26 março 2026

Muito além de Roberto Carlos




A primeira vez que reparei em Roberto Carlos foi mais ou menos na mesma época em que reparei em Nara Leão. No primeiro caso, pela televisão, nas jornadas dominicais da Jovem Guarda, no segundo caso, nos encontros da vila, ao lado de casa, com os jovens mais velhos que eu.

Essa separação faz todo o sentido para compreender outra coisa: a música mediada pela nova indústria cultural, capitaneada pelos produtos de Roberto Carlos e a Jovem Guarda, e uma certa música popular brasileira, mais difícil para um moleque de seis ou sete anos acompanhar e degustar, mas que oferecia um sabor pelos encontros presenciais, pela leveza das vozes e do violão, por uma força iluminada que brotava daquelas rodinhas mágicas.

Descendo a minha rua, para o lado oposto da vila, havia a grande mansão do Paulo Gomes, um ricaço ligado ao automobilismo, que recebia a nata da Jovem Guarda, até mesmo Roberto Carlos, acompanhado pela Wanderléia e pelo Tremendão. Mas por alguma razão isso não tinha muita importância para mim, ou para os meus pequenos amigos de rua: gostávamos mesmo era de ficar ao lado daqueles jovens mais velhos com suas canções mais difíceis e ao mesmo tempo tão atraentes. Foi então que soube de Nara Leão, pela interpretação de Yamara.

É preciso dizer que essas memórias pré-adolescentes são na verdade memórias do futuro, pois dou um jeito de retomar lembranças do passado a partir de uma apreciação vinda do futuro, do futuro daqueles acontecimentos, provavelmente reinscrevendo todo um passado conforme as descrevo agora, no presente.

A Jovem Guarda se movimentava em torno do espetáculo em si das canções dos domingos, expressando uma rebeldia que propiciava o acúmulo de boletos dos produtos adquiridos em suaves prestações, uma das grandes sacadas comerciais. Mamãe perguntava nas compras do mês se eu queria uma calça Calhambeque ou uma camisa com o dístico É uma brasa, mora!, enquanto esperávamos o próximo lançamento do filme Em ritmo de aventura.

Assim, as canções sobre as curvas da estrada de Santos, ou sobre o Calhambeque bi-bi, sugeriam namoro, carrões e uma certa liberdade definida pelo vento enquanto Roberto Carlos corria demais... Uma liberdade que, conforme a memória do futuro me mostraria, se definia como individual e inofensiva. Eu, então denominado café com leite no meio daqueles jovens mais velhos, me deixava levar pelo dedilhar de Ponteio, do Janguinho, ou Disparada, essa também cantada pelo Marinho... Era o puro e indizível arrebatamento de uma pequena mente ainda em formação.

Havia outras explicações para esses momentos especiais na vila. Todas aquelas canções respiravam o momento do país, que era trazido pelas falas codificadas desses jovens universitários, que pareciam se empenhar em outras tantas atividades solidárias. Eu apenas via, captava, mas não entendia. Falavam de cinema, falavam de teatro, falavam de manifestações, falavam de uma outra vida à qual eu sequer desconfiava. Eram vivazes, encantadores e dedicados. Nunca falavam de Jovem Guarda, a não ser para se deleitarem em ironias...

Era isso: eu experimentava a distinção do que depois compreenderia melhor, entre uma rebeldia de vitrine, onde a juventude aprendia antes a consumir do que pensar, e uma rebeldia crítica, que ganhava as ruas gritando por mudanças.

A modernização conservadora desse período certamente foi tema de inúmeras discussões e trabalhos acadêmicos, e conceituou de maneira bastante clara o que era permitido e o que era proibido para a juventude da época. Eu me apego à memória de um restrito grupo de jovens mais velhos que eu, estudantes dos mais diversos cursos universitários, e que se embrenhavam por caminhos sinuosos que contemplavam a ação política, e revelavam uma pequena ponta desse segredo tão sedutor por lembranças das peças, dos filmes vistos (sim, lembro de falarem longamente de um tal cinema novo... e se me lembro, foi porque falaram muito e animadamente).

A imagem das canções sobre temas seguros, amor, ciúmes, carrões, fáceis de ouvir, fáceis de consumir, por alguma razão não me entusiasmavam: por mais que Roberto Carlos se dizia terrível, e que só ia gostar de quem gostava dele, eu começava a abandonar o desejo em procurar o meu amor. Valia-me mais a tensão que Avani narrou para os demais jovens os detalhes que soube sobre um certo guerrilheiro que havia passado a noite em uma escola antes de ser fuzilado.

As coisas foram tensionando de um modo que não soube compreender: nos fundos da vila, morava um certo soldado que servia no Segundo Exército e certa manhã foi morto. Lembro-me que foi um acontecimento que escureceu as tardes de nossa rua de um modo vertiginoso. Não demorou, e os jovens mais velhos foram se dispersando, e com exceção de um ou dois, o Janguinho sendo um deles, nunca mais os encontrei ao redor de um violão. Dispersar é um verbo menos cruel do que desaparecer.

A beleza que acalentavam a cada encontro na vila se diluiu como água na água. Ainda que não se tenha perdido a memória dos fatos, nem a coragem da transformação de cada momento, não soubemos fazer disso mais do que um sonho não realizado.

Roberto Carlos prosseguiu livre e altaneira, por um tempo ainda na Jovem Guarda, e depois nas rádios e TVs do país. Ela não confrontou o regime, e acabou por tornar-se o símbolo ideológico, o rosto de uma juventude controlada – em suma, um falso espelho emocional da rotina. Ganharia um contrato na Globo, conectando os valores mais fortes da sociedade brasileira: a família, a fé, a esperança, a união, em uma das estratégias de marketing da televisão mais bem-sucedidas e duradouras.


(Apresentado na 9. Jornada Musimid, Unip, março de 2026)


 

18 março 2026

Sobre a imbecilidade humana


A resistência republicana

 

Nada será como antes, mas para que isso seja verdade, seria preciso tornarmo-nos tolos o suficiente para acreditar no admirável mundo miserável que o neoliberalismo nos promete a cada minuto. Com isso quero dizer que o genocídio em Gaza ou a régua belicista imposta por Trump e Netanyahu teria de ser aceita sem questionamentos. Não me parece que será suficiente destruir o equilíbrio e o respeito diplomáticos para seguirmos adiante em um mundo de diferenças. Não vai demorar para que boa parte das pessoas compreenda que o caminho não é a violência alimentada pela perfídia, pela arrogância, pelo desprezo. Não fomos talhados por Deus ou pela evolução natural para simplesmente nos bestificarmos e conformarmos com migalhas. 

A geração Trump poderia surgir em qualquer época, como uma experiência social malígna que ao fim e ao cabo não funcionou. Em outros tempos, foram outros tipos de trumps que surgiram, mais ou menos malévolos, mas que acabaram derrotados pela perseverança humana em atingir seus objetivos de viver em paz. O preço cobrado para a retomada da sensatez nunca foi pouco, mas de alguma forma, lá na frente, ela se restabelece pela vontade das pessoas que verdadeiramente se preocupam com o outro. A miséria da imbecilidade coletiva será mais uma vez derrotada, e desses pobres animais pensantes, não restará senão o doloroso lamento de suas vítimas.

  

03 março 2026

Bertrand Russell


Frame do filme O Terceiro Homem, 1949

 

O texto que reproduzo abaixo é parte de uma declaração feita pelo filósofo Bertrand Russell em janeiro de 1970, poucos dias antes de sua morte aos 97 anos. Particularmente tenho muita simpatia por seu ativismo político, sobretudo nos últimos anos de vida, já com mais de 80 anos. O que mais me recordo e muito aprecio é o que constituiu com o apoio de outros intelectuais, como Jean Paul Sartre, o Tribunal Russell, onde por exemplo, a Guerra do Vietnã, foi submetida a julgamento público. 

O motivo de trazer este grande e esquecido pensador é sua declaração de meras três páginas, onde o texto aporta um significado perene a respeito dos enfrentamentos entre Israel e Palestina. Talvez uma expressão mais precisa seja atualidade: observamos o frescor - ou a dor trágica - de uma revelação que, expressa há mais de 50 anos, persiste em manifestar-se ainda em nossos dias. Sintam a força e contemporaneidade de seu argumento! Se substituirmos no início a referência ao território egípcio por 'território iraniano', o texto funciona de modo admirável.

Passo a transcrever parte do pronunciamento de Bertrand Russell.

     
    A última fase da guerra não declarada no Oriente Médio está baseada num profundo erro de cálculo. Os reides aéreos no interior do território egípcio não persuadirão a população civil a render-se, mas enrijecerão sua resolução de resistir. Esta é uma lição de todos os bombardeios aéreos. Os vietnamitas, que suportaram anos de pesado bombardeio norte-americano, responderam não com a capitulação, mas derrubando mais aviões inimigos. (...)

O desenvolvimento da crise no Oriente Médio é, ao mesmo tempo, perigoso e instrutivo. Por mais de vinte anos, Israel tem crescido, pela força das armas. Depois de cada fase dessa expansão, Israel tem apelado para a razão e tem sugerido negociações. Isso é o procedimento tradicional da potência imperialista, porque ela deseja consolidar com a menor dificuldade aquilo que já tomou pela violência. Cada nova conquista se torna a nova base para negociações propostas pela força, ignorando a injustiça da agressão anterior. (...)

Muitos dos refugiados (palestinos) estão agora entrando na terceira década de sua precária existência em acomodações temporárias. A tragédia do povo da Palestina é de que seu país foi "dado" por uma potência estrangeira a outro povo, para a criação de um novo Estado. O resultado é que muitas centenas de milhares de pessoas inocentes foram tornadas permanentemente sem lar. A cada novo conflito, seu número aumenta. Por quanto tempo mais o mundo está querendo suportar este espetáculo de desenfreada crueldade? (...)

O que Israel está fazendo hoje não pode ser desculpado, e invocar os horrores do passado para justificar os do presente é grossa hipocrisia. (...) A justiça requer que o primeiro passo para uma solução seja uma retirada israelense de todos os territórios ocupados em junho de 1967. Faz-se necessária uma nova campanha mundial para ajudar a levar justiça ao povo há tanto tempo sofredor do Oriente Médio.

 

25 fevereiro 2026

Morrer, viver, o romance



 

Recebo a primeira proposta de publicação de meu romance Morrer, Viver, poucas semanas depois de dar por concluído. Meu grande receio era e continua sendo acerca de sua estrutura, não tenho nenhuma leitura feita que me tranquilize a respeito. Não sei das qualidades da obra, particularmente ainda penso que ela não está completamente terminada. Mônica leu trechos da primeira parte e optou por não prosseguir, considerou muito dolorosa a leitura. 

Os outros três capítulos são menos pesados, e descrevem a continuidade da vida até a velhice do personagem. Uma primeira versão, do final do ano passado, era mais curta, menos densa no registro dos acontecimentos, no delineamento de certos personagens que agora estão mais consistentes, Ramiro, por exemplo, o morador em situação de rua, vizinho do personagem narrador, antes com uma presença mirrada, agora surge mais atuante, com um papel mais significativo; o mesmo com respeito a Zé Paulo e Schumann, amigos de longa data, mais bem elaborados. Quanto a Manoela, posso dizer que é a melhor personagem, embora tenha de admitir que todos eles surgem de modo resvaladiço, entram em cena em painéis breves, o que faz da história um conjunto marcado por situações contingentes. 

Seja como for, já tenho a possibilidade de publicar o romance, e da maneira que aprecio: por chamada da editora. Até o meio do ano, Morrer, Viver, deve vir a lume.

   

06 fevereiro 2026

Um futuro de lutas políticas


Felix Nussbaum, Der tolle Platz, 1931


As coisas se arranjam como podem e a vida segue sem percalços. Particularmente não concordo com o pensamento de que as coisas se arranjem por si, elas como circunstâncias se vinculam e se desenvolvem de acordo com a ação humana, de modo que somos, eu sou responsável pelos desdobramentos suaves e não menos vertiginosos deste início de ano. No contexto internacional, o mundo segue a reboque de um canalha sem escrúpulos, que se acredita um bom negociante. Com isso, atrela a nação estadunidense aos seus caprichos, e por consequência, o mundo, ou parte dele. Nossa esperança é a serenidade diplomática chinesa, que com a sabedoria de uma cultura milenar, vai ajustando as arestas desse polígono desajustado, conquistando espaço e... mercado. Acredito que quando os estadunidenses despertarem desse pesadelo moral, político e econômico, será muito tarde. Para nós aqui no Brasil, torna-se imprescindível a vitória eleitoral em novembro, para que nossas políticas sociais, no campo interno, e nossa diplomacia, no externo, consolidem um crescimento e mais além, uma nação autônoma e pujante. A direita segue batendo cabeças, não dispõe de um projeto político para o país, não tem envergadura para conduzir uma economia sofisticada como a nossa e o que é pior, chafurda em seu conservadorismo de costumes que ameaça condenar nossas conquistas sociais e culturais. Tudo em nome de princípios doutrinários de duvidosa consistência moral. Apela para falsos discursos que nada ou pouco têm de cristãos, e assim tenta avançar agitando a cruz de Cristo enquanto destitui o povo de suas conquistas, de seus direitos, de suas verdadeiras crenças. Enfim, minha é a firme expectativa de que a compreensão entre os seres humanos se restabeleça pela solidariedade, condenando de uma vez por todas esse excesso de violência, de supremacismo, de execrável liberalismo.

(ao som de Makyoum Ghali, Djeloui)



05 fevereiro 2026

Pesquisas em Memória

 

O livro a ser lançado dia 9

Uma pausa em nossas preocupações com o mundo: na próxima segunda-feira, dia 9, nosso grupo de pesquisa, o Mnemon, lança Pesquisas em Memória, Comunicação e Consumo, no já conhecido Bar Balcão. São 21 autores, nem todos estarão presentes, que desfilam artigos referentes a suas pesquisas de pós-graduação ou textos elaborados ao longo das discussões realizadas, nestes mais de 10 anos de existência. Os textos abarcam temáticas variadas, do espaço urbano ao processo histórico, da saúde mental ao consumo de alimentos, da moda à cultura pop. Um momento significativo na história do grupo, em que estaremos juntos para retomar as muitas lembranças e reencontrarmos amigos e alunos da vida. 

Venha participar desse momento e comemorar com a gente!


 

28 janeiro 2026

Entre céus e desertos




Um momento de desejada abstração: fechei os olhos e me deixei levar pelo silêncio da sala de espera da dermatologista. A música melodiosa, instrumental. Encostei a cabeça na parede e não demorou para visualizar o caravançará descrito em um dos meus contos, a profusão de cores, os desenhos nos tecidos, os macramês, as bolsas, os utensílios pensos nos imensos camelos em fila, mulheres e homens silenciosos, indiferentes ao sol abrasador... Cobriam-se com turbantes de linho que envolviam a cabeça e o rosto, avançavam ao ritmo balouçante de cada camelo, senhores de seu tempo... Logo a dúvida, não seriam figurantes de um conto de Bowles?... Seguiam por caminhos áridos sob o céu que os protegia, para abastecer o bazar que regurgitava de gente e mercadorias, oriundas dos vários cantos do deserto... Ou uma cena das memórias de Victor Serge em seu exílio, o caravançará atravessando as dimensões profundas da estepe da Ásia Central... Orenburg... e nas cercanias da cidade, o cemitério muçulmano, habitado por crianças abandonadas e bandidos à espreita de uma ocasião... Crianças e bandidos não se entendiam, disputavam as mesmas mercadorias, migalhas em um mundo cujo valor de troca dos furtos garantia a comida da sobrevivência...



19 janeiro 2026

Entre magos e demônios


   Quatro magos comunistas

O mês passa e mal nos damos conta. As festividades no início e a viagem no meio fizeram de janeiro, até aqui, um tempo de sossego e desfrute. Tudo isso à revelia dos transtornados acontecimentos políticos que varrem o planeta, comandados pelo delirante Trump e sua camarilha. Depois do sequestro de Maduro em plena Caracas, com a morte da guarda cubana (mas, segundo informações, com elevadas baixas não confirmadas do lado estadunidense), sobrevém o incêndio sem controle da Patagônia (segundo informes vindos da Argentina, provocados criminosamente) e as ameaças do governo Trump em atacar e tomar a Groelândia. Durma-se com um barulho desses, como diria meu bom amigo Kruger. Por isso tento relevar essa tormenta diabólica com cinema e música ao lado de Moniquinha. No mais tudo muito bem, com minha mãe e minha irmã. Passo o final do domingo em absoluto far niente, lendo e escrevendo, agora, depois do banho, só de calção, em sintonia com o agradável do clima. O calor estava implacável na semana passada e nos primeiros dias de litoral, felizmente amainou bastante, as chuvas chegaram e hoje está maneiro. Fiz algumas correções pontuais em Morrer, viver, com a esperança de conseguir publicar neste ano.