Um momento de desejada abstração: fechei os olhos e me deixei levar pelo silêncio da sala de espera da dermatologista. A música melodiosa, instrumental. Encostei a cabeça na parede e não demorou para visualizar o caravançará descrito em um dos meus contos, a profusão de cores, os desenhos nos tecidos, os macramês, as bolsas, os utensílios pensos nos imensos camelos em fila, mulheres e homens silenciosos, indiferentes ao sol abrasador... Cobriam-se com turbantes de linho que envolviam a cabeça e o rosto, avançavam ao ritmo balouçante de cada camelo, senhores de seu tempo... Logo a dúvida, não seriam figurantes de um conto de Bowles?... Seguiam por caminhos áridos sob o céu que os protegia, para abastecer o bazar que regurgitava de gente e mercadorias, oriundas dos vários cantos do deserto... Ou uma cena das memórias de Victor Serge em seu exílio, o caravançará atravessando as dimensões profundas da estepe da Ásia Central... Orenburg... e nas cercanias da cidade, o cemitério muçulmano, habitado por crianças abandonadas e bandidos à espreita de uma ocasião... Crianças e bandidos não se entendiam, disputavam as mesmas mercadorias, migalhas em um mundo cujo valor de troca dos furtos garantia a comida da sobrevivência...
Chá nas Montanhas
Trató de escuchar la flauta, pero oyó sólo el viento contra sus oídos
28 janeiro 2026
19 janeiro 2026
Entre magos e demônios
![]() |
| Quatro magos comunistas |
O mês passa e mal nos damos conta. As festividades no início e a
viagem no meio fizeram de janeiro, até aqui, um tempo de sossego e desfrute.
Tudo isso à revelia dos transtornados acontecimentos políticos que varrem o
planeta, comandados pelo delirante Trump e sua camarilha. Depois do
sequestro de Maduro em plena Caracas, com a morte da guarda cubana (mas,
segundo informações, com elevadas baixas não confirmadas do lado
estadunidense), sobrevém o incêndio sem controle da Patagônia (segundo informes
vindos da Argentina, provocados criminosamente) e as ameaças do governo Trump
em atacar e tomar a Groelândia. Durma-se com um barulho desses, como diria meu bom amigo Kruger. Por isso tento
relevar essa tormenta diabólica com cinema e música ao lado de Moniquinha. No mais tudo muito bem, com minha mãe e minha irmã. Passo o
final do domingo em absoluto far niente, lendo e escrevendo, agora, depois do
banho, só de calção, em sintonia com o agradável do clima. O calor estava
implacável na semana passada e nos primeiros dias de litoral, felizmente amainou
bastante, as chuvas chegaram e hoje está maneiro. Fiz algumas correções
pontuais em Morrer, viver, com a esperança de conseguir publicar neste ano.
03 janeiro 2026
Um mundo sem regras
| Berkeley Protest poster, 1970 |
17 dezembro 2025
Tempo das hienas
Foi com
um gesto obscuro,
à borda de uma cova
saboreando os restos de uma ossada
que a hiena mais astuta
observou ao longe
o pavor dos outros animais.
Houve um breve momento,
a covardia misturada ao pavor,
que fez com que os animais, todos
apenas recuassem
e as hienas se sentissem convidadas,
um butim farto as aguardava
e aproveitaram a frágil organização
dos bichos, todos
que perderam o sangue frio,
o desejo de lutar.
Com sua mínima sensibilidade em interpretar o mundo
as hienas avançaram
souberam unir-se para devorar
as carnes de suas presas, todas
uma festança de grunhidos e uivos
e a floresta nunca mais foi a mesma.
(De um compêndio poético encontrado em meio às ruínas da civilização)
16 dezembro 2025
A caminho de Sófia
Mas voltemos ao trem que me levaria a Sófia. (...) Meus companheiros foram cinco, três búlgaros – mãe, filho e uma amiga dele, ao que pude perceber – e dois estadunidenses, com passaportes búlgaros. Eu isolado em meu português inútil, um estranho no ninho. Não desenvolvi nenhuma relação amistosa com meus companheiros de cabine, pois não tínhamos uma língua em comum, e porque cada grupo ficou na sua. Desde Istambul, levamos cinco horas e meia para atingir a fronteira com a Bulgária, e aí permanecemos parados por duas horas e meia. (...) Do outro lado da plataforma havia outro trem estacionado, e no meio, uma montanha de fardos de tecido manufaturado para serem embarcados. Os montes atingiam uns três metros de altura e se estendiam por toda a plataforma. Olhei para aquilo e por uma fração de segundo quis duvidar que tudo seria embarcado. De pronto me veio a lembrança daqueles trabalhadores eslavos em Istambul se esfalfando para colocar dentro dos ônibus e furgões seus pacotes de compras. Repetia-se o esforço, agora naquele lugar ermo, fronteiriço. (...)
Grupos de incansáveis ‘estivadores’ eslavos, vestindo uma simples camiseta sob um frio congelante, movimentavam-se diante da enorme barreira de fardos. Estava claro que cada grupo tinha uma carga delimitada para si, a sua mercadoria. Logo, começaram a carregar o quinhão que lhes pertencia para o outro trem. Letras em cirílico indicavam alguma coisa sobre a mercadoria, talvez estabelecendo a que grupo cada monturo pertencia. Eu me tornava um espectador privilegiado, assistindo tudo desde o começo. Aos poucos pude distinguir um grupo do outro e lá pelas tantas passei a entender o esquema da divisão do trabalho. Grosso modo, o importante era levar tudo para dentro do trem, por conta de algum prazo estabelecido. O ‘como fazer’ é que variava. Um grupo, que atuava mais à esquerda do meu campo de visão, era composto por um eslavo que controlava o carregamento realizado por turcos. Ele ficava ao lado do que lhe pertencia e à chegada de um carregador, ajudava-o a acomodar o fardo em suas costas, o enorme fardo! Pensei em minha mochila, achava-a pesada em seus 19kg e via aquelas ‘pobres mulas’ ajeitando fardos pelo menos duas vezes mais volumosos...
A sistemática era simples e dolorosa, o eslavo e o carregador catavam o fardo por um lado e sacudiam num movimento pendular até anularem a força de gravidade, quando o ‘chefe’ arremessava o pacotão em perfeita sincronia com a virada do carregador, que o recebia e o amparava em suas costas. Eram dois turcos a realizar esse trabalho de formiguinha, com o eslavo fiscalizando o encaminhamento e o embarque do material sem sair do lugar. (...) Mais à direita, o que me pareceu ser pai e filho transportavam seus invólucros de maneira mais usual e lenta: pegavam cada qual numa ponta e carregavam até a porta do vagão, onde outros dois recolhiam e ajeitavam os volumes em seu interior. Pai e filho iam e vinham em um movimento meticuloso, repetitivo, determinado. Às vezes o filho ficava uns minutos a sós – o pai saia de cena para resolver algum problema – e aproveitava para acender um cigarro. O frio enregelava os meus pés dentro da cabine, o que dizer da temperatura lá fora?... Talvez por isso todos trabalhavam sem cessar. De certa forma ali estava o ganha pão daquelas pessoas desafortunadas por injunções políticas, pela incompetência de dirigentes que não assumiam suas responsabilidades perante seus povos. Aqueles, à minha frente, não tinham tempo a perder com esse tipo de raciocínio, por isso continuavam a trabalhar duro.
Aos poucos se juntaram em torno desses dois grupos iniciais outros sujeitos corpulentos, que já deviam ter concluído seus trabalhos alhures e ajudaram no transporte com as mercadorias. O monturo foi diminuindo, até que os derradeiros invólucros foram embarcados. Ao final, formaram rodinhas de três, quatro, e fumaram, gargalharam, moveram-se como cães de caça para um lado e para o outro, como se não soubessem ficar sem ter o que fazer. Mas deviam estar satisfeitos por mais uma etapa vencida. As cabinas do outro trem estavam repletas de mercadorias, as mulheres ficaram nos corredores organizando o fluxo de pacotes. Pensei um pouco sobre a minha situação: completamente isolado em uma cabine desaquecida, à mercê do movimento do trem para retomar a viagem. Não havia a quem reclamar. A mais pura impotência me instruia em um duro aprendizado, saber suportar uma adversidade fora do meu controle. Não havia o que fazer, a não ser resistir como corpo e consciência. Demorou para o trem partir (o deles; o nosso permaneceu imóvel por um longo tempo) e, como se tudo estivesse perfeitamente sincronizado, começou a chover.
(Diários de viagem, março de 1994)
15 dezembro 2025
Um poema, Robert Desnos
27.3.36
Eu me levantarei amanhã de manhã
Mais cedo que hoje
O sol amanhã de manhã
Será mais quente que hoje
Eu serei mais forte amanhã de manhã
Mais forte que hoje
Eu estarei alegre amanhã de manhã
Mais alegre que hoje
Eu terei amanhã de manhã
Mais amigos que hoje
E embora amanhã de manhã
A morte esteja mais próxima que hoje
Eu estarei amanhã de manhã
Mais vivo mais vivo que hoje!
(Traduzido da obra Les Poèmes de Minuit, de Robert Desnos)
10 dezembro 2025
O revolucionário republicano
![]() |
| Museu de História da Catalunha, 2024 |
Do mais inacessível do caráter obsceno, é daí que nasce, segundo o bondoso Canuto, a vertente que mais tarde se consubstancia no voto racista. Desta vez ele estava disposto a falar um pouco mais. Deixou sua sapataria como costumeiramente faz, e com sua boina de republicano espanhol – ele me garantiu que era – me viu em uma das mesinhas do Alma, puxou uma cadeira e sentou-se. É mais fácil encontrá-lo andando pelas cercanias, tomando umas biritas no bar da esquina, ou com algum conhecido em uma das lojinhas da galeria, do que em sua sapataria. A galeria preserva profissionais raros de se encontrar na grande cidade. Um pouco acima de sua sapataria, o barbeiro Muniz, sempre com seu jaleco branco. Aprecio o seu silêncio e seu capricho, fico ali sentado mais de hora enquanto ele realiza com a tesoura os contornos e os aparos. Cortei hoje, nunca sei se está de bom ou mal humor.
Mais acima, uma pequena loja com queijos de todos os tipos e origens. Lá no fim, antes da curva para a outra saída, o alfaiate Jessé, baiano de quatro costados, trabalha na sobreloja e faz do térreo um expositor de seu trabalho artesanal. Por certo nenhum deles deixará herdeiros, quando morrerem ou fecharem seus estabelecimentos. Terão seus lugares ocupados por alguma loja de celulares ou de apostas. Ainda há poucos meses havia em frente a alfaiataria uma lojinha de canetas com cargas recarregáveis. Eram dois irmãos e faziam até a tinta para canetas com pena. Os irmãos mantinham uma conversa muito agradável sobre as peripécias de seu negócio. Não durou muito e em um belo dia vi as portas fechadas. Não sei o motivo, me disse o zelador Barbosa, mas garantiu que era em definitivo. Dá para desconfiar sobre as razões, quem hoje em dia escreve à mão? E mais grave, quem escreve à mão com uma caneta diferenciada?
Agora,
aqui na mesinha interna do Alma, observo o seu Canuto sentado próximo à saída
da galeria com seu boné republicano, às falas com Barbosa, as pernas dobradas e
o cigarrinho de palha numa das mãos. Penso que leve a vida como um verdadeiro
existencialista: o que vale é o aqui e agora. Na verdade, provavelmente sem o
saber, ele representa um perfeito republicano espanhol existencialista, saído
dos anos 1930 direto para sua sapataria. Eu costumo lhe perguntar sobre a Guerra Civil Espanhola, ele me resmunga respostas. É outro que faz da voz um murmúrio
quase inaudível, ou começo a ter problemas de audição.
02 dezembro 2025
Entre feras e chacais
![]() |
| Não é Gaza, 2025; é Haifa, 1948 |
Gaza está às moscas, ninguém falava antes, ninguém fala agora. Surge no horizonte dos noticiários a intervenção na Venezuela. Até bem pouco tempo atrás, um descaramento diplomático, hoje, uma possibilidade natural. Etapa final do capitalismo, matar antes de morrer. A pergunta que não quer calar: até onde a camarilha republicana pode bancar isso? Qual o limite para o silêncio do mundo diante de ações absurdas desse naipe? Não sabemos. Aliás, sabemos pouca coisa. Quando o mundo se transforma em um faroeste de segunda linha, tudo é possível.
De sua parte, o junk journalism persiste, se renova, torna-se mais sórdido. Sua presunção fantasiosa não chama mais a atenção, do ponto de vista ético. As pessoas estão cada vez mais despreparadas para o embate humanista. De modo que a mentira se expressa como autêntica verdade, até que logo ali adiante, seja superada pelos fatos. É narrada em um tom formal, como se não houvesse outras interpretações possíveis para os acontecimentos; é elaborada nos mínimos detalhes (presumidos), não apenas distorcendo a compreensão da notícia, mas o que considero mais grave, construindo verossimilhanças que superem – e mesmo contradigam – os fatos.
Os filminhos de narrativa paralela, como Nárnia, com seus leões, feiticeiros e peregrinos, fizeram bem o serviço de deslocar as consciências para um outro plano e fazê-las sonhar. Enquanto isso, a leitura criminosa do junk journalism desbasta a floresta do mal, a serviço do chefe. Há que se ter muito sangue frio nas veias e uma boa dose de canalhice no caráter para se transformar em um chacal. O pistoleiro contumaz não se aflige, nem antes, nem depois: sua moral é matar antes de morrer, seu desejo é sobreviver como um herói. Aprende logo a apertar o gatilho, toma gosto dessa prática e depois só lhe resta dormir como um anjo.




