem qualquer formalidade. 

Como escreveu belamente João do Rio, "Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as ideias de cada bairro?". A rua tem alma e não há porque se admirar em ver os homens nelas dormir como se em casa estivessem, pois conforme João do Rio, "somos reflexos". Já não há mais lugar para o suave estranhamento da admiração, mas de se compreender a miserabilidade que elegemos como invisível. Não há como apreender a alma das ruas sem vivê-las intensamente.


23 junho 2017

Mano Browm, há um ano

  Mano Brown sobre os atores golpistas e seus atos

A impressionante lucidez social e política de Mano Brown, comentando, há um ano, sobre a desqualificação moral do governo golpista vigente, antecipando ao mesmo tempo as pautas hoje presentes seja nos debates de círculos intelectuais como nas passeatas de rua hoje em dia pelo Brasil, ou seja, eleições diretas, a ignorância política, o discurso tendencioso dos meios de comunicação, em destaque o do ainda influente conglomerado Globo. 

No momento da entrevista estávamos antes das eleições de novembro, cujos resultados completariam o cataclisma liberal-conservador que aprofundam as diferenças sociais, o autoritarismo das decisões políticas e o contínuo desinvestimento na educação e cultura. Mano Brown aponta com clareza que, antes das periferias tornarem-se "liberais" e deixarem de votar na esquerda como sugere certo discurso intelectual, ela foi abandonada a sua própria sorte.


14 junho 2017

Sobre artigos e pesquisas




Entre o final de abril e o final de maio, tive a grande satisfação de ver publicados dois textos que me deram muito prazer em escrever. O primeiro, como ensaio na edição 11 da revista Lumina, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), sob o título O Imaginário Latino-americano: memórias devoradas que se recriam, artigo que já havia sido apresentado no Congresso de Comunicação (Comunicon) do PPGCOM-ESPM, no longínquo 2012. Foi parcialmente revisado e ampliado em 2015 e esperou quase dois anos até ser aceito e publicado.

O outro artigo, As Periferias Digitais, mobilização para além da resistência, trata de meu objeto de pesquisa mais recente, envolvendo a digitalização das periferias como forma de ação cultural e política. Ele abre a sessão de Artigos Nacionais na edição 22 da revista Comunicação & Educação, do Departamento de Comunicação e Artes da ECA/USP. O texto igualmente havia sido apresentado anteriormente, neste caso no Seminário de Sociologia da FESPSP, 'Cidades conectadas: os desafios sociais na era das redes', em setembro de 2016, fazendo parte dos anais do evento.

Enfim, convido os leitores a apreciarem estes textos cujas temáticas, as periferias de São Paulo e o processo de formação sócio-político-econômico da América Latina, têm me mobilizado nos estudos acadêmicos. Podem ser encontrados nos links abaixo:

O Imaginário Latino-americano: memórias devoradas que se recriam
https://lumina.ufjf.emnuvens.com.br/lumina/article/view/466

As Periferias Digitais, mobilização para além da resistência
http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/123209



30 maio 2017

O fragor silencioso de cada dia

La noche de los pobres, Diego Rivera

O que sei é que não temos a menor ideia do que acontece por aí, no entorno da nossa realidade social. Sei também que estava ultimando algumas anotações referentes ao curso, no final da noite. Foi quando C. adentrou a sala de aula com seu jeito informal, pedi para que se sentasse e começamos uma conversa tímida, que de algum modo envolvia nossas aulas no semestre, mas ia além, passou a descrever outras impressões, mais pessoais, com muito cuidado com a narrativa, principalmente ao envolver outras pessoas. Antecipei-me em meu primeiro comentário, dizendo-lhe da virtude daquele comportamento respeitoso, C. concordou olhando para um ponto no chão e enquanto durou sua fala, encarou-me fortuitamente, aproveitando minhas poucas intervenções. Logo de início percebi que minha função ali seria ouvir, apenas ouvir a fala que também era um desabafo sereno, já que seu tom nunca ultrapassou os limites ponderados de uma arguição amistosa. Também percebi que se fizesse comentários, deveriam estimular a fala-prospecção, deveriam apoiar a fala-testemunho, deveriam cingir-se a gestos na fala-reconhecimento. 

Foi quando me descreveu o pai militar, com seus movimentos bruscos, da imposição de vídeos do quartel onde se pregava medalhas direto na pele à surra homérica pela descoberta da homossexualidade do filho. O parceiro expulso de casa, os dois anos sem palavra com o pai, que a retoma dizendo que para reconhecer o filho, só quando C. merecesse, ou seja, ficasse rico. Nenhuma palavra de revolta escapa em sua narrativa, mas a profunda vontade de compreender ou de perdoar, ou talvez as duas coisas, pois no final das contas, sentia-se bem em descobrir sua liberdade, e essa liberdade prescindia do pai - e da mãe, mulher negra, que ausente desde o primeiro momento de sua vida, voltava de quando em quando, arrependida pelo abandono. Não me disse do espaço do seu lar, mas passei a imaginá-lo em sua tacanhez nas dimensões e nas horas compartilhadas. A irmã, sim, havia a irmã, de início não concordava com nada, de princípio não era boa interlocutora, mas desde que entrou na faculdade de letras, rompendo com o desejo do pai para que fizesse direito, coincidiam mais nas ideias, ainda que em certas conversas insistisse para que C. procurasse o pastor. A avó, bem, ela não entendia muitas das suas coisas, mas oferecia a ternura de toda avó. C. não morava perto dos seus prazeres ou das suas obrigações, precisava tomar metrô, trem e ônibus, e mentalmente imaginei as agruras dos deslocamentos, cumpridas com disposição ou sujeição. 

A faculdade tornava-se o manancial de sua liberdade. E que o modelo desse esforço bem-sucedido era o pai, o mesmo pai intolerante, pois ele era analfabeto até os 20 anos e venceu com muito esforço, primeiro vendendo balas nos trens, ato moralmente condenável pois é prática proibida pelas autoridades, mas que permitiu os recursos para mantê-los, ele e C., então como condenar, quem sou eu para condenar, dizia-me com o mesmo olhar baixo, sem dor ou compaixão, mas apenas a necessidade de dizer o relato, esse relato barroco, generoso, bem de acordo com as falas de nosso povo. A liberdade conquistada seguiu o caminho da vitória do pai, e a ultrapassou pois agora estuda com bolsa, ainda é aprendiz, mas acredita que este ano haverá de ser efetivado, e assumiu sua sexualidade. Ela veio com as primeiras baladas, no final do ano passado, quando conheceu gente diferente, que o ensinou muitas coisas, e em seguida, a faculdade, o aprendizado das aulas, novos conhecimentos, a ruptura para novas descobertas. Para C., uma surpresa tudo isso, pois imaginava que o mundo se resumisse ao espaço de sua casa, a companhia de seu pai e de sua irmã, e de vez em quando de sua avó.


14 maio 2017

Morrer e viver sob o neoliberalismo

Simbólico desse governo golpista: a imagem do ritual fúnebre


Não se vislumbra qualquer saída política por parte das hostes que empreenderam o golpe empresarial-midiático-judiciário de 2016, e a não ser que disponham na manga de seus paletós soturnos um plano alternativo, ou como diria o Leão da Montanha, uma saída pela esquerda, darão com os seus burros na água, muito antes do próprio sistema concorrencial em que apoiam suas medidas econômicas, o neoliberalismo. Este, tal como ocorreu com o laissez-faire há cem anos, declinará por sua incapacidade de uma leitura social apropriada, e consequentemente, pela inaplicabilidade de seus fundamentos em privilegiar a "vitória dos mais aptos" em um período de profunda crise econômica. 

Não está no horizonte dos eventos a retomada do comunismo, mas as tensões sociais serão levadas ao limite, de tal modo que essa espécie de retomada do utilitarismo a la Spencer é uma crônica anunciada do esgotamento de uma política sem projeto econômico. O que se anuncia, porém, são anos de dura e contínua luta, que irão por fim demarcar até para os neoliberais mais ufanistas, a impossibilidade desse capitalismo devotado à subjetivização contábil e financeira. No mínimo, o retorno de uma nova fórmula keynesiana, a retomada de um Estado atuante como regulador e redistribuidor, a necessária solidariedade ante a razzia da racionalidade neoliberal.

(modificado em 20.05.2017)


01 maio 2017

Ressonâncias da Greve Geral

Detalhe de Cangaceiro (1958), Cândido Portinari


Uma bonita manhã de sol neste Primeiro de Maio, friazinha e aconchegante como costuma ser as manhãs de outono. Escrevo em uma pequena boulangerie na esquina de casa. Aqui não acertam nunca o volume do som ambiente, uma desnecessidade dessas casas que atraem pelas características de abrigo e tolerância. A música em volume desproporcional incomoda e afugenta, e por vezes já pensei ser uma técnica desse pós-capitalismo mambembe, que pensa grandes coisas para fazer dinheiro, mas se equivoca nas mais simples e por isso segue fracassando em suas miúdas transformações.

Nada mais apropriado pensar no capitalismo que se instala de maneira insultuosa, o que não significa de maneira vigorosa, em especial no Brasil. Aqui, seguem os desmontes sociais e trabalhistas conduzido por uma camarilha de velhos incompetentes e corruptos até a medula, que a cada passo demonstram serem títeres de forças mais poderosas, que se acobertam nas sombras, sejam elas midiáticas, do poder judiciário ou do capital financeiro, não importa, em algum lugar ou momento se encontram para a articulação contra a sociedade civil.

Saímos na sexta-feira de uma Greve Geral exitosa, que paralisou fortemente os serviços, cuja narrativa foi construída tanto pela mídia corporativa e patronal, de acordo com interesses políticos em conjunção com o empresariado e com a casta golpista do congresso que votará as mudanças na legislação; como também pelas chamadas mídias digitais, que se desdobraram para relatar os acontecimentos em tempo real, com muitas imagens e reflexão crítica.

Neste último caso, o que ocorre é que as postagens de sites independentes de jornalismo, como Jornalistas Livres e Mídia Ninja, se apoiam na transmissão em tempo real, em fotos e vídeos, mas com pouco texto crítico, ao contrário das corporações, que não cansam de “contextualizar” os fatos de acordo com seus interesses. O que ocorre é que uma legião de simpatizantes dissemina as postagens provocando uma enxurrada de imagens nas redes, picadas isoladas de um formidável enxame.

O impacto emocional persiste ao lado das mídias corporativas, especialmente rádio e TV, que ainda dispõem de capital cultural suficiente para fazer prevalecer suas estratégias políticas. As grandes transformações comunicacionais dos últimos anos não contagiaram os fiéis ouvintes e espectadores, que por conforto intelectual, prosseguem ligados a essa poderosa narrativa, talvez acreditando que elas não poderiam estar “do lado errado”.

Com o desvirtuamento crasso do relato dos acontecimentos ocorridos nesta Grande Greve Geral, mais o apoio descarado às alterações trabalhistas a favor de uma elite endinheirada, é de se acreditar que a confiança nesse tipo de narrativa sofra inevitáveis desgastes, pois não é possível construir uma ficção que prevaleça sobre a dura realidade. Será a persistência dessas pequenas, porém contínuas picadas, a contraposição narrativa fundamental para questionar a mentira, a farsa comunicacional.

Já não estou mais entre os que acreditam no fim dessa mídia corporativa, até porque agora ela se redesenha camaleonicamente e se posiciona como um sistema de divulgação dos interesses do Capital, formatando-se como um componente precioso para a disseminação desse discurso. A nova roupagem aprofunda a desfaçatez, própria desse neoliberalismo ainda mais brutal que o de vinte anos atrás. É a constituição de um poder não eleito – financeiro, judicial e midiático – que passa a controlar o poder eleito – legislativo e executivo – à custa do povo. Será preciso ver até onde isso vai e como acaba.




27 abril 2017

A árvore de Gernika

Imagem do filme A Árvore de Gernika, de Fernando Arrabal


Eram quatro e meia da tarde, os camponeses chegavam com suas carroças para a feira a céu aberto, quando a chegada do primeiro Heinkel 111 alemão foi anunciada pelos sinos da igreja. Logo em seguida outro Heinkel apareceu para despejar suas bombas de 22,5 quilos. Quando as pessoas deixavam os abrigos, quinze minutos depois, um troar de Junkers 52 foi ouvido a leste, cerca de 50 deles, que lançaram bombas de 22,5 e 45 quilos, além dos bastões de termita para potencializar o incêndio, o fogo de Prometeu. Foram ondas sucessivas de ataques, a cada vinte minutos, que impedia o deslocamento dos habitantes para fora da cidade. Quando não eram as bombas, era a metralha dos caças que varria indistintamente o que se movesse pelas ruas. Às 7h45, depois de três horas, o último avião nazista desapareceu no horizonte, deixando apenas o "crepitar nervoso da conflagração criminosa em toda a cidade". Gernika havia acabado.

Casa das Juntas, Gernika, 1989 (foto: autor)


Sem dúvida o filme de Fernando Arrabal, A Árvore de Guernica, visto no início dos anos 1980, acabou por me conduzir à pequena cidade basca, em agosto de 1989. Sua narrativa alegórica e marcada pela luta republicana na Guerra Civil me comoveu de modo definitivo. Uma das sequências inesquecíveis é a encenação de uma corrida de touros pelos falangistas, depois da tomada da fictícia Villa Romero, assistida por representantes da burguesia e pelo clero local. Carrinhos de mão são conduzidos com anões amarrados, condenados a morrer na arena por um franquista que faz as vezes de toureiro. Sob o silêncio completo, interrompidos pelos aplausos forçados da claque burguesa, o 'toureiro' completa sua performance ao projetar a espada no peito do anão. Por fim, um plano geral de uma enorme bandeira espanhola estendida na arena, acolhendo os vários anões assassinados na sessão, sob o hino espanhol.  

Fac-símile da capa A Árvore de Gernika


Poucos dias mais tarde, em visita ao Prado, em Madri, detive-me longamente diante do quadro de Pablo Picasso, Guernica, inspirado pelo texto do jornalista George L. Steer que relatou de modo contundente o antes, o durante e o depois da tragédia basca. A propósito, que maravilhosa cobertura jornalística desse cidadão inglês, que não poupou esforços pessoais para transformar sua presença no território basco sitiado em contundente testemunho da brutalidade franquista. Leio-o aos bocados, os capítulos se sucedem fora da ordem cronológica, que me relatam o isolamento e a fome em Bilbao, os brutais ataques aéreos alemães, a mentira dos informes oficiais franquistas e a contrapartida, o esforço por uma cobertura mais equânime dos jornalistas estrangeiros, dentre eles, Steer. No Prado, distante da aura marcante da cultura basca, apreciei os diversos esboços da obra de Picasso, então expostos no corredor que conduzia ao grande salão em que repousava o quadro final.

No momento em que escrevia o primeiro parágrafo deste texto, cumpria-se exatamente oitenta anos do ataque realizado por um misto de aviões alemães e italianos. Realizado entre as 16h30 e as 19h45 do dia 26 de abril de 1937, o bombardeio ceifou a vida de três centenas de pessoas, de uma população aproximada de 6.000 habitantes, acrescida por cerca de 3.000 camponeses que participavam da feira a céu aberto. Dois dias mais tarde, segundo a descrição de Steer, "o governo de Salamanca foi claramente desonesto" ao passar para a opinião pública que a destruição de Gernika fora obra dos Vermelhos. A má-fé das versões fascistas - haveria mais de uma em um breve lapso de dias - foram encampadas por parte da imprensa estrangeira, havendo o caso de um correspondente francês que, quando da queda da cidade, "acabou liberado (pelos franquistas) e escreveu artigos favoráveis ao generalíssimo". 


Gernika após o ataque aéreo franquista, em 26.04.1937


Para mim, as impressões que obtenho com a leitura ainda não finalizada de A Árvore de Gernika, de George Steer, são de um qualificado registro jornalístico, sob as condições mais duras, onde se destaca uma elegância sensível no estilo narrativo, que nos posiciona com clareza diante dos fatos descritos. Particularmente gosto de sua isenção comprometida, simpática aos bascos, mas sem ser "incapaz de detectar suas deficiências". E aprecio sua declaração espontânea ao bom jornalismo, que escreve como que num impulso, ao final do capítulo 16, cansado pelas farsas publicadas em relação ao suposto bloqueio de Bilbao pela marinha franquista, que na ocasião quase sacrifica a causa basca: 

“Um jornalista não é mero fornecedor de notícias, sejam sensacionais ou controversas, bem ou mal escritas, ou apenas engraçadas. Ele é um historiador dos eventos cotidianos, e tem um dever para com o público. Se lhe impedem o acesso a esse público, cabe a ele recorrer a outros métodos; pois, como historiador em ponto menor, ele pertence à mais honrada profissão do mundo, precisa estar tomado do apego mais passional e crítico pela verdade, e por isso o jornalista deve, com o enorme poder que detém, cuidar para que prevaleça a verdade”.
   
Penso que esta declaração sirva perfeitamente aos propósitos atuais de como deve atuar um verdadeiro jornalista.


11 abril 2017

Jorge Teillier



Para falar com os mortos
(Jorge Teillier)


Para falar com os mortos
há que escolher palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam a pelagem de seus cães na escuridade.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na taça
ou as cadeiras ordenadas pela mãe
depois que se foram os convidados.
Palavras que a noite acolha
como os pântanos aos fogos fátuos

Para falar com os mortos
há que saber esperar:
eles são temerosos
como os primeiros passos de uma criança
porém se tivermos paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho partido
com uma chama de súbito reanimada na lareira
com um regresso velado de pássaros
frente ao olhar de uma mulher
que aguarda imóvel em um umbral.

(Extraído e traduzido de Jorge Teillier: Poemas Secretos. In: Anales de la Universidad de Chile, julio-septiembre de 1965). 


29 março 2017

As sequelas escravocratas

Eduardo, OsGêmeos e Dick Tracy nos baixios da praça Roosevelt

Nesta semana discutimos em sala de aula o capítulo As Raças e os Mitos do livro de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, que sempre contribui para compreendermos mais a formação social e política de nosso país. Em especial, são abordados dois pensadores conservadores do início do século XX, Nina Rodrigues e Oliveira Viana, fortemente influenciados pelo que se denominava então de evolucionismo social, com um olhar pessimista para a nossa miscigenação.

O olhar racista de Nina Rodrigues para nossa sociedade analisava o negro como raça inferior, e dessa forma, a herança de nosso mestiçamento marcada pelo "pelo equilíbrio mental instável que acarreta", inferindo-se, conforme Moreira Leite, que o brasileiro seria um desequilibrado. De Oliveira Viana, a descrição social pouco ou nada tem de científico, onde enaltece os sentimentos de uma aristocracia rural do início de nossa colonização, "não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura".

Moreira Leite desmonta passo a passo a construção dessa hipotética visão idílica de nossa sociedade; a esse respeito, vale a pena consultar as páginas de Tinhorão Ramos sobre o cotidiano tedioso e modorrento de nosso momento, mais animado nos espaços onde a festa e o batuque de negros escravos, quando permitida, se fazia presente. A aristocracia rural, para Oliveira Viana, constituía o "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade", por certo aqui influenciado pelos ventos do fascismo europeu que sopravam vigorosos nos anos 1930. 

A discussão em aula torna-se muito oportuna pois assim identificamos de algum modo a linhagem do pensamento conservador, machista e ainda com fortes elementos escravocratas de nossa elite econômica, que promoveu o golpe institucional para assumir as rédeas políticas, ao modelo da Velha República, para não dizer do Segundo Império. Nina Rodrigues e Oliveira Viana são apenas alguns dos representantes desse pensamento arcaico, que como Euclides da Cunha, Silvio Romeiro e tantos outros intelectuais formadores de opinião, escoravam-se nas teses do embranquecimento como o caminho para a virtude moral e o desenvolvimento da nação.  

As marcas desse pensamento derivadas da superioridade biológica persistem nos dias presentes, em manifestações regulares pelas redes sociais, reproduzidas por quem apenas se inspira em reproduzir e causar impactos, sem mensurar os efeitos, como também por esse universo medíocre de pseudo-intelectuais que se arvoram em buscar ideias às suas palavras. No extremo desse conduto de presunções, a bancada ruralista do congresso não se cansa de revelar pequenos Oliveiras Vianas.

Ao fim e ao cabo, a imensa e complexa realidade do povo brasileiro, mestiço, pobre e trabalhador, descartado como gênese e fundamento do nosso processo histórico e social. Para a construção de pontos de vista mais abrangentes é que estão aí os coletivos e os movimentos sociais, e a eles não resta alternativa senão lutarem renhidamente, pois nenhuma contemplação terá desses das classes dominantes. E felizmente sucedem-se os interpretes intelectuais adictos à análise crítica de nossa sociedade, Caio Prado Jr., Moreira Leite, Gilberto Freyre, Milton Santos, Florestan Fernandes, Jessé Souza, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manoel Bomfim e tantos outros, com os quais alimento-me e ofereço aos educandos. 

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Com regularidade bissexta tenho trabalhado com um texto muito oportuno, de Robert Pechmann, que discute o controle dos "vadios", os negros escravizados, em sua circulação pelo espaço urbano. A designação da vagabundagem, prevista como crime no Código Penal da colônia e do império, de algum modo ilustra a discussão acima, e incide diretamente em uma parcela sem direitos e arbitrariamente submetida da nossa sociedade. Destaco um trecho do texto de Pechmann, ligando-o ao vídeo Enquadro, um relato atual da realidade de nossas periferias urbanas.


Enquadro, reportagem de José Cícero da Silva, 2017
    
"Soltos no mundo, obrigados a perambular pela cidade à procura de sobrevivência, os 'vadios' são identificados na sua viração como desordeiros. Ninguém lhes perdoa a fluidez, mormente numa cidade escravista, cujo equilíbrio era conseguido, em grande parte, pela vigilância dos passos dos escravos. (...) Tidos como incapazes de educação e de princípios, os 'vadios' são vistos como tendo outra humanidade, representantes que são da 'anti-sociedade'."

(Robert Pechmann, Cidades estreitamente vigiadas, 2002).



20 março 2017

Um pouco mais com Cortázar




Sequências


"Deixou de ler o relato no ponto onde um personagem deixava de ler o relato no lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo e chegava ao lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo".

(Julio Cortázar, Papeles Inesperados, Bs.As., Alfaguara, 2009)




16 março 2017

Dia Nacional de Paralisação e Mobilização

video
por volta das 19h,  milhares reunidos


Ontem, provavelmente a mais grandiosa manifestação contra o desgoverno golpista de Temer. Pudemos sentir na pele a concentração espetacular, vinda de todos os lados da cidade, articulada por diversos sindicatos e movimentos, em nossos deslocamentos ao longo da avenida Paulista. Ao contrário de tantas outras em que participamos, a aglomeração de manifestantes começou antes das 16 horas, horário programado, e prolongou-se bem depois da fala de Lula, que ocorreu quando já passavam das 19 horas; a desmobilização do ponto de encontro, diante do Masp, foi lenta e dificultosa para os dois lados da avenida, lembrando-me o público dos grandes clássicos no Morumbi, nos anos 1970, quando se ultrapassava facilmente o público de 100 mil pessoas. 


a chegada dos manifestantes, vindos da praça da República

Desta vez, diferente das manifestações anteriores, contribuiu muito a enorme concentração dos professores na República, no início da tarde, e que se deslocaria para a Paulista. Repentinamente, um mar de gente representando diversos coletivos e movimentos pela educação transbordavam feito a água que agora chega ao agreste nordestino, pela transposição do São Francisco, gente de todas as cores, de todos os gestos, chegando para ficar. 


presença das  professoras  aguerridas, sem perder a ternura

Se havia pela manhã a expectativa de paralisação dos serviços de transporte, à tarde ela se verificou parcial, permitindo que a mobilização para o encontro ocorresse sem problemas. Ao contrário das vezes anteriores, não concorreu um clima pesado pela presença ostensiva da polícia militar; desta feita, ela mal foi percebida em alguns cantos da avenida, e mesmo  seus helicópteros não surgiram com seus rasantes, para incomodar a massa.


quando possível, o esboço do gesto socialista

Contribuiu para o sucesso do evento a presença de dois enormes carros de som, um da Frente Brasil Popular, atravessado entre o Masp e o Trianon,  e o que veio da República, da Apeoesp, que chegou literalmente estremecendo a avenida com o cântico Fora Temer na versão Carmina Burana. Espetacular e poderoso, que arregimentava com emoção as pessoas que iam caminhando.  O tempo ajudou, se não fez sol, também não choveu, e se não estava quente e abafado, também não esfriou, pudemos avançar em meio a encontros com amigos; às nossas avaliações sobre o espectro político; ao registro contínuo em fotos e vídeos do crescimento da mobilização.


presença de centrais sindicais, mas não só

O tempo passou e a avenida se coloriu em tons vermelhos, com muitos balões indicando os partidos, centrais e sindicatos presentes. Nenhuma presença da mídia corporativa, o que não causou surpresa, ao contrário, reforçou a certeza de que nossa luta não se limita à preservação dos direitos trabalhistas, ou ao enfrentamento do posicionamento neoliberal privatista desse desgoverno, mas a uma pauta indispensável, a democratização dos meios de comunicação, que assumiram  às caladas, ao longo desse interminável processo golpista, uma postura de apoio inequívoco às ações de Temer e seus lacaios (permito-me recuperar este termo).


um mar de gente, a perder de vista

Até porque é fato que os lacaios de Temer se reuniram de modo conspirativo para vencerem as eleições de 2014, tanto na esfera majoritária (governo), quanto na esfera legislativa (congresso), o que explica ao menos parcialmente a força e a amplitude do movimento golpista. Os políticos misóginos de Brasília articularam-se com o dinheiro da Fiesp e com a boutade das mídias patronais para  o assalto ao poder. Uma vez lá instalados, não dão respostas às demanda social que não seja continuidade das praticadas no governo Lula e Dilma, e o que é pior, vendem a preço de banana nosso patrimônio, ameaçando com essa reforma trabalhista estapafúrdia.


um  Lula mais  incisivo  e direto

Lula demorou, mas chegou e falou, curto e grosso. Acaba tendo uma importante representação na luta, nesse enfrentamento desigual contra todas essas instâncias dominantes que esmagam nossos direitos. Pode parecer contraditório, mas delegamos nossa esperança a um homem que acertou em muitos atos, mas também errou em tantos outros, dentre eles, não ter mantido a proximidade com o movimento sindical, não ter realizado profundamente as reformas necessárias, como a agrária e a dos meios de comunicação. Aliou-se a grupos da casa grande, na esperança de uma governabilidade sem turbulências, e quando a conta veio, ela foi brutal, e todos estamos pagando. A Síria também é aqui, não aquela da demolição das estruturas físicas e morais, mas a da demolição do estado social. Lula tem essa força de galvanizar mobilizações e esperanças; de outra parte, nas palavras de Antonio Cândido, ele teria a estatura de um radical, aquele que propõe transformações sem deixar de contemporizar. Talvez, e apenas um talvez, será oportuno que retome neste seu final de vida a grandeza da ousadia de seus primeiros dias, e que possa contribuir para a consolidação de uma esquerda verdadeiramente unida e mobilizada.