A primeira vez que reparei em Roberto Carlos foi mais ou menos na mesma época em que reparei em Nara Leão. No primeiro caso, pela televisão, nas jornadas dominicais da Jovem Guarda, no segundo caso, nos encontros da vila, ao lado de casa, com os jovens mais velhos que eu.
Essa separação faz
todo o sentido para compreender outra coisa: a música mediada pela nova
indústria cultural, capitaneada pelos produtos de Roberto Carlos e a Jovem
Guarda, e uma certa música popular brasileira, mais difícil para um moleque de
seis ou sete anos acompanhar e degustar, mas que oferecia um sabor pelos
encontros presenciais, pela leveza das vozes e do violão, por uma força
iluminada que brotava daquelas rodinhas mágicas.
Descendo a minha
rua, para o lado oposto da vila, havia a grande mansão do Paulo Gomes, um
ricaço ligado ao automobilismo, que recebia a nata da Jovem Guarda, até mesmo
Roberto Carlos, acompanhado pela Wanderléia e pelo Tremendão. Mas por alguma
razão isso não tinha muita importância para mim, ou para os meus pequenos
amigos de rua: gostávamos mesmo era de ficar ao lado daqueles jovens mais
velhos com suas canções mais difíceis e ao mesmo tempo tão atraentes. Foi então
que soube de Nara Leão, pela interpretação de Yamara.
É preciso dizer que
essas memórias pré-adolescentes são na verdade memórias do futuro, pois dou um
jeito de retomar lembranças do passado a partir de uma apreciação vinda do
futuro, do futuro daqueles acontecimentos, provavelmente reinscrevendo todo um
passado conforme as descrevo agora, no presente.
A Jovem Guarda se
movimentava em torno do espetáculo em si das canções dos domingos, expressando
uma rebeldia que propiciava o acúmulo de boletos dos produtos adquiridos em
suaves prestações, uma das grandes sacadas comerciais. Mamãe perguntava nas
compras do mês se eu queria uma calça Calhambeque ou uma camisa com o dístico É
uma brasa, mora!, enquanto esperávamos o próximo lançamento do filme Em ritmo
de aventura.
Assim, as canções
sobre as curvas da estrada de Santos, ou sobre o Calhambeque bi-bi, sugeriam
namoro, carrões e uma certa liberdade definida pelo vento enquanto Roberto
Carlos corria demais... Uma liberdade que, conforme a memória do futuro me
mostraria, se definia como individual e inofensiva. Eu, então denominado café
com leite no meio daqueles jovens mais velhos, me deixava levar pelo
dedilhar de Ponteio, do Janguinho, ou Disparada, essa também cantada pelo
Marinho... Era o puro e indizível arrebatamento de uma pequena mente ainda em
formação.
Havia outras
explicações para esses momentos especiais na vila. Todas aquelas canções
respiravam o momento do país, que era trazido pelas falas codificadas desses
jovens universitários, que pareciam se empenhar em outras tantas atividades
solidárias. Eu apenas via, captava, mas não entendia. Falavam de cinema,
falavam de teatro, falavam de manifestações, falavam de uma outra vida à qual
eu sequer desconfiava. Eram vivazes, encantadores e dedicados. Nunca falavam de
Jovem Guarda, a não ser para se deleitarem em ironias...
Era isso: eu experimentava
a distinção do que depois compreenderia melhor, entre uma rebeldia de vitrine,
onde a juventude aprendia antes a consumir do que pensar, e uma rebeldia
crítica, que ganhava as ruas gritando por mudanças.
A modernização
conservadora desse período certamente foi tema de inúmeras discussões e
trabalhos acadêmicos, e conceituou de maneira bastante clara o que era
permitido e o que era proibido para a juventude da época. Eu me apego à memória
de um restrito grupo de jovens mais velhos que eu, estudantes dos mais diversos
cursos universitários, e que se embrenhavam por caminhos sinuosos que
contemplavam a ação política, e revelavam uma pequena ponta desse segredo tão sedutor
por lembranças das peças, dos filmes vistos (sim, lembro de falarem longamente
de um tal cinema novo... e se me lembro, foi porque falaram muito e
animadamente).
A imagem das canções
sobre temas seguros, amor, ciúmes, carrões, fáceis de ouvir, fáceis de
consumir, por alguma razão não me entusiasmavam: por mais que Roberto Carlos se
dizia terrível, e que só ia gostar de quem gostava dele, eu começava a
abandonar o desejo em procurar o meu amor. Valia-me mais a tensão que Avani
narrou para os demais jovens os detalhes que soube sobre um certo guerrilheiro
que havia passado a noite em uma escola antes de ser fuzilado.
As coisas foram
tensionando de um modo que não soube compreender: nos fundos da vila, morava um
certo soldado que servia no Segundo Exército e certa manhã foi morto. Lembro-me
que foi um acontecimento que escureceu as tardes de nossa rua de um modo vertiginoso.
Não demorou, e os jovens mais velhos foram se dispersando, e com exceção de um
ou dois, o Janguinho sendo um deles, nunca mais os encontrei ao redor de um
violão. Dispersar é um verbo menos cruel do que desaparecer.
A beleza que
acalentavam a cada encontro na vila se diluiu como água na água. Ainda que não
se tenha perdido a memória dos fatos, nem a coragem da transformação de cada
momento, não soubemos fazer disso mais do que um sonho não realizado.
Roberto Carlos prosseguiu
livre e altaneira, por um tempo ainda na Jovem Guarda, e depois nas rádios e
TVs do país. Ela não confrontou o regime, e acabou por tornar-se o símbolo
ideológico, o rosto de uma juventude controlada – em suma, um falso espelho
emocional da rotina. Ganharia um contrato na Globo, conectando os valores mais
fortes da sociedade brasileira: a família, a fé, a esperança, a união, em uma
das estratégias de marketing da televisão mais bem-sucedidas e duradouras.
(Apresentado na 9. Jornada Musimid, Unip, março de 2026)






