Chá nas Montanhas
Trató de escuchar la flauta, pero oyó sólo el viento contra sus oídos
25 fevereiro 2026
Morrer, viver, o romance
06 fevereiro 2026
Um futuro de lutas políticas
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| Felix Nussbaum, Der tolle Platz, 1931 |
As coisas se arranjam como
podem e a vida segue sem percalços. Particularmente não concordo com o
pensamento de que as coisas se arranjem por si, elas como circunstâncias se
vinculam e se desenvolvem de acordo com a ação humana, de modo que somos, eu
sou responsável pelos desdobramentos suaves e não menos vertiginosos deste
início de ano. No contexto internacional, o mundo segue a reboque de um canalha
sem escrúpulos, que se acredita um bom negociante. Com isso, atrela a nação
estadunidense aos seus caprichos, e por consequência, o mundo, ou parte dele.
Nossa esperança é a serenidade diplomática chinesa, que com a sabedoria de uma
cultura milenar, vai ajustando as arestas desse polígono desajustado,
conquistando espaço e... mercado. Acredito que quando os estadunidenses
despertarem desse pesadelo moral, político e econômico, será muito tarde. Para
nós aqui no Brasil, torna-se imprescindível a vitória eleitoral em novembro,
para que nossas políticas sociais, no campo interno, e nossa diplomacia, no
externo, consolidem um crescimento e mais além, uma nação autônoma e pujante. A
direita segue batendo cabeças, não dispõe de um projeto político para o país,
não tem envergadura para conduzir uma economia sofisticada como a nossa e o que
é pior, chafurda em seu conservadorismo de costumes que ameaça condenar nossas
conquistas sociais e culturais. Tudo em nome de princípios doutrinários de
duvidosa consistência moral. Apela para falsos discursos que nada ou pouco têm
de cristãos, e assim tenta avançar agitando a cruz de Cristo enquanto destitui
o povo de suas conquistas, de seus direitos, de suas verdadeiras crenças. Enfim, minha é a firme expectativa de
que a compreensão entre os seres humanos se restabeleça pela solidariedade,
condenando de uma vez por todas esse excesso de violência, de supremacismo, de execrável liberalismo.
(ao som de Makyoum Ghali,
Djeloui)
05 fevereiro 2026
Pesquisas em Memória
| O livro a ser lançado dia 9 |
Uma pausa em nossas preocupações com o mundo: na próxima segunda-feira, dia 9, nosso grupo de pesquisa, o Mnemon, lança Pesquisas em Memória, Comunicação e Consumo, no já conhecido Bar Balcão. São 21 autores, nem todos estarão presentes, que desfilam artigos referentes a suas pesquisas de pós-graduação ou textos elaborados ao longo das discussões realizadas, nestes mais de 10 anos de existência. Os textos abarcam temáticas variadas, do espaço urbano ao processo histórico, da saúde mental ao consumo de alimentos, da moda à cultura pop. Um momento significativo na história do grupo, em que estaremos juntos para retomar as muitas lembranças e reencontrarmos amigos e alunos da vida.
Venha participar desse momento e comemorar com a gente!
28 janeiro 2026
Entre céus e desertos
Um momento de desejada abstração: fechei os olhos e me deixei levar pelo silêncio da sala de espera da dermatologista. A música melodiosa, instrumental. Encostei a cabeça na parede e não demorou para visualizar o caravançará descrito em um dos meus contos, a profusão de cores, os desenhos nos tecidos, os macramês, as bolsas, os utensílios pensos nos imensos camelos em fila, mulheres e homens silenciosos, indiferentes ao sol abrasador... Cobriam-se com turbantes de linho que envolviam a cabeça e o rosto, avançavam ao ritmo balouçante de cada camelo, senhores de seu tempo... Logo a dúvida, não seriam figurantes de um conto de Bowles?... Seguiam por caminhos áridos sob o céu que os protegia, para abastecer o bazar que regurgitava de gente e mercadorias, oriundas dos vários cantos do deserto... Ou uma cena das memórias de Victor Serge em seu exílio, o caravançará atravessando as dimensões profundas da estepe da Ásia Central... Orenburg... e nas cercanias da cidade, o cemitério muçulmano, habitado por crianças abandonadas e bandidos à espreita de uma ocasião... Crianças e bandidos não se entendiam, disputavam as mesmas mercadorias, migalhas em um mundo cujo valor de troca dos furtos garantia a comida da sobrevivência...
19 janeiro 2026
Entre magos e demônios
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| Quatro magos comunistas |
O mês passa e mal nos damos conta. As festividades no início e a
viagem no meio fizeram de janeiro, até aqui, um tempo de sossego e desfrute.
Tudo isso à revelia dos transtornados acontecimentos políticos que varrem o
planeta, comandados pelo delirante Trump e sua camarilha. Depois do
sequestro de Maduro em plena Caracas, com a morte da guarda cubana (mas,
segundo informações, com elevadas baixas não confirmadas do lado
estadunidense), sobrevém o incêndio sem controle da Patagônia (segundo informes
vindos da Argentina, provocados criminosamente) e as ameaças do governo Trump
em atacar e tomar a Groelândia. Durma-se com um barulho desses, como diria meu bom amigo Kruger. Por isso tento
relevar essa tormenta diabólica com cinema e música ao lado de Moniquinha. No mais tudo muito bem, com minha mãe e minha irmã. Passo o
final do domingo em absoluto far niente, lendo e escrevendo, agora, depois do
banho, só de calção, em sintonia com o agradável do clima. O calor estava
implacável na semana passada e nos primeiros dias de litoral, felizmente amainou
bastante, as chuvas chegaram e hoje está maneiro. Fiz algumas correções
pontuais em Morrer, viver, com a esperança de conseguir publicar neste ano.
03 janeiro 2026
Um mundo sem regras
| Berkeley Protest poster, 1970 |
17 dezembro 2025
Tempo das hienas
Foi com
um gesto obscuro,
à borda de uma cova
saboreando os restos de uma ossada
que a hiena mais astuta
observou ao longe
o pavor dos outros animais.
Houve um breve momento,
a covardia misturada ao pavor,
que fez com que os animais, todos
apenas recuassem
e as hienas se sentissem convidadas,
um butim farto as aguardava
e aproveitaram a frágil organização
dos bichos, todos
que perderam o sangue frio,
o desejo de lutar.
Com sua mínima sensibilidade em interpretar o mundo
as hienas avançaram
souberam unir-se para devorar
as carnes de suas presas, todas
uma festança de grunhidos e uivos
e a floresta nunca mais foi a mesma.
(De um compêndio poético encontrado em meio às ruínas da civilização)
16 dezembro 2025
A caminho de Sófia
Mas voltemos ao trem que me levaria a Sófia. (...) Meus companheiros foram cinco, três búlgaros – mãe, filho e uma amiga dele, ao que pude perceber – e dois estadunidenses, com passaportes búlgaros. Eu isolado em meu português inútil, um estranho no ninho. Não desenvolvi nenhuma relação amistosa com meus companheiros de cabine, pois não tínhamos uma língua em comum, e porque cada grupo ficou na sua. Desde Istambul, levamos cinco horas e meia para atingir a fronteira com a Bulgária, e aí permanecemos parados por duas horas e meia. (...) Do outro lado da plataforma havia outro trem estacionado, e no meio, uma montanha de fardos de tecido manufaturado para serem embarcados. Os montes atingiam uns três metros de altura e se estendiam por toda a plataforma. Olhei para aquilo e por uma fração de segundo quis duvidar que tudo seria embarcado. De pronto me veio a lembrança daqueles trabalhadores eslavos em Istambul se esfalfando para colocar dentro dos ônibus e furgões seus pacotes de compras. Repetia-se o esforço, agora naquele lugar ermo, fronteiriço. (...)
Grupos de incansáveis ‘estivadores’ eslavos, vestindo uma simples camiseta sob um frio congelante, movimentavam-se diante da enorme barreira de fardos. Estava claro que cada grupo tinha uma carga delimitada para si, a sua mercadoria. Logo, começaram a carregar o quinhão que lhes pertencia para o outro trem. Letras em cirílico indicavam alguma coisa sobre a mercadoria, talvez estabelecendo a que grupo cada monturo pertencia. Eu me tornava um espectador privilegiado, assistindo tudo desde o começo. Aos poucos pude distinguir um grupo do outro e lá pelas tantas passei a entender o esquema da divisão do trabalho. Grosso modo, o importante era levar tudo para dentro do trem, por conta de algum prazo estabelecido. O ‘como fazer’ é que variava. Um grupo, que atuava mais à esquerda do meu campo de visão, era composto por um eslavo que controlava o carregamento realizado por turcos. Ele ficava ao lado do que lhe pertencia e à chegada de um carregador, ajudava-o a acomodar o fardo em suas costas, o enorme fardo! Pensei em minha mochila, achava-a pesada em seus 19kg e via aquelas ‘pobres mulas’ ajeitando fardos pelo menos duas vezes mais volumosos...
A sistemática era simples e dolorosa, o eslavo e o carregador catavam o fardo por um lado e sacudiam num movimento pendular até anularem a força de gravidade, quando o ‘chefe’ arremessava o pacotão em perfeita sincronia com a virada do carregador, que o recebia e o amparava em suas costas. Eram dois turcos a realizar esse trabalho de formiguinha, com o eslavo fiscalizando o encaminhamento e o embarque do material sem sair do lugar. (...) Mais à direita, o que me pareceu ser pai e filho transportavam seus invólucros de maneira mais usual e lenta: pegavam cada qual numa ponta e carregavam até a porta do vagão, onde outros dois recolhiam e ajeitavam os volumes em seu interior. Pai e filho iam e vinham em um movimento meticuloso, repetitivo, determinado. Às vezes o filho ficava uns minutos a sós – o pai saia de cena para resolver algum problema – e aproveitava para acender um cigarro. O frio enregelava os meus pés dentro da cabine, o que dizer da temperatura lá fora?... Talvez por isso todos trabalhavam sem cessar. De certa forma ali estava o ganha pão daquelas pessoas desafortunadas por injunções políticas, pela incompetência de dirigentes que não assumiam suas responsabilidades perante seus povos. Aqueles, à minha frente, não tinham tempo a perder com esse tipo de raciocínio, por isso continuavam a trabalhar duro.
Aos poucos se juntaram em torno desses dois grupos iniciais outros sujeitos corpulentos, que já deviam ter concluído seus trabalhos alhures e ajudaram no transporte com as mercadorias. O monturo foi diminuindo, até que os derradeiros invólucros foram embarcados. Ao final, formaram rodinhas de três, quatro, e fumaram, gargalharam, moveram-se como cães de caça para um lado e para o outro, como se não soubessem ficar sem ter o que fazer. Mas deviam estar satisfeitos por mais uma etapa vencida. As cabinas do outro trem estavam repletas de mercadorias, as mulheres ficaram nos corredores organizando o fluxo de pacotes. Pensei um pouco sobre a minha situação: completamente isolado em uma cabine desaquecida, à mercê do movimento do trem para retomar a viagem. Não havia a quem reclamar. A mais pura impotência me instruia em um duro aprendizado, saber suportar uma adversidade fora do meu controle. Não havia o que fazer, a não ser resistir como corpo e consciência. Demorou para o trem partir (o deles; o nosso permaneceu imóvel por um longo tempo) e, como se tudo estivesse perfeitamente sincronizado, começou a chover.
(Diários de viagem, março de 1994)




