29 janeiro 2024

Por que cantamos - Benedetti


Gilberto Gil cantando


Por que cantamos


Se cada hora vem com sua morte

se o tempo é uma cova de ladrões

os aires já não são os buenos aires

a vida é nada mais que um alvo móvel


você perguntará, por que cantamos


se nossos bravos ficam sem abraço

a pátria morre de tristeza para nós

e o coração do homem se faz pedacinhos

antes ainda que exploda a vergonha


você perguntará, por que cantamos


se estamos longe como um horizonte

se por lá ficaram árvores e céu

se cada noite é sempre alguma ausência

e cada despertar um desencontro


você perguntará, por que cantamos


cantamos porque o rio está vibrando

e quando vibra o rio/vibra o rio

cantamos porque o cruel não tem nome

e em vez disso seu destino tem um nome


cantamos porque a criança e porque tudo

e porque algum futuro e porque o povo

cantamos porque os sobreviventes

e nossos mortos querem que cantemos


cantamos porque o grito não é bastante

e não é bastante o choro nem a bronca

cantamos porque cremos nas pessoas

e porque venceremos a derrota


cantamos porque o sol nos reconhece

e porque o campo cheira a primavera

e porque neste tronco e naquele fruto

cada pergunta tem sua resposta


cantamos porque chove sobre o sulco

e somos militantes da vida

e porque não podemos nem queremos

deixar que a canção se torne cinzas.


Traduzido do original em espanhol Por qué cantamos, de Mario Benedetti. 

Antología Poética, Alianza Editorial, 2008.



19 janeiro 2024

Gaza, Argentina (ou a culminância do fracasso humano)

 


O governo Milei divulgou nesses dias a inflação anual na Argentina, que chegou a 211%, a maior do continente, superando a da Venezuela, que ficou em 193%. Não pude reprimir um sorriso de ironia, menos de satisfação - pois sigo admirando a Argentina de Alfonsina e Maradona. Como são estapafúrdias as soluções mágicas desse neoliberalismo tão assanhado quanto infeliz, que despreza o bem-estar social e vem sempre animado por infindáveis analistas políticos e econômicos que se atropelam e nunca conseguem justificar uma linha dos planos econômicos que anunciam o flagelo. Uma caravana de insensatos.

Tanto mais terrível ao ver os esforços de Milei para coibir a grande manifestação política marcada para 24 de janeiro, prometendo punições aos funcionários públicos que faltarem ao trabalho. As centrais sindicais também foram avisadas das multas milionárias por organizarem a greve geral. Fico pensando das consequências internacionais se fosse Maduro quem tivesse condenado uma mobilização da direita, nos termos de Milei! Ataque aos direitos trabalhistas - salários congelados nesse momento de hiper-inflação; restrição aos direitos cívicos; privatizações das empresas nacionais, superavitárias ou não; majoração dos preços do transporte público, dos produtos da cesta básica, da energia elétrica, do gás de cozinha, da gasolina; fim completo dos subsídios para com as empresas prestadoras de serviços... 

Antes disso, nesta semana Milei esteve no convescote empresarial-financeiro das montanhas da Suiça, Davos, e pelo teor de seu discurso de 23 minutos, foi tentar prestar contas aos seus senhores. Nenhuma análise do quadro econômico de seu país, tampouco nenhuma referência ao drama de seu povo, que tem mais de 40% abaixo da linha de pobreza. Sua fala foi um ramerrão repetitivo sobre as virtudes do capitalismo empresarial, que alternava com os temores de uma hipotética penetração socialista nas instituições. Condenou ainda uma vez a existência do Estado como entidade reguladora do bem-estar social, condenou o coletivismo ao tempo que enaltecia o individualismo produtivo e a ambição. No fundo, um discurso de uma tristeza profunda, que mesmo com aquele público seleto e bem-fornido, não deve ter despertado profundas simpatias. Milei não é carismático, é antes um sujeito perdido em sua solidão libertariana, procurando ser um bom discípulo do laissez-faire de Chicago (Milton, o nome de um dos seus cães) e de economistas como Rothbard (cujo prenome, Murray, nomeia outro dos seus cães). 

Sua vitória em dezembro significa um ataque frontal e sem escrúpulos das corporações transnacionais: as reformas que ficaram para trás no governo Macri, serão retomadas com toda a força neste governo Milei. A respeito da hegemonia econômica e política, conforme Eduardo Basaldo em seu livro Endeudar y Fugar: 'en última instancia, la intención es poner en marcha una modificación de la naturaleza del Estado que permita aplicar una nueva política económica (...) con el propósito de consolidar la dominación del capital sobre el trabajo (...)'. A chamada Ley Ómnibus, que segue sendo analisada nas comissões de deputados, tem prazo para ser votada, dia 25 de janeiro. Significa dizer, ação impositiva, veloz e avassaladora tanto quanto possível, não oferecendo possibilidades de discussão do pacotaço, que atinge todas as áreas da vida do cidadão argentino. Não há mais limites para a desfaçatez, apoiada de modo insofismável por outras instâncias do poder real, a mídia, as corporações financeiras, a justiça, os próprios representantes do poder legislativo...

Sofremos algo similar em 2016, com a ascensão de Temer e sua trupe de salteadores, e que culminou no absurdo chamado Bolsonaro. Porém, a pujança da economia e uma certa resistência em setores da inteligentsia brasileira, mesmo nesse período de decisões esdrúxulas, conseguiu impedir a destruição programada. Não sei se os argentinos estarão aptos a rechaçar essa poderosa ameaça, não de Milei, a marionete de plantão, mas dos que comandam os fios, e que parece, estão decididos a levar adiante o espetáculo da miserabilidade capitalista. 

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Tenho visto alguns vídeos realizados na precariedade de Gaza, como os de Motaz Azaiza, que descrevem a desolação do território palestino. Sua energia é algo exemplar, sempre circulando ao lado de ruínas, áreas demolidas, ruas congestionadas, crianças esfomeadas que engrossam o número de pessoas desassistidas, que se deslocam de um lado para o outro em busca de segurança e alimentação. Enquanto isso, a União Europeia e os Estados Unidos fazem de conta que não existe morte e destruição em Gaza. Aqui e ali, a manifestação isolada de um deputado, ou um intelectual de esquerda, ou manifestações com boa participação, mas que não têm qualquer peso na balança das decisões. Netanyahu tem as mãos livres, e cheias de sangue, para prosseguir quanto quiser, à maneira que desejar. Mais de 24 mil palestinos foram mortos, e a contagem não para.

O pior de tudo é que não há esperança para a causa palestina. Quando essa ofensiva israelense terminar, e isso levará meses, não existe qualquer chance da formação de um Estado palestino, e isso Netanyahu reiterou nestes dias. O que será de Gaza destruída? Seguirá isolada e bloqueada, sem qualquer autonomia, sem qualquer plano de desenvolvimento social, sem qualquer investimento externo? O que foi feito com a infraestrutura, hospitais, escolas, creches, comércio, locais de trabalho, de entretenimento? Quem estenderá a mão aos palestinos? Ou Gaza será permanentemente ocupada, com direito a novos assentamentos judeus? Tudo é muito triste, e vejo uma certa continuidade ostensiva e determinante de uma nova ordem de violência do neoliberalismo, uma violência de intensões, que elimina o oponente, que não se constrange em transgredir, que não deseja respeitar a não ser seus próprios e grosseiros interesses, de algum modo descartando gente, e nesse sentido, representando a culminância do fracasso humano. 

É provável que desde o 11 de setembro essa nova ordem vem sendo gestada, cada vez mais histérica, acintosa, mesquinha em sua essência, mas quem está aí para isso? 

(atualizado em 08.02.2024)



09 janeiro 2024

Terra Devastada, a peça (3)


Tal Alzatar não se rendeu, Ismail Shimmout

Já está em edição meu texto dramatúrgico, Terra Devastada, que sai até o final deste mês, pela editora Caravana. Os duros enfrentamentos que persistem em Gaza há mais de três meses, com a morte de mais de 20.000 palestinos, faz de minha peça um inesperado libelo contra a violência desatada pelas FDI. Cerca de 9.000 crianças, uma a cada dez minutos, segundo a ONU, foram assassinadas até aqui, mais crianças nestes 90 dias em Gaza, território de 365 quilômetros quadrados, do que em 700 dias na Ucrânia, sob a mais completa indiferença dos líderes da União Europeia e dos EUA. 

Os sionistas se movem com toda a liberdade de ação, e cometem toda espécie de brutalidade no território palestino. Minha peça é anterior a todo esse despautério do governo israelense. Começou a ser escrita há 40 anos e aborda os eventos de Sabra e Chatila, e mais tarde as ofensivas aéreas da Operação Margem Protetora. A ação dramática de Terra Devastada é um passeio no parque diante das atrocidades verificadas nestes dias. Minha intenção foi considerar com leveza e seriedade o ponto de vista palestino, e me parece que o resultado final da peça é bastante satisfatório. 

As informações midiáticas sobre as operações israelenses, na maioria dos casos, é patética, parcial e muito distante do que de fato ocorre. Em outras palavras, discute-se o alcance das operações militares e seus possíveis objetivos, como se fosse um jogo de diplomacia da Grow, sem se considerar a tragédia humanitária que afeta mais de dois milhões de pessoas. Um horror tão completo, que mais parece um entretenimento virtual de destruição e morte. Um game em tempo real, com alvos reais. Nada detém a máquina de destruição de Netanyahu, simples assim. 

A imagem acima, de Ismail Shimmout, ilustra a capa de meu livro. Não consegui o prefácio que desejava, ainda que consultas tenham sido feitas com mais de um autor. As negativas não surgiram por receio ou divergências políticas, mas pelos inúmeros compromissos profissionais nessa época do ano, que impossibilitaram um texto de apresentação mais criteriosa sobre a minha peça. O volume termina com uma nota do autor, uma rápida análise da conjuntura política atual. Talvez tenha sido melhor desse jeito. Um sentimento de satisfação e dever cumprido me envolve calidamente ao ver este trabalho finalmente concluído.