28 outubro 2008

O tempo que escoa...


Viver a vida é projetar ilusões e acreditar que de alguma forma, em algum momento, as vivenciaremos. Meu avô passou a vida acalentando a esperança de reaver sua rádio; meu pai buscou se aproximar por todos os modos da imagem incerta e fugidia da mãe que não conheceu; meu tio perseguiu o emprego que lhe daria a grana necessária para viver bem, e assim por diante. Não podemos viver sem uma expectativa de realização, seja a compra de um carro ou a crença no triunfo do socialismo. Isso nos redime do acúmulo dos pequenos fracassos, que se sucedem de maneira exasperante, ainda mais sob a tensão e cobrança do mundo líquido moderno em que vivemos. A resposta tem de ser dada, se não em atos consolidados, ao menos com um rebotalho de desejos presumidos.

E assim tocamos o encargo da vida, com algumas alegrias e seguidas frustrações. Daí ser importante nos envolvermos com um sonho, com um encanto e persegui-lo de todos os modos, maquiando a obsessão dessa busca com os eventos corriqueiros, que nos dão fôlego para amenizar o sofrimento. Certas buscas se dão numa plataforma imponderável: se me encontro à deriva no mundo, procuro me confortar com o resgate de uma identidade cada vez mais esquiva. Se minha condição humana me oprime, me envolvo a viagem das próximas férias, ou, de maneira mais simples, vou ao shopping para comprar o presente de aniversário do filho de um casal amigo. Como diz Ortega y Gasset, não interessa ao ser humano que suas idéias não sejam verdadeiras, emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida, como espantalhos para afugentar a realidade.


No entremeio entre saborear um projeto e degustar sua irrealização, nos abandonamos, como disse, aos eventos corriqueiros, às realizações banais que nos distraem, como o futebol do domingo à tarde ou a novela de todos os dias, e não raro, nos acostumamos com a distração da vida. Minha avó se entreteve por décadas com o crochê, minha mãe ainda se ocupa com a organização da casa. Eu, durante um longo tempo, optei por não me incomodar com outra coisa senão viver nas minúcias. Sucumbi aos bocados à suave letargia que não cobra nada, apenas as reações práticas pela sobrevivência. Poupava-me dos dissabores e tal como o escrivão Bartleby, preferia não apreender o mundo ao redor. Nada parecia impedir o fruir desinteressado de minha vida, até que um dia a paixão me restabeleceu para os sonhos da vida.


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