03 março 2026

Bertrand Russell


Frame do filme O Terceiro Homem, 1949

 

O texto abaixo é parte de uma declaração feita pelo filósofo Bertrand Russell em janeiro de 1970, poucos dias antes de sua morte aos 97 anos. Particularmente gosto muito de seu ativismo político dos últimos anos de vida, já com mais de 80 anos e do que mais me recordo e muito admiro é o chamado Tribunal Russell, onde questões prementes da política mundial como a Guerra do Vietnã foram submetidas a um julgamento público. 

O motivo de trazer este grande e esquecido pensador é esta declaração de meras três páginas, onde suas palavras aportam um significado perene a respeito dos enfrentamentos entre Israel e Palestina. Talvez uma expressão mais precisa para seu texto seja atualidade: ele tem o frescor - ou a dor trágica - de uma revelação que passa em nossos dias, e não há 56 anos. Sintam a força e contemporaneidade de seu argumento! Se substituirmos no início a referência ao território egípcio pelo território iraniano, o texto funciona de modo admirável.

Passo a transcrever parte do pronunciamento de Russell.

     
    A última fase da guerra não declarada no Oriente Médio está baseada num profundo erro de cálculo. Os reides aéreos no interior do território egípcio não persuadirão a população civil a render-se, mas enrijecerão sua resolução de resistir. Esta é uma lição de todos os bombardeios aéreos. Os vietnamitas, que suportaram anos de pesado bombardeio norte-americano, responderam não com a capitulação, mas derrubando mais aviões inimigos. (...)

O desenvolvimento da crise no Oriente Médio é, ao mesmo tempo, perigoso e instrutivo. Por mais de vinte anos, Israel tem crescido, pela força das armas. Depois de cada fase dessa expansão, Israel tem apelado para a razão e tem sugerido negociações. Isso é o procedimento tradicional da potência imperialista, porque ela deseja consolidar com a menor dificuldade aquilo que já tomou pela violência. Cada nova conquista se torna a nova base para negociações propostas pela força, ignorando a injustiça da agressão anterior. (...)

Muitos dos refugiados (palestinos) estão agora entrando na terceira década de sua precária existência em acomodações temporárias. A tragédia do povo da Palestina é de que seu país foi "dado" por uma potência estrangeira a outro povo, para a criação de um novo Estado. O resultado é que muitas centenas de milhares de pessoas inocentes foram tornadas permanentemente sem lar. A cada novo conflito, seu número aumenta. Por quanto tempo mais o mundo está querendo suportar este espetáculo de desenfreada crueldade? (...)

O que Israel está fazendo hoje não pode ser desculpado, e invocar os horrores do passado para justificar os do presente é grossa hipocrisia. (...) A justiça requer que o primeiro passo para uma solução seja uma retirada israelense de todos os territórios ocupados em junho de 1967. Faz-se necessária uma nova campanha mundial para ajudar a levar justiça ao povo há tanto tempo sofredor do Oriente Médio.

 

25 fevereiro 2026

Morrer, viver, o romance



 

Recebo a primeira proposta de publicação de meu romance Morrer, Viver, poucas semanas depois de dar por concluído. Meu grande receio era e continua sendo acerca de sua estrutura, não tenho nenhuma leitura feita que me tranquilize a respeito. Não sei das qualidades da obra, particularmente ainda penso que ela não está completamente terminada. Mônica leu trechos da primeira parte e optou por não prosseguir, considerou muito dolorosa a leitura. 

Os outros três capítulos são menos pesados, e descrevem a continuidade da vida até a velhice do personagem. Uma primeira versão, do final do ano passado, era mais curta, menos densa no registro dos acontecimentos, no delineamento de certos personagens que agora estão mais consistentes, Ramiro, por exemplo, o morador em situação de rua, vizinho do personagem narrador, antes com uma presença mirrada, agora surge mais atuante, com um papel mais significativo; o mesmo com respeito a Zé Paulo e Schumann, amigos de longa data, mais bem elaborados. Quanto a Manoela, posso dizer que é a melhor personagem, embora tenha de admitir que todos eles surgem de modo resvaladiço, entram em cena em painéis breves, o que faz da história um conjunto marcado por situações contingentes. 

Seja como for, já tenho a possibilidade de publicar o romance, e da maneira que aprecio: por chamada da editora. Até o meio do ano, Morrer, Viver, deve vir a lume.

   

06 fevereiro 2026

Um futuro de lutas políticas


Felix Nussbaum, Der tolle Platz, 1931


As coisas se arranjam como podem e a vida segue sem percalços. Particularmente não concordo com o pensamento de que as coisas se arranjem por si, elas como circunstâncias se vinculam e se desenvolvem de acordo com a ação humana, de modo que somos, eu sou responsável pelos desdobramentos suaves e não menos vertiginosos deste início de ano. No contexto internacional, o mundo segue a reboque de um canalha sem escrúpulos, que se acredita um bom negociante. Com isso, atrela a nação estadunidense aos seus caprichos, e por consequência, o mundo, ou parte dele. Nossa esperança é a serenidade diplomática chinesa, que com a sabedoria de uma cultura milenar, vai ajustando as arestas desse polígono desajustado, conquistando espaço e... mercado. Acredito que quando os estadunidenses despertarem desse pesadelo moral, político e econômico, será muito tarde. Para nós aqui no Brasil, torna-se imprescindível a vitória eleitoral em novembro, para que nossas políticas sociais, no campo interno, e nossa diplomacia, no externo, consolidem um crescimento e mais além, uma nação autônoma e pujante. A direita segue batendo cabeças, não dispõe de um projeto político para o país, não tem envergadura para conduzir uma economia sofisticada como a nossa e o que é pior, chafurda em seu conservadorismo de costumes que ameaça condenar nossas conquistas sociais e culturais. Tudo em nome de princípios doutrinários de duvidosa consistência moral. Apela para falsos discursos que nada ou pouco têm de cristãos, e assim tenta avançar agitando a cruz de Cristo enquanto destitui o povo de suas conquistas, de seus direitos, de suas verdadeiras crenças. Enfim, minha é a firme expectativa de que a compreensão entre os seres humanos se restabeleça pela solidariedade, condenando de uma vez por todas esse excesso de violência, de supremacismo, de execrável liberalismo.

(ao som de Makyoum Ghali, Djeloui)



05 fevereiro 2026

Pesquisas em Memória

 

O livro a ser lançado dia 9

Uma pausa em nossas preocupações com o mundo: na próxima segunda-feira, dia 9, nosso grupo de pesquisa, o Mnemon, lança Pesquisas em Memória, Comunicação e Consumo, no já conhecido Bar Balcão. São 21 autores, nem todos estarão presentes, que desfilam artigos referentes a suas pesquisas de pós-graduação ou textos elaborados ao longo das discussões realizadas, nestes mais de 10 anos de existência. Os textos abarcam temáticas variadas, do espaço urbano ao processo histórico, da saúde mental ao consumo de alimentos, da moda à cultura pop. Um momento significativo na história do grupo, em que estaremos juntos para retomar as muitas lembranças e reencontrarmos amigos e alunos da vida. 

Venha participar desse momento e comemorar com a gente!


 

28 janeiro 2026

Entre céus e desertos




Um momento de desejada abstração: fechei os olhos e me deixei levar pelo silêncio da sala de espera da dermatologista. A música melodiosa, instrumental. Encostei a cabeça na parede e não demorou para visualizar o caravançará descrito em um dos meus contos, a profusão de cores, os desenhos nos tecidos, os macramês, as bolsas, os utensílios pensos nos imensos camelos em fila, mulheres e homens silenciosos, indiferentes ao sol abrasador... Cobriam-se com turbantes de linho que envolviam a cabeça e o rosto, avançavam ao ritmo balouçante de cada camelo, senhores de seu tempo... Logo a dúvida, não seriam figurantes de um conto de Bowles?... Seguiam por caminhos áridos sob o céu que os protegia, para abastecer o bazar que regurgitava de gente e mercadorias, oriundas dos vários cantos do deserto... Ou uma cena das memórias de Victor Serge em seu exílio, o caravançará atravessando as dimensões profundas da estepe da Ásia Central... Orenburg... e nas cercanias da cidade, o cemitério muçulmano, habitado por crianças abandonadas e bandidos à espreita de uma ocasião... Crianças e bandidos não se entendiam, disputavam as mesmas mercadorias, migalhas em um mundo cujo valor de troca dos furtos garantia a comida da sobrevivência...



19 janeiro 2026

Entre magos e demônios


   Quatro magos comunistas

O mês passa e mal nos damos conta. As festividades no início e a viagem no meio fizeram de janeiro, até aqui, um tempo de sossego e desfrute. Tudo isso à revelia dos transtornados acontecimentos políticos que varrem o planeta, comandados pelo delirante Trump e sua camarilha. Depois do sequestro de Maduro em plena Caracas, com a morte da guarda cubana (mas, segundo informações, com elevadas baixas não confirmadas do lado estadunidense), sobrevém o incêndio sem controle da Patagônia (segundo informes vindos da Argentina, provocados criminosamente) e as ameaças do governo Trump em atacar e tomar a Groelândia. Durma-se com um barulho desses, como diria meu bom amigo Kruger. Por isso tento relevar essa tormenta diabólica com cinema e música ao lado de Moniquinha. No mais tudo muito bem, com minha mãe e minha irmã. Passo o final do domingo em absoluto far niente, lendo e escrevendo, agora, depois do banho, só de calção, em sintonia com o agradável do clima. O calor estava implacável na semana passada e nos primeiros dias de litoral, felizmente amainou bastante, as chuvas chegaram e hoje está maneiro. Fiz algumas correções pontuais em Morrer, viver, com a esperança de conseguir publicar neste ano.



03 janeiro 2026

Um mundo sem regras


Berkeley Protest poster, 1970

Ano novo, métodos ultrapassados. Tropas estadounidenses raptaram o presidente Maduro e sua esposa em uma ação militar em território venezuelano, em uma clara violação do direito internacional. Um ato que abre caminho para novos sequestros-relâmpagos não apenas na América Latina, mas em qualquer parte do mundo. Segundo dados preliminares, em torno de 40 mortos entre civis e militares. Já em Gaza os ataques brutais e os assassinatos seletivos tanto de militantes do Hamas como de jornalistas internacionais demonstraram a viabilidade de se neutralizar quem quer que fosse, a qualquer momento e lugar. O Irã, o Catar e o Líbano também foram igualmente vítimas desse tipo de ataque abrupto e covarde, sem cujos territórios foram submetidos a bombardeios, conforme a consigna de se neutralizar o terrorismo onde for. 

O que vemos, depois de tudo, é a completa desconsideração da jurisdição internacional, das normas que regem a diplomacia entre nações e da autodeterminação dos povos, prevalecendo ações pautadas por mísseis e tropas de elite. As reações, em grande parte em repúdio à operação estadunidense, vão ganhando as telas e páginas de internet, embora na prática não existam respostas eficientes para deter o Império. O mundo aos poucos deixa a inanição política, o que poderá revelar as grandes manifestações, as queimas de bandeiras estadunidenses o a recriminação retórica de umas poucas lideranças? Trump deu um passo além do que se poderia imaginar e não temos a menor ideia de onde a cadeia de acontecimentos políticos conduzirá o mundo. Seja como for, não há outra atitude deste blog senão condenar fortemente a violenta ação imperialista contra a Venezuela.

(atualizado, 04.01.2026)



17 dezembro 2025

Tempo das hienas

 



Foi com um gesto obscuro, 

à borda de uma cova

saboreando os restos de uma ossada

que a hiena mais astuta

observou ao longe

o pavor dos outros animais.

Houve um breve momento,

a covardia misturada ao pavor,

que fez com que os animais, todos

apenas recuassem

e as hienas se sentissem convidadas,

um butim farto as aguardava

e aproveitaram a frágil organização

dos bichos, todos

que perderam o sangue frio, 

o desejo de lutar.

Com sua mínima sensibilidade em interpretar o mundo

as hienas avançaram

souberam unir-se para devorar

as carnes de suas presas, todas

uma festança de grunhidos e uivos

e a floresta nunca mais foi a mesma.



(De um compêndio poético encontrado em meio às ruínas da civilização)