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| Forte Três Reis Magos, Natal, 1988 |
Eu adoro o que não vejo
e não vejo o que adoro;
do meu amor a causa ignoro
e buscar a causa desejo.
Meu confuso devaneio
quem saberá compreendê-lo?
pois sem ver venho a querer
por mera imaginação,
inclinando minha paixão
a um ser que não tem ser.
Que enamore uma pintura
não será milagre novo,
que ainda que tal amor não aprovo,
já em efeito é beleza;
mas amar a uma figura
que acaso a alma fingiu,
nada tal loucura viu;
porque pensar que hei de encontrar
causa que está por criar,
quem tal milagre pediu?
A ferida do coração
verte sangue, mas não morro,
a morte com gosto espero
por acabar minha paixão.
De estar fora da razão
Quando não morro, dormir,
mas como posso pedir
vida nem morte a um sujeito
que não teve de perfeito
mais ser que saber ferir?
Dê-me, céu, se criou
aquele ser que desejo,
de minha vontade emprego,
e antes que nascido, amado.
Mas o que pede um desditoso
quando sem sorte nasceu?
porque, a quem o sucedeu
de amor milagre tão novo
que lhe ocupasse o desejo
amante que em sonhos viu?
(Uma tradução livre de María de Zayas y Sotomayor, Novelas amorosas y ejemplares, Madrid, Catedra, 2022)






