24 setembro 2016

O espírito da Casa Grande

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Vivemos o tempo de um governo medíocre. Seu caráter não permitirá nem em sonhos a chamada 'integração do país', expressa pelo golpista mor, porque o espírito deste governo é a arrogância do grande latifúndio, que marcou a vida social, política e econômica de nossa terra desde o começo. O latifúndio em sua feição mais rude no modo de produção, a terra explorada com mão de obra barata e sem direitos; o latifúndio em sua autossuficiência secular, imerso na tristeza de seu silêncio e de seu isolamento.

Não podemos esperar nada deste governo além da expressão de sua mediocridade.



23 setembro 2016

O Barroco e a mestiçagem

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Cansado mas feliz, renascido como educador e cidadão por Gilberto Freyre e os debates atentos de queridos alunos, dispostos em dar respostas críticas a nossa realidade social. 

É o embate das ideias na sala de aula, a reflexão sobre a nossa formação, o desejo em compreender o mundo que nos cerca, tudo o que nos querem calar. 

Falamos das ideologias dominantes sem medo, ousamos compreender nossa mestiçagem pelo abuso dos direitos, reencontramos a feitura barroca de nosso insólito realismo maravilhoso.



18 setembro 2016

Sobre a Casa Grande e Lampião




Cunha livre, Lula perseguido até ser preso e se podemos compreender os signos das cartas marcadas, o quanto antes. Trata-se de uma ação promovida pelos seculares interesses classistas, incorporados por procuradores embevecidos pelos quinze minutos de sucesso que a mídia corporativa se dispõe a oferecer. Como se o lamurio eugenista de um Nina Rodrigues ou Oliveira Viana ecoasse, determinando a pouca capacidade mental e física dos mestiços. Nosso quintal brasileiro mais uma vez sob o controle impune de mãos corruptas, brancas, machistas, não mais que um punhado de farsantes da Casa Grande. As breves e ainda não consolidadas conquistas de uma população secularmente abandonada, para estes feitores, devem ser esconjuradas e em seguida eliminadas. 

Esse é o bom quintal, quieto e manso, administrado com competência, enquanto a perene miséria da desigualdade social se perpetua. Lá está, no livro Casa Grande e Senzala o registro de Gilberto Freyre: "Era uma dieta, a da Bahia dos Vice-reis, com os seus fidalgos e burgueses ricos vestidos sempre de seda de Gênova, de linhos e algodão da Holanda e da Inglaterra e até de tecidos de ouro importados de Paris e de Lion; era uma dieta, a deles, em que na falta de carne verde se abusava de peixe (...)". E quanto ao restante da população, "surpreende pela má qualidade (nutricional): pela pobreza evidente de proteínas de origem animal (...) pela falta de vitaminas, de cálcio e de outros minerais (...)". É o que desejam como nosso direito, que sobrevivamos em meio ao silêncio e à miséria.

Mas há também uma outra opção, demarcada pelo não menos maravilhoso Graciliano Ramos, quando se refere a Lampião: "Como somos diferentes dele! Perdemos a coragem e perdemos a confiança que tínhamos em nós. Trememos diante dos professores, diante dos chefes e diante dos jornais; e se professores, chefes e jornais adoecem do fígado, não dormimos. Marcamos passo e depois ficamos em posição de sentido". E mais adiante complementa, ao consolar-nos com a ideia de que estão por aí outros Lampiões, e "quando descobrirmos o Brasil, eles serão aproveitados". Contra os mantras da hipocrisia que se atropelam vertiginosamente, a coragem de não nos conservarmos inúteis perante a história.


05 setembro 2016

Fomos milhares nas ruas!

 
 


Ainda uma vez a população saiu às ruas pedindo Fora Temer! Não só movimentos sociais ou coletivos culturais e políticos, mas representações dos vários estratos sociais, das diversas regiões da metrópole. Algo diferia em relação às mobilizações anteriores, uma convicção em assumir as ruas, desejo de compartilhar publicamente a profunda indignação que esse governo golpista promove. 

O que percebi foi uma variedade grande de tendências, mais à esquerda claro, de gente mais velha a jovens das periferias, dentro de um arco amplo de partidos representado por intelectuais e congressistas, e ficou a impressão, não só pelas evidências ao vivo, mas pelas repercussões nas redes sociais, que a luta deverá se prolongar e a engrossar as manifestações das ruas. 

Facilita esse sentimento a truculência da polícia militar e o distanciamento do governo ilegítimo aos anseios populares, uma vez que ele se instalou movido por outros propósitos, que se explicitam a cada dia. Sumiram os parlamentares que urravam pelo impedimento da Dilma, sumiram as análises catastrofistas da crise na mídia corporativa, sumiram os patos sagrados da Fiesp em defesa do sagrado direito do capital. 

Enfim, sumiram todos os canalhas a serviço do golpe, incluindo idiotas menores como os lobões, os frotas, os kataguiris, os gentilis, açuladores via mídia do medo e da bestialidade intelectual. Com o terreno minado, o sentimento republicano foi presa fácil da banalidade proporcionada por uma sucessão de capitães do mato, agora recolhidos à sua mísera insignificância.

Ficam as belas imagens de uma tarde-noite de mobilização e ativismo popular.

  








03 setembro 2016

A vigência do autoritarismo


Concentração do ato contra os cortes em saúde e educação nesta segunda (17), no vão livre do MASP, em São Paulo (SP) - Créditos: Rute Pina/Brasil de Fato
Los que mueren por la vida, no pueden llamarse muertos
Y a partir de este momento, es prohibido llorarlos
(Ali Primera)


No ótimo livro de Paula Beiguelman, 'O Pingo de Azeite: a Instauração da Ditadura', em determinado momento acompanhamos a pressão militar ao deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, por seu discurso 'Lisístrata', aludindo ao exército. O Congresso, marcadamente constituído por deputados arenistas, pró-governo, deliberaria em votação sobre a questão, sob forte pressão do regime. Assim descreve a autora sobre os fatos ocorridos em 12 de dezembro de 1969:

"O ambiente no país era de franca contestação ao regime (...) E então, no dia 12 de dezembro, a Câmara dos Deputados fazia sua histórica votação, recusando a licença para processar o deputado. Era uma votação pelo estado de direito e em defesa da instituição parlamentar, e contra o ministro da Justiça e os extremados, partidários do endurecimento, condenado aliás pelos setores mais expressivos das forças armadas".

O resultado foi o ato institucional mais violento da ditadura, o AI-5. O que parece interessante realçar aqui são dois aspectos: 1) Os deputados votaram alinhados aos anseios populares e 2) Os deputados não aceitaram as fortes pressões do regime e votaram soberanos, mesmo sabendo que desencadeariam a ira de Hades.

A plena vigência do autoritarismo militar tratou de eliminar os traços da representação cívica no parlamento (1) e, pior, a instauração de um poder suscetível às vantagens pessoais (2). O poder avassalador da repressão nos dez anos subsequentes restabeleceriam a arbitrariedade e a intolerância peculiares da casa grande, cujas raízes profundas negam, estas sim, nosso desenvolvimento como sociedade livre, soberana e justa.

(Texto modificado (acréscimo de legenda na foto) em 05.03.2017).



02 setembro 2016

Manoel Bomfim

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Faz muito pouco tempo que entrei em contato com as ideias de Manoel Bomfim, não mais do que cinco anos. Foi mais ou menos na altura do relançamento de seu A América Latina - Males de origem, que passou a integrar minha biblioteca latino-americana. Fiz algumas consultas, lendo pequenos trechos, sem avançar na obra.

Foi neste semestre, graças a um texto de Antonio Cândido, Radicalismos, que retomei Bomfim. Na verdade, inclui o texto no plano de aulas da disciplina que leciono, Filosofia Ética e Contemporaneidade, e por fim me empenho em discutir com os alunos um pouco de suas ideias, como diz Cândido, tão impressionantes para sua época. A articulação de suas ideias é bastante avançada, em especial seu questionamento sobre as ideias então vigentes do pensamento evolucionista. Rechaça os argumentos de inferioridade atribuídos às populações de origem da América Latina - como os incas e aztecas - e aos negros, o malfadado conceito dos mestiços como raças degeneradas. 

O mais emocionante, e onde encontro forte identificação, é quando Bomfim fala da espoliação de nossas terras, "a conduta das grandes nações civilizadas para com os povos fracos, estabelecidos em territórios férteis, tem sido uma só, única e invariável: agredi-los, tiranizá-los, ou destruí-los quando não é possível reduzi-los a colonos dóceis", argumento bastante contemporâneo, que poderíamos associar ao conceito da dependência defendido pelos 'próceres da privatização', Fernando Henrique Cardoso e José Serra. 

Para Antonio Cândido, Manoel Bomfim chega ao limite do que considera ser um radical. Conforme o texto, Bomfim tinha consciência profunda sobre "a marginalização do povo, o perigo imperialista, a mentalidade espoliadora em relação ao trabalho, visto como prolongamento da escravidão", ou seja, ela sabia das condições miseráveis da população, da ameaça dos países mais poderosos (imperialistas) às riquezas do Brasil e a exploração do trabalho escravo pelas elites. 

Toda essa consciência, na compreensão de Antonio Cândido, permitiria que Bomfim avançasse em suas ideias, agindo não só apenas como um intelectual radical, mas como um revolucionário. Mas, como vemos no texto, "as conseqüências revolucionárias se atenuaram em benefício de uma visão ilustrada, segundo a qual a instrução seria remédio suficiente para redimir as massas". Ou seja, o radicalismo de Bomfim não teve consequências na prática, ficou apenas descrito em seus textos, acreditando que as massas poderiam se influenciar e se mobilizar a partir de suas ideias.

Manoel Bomfim não era propriamente 'um excluído', tinha formação eclética, sofisticada, e atuava também como médico. Mas teve a sensibilidade de perceber a realidade de seu povo, tal como Joaquim Nabuco, outra das personagens brilhantemente analisadas por Cândido em seu texto, da qual falarei em outra ocasião.