12 outubro 2026

Momento supremo



 

Há um esforço tremendo por parte de metade do país para que da outra metade do país se consiga os votos necessários para a vitória eleitoral. O problema aqui é compreender como essa outra metade opta de maneira renitente por jogar fora os minguados direitos sociais ainda existentes, ao abraçar a candidatura de um senador que nada fez e nada faz para que pudesse ser escolhido. Maneira renitente significa, do meu ponto de vista, aferrar-se a um discurso criado do nada, que propõe vagamente a mudança, a liberdade, corte nos gastos e o escambau. Em outras palavras, estamos no risco de seguir o caminho falimentar de Milei na Argentina, onde depois do discurso encantador das sereias prometendo crescimento, fim da inflação, oferece desemprego, empresas que fecham as portas (mais de 30.000 em três anos), empobrecimento e endividamento familiar.

Ontem, a magnífica mobilização popular em São Paulo preencheu mais de dez quadras com velhos, adultos, crianças, representando clubes de futebo, universidades, grupos religiosos, étnicos, de gênero, fandons de redes sociais e até conservadores, mais ligados a políticos do centro-direita. Milhares de pessoas que se comprimiram para ver Lula e dar uma resposta ao chamamento a atuarem por Lula no dia a dia, seja nas ruas, seja nas redes sociais. O embate corpo a corpo, trazer pessoas que não votaram no primeiro turno ou que anularam o voto; pessoas indecisas mesmo tendo votado no adversário possam refletir sobre as diferenças brutais de propostas. 

Há um notório crescimento no engajamento digital da esquerda, creio que este tem sido o grande ganho desta eleição. Já não perdemos para o patético rame-rame das notícias falsas propagada maciçamente pelos boots da direita. Não se luta apenas contra os ditames do poder financeiro, mas igualmente contra os algorítmos das big techs e sua censura velada, ao limitar o alcance das postagens pró-Lula. Avançamos: encontramos força, temos proposta e construimos mobilização. Agora é ver se nestas duas semanas conseguimos virar o placar e vencer com Lula.



A razão de um voto


Av. Paulista, 11.10.2026

En la primavera el ánade selvaje 
vuelve a su tierra para las nupcias.
Nada ni nadie podrá detenerlo 
Si le cortan las alas irá a nado
Si le cortan las patas se impulsará con el pico
como un remo en la corriente
ese viaje es su razón de ser

(por Fernando Fernán Gómez, (maestro Don Gregorio), em La lengua de las mariposas)



23 setembro 2026

John Coltrane


John Coltrane (1926-1967)


Em uma data como a de hoje, há cem anos, nascia John Coltrane. Tive a felicidade de ter contato com sua música a partir de diversos álbuns, coisas maravilhosas que aos poucos fui coletando, Soultrane, My Favorite Sings, cuja faixa-título cantarolo neste momento, Blue Train, o formidável Impressions, o hipnótico A Love Supreme, o mágico e grandioso Cosmos. 

A cada viagem para o exterior, trazia um álbum. Foi nos anos 1990 sem dúvida minha aproximação definitiva, e lembro que uma imagem sua catapultou meu interesse, uma foto maravilhosa de seu perfil, sério, capturado sem que se dessem conta. Era um pôster que aparecia incidentalmente, no filme de Spike Lee, Mo' Better Blues, com Denzel Washington e Wesley Snipes, a melhor atuação de ambos em um filme de cinema. 

Quantas vezes terei reproduzido o seu CD duplo de Cosmos, a todo o volume na Augusta, sentado em minha poltrona, tomando um copo de uísque, entregue ao vento fresco da madrugada?... Alguém teria me dito (ou teria lido em alguma matéria jornalística) que ouvir Coltrane era uma fantástica experiência metafísica, podendo-se ouvir o som das esferas. Não é apenas isso, trata-se de um experimento muito pessoal, indizível. Ainda assim, como é maravilhoso deleitar-me em cada oportunidade disco, em cada música, sem esperar nada a não ser a profunda satisfação do momento.



15 setembro 2026

Patricio Guzmán


Patricio Guzmán Lozanes (1941-2026)

 

Há mais ou menos 25 anos, retirei um vídeo triplo em uma locadora famosa aqui em São Paulo, exposto como novidade recém-chegada. O nome, A Batalha do Chile, dirigido por um diretor que então desconhecia, Patricio Guzmán. Fiquei maravilhado, e revi diversas vezes. Tal foi minha admiração, que sugeri para que o departamento de Comunicação da FAAP, onde eu ministrava aulas de Comunicação Comunitária, adquirisse o vídeo, o que acabou ocorrendo. Tornei-me um divulgador entusiasta do filme, e a cada vez que o assistia, ficava fascinado não só com a direção de Guzmán, como com a fotografia de Jorge Müller Silva, que seria sequestrado e desaparecido pouco depois. 

Tudo no filme impressiona: a decisão em filmar os anos do governo da Unidade Popular nos diversos setores sociais; o consistente roteiro que avançava "às cegas" captando todos os movimentos políticos; e como disse, a beleza e a mão firme da fotografia de Müller Silva, não tendo pressa para registrar cada momento, cada circunstância, absorvendo a força e a fraqueza do governo Allende. Sucedem-se as entrevistas nos sindicatos, mas também dos grupos adversários; as comemorações da vitória de Allende nas ruas, mas também a zanga de uma classe média pouco disposta a suportar a política socialista que se implantava; o drama das votações no parlamento e também a presença cada vez mais forte dos militares, como na célebre sequência (a qual descrevi neste blog) do sepultamento de Arturo Araya Peters, o edecan de Salvador Allende. 

Patricio faleceu hoje, aos 85 anos. teve uma carreira bem-sucedida no cinema, com filmes como Nostalgia da Luz e El botón de Nacar. Sobreviveu à brutalidade do período Pinochet e assistiu o Chile a retomar o processo democrático. Por toda a intensidade que vivi ao assistir seu cinema, sinto uma dolorosa pontada no peito, um profundo lamento pela perda, e mesmo a consciência de seu poderoso punhetazo na cara da ditadura de Pinochet, embora tão espetacular a cada vez que o recordo, não será suficiente para cobrir sua ausência definitiva. 



10 setembro 2026

Sobre a velhice


Fragmento de Dos viejos, de Goya


Diante da imagem que os velhos propõem sobre o futuro, somos incrédulos. Uma voz nos murmura absurdamente que não nos ocorrerá; antes de mais nada a velhice é algo que diz respeito somente aos outros. Assim se pode compreender como a sociedade consegue dissuadir que vejamos os velhos como nossos semelhantes. Não nos enganemos: no futuro que nos aguarda este será o modo e o sentido de nossas vidas. Não sabemos quem somos se ignoramos o que seremos. Recordemo-nos neste velho, nesta velha, assim tem de ser se quisermos assumir em sua totalidade a nossa condição humana.

Simone de Beauvoir, A velhice.



02 setembro 2026

Lugares Comuns


Maria Fiorentino (Tutti Tudela)


"experiencia no implica conocimiento, yo no sé nada de mujeres (...) las pocas mujeres que conoci en mi vida las admiré, las observé, intenté descifrarlas. Nunca dejaron de ser un misterio, nunca dejaron de sorpreenderme, pero lo importante es desfrutar de su presencia. Yo no me de cuenta enseguida, pero un tiempito después aprendi a escucharlas, a valorar los silencios, las miradas, esos momentos en los que parece que no pasa nada y pasa un mundo... aprendi a respetar su intuición, su inteligencia y aprendi a amarlas (...)”


Federico Luppi (Fernando Robles) em Lugares Comuns, 2002, filme dirigido por Adolfo Aristarain.





27 agosto 2026

Negro Rada


Omar Ruben Rada Silva (1943-2026)

 

Quién va a cantar


Cuando se pierda toda la poesía
Cuando la gente solo sobreviva
Cuando el cansancio mate la alegría
Seremos una máquina de trabajar (sí, claro)

Si globalizan nuestro pensamiento
Solo habrá un libro con el mismo cuento
Sin esa magia de la fantasía
La música del mundo no tendrá lugar

Pregunto yo: ¿Quién va a cantar?
¿Quién va a soñar?
¿Quién va a tocar la melodía del amor?

(...)



21 agosto 2026

De Machado para Lorca


o Generalife (Granada)

 

El crimen fue en Granada: a Federico Garcia Lorca

1. El Crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frio,
aún con estrellas de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
- sangre en la frente y plomo en las entrañas -
- Que fue en Granada el crimen
sabed - ¡pobre Granada! -, en su Granada.

2. El poeta y la muerte

Se le vio caminar solo com Ella,
sin miedo a su guadaña.
- Ya el sol en torre y torre, los martillos
en yunque - yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
"Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!"

3. 

Se le vio caminar...
                Labrad, amigos,
de piedra y sueño en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde flore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!


Antonio Machado

(Poesias Completas, Madrid: Editorial Espasa Calpe S.A., 2009).