31 dezembro 2014

Transitórias ponderações

!no estamos conformes!


O último dia do ano segue como um barco em alto mar, flutuando ao sabor do acaso, onde o céu imenso se confunde com o mar, outrora inquieto e que por ora refulge a luz coroada de pequenas inconstâncias e que se esparge pelo caminho. O brilho que nos aquece e nos dá conta da mansidão da água, do silêncio de fundo à sonoridade marítima, do balouçar a deslizar nas ondulações, o sol a pino, a brisa que aporta os rumores abafados, as acrobacias dos atobás, navega-se com as certezas dos dias anteriores e de acordo com as possibilidades do presente. As ausências estimulam a rememoração, assim como a consciência de mundo nos solicita a ação. As conquistas não são feitas do sucesso, mas do equilíbrio, o que nos salvaguarda da autossuficiência, tão dourada quanto inconsequente. Este ano foi de conquistas duras, obtidas ao longo de muita entrega, mas o discernimento das dificuldades não encobriu a importância de se pensar na continuidade, na reflexão do que está por vir. Compreender que os esforços não se encerram na caminhada individual, mas se prolongam e ganham sentido no bem-estar coletivo. A farsa da ilusão ou da mentira, muito presente nesse tempo de interesses mesquinhos, não se sustentam perante a consciência política. O encanto da realidade da vida cotidiana não se esgota na reprodução do espetáculo.

        

21 dezembro 2014

César Vallejo


A primeira vez foi na segunda metade dos anos 1990, quando cumpria meu mestrado na PUC, que ouvi seu nome na fala do querido professor Amálio Pinheiro. Não saberei dizer se foi em uma aula, em uma conferência ou em uma conversa informal entre pesquisadores. Mas guardo a emoção de suas palavras, ao citar a poesia de Vallejo. Para mim, na época, a configuração da poesia latino-americana e o conceito de Pátria Grande faziam pouco sentido, ainda que me calasse fundo sua arguição sobre a força de nossa mestiçagem. Em minha banca de qualificação, não compreendi o alcance de sua sugestão ao tentar me fazer ver que a leitura do universo simbólico, espacial e psicológico do filme São Paulo Sociedade Anônima, meu objeto de pesquisa, seria mais natural partindo de uma interpretação latino-americana, Lezama Lima, Carpentier, César Vallejo, em vez de Sartre. Sua inquieta explanação não conseguiu me persuadir. Já naquele momento teria sido fascinante envolver-me com as teias da magia poética que recobre um continente. Talvez eu pudesse deixar um pouco de lado a rispidez da fenomenologia europeia e me deliciar com o realismo maravilhoso. Amálio, curtido pelos imaginários que designam "o lar, a mãe, as paisagens andinas, a fome, a injustiça essencial da vida humana",  por certo anteciparia o meu caminho. Como sempre, uma questão de perdas e ganhos. 

Para escrever esta postagem, me inspiro nesta breve antologia poética de César Vallejo, publicada pela Alianza Editorial, com um detalhado prólogo de José Miguel Oviedo, com a qual vou e volto no universo da poética vallejiana, a construção marcada por três momentos distintos, Trujillo, Lima e Paris, uma obra que sofreu por parte de críticos, compiladores e pesquisadores "a mais intensa manipulação (...) de que se tenha memória em nossa literatura". Mas Miguel Oviedo também destaca duas importantes virtudes da sua poética, "uma nova e outra bem conhecida: sua agônica e profunda compreensão da complexa natureza dos fenômenos históricos que envolvem o homem, e sua inesgotável capacidade de invenção verbal para registrá-los tal como passavam diante de si, mas ao mesmo tempo como se passassem ante nós mesmos". Essa 'experiência universal' o leva a militar pela causa republicana na guerra civil espanhola, porém sua opção ideológica não o cega diante da condição humana, "a ação é a consequência imediata do sentimento de solidariedade". 

Gostaria de destacar, no original, trechos de dois poemas representativos da obra de César Vallejo, primeiro Trilce e depois, España, aparta de mí este cáliz. Para sentir o pulsar inclemente de suas palavras, "o não haver sido senão mortos sempre"

LXXV

"Estáis muertos.

Que extraña manera de estarse muertos. Quienquiera diría no lo estáis. Pero, en verdad, estáis muertos.

Flotáis nadamente detrás de aquesa membrana que, péndula del zenit al nadir, viene y va de crepúsculo a crepúsculo, vibrando ante la sonora caja de una herida que a vosotros no os duele. Os digo, pues, que la vida está en el espejo, y que vosotros sois el original, la muerte.

Mientras la onda va, mientras la onda viene, cuán impunemente se está uno muerto. Sólo cuando las aguas se quebrantan en los bordes enfrentados y se doblan y doblan, entonces os transfiguráis y creyendo morir, percibís la sexta cuerda que ya no es vuestra.

Estáis muertos, no habiendo antes vivido jamás. Quienquiera diría que, no siendo ahora, en otro tiempo fuisteis. Pero, en verdad, vosotros sois los cadáveres de una vida que nunca fue. Triste destino. El no haber sido sino muertos siempre. El ser hoja seca sin haber sido verde jamás. Orfandad de orfandades.

Y sinembargo, los muertos no son, no pueden ser cadáveres de una vida que todavía no han vivido. Ellos murieron siempre de vida.

Estáis muertos".


Batallas
(IV)

"Los mendigos pelean por España,
mendigando en París, en Roma, en Praga
y mendigando así, con mano gótica, rogante,
los pies de los Apóstoles, en Londres, en New York, en Méjico,
Los pordioseros luchan suplicando infernalmente
a Dios Santander,
la lid en que ya nadie es derrotado.
Al sufrimiento antiguo
danse, encarnízanse en llorar plomo social
al pie del individuo,
y atacan a gemidos, los mendigos,
matando con tan solo ser mendigos.

Ruegos de infantería,
en que el arma ruega del metal para arriba,
y ruega la ira, más acá de la pólvora iracunda.
Tácitos escuadrones que disparan,
con cadencia mortal, su mansedumbre,
desde un umbral, desde sí mismos, !ay! desde sí mismos.
Potenciales guerreros
sin calcetines al calzar el trueno,
satánicos, numéricos,
arrastrando sus títulos de fuerza,
migaja al cinto,
fusil doble calibre: sangre y sangre.
!El poeta saluda al sufrimiento armado!"

     

30 novembro 2014

Consolidação democrática

a parcialidade midiática já não é mais suficiente para decidir eleições

Em um primeiro momento, logo após as eleições, confesso que fui tomado pelo desgosto que ameaçava a compreensão serena dos fatos. A sucessão de acontecimentos não foi fácil, sobretudo para os que temos de enfrentar as notícias midiáticas ao longo de todos estes anos de governança, mas as semanas que se sucederam à reeleição de Dilma foram difíceis ao extremo. A absurda matéria de capa da Veja, nas vésperas das eleições, sem chances para o direito de resposta à altura, ameaçou a serenidade do processo eleitoral. Depois, talvez menos por este motivo, a vitória arrancada a fórceps, no derradeiro momento, sobrevindo ao longo dos dias seguintes a reação virulenta dos derrotados nas redes sociais, com a multiplicação assustadora das reações xenofóbicas que já havíamos presenciado em 2010. Para inflamar o delicado momento, os discursos inconformados de uma parte da mídia que acusava o golpe da derrota, investindo com força redobrada em argumentos pesados contra o PT, e confesso, não foi fácil ver e ouvir tantos Mervais atarantados. 
Ao mesmo tempo que fortes investidas brotavam das redações, elas expandiam-se naturalmente nas falas de líderes políticos derrotados, ou vice-versa, e não era difícil imaginar que desta feita a estratégia havia sido coordenada para reproduzir uma versão tropical do Tea Party estadunidense, ameaçando a impasse político e consequentemente, a ingovernabilidade. E sucederam-se os primeiros movimentos de parcela da sociedade civil, atendendo a convocatória da oposição, alimentada pelo rancor inercial da derrota, a avenida Paulista ocupada por cerca de 2000 pessoas clamando furiosamente uma mistura de impeachment de Dilma e a volta dos militares. No alto dos carros de som, personagens como Lobão, pobre Lobão, e Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, modelos mais acabados de um fascismo inacabado que insiste em vicejar. 

Foi o correr do tempo mais o equilíbrio nos atos das pessoas serenas que permitiram com que as coisas retornassem à aparente sensatez. Ontem, não mais de 600 desses protofascistas sacudiram seus cartazes contra os mesmos alvos, Dilma, Cuba, o comunismo, além de loas renovadas aos militares. Pessoas que apenas demonstram a absoluta falta de noção histórica, ao não compreenderem que não só Cuba e o comunismo não estão mais aí para assustar seja quem for, como os próprios militares rechaçam qualquer apoio a um tresloucado regresso ao poder. Como se não bastasse, o próprio desejo pelo impeachment se vê cada vez mais abandonado pela força dos acontecimentos, já que não existe qualquer base legal que se possa utilizar para tocá-lo avante. Em suma, deste primeiro mês de turbilhão pós-eleitoral, prevalece a serenidade de quem soube respeitar o caminho da democracia e o desgaste dos desesperados, que não desistirão no anseio por atalhos.

O percurso da presidenta Dilma se consolida com o passar dos dias, nem tão maravilhoso como sonharia um militante petista tradicional, nem tão agourento como desejaria a mídia hegemônica. A equipe do novo governo surge aos poucos, e ao meu ver, com a sobriedade de quem sabe perfeitamente das dificuldades que haverão de surgir, principalmente no âmbito econômico. Mas sinto que a política que diferencia este governo de 12 anos, pautada nos avanços sociais, permanecerá inabalável. Isso é o que verdadeiramente conta, a transformação do Brasil pelas bases sociais, com mais acessos à cidadania. Ao assistir na semana passada a conferência de Thomas Piketty, ficou claro que não há no momento outro objetivo senão perseverar neste caminho, se possível aperfeiçoando-o com mais distribuição de renda, no caso, oriundas das grandes fortunas. Ao longo de todas as recentes tormentas que mobilizaram principalmente intolerantes emoções e tentaram macular o desdobramento natural da vida política da nação, saio convencido de que nossa democracia está fortemente arraigada e em contínuo desenvolvimento. Em outras palavras, não há como temer por um tenebroso retrocesso, desses que só as mentes mal informadas sobre nossa história persistem em alimentar.


          

18 novembro 2014

Reencontro com J.P.Sartre


Uma vez mais permaneço três semanas distante, sem uma única postagem. Não tem justificativa, não posso alegar sequer o cansaço emocional decorrente das eleições ou os compromissos acadêmicos. Os temas se sucederam de modo abundante, e por diversas vezes o desejo foi grande de registrar uma crônica. No meio de tantos fatos políticos, que por certo estarão presentes em intensa análise nas próximas postagens, acabei me envolvendo com uma pesquisa para a elaboração de um texto que me foi solicitado por uma revista eletrônica. A partir do tema 'Fronteiras', decidi fazer uma leitura sartriana sobre o intelectual moderno e sua responsabilidade social. Seria esta a fronteira a ser desbravada, aspectos como a necessidade de ruptura com a falsa universalidade de sua compreensão burguesa de mundo. A princípio, enveredei pela leitura do opúsculo Em Defesa dos Intelectuais, de 1965, e avancei na conferência Função do Intelectual. Busquei uma relação com a farsa dos analistas contemporâneos, ditos intelectuais, que forjam análises e métodos particularistas, em defesa de seus interesses corporativos, e que são apresentados como posturas universalistas. São os falsos intelectuais, como dirá Sartre, antes de tudo, uns vendidos.

Mas não me foi suficiente. Sabia que dispunha de arquivos das minhas pesquisas de mestrado e para eles me dirigi. Encontrei uma pasta verde, nomeada Projeto São Paulo S/A e em seu interior, revolvi um mundo! Súbito retomei contato com anotações densas, que realizei a partir de inúmeros textos de fenomenologia e existencialismo, como por exemplo os apontamentos de toda a primeira parte do livro de Paulo Perdigão, Existência e Liberdade, onde ele faz uma análise muito didática d'O Ser e o Nada. As anotações preenchiam um caderninho, e havia muito mais. Folheei um denso fichamento da obra mestra de Sartre, O Ser e o Nada, vinte e seis páginas de caderno universitário, condensando a leitura de mais de 150 páginas da obra. Registros valiosos cujos conceitos destacados certamente foram por mim incorporados na prática cotidiana dos últimos quinze anos, conceitos como a má-fé, transcendência, o homem sincero, temporalidade, reflexão - "Mas a reflexão pura continua a descobrir a temporalidade apenas em sua não-substancialidade originária; em sua negação de ser Em-si, descobre os possíveis enquanto possíveis, suavizados pela liberdade do Para-si, revela o presente como transcendente e, se o passado lhe aparece como Em-si, ainda é sobre o fundamento da presença"... - desdobrando as distinções do Para-si e do Em-si. Lembrei que as dificuldades iniciais não me impediram de seguir na leitura das complexas argumentações da dialética sartriana, nesta que ainda é tida como uma obra difícil. Na verdade, dispondo por opção de todo o tempo do mundo, procurava usufruí-lo dedicando-me longamente à leitura e anotações na biblioteca da PUC. Uma época em que podíamos enveredar por leituras e aprofundar conceitos, amparados pelo ritual acadêmico que estimulava a pesquisa, sem a pressão por resultados imediatos. 

Também retomei no acervo da pasta verde as anotações de As Ideias de Sartre, de Arthur Danto, que se bem me recordo, me ajudaram bastante como guia para adentrar o pensamento da filosofia de Sartre. Juntamente com as definições de "vergonha", "o absurdo", "angústia", desenvolvi uma aproximação à personagem Carlos, de São Paulo S/A, então o centro do meu objeto de estudo, projetando um tour de force que se alongava indefinidamente, avançando por outras obras e estudiosos de Sartre, como Camila Salles Gonçalves, que com seu Desilusão e História na Psicanálise de Sartre, trabalhava mais os aspectos subjetivos de seu existencialismo. A partir desta leitura também formulei esboços para uma compreensão de Carlos, neste caso sob o viés da consciência irrefletida - "um fluxo que, por assim dizer, não se detém para conhecer o que está fazendo, apesar de jamais ser inconsciente"... 

No mesmo caderno, mais ao final, as ricas anotações de A Náusea, onde aí sim, relacionei diretamente as personagens centrais do romance e do filme, Roquentin e Carlos. Destaquei, por exemplo, o conceito da temporalidade, no primeiro caso, "Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia"... - e no segundo caso, "Carlos não encontra nada no passado e o futuro o assusta. O problema é que faz do presente uma transição entre essas temporalidades - passado e futuro - sem interferir, sem decidir-se por uma atitude que contemple o seu estado de espírito, seu desejo e a sua falta"... 

Tudo muito intenso e o reencontro me enleva, relançando-me no turbilhão daquelas estimulantes descobertas. Uma das mais reveladoras foi a obra Ciência e Existência, de Álvaro Vieira Pinto, onde dediquei apontamentos para a maior parte dos 22 capítulos, em 28 densas páginas de caderno universitário. Este professor não fazia parte da bibliografia de estudos e sua descoberta au hasar foi uma saudável contribuição, a interação da ciência com o saber prático, uma ciência engajada, pulsante, mobilizada para fora das salas acadêmicas, promovendo análises de temas como alienação, o conhecimento científico, cultura, dialética... - "A lógica dialética alcança o objeto da pesquisa científica no plano de maior profundidade, no plano das contradições que lhe determinam a essência, no movimento dos fenômenos que têm lugar na natureza e que se tornam a causa da diversidade dos seres, contradições essas que aparecem entranhadas nos conceitos que refiram subjetivamente os dados da realidade"...

Recolhi ainda papéis avulsos sobre inúmeros temas voltados para o cinema, o estudo de Bazin, anotações sobre o filme São Paulo S/A, minha transcrição de uma longa entrevista de Person na TV Cultura, trechos fotocopiados do roteiro original do filme e minhas primeiras versões da dissertação...
Se por um lado não encontrei nesse amplo material as informações sobre o tema Fronteiras, que pretendia desenvolver para a revista digital, por outro me entretive com o vigor de tantas redescobertas, anotações cuidadosas, leituras prolongadas sobre temas fundantes, que no final das contas me permitiram constituir ao longo dos anos uma consciência de mundo e um olhar crítico à realidade social em que vivo. A essa altura talvez seja oportuno registrar o conceito de intelectual - que hoje para mim se confunde com educador social - em Sartre, "A natureza da contradição do verdadeiro intelectual obriga-o a se engajar em todos os conflitos de nosso tempo porque são todos - conflitos de classes, de nações, de raças - efeitos particulares da opressão dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está, ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos". 


26 outubro 2014

Coração Valente


Tomo meu café e vejo, a média distância, três atendentes conversando animadamente com o entregador de doces e salgados da empresa. Tentam convencê-lo sobre as vantagens de, na opinião delas, se votar em Aécio. Ele resiste, trazendo argumentos do desgoverno em Minas, da inapetência do partido dele, mas logo se vê acuado, contra a geladeira de bolos. Sua expressão animada se opõe aos trajes desgarrados e puídos que veste; tenho a representação da invisibilidade não apenas social, mas ali, física mesmo. Quando ele se posiciona do lado de fora do balcão, os passantes o ignoram. Atroz diferença com a realidade das sociedades socialmente mais equânimes, é inevitável a memória de uma cena semelhante que presenciei há tempos, em uma cidade alemã. Nela, o coletor de lixo entra na cafeteria para cumprir com seu trabalho e é recebido de modo respeitável pelos presentes. Portava um uniforme asseado e digno, fruto certamente do respeito com que seus empregadores proporcionavam não só à imagem da empresa, mas ao bem-estar de seus empregados, enquanto cumpriam suas tarefas. O homem foi convidado a tomar um café, e ao final saiu com os containers, sendo cumprimentado por todos.

Retomo a cena presente, o entregador prepara para se retirar com seu imenso carrinho no exato instante que um burguês de bermudas e mocassins marrons se aproxima, coberto de adesivos da campanha de Aécio. É efusivamente recebido pelas meninas, que ignorando o amigo entregador, se voltam saltitantes para o sujeito, que num gesto influente, se gaba dos signos que enuncia e pede o café. Um encontro que não dura quinze segundos, o suficiente para que o sentido de classe seja completamente anulado pela subserviência atávica, onde a distinção se faz prevalecer, os mais vulneráveis se entregam aos caprichos do mais poderoso, sem que isso ofereça mais do que a preservação do abismo social. De um lado, o olhar de admiração para quem supostamente é um vencedor respeitável, o espelho ideal de uma sociedade capitalista competitiva, cuja imagem é dia-a-dia cultuada. E de outro, o ideal corporificado, a representação do sucesso relativo que ainda se alimenta da distinção.

Uma cena que é a moderna transcriação da sociedade escravocrata que ainda não superamos. A presença social dominante em seu silêncio, capaz de quebrantar o espírito de classe e estabelecendo seus valores às camadas menos favorecidas. Um poder que não pretende compartilhar, mas subordinar e desse modo se perpetuar. Não à toa esta discussão surge aqui, em um dia de eleições presidenciais, onde dois projetos claros e distintos se apresentam. Um que deseja promover avanços sociais, a partir de programas de afirmação e de distribuição de renda, com vistas a uma sociedade menos desigual, que possa usufruir as benesses do consumo material e intelectual. De outro, o prolongamento de um liberalismo pautado pelos ganhos financeiros e pelos interesses corporativos, onde o ser humano raramente aparece como a razão dos investimentos. 

Por tudo isso, a imagem que ilustra esta postagem, outra cena, desta feita diante do TUCA, aqui na PUC de São Paulo. Uma noite festiva, onde o manifesto de apoio à candidatura Dilma ultrapassou o espaço físico do teatro e se esparramou deliciosamente pela rua Monte Alegre, embandeirada e avermelhada. Pessoas mais adultas, com a experiência de longas e tormentosas lutas políticas ao longo da vida, confraternizando com jovens que vão tomando o gostinho da vivência política como base para as transformações sociais. Por horas, esse convívio no espaço público, em um momento da campanha que havia incertezas sobre o resultado do pleito. Hoje, todos os índices de pesquisa apontam, tomara, vitória de Dilma e de um projeto político de governo fundamental para a construção de uma cidadania para todos.

                                                                                                                                      para M.R.


13 outubro 2014

Desdobramentos



Após uma semana do primeiro turno, a sensação eleitoral me parece outra diante daquela que se verificou no domingo e mesmo nos primeiros dias subsequentes. Havia um clima de debilidade, impalpável, sem qualquer explicação racional, apenas a impressão dispersa nas ruas e canalizada nas mídias corporativas de que Aécio não só havia conseguido uma estrondosa recuperação, como já se posicionava em vantagem. Pesquisa de um instituto desconhecido do Paraná apontava vantagem de Aécio de oito pontos (49 a 41 por cento), o que depois se verificou infundado. 

A mídia eletrônica mais a impressa entrou rápido em ação e expôs em detalhes o depoimento de um ex-diretor da Petrobrás, que para amenizar sua prisão concordou com a delação premiada. Sem se provar nada, ou dar tempo para a defesa dos partidos acusados, o rolo compressor mídia + oposição trombeteou o fato de modo irresponsável, numa clara tentativa de interferir no processo eleitoral. Nestes últimos dias o caso refluiu das manchetes, não só pela reação do governo, como pela forte mobilização nas redes sociais.

Aliás é aqui, nas múltiplas plataformas digitais, que se deve decidir as eleições deste ano! Ambas as campanhas se organizam para ocupar esse espaço, com vídeos e mensagens que alcançam o cidadão comum com grande eficiência. Da parte do candidato oposicionista, vejo uma tentativa de aproximação corpo a corpo, com mensagens diretas produzidas por ele próprio e endereçadas aos milhões pelo what's aap, além de jogos eletrônicos em que o personagem não é Mario Bros mas o próprio Aécio, a vencer uma série de etapas. Se o processo dialoga diretamente com o eleitor, sobretudo com o mais jovem, ele não esclarece as plataformas políticas nem suas propostas mais genéricas. 

Ao contrário, a campanha de Dilma ao menos no facebook é rica em informações e densa em dados, que comparam o que foi o último governo tucano no Brasil e os anos de Lula e Dilma. Começam a surgir pequenos vídeos, não só com apoios, mas que discorrem sobre projetos de governo, o que me parece acertado, pois cria um diferencial de valor nas propostas de um e de outro candidato.

Hoje surgiu a primeira pesquisa Vox Populi, que coloca Dilma com 51% dos votos válidos, pouco ainda, mas que pode indicar uma tendência, e oxalá ela se confirme. Ainda é cedo, faltam 13 longos dias, e todo cuidado é pouco, pois o cerco midiático-empresarial está feito. Hoje mesmo um jornalista (Xico Sá) se demitiu da Folha por desejar expressar seu apoio a Dilma em sua coluna. O jornal argumenta que essa prática é interdita nas colunas, mas permitida na página adequada (de debates). O problema é que existem outros colunistas, como Azevedo, Constantino ou o tal do Pondé, aos quais tudo é permitido, sem qualquer cerimônia.

Penso nesse jornalismo arcaico, que parece provir das páginas amarelecidas da Primeira República, onde as elites não perdiam a voz e tampouco seus plenos direitos de expressão. E mais além, é como se os cronistas de hoje, reproduzindo os padrões burgueses de antão, impusessem à sociedade seus pontos de vista e esperando vassalagem moral. Como se os argumentos da aristocracia devessem mais uma vez prevalecer como referências para o bom devir dos valores sociais e culturais da nação. 

Há cem anos, era o ideário da Casa Grande, hoje, nada além do que um fortuito interesse de gabinete refrigerado, em conluio com os mercados corporativos. É como posso sintetizar a manutenção tresloucada de um jornalismo classista, aliado a qualquer coisa que lhe mantenha as vantagens, em um mundo hipoteticamente capitalista e competitivo.


28 setembro 2014

Um mundo de diferenças


A noite se faz mais escura que de costume, pois a vejo diante de mim, absoluta, quebrada por um punhado de luzinhas tremeluzentes ao longe. O silêncio da cidade desconhecida não me assusta, não estou cansado ou mesmo deslocado. Não me sinto no meu lugar, e não me esforço em torná-lo, após a superação do estranhamento, simpático. Na verdade, não sei o que faço aqui. Nas inúmeras viagens que realizei por tantas partes, o momento mais ingrato sempre foi a chegada, e o mais triste, a partida, e assim foi em todos os lugares, pequenos, grandes, confusos, atraentes, feios, bonitos. Era difícil superar o inesperado na chegada e a amargura da partida. Desta feita, o estranhamento não se desfaz e prolonga-se já como amargura. Sentimentos muito sutis, que vão e veem, sem se incomodar comigo. Permaneço em compasso de espera, os textos e livros se espalham pelo quarto, deveria estar mergulhado em estudo, por certo preservo alguma sensatez, farei alguma leitura daqui a pouco, e desvanecerei em sono. Me aguardam amanhã para oferecer uma chance, nada dirão de agradável, o que de fato não é um problema, nada prometerão e em três ou quatro dias jamais saberão que encontraram a mim e a todos os que estiverem ali, em busca da mesma chance. Amenizo a espera incerta ouvindo um misto de Rolling Stones, Chico, B.B.King, em um quarto iluminado por uma claridade vaga que provém da marquise do oitavo andar. Distante de minha querida, vou me esforçar para realizar esforços minimamente competentes. Vou já descer para recolher as cópias dos documentos que submeterei aos homens sem rosto e tão desnecessários. Mas não vim até aqui para pensar coisas chatas, nem tampouco para elucubrar. Afasto-me por uma semana de meus alunos, mas até isso me soa artificial agora. Há uma brisa que ensaia delicadeza, esgueirando pelo quarto, deixando-me com meus pensamentos. Retomar as leituras que me fazem um pouco mais vivo e completo, por aí espalhados estão Cesar Sandino, Prebisch, Cárdenas, Carpentier, eles me dão um bom motivo para estar aqui. E minha querida amada, que me entusiasma nos projetos, que me faz falta. Por nossas conversas, pela musicalidade, pelas boas e divertidas verdades... Foi muito fácil chegar até aqui, mas será muito complicado sair, haverá um tempo de espera que parecerá eterno, sem ser ameaçador ou ingrato, como um passeio em torno de uma ratoeira de mentira, que anuncia despreocupada o fim de qualquer ilusão, o que também pode ser uma mentira. É isso, estar aqui não me confirma a realidade nem a ficção, não é possível fazer mais do que esperar, para saber se o que vai acontecer será bom ou meramente desnecessário...


21 setembro 2014

Sobre proximidades e estranhamentos


Passaram três semanas sem qualquer registro neste espaço de crônicas, o que costuma ser uma raridade. Já aconteceu por falta de inspiração para a escritura, ou por alguma longa viagem, desta vez foi pela sobreposição de tarefas acadêmicas. Uma delas, um trabalho que me estimulou a cumprir, sobre os corridos revolucionários mexicanos, apresentado nesta semana no MusiMid. Concentrei-me na mítica figura de Pancho Villa e sus dorados, como eram chamados seus soldados, a lenda ganhando forma nos campos de batalha e sendo contada e cantada pela gente humilde, até alcançar as páginas de Juan Rulfo, Mariano Azuela e John Reed. Foi um trabalho que me conquistou por seus surpreendentes desdobramentos, revelando inúmeros aspectos desconhecidos da revolução e produzindo tanto lendas espetaculares como los aigoplanos de Villa atacando os soldados estadunidenses, como fatos impressionantes como las soldaderas, ou valentinas, histórias de mulheres que lutaram na revolução. Abaixo destaco um trecho do texto apresentado no evento, e que considero inacabado:

(...)
"Essa intensidade vívida e latente, não tão precisa ou exata, mas com boa dose de zombaria verifica-se, por exemplo, no corrido La Persecución de Villa, leitura popular sobre a expedição punitiva que o exército dos Estados Unidos realizou em território mexicano, como represália à invasão das tropas de Francisco Villa a Columbus, em março de 1916. Conheço três versões cantadas, Los Hermanos Záizar, Los Alegres de Téran e a de Antonio Aguilar, porém considero a versão de Ignácio López Tarso a mais bela e contundente por sua declamação à maneira de poema épico. Como todo registro oral, o texto possui inúmeras versões, introduzidas ao sabor do tempo e do lugar. Abaixo, a versão narrada por López Tarso,

Patria México, febrero veintitrés,
dejó Carranza pasar americanos,
dos mil soldados, doscientos aeroplanos,
buscando a Villa, queriéndolo matar.

Después Carranza les dijo afanoso:
si son valientes y lo quieren combatir,
concedido, les doy el permiso,
para que así se enseñen a morir.

Comenzaron a echar expediciones,
los aeroplanos comenzaron a volar,
por distintas y varias direcciones,
buscando a Villa, queriéndolo matar.

Los soldados que vinieron desde Texas
a Pancho Villa no podían encontrar,
muy fastidiados de ocho horas de camino,
los pobrecitos se querían regresar.
(...)

Comenzaron a lanzar sus aeroplanos,
entonces Villa, un buen plan les estudió:
se vistió de soldado americano
y a sus tropas también las transformó.

Mas cuando vieron los gringos las banderas
con muchas barras que Villa les pintó,
se bajaron con todo y aeroplanos
y Pancho Villa prisioneros los tomó.
(...)

Todos los gringos pensaban en su alteza
que combatir era un baile de carquís,
y con su cara llena de vergüenza
se regresaron en bolón a su país.

Neste corrido há passagens infladas pela lenda popular enaltecendo o mito Pancho Villa. A primeira, os registros históricos não confirmam a presença de “doscientos aeroplanos” na busca de Villa. Conforme Silva Herzog, “[O governo dos EUA] ordenou que o general John Pershing cruzasse a fronteira comandando poderosa coluna e penetrasse o Estado de Chihuahua em perseguição a Francisco Villa” (Herzog, 1995, p.223). Foi denominada “expedição punitiva” e que redundou em duas escaramuças entre tropas estadunidenses e grupos villistas, com baixas em ambos os lados. Não há referência a nenhum avanço aéreo, o que não impede que o corrido descreva com graça que o próprio Pancho Villa sobrevoe as tropas invasoras (entonces Villa les pasa en su aeroplano/y desde arriba les dijo, Gud Bay), escarnecendo com o fracasso da missão.

A seguir o ardil é mais sofisticado, Villa se veste de soldado americano e expõe bandeiras do país (con muchas barras les pintó) fazendo com que os aviões pousem e os inimigos, aprisionados. O curioso foi que a história dos aviões villistas ultrapassou fronteiras e ganhou uma versão cinematográfica pela Paramount Pictures, em 1968, com o filme Villa Rides, com Yul Brinner no papel de Francisco Villa". (...)

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Também por esses dias estive envolvido na preparação de um projeto dramatúrgico que concorre a uma bolsa da Secretaria do Estado. Não foi fácil, ele se encontra muito cru e nem mesmo título definitivo possui, mas organizei as ideias disponíveis indicando a sinopse, a estrutura visualizada para a peça em seus dois atos, alguns elementos cenográficos como iluminação, figurinos, personagens. Refere-se grosso modo ao drama que afeta um personagem, sua família e sua comunidade, submetidos a uma guerra sem fim. Trata-se de uma ideia que estava há muito tempo adormecida, com poucas chances de voltar ao proscênio, mas com o concurso, surge a chance de escrevê-la e mais, publicá-la e narrá-la para jovens estudantes, com a possibilidade de montá-la. Seria uma realização pessoal, uma conquista de uma proposta ao melhor estilo do engagement político sartreano, algo que não abandona a cena da minha vida. 

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Novas eleições presidenciais se aproximam e como é natural o envolvimento ocorre, embora de modo diferente de quatro anos atrás. Agora atuo com menos ansiedade, bastante próximo de pessoas afinadas com a proposta política da reeleição de Dilma, mais preparado para a desinformação midiática e muito disposto em assumir o debate político nos espaços sociais em que atuo, argumentando e divulgando os benefícios deste governo. Ainda que seja uma luta áspera assumir-se governista em uma realidade que vibra com a denúncia fabricada nas oficinas dos veículos corporativos, vale a pena a briga desta vez pelos resultados alcançados ao longo de 12 anos. Ainda que as capas das revistas e as manchetes dos jornais continuem insuflando "escândalos", o trabalho de contra-informação nas redes sociais tem sido mais articulado, de modo que as respostas construtivas se mostram inspiradas para ao menos questionar farsas e oportunismos de ocasião.

Incomoda-me mais hoje as pessoas que, muitas vezes isoladas no rancor pelo senso comum, se deixam levar pelo discurso pessimista. Como as mulheres que cortaram a minha frente em certa livraria e instilavam o desprezo a tudo que fosse PT... Ou aqueles professores que encontrei no elevador certa noite, animados a alimentar a dúvida sobre as vítimas das torturas no regime militar... Ou ainda como o dono do café que, no improviso, lança impropérios exaltados a um atônito cliente, que ousou elogiar a atuação do prefeito Haddad... Manifestações que têm em comum a virulência desmedida, formuladas pelo senso comum que, repito, as isola em um ódio paralisante. Nada é capaz de vicejar a partir dessa postura, a não ser a presunção que corrói os valores e as identificações comunais, enquanto abre os braços para imprecisas aventuras.



31 agosto 2014

Erroll Garner


Não conhecia o trabalho de Erroll Garner até a semana passada, quando tarde da noite, ao chegar das aulas, pude acompanhar au hasar a parte final de uma apresentação de seu grupo, gravada na Suécia, 1964. O tempo todo sorrindo, movendo o rosto para o lado da câmera principal, que inicia a gravação em um plano geral e lentamente se aproxima de Garner até enquadrá-lo em primeiro plano. Além dela, mais duas câmeras, uma atrás e outra à frente, que registram o fundo do cenário e seus dois companheiros, Eddie Calhoun no baixo e Kelly Martin na bateria. Demonstram um renovado prazer a cada frase musical, fazendo de seus instrumentos a aproximação com o público. É uma delícia acompanhar Erroll Garner em sua habilidade no teclado, destacando-se ao mesmo tempo como músico e protagonista da narrativa imagética. Para mim é um deleite assistir a essas apresentações de jazz dos anos 1950/60, marcadas por características muito específicas e que lhes confere uma aura mágica, a começar pelo jogo de luzes ambientes, que imprimem o inconfundível chiaroscuro desenhando o cenário. Cada diretor estabelece o seu estilo, valorizando a mise-en-scène do artista com uma densa e elaborada sequência de imagens. As gravações sempre em preto e branco costumavam ocorrer na presença de um pequeno público, normalmente com as três câmeras que a movimentar-se não mais que o suficiente para definir novos enquadramentos, com longas tomadas em primeiro plano. É comum a captura da entrega do músico, com o close das expressões faciais pontilhadas de suor. Na apresentação de Erroll Garner, por duas vezes percebemos o músico se ajeitando sobre listas telefônicas, cujo improviso aparentemente solucionou um problema de acomodação. Simplicidade aliada a alta técnica e ao mero prazer. Uma canção após outra, a performance que não se enquadra na rigidez convencional da época, os olhares atentos de uma pequena plateia bem-comportada. Ao final, identifico uma linda interpretação do Samba de uma nota só, do nosso Tom Jobim. 


18 agosto 2014

Imagens de Lima


Basílica Catedral de Lima y Primada del Perú



Panorama Plaza Mayor



Av. Jose Larco



Pontificia Universidad Catolica - PUCP (parcial)



Abertura - Congreso ALAIC 2014



Huaca Puclliana (visión nocturna)



Miraflores (parcial) y el mar



17 agosto 2014

Lima, Peru


O silêncio nestes dias se deu em razão da viagem à Lima, para preparação e apresentação de texto no XII Congreso da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación - ALAIC, na bela e acolhedora Pontifícia Universidade Católica do Peru. Acomodei-me no distrito de Miraflores, a mais ou menos trinta minutos de táxi da Plaza Mayor, o centro histórico da cidade. O clima úmido e relativamente frio, com dias permanentemente encobertos, mais o trânsito carregado fez com que permanecesse mais tempo nos interiores. A visão do mar normalmente era limitada a umas poucas centenas de metros pelo constante nevoeiro. Apenas no último dia foi possível apreciá-lo mais extensamente, ainda que em uma coloração mais plúmbea do que seu natural azul. 

Foram cinco dias de convívio com pesquisadores de diversas universidades brasileiras e sul-americanas, e a possibilidade também de conhecer um pouco da realidade cotidiana de uma das grandes metrópoles de nosso continente. Um tempo muito curto para sentir a dimensão desta imensa cidade, principalmente as particularidades de seu espaço geográfico como as áreas mais periféricas e as características das culturas de sua gente.

O tempo se dividiu em duas espacialidades, dentro e fora da PUCP. Uma parte do dia, pela manhã, acompanhamos mesas redondas sobre temas relacionados à comunicação na América Latina, e ao longo das tardes, participamos dos debates proporcionados pelos grupos de trabalhos. Na outra parte do dia, normalmente à noite, me dedicava na preparação da apresentação do texto que escrevi juntamente com a professora e pesquisadora Mônica Nunes, Procissões, Hip Hop e Cosplay - Representações do negro na cena brasileira, e quando possível, ao saudável encontro com outros pesquisadores, brasileiros e peruanos.

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PROCISSÕES, HIP HOP e COSPLAY – Representações do negro na cena brasileira
(trechos iniciais)

INTRODUÇÃO

Este trabalho apresenta, pontualmente, a contextualização histórica das representações socioculturais de parcela da população negra no Brasil, por meio de cenas pictóricas e descrições literárias do período colonial e moderno, para trazer elementos de herança da sociedade escravista que persistem e as formas de negociação e criação de estratégias de visibilidade desenvolvidas por negros em cenas contemporâneas, como o hip hop e a cena cosplay. Consideramos que o espaço simbólico da festa e a teatralização pública são cenários para a construção destas representações.
(...)

    1.  PRESENÇA DOS NEGROS NAS FESTIVIDADES DO BRASIL COLÔNIA

           Os registros textuais e iconográficos de nossa história colonial e mesmo do primeiro e segundo Império demonstram a alegre participação popular em festas e procissões. No Brasil Colônia, a escassa população de colonos, marcados por uma vida ociosa, sobretudo, para aqueles que podiam dispor do trabalho escravo, a princípio indígena e mais tarde negros vindos da Guiné, procuravam preencher o tempo de maneira festiva, “aberta a tudo que pudesse torná-la divertida” (Tinhorão, 2000, p.40). O regresso da frota de Mem de Sá, vitorioso contra os franceses, foi o auge de uma longa festividade que envolveu a cidade de Salvador, então com menos de mil habitantes. São representações artísticas que trazem jogos, corridas de touros e mesmo reproduções de equitação da nobreza, já entronizando a teatralização das festas públicas, muito comuns na colônia no século XVII. Já temos com Frans Post, durante a ocupação holandesa do nordeste, ilustrações da vida cotidiana documentando rodas de dança de negros, sua música e seus folguedos. Com o processo de dramatização das histórias sagradas, dos princípios do Evangelho, sobrevém a incorporação das camadas mais baixas, incluindo aqui negros e mestiços.
Com a expansão das festividades do espaço da igreja para as ruas, ocorre um “deslocamento da diretriz religiosa (...) para objetivos profanos” (op.cit., p.67), com o intuito da representação do poder secular, ou meramente da diversão. A teatralização dos temas bíblicos no espaço público e o apelo popular chamam a atenção de cronistas e viajantes da época, como o francês Pyrard de Laval, que se surpreende com a grande presença de negros escravos divertindo-se nas ruas e praças. Já não se apresentam escondidos sob os trajes alegóricos, mas participam ativamente das procissões sob a forma de “bandos mascarados, músicos e dançarinos”, em manifestações animadas, cujas representações corporais e sonoras eram contagiantes.
(...)

04 agosto 2014

O fascínio de uma revolução


Neste mais recente projeto de artigo, estudo os corridos villistas, um recorte da epopeia que foi a revolução mexicana a partir das trovas populares produzidas no fragor das campanhas. É um período impressionante, rico em desdobramentos, bastou-me adentrar o labirinto da revolução para deparar com a riqueza do tema. Não me bastou tomar a leitura dos historiadores, e considerei de início duas obras de autores mexicanos, Marte Gomez e Silva Herzog e logo me lancei aos textos literários, de participação direta, olhares afinados aos detalhes do cotidiano trazidos por Mariano Azuela, John Reed, Juan Rulfo... Mas também adentrei a leitura conceitual de Octavio Paz, análises tão poéticas e concludentes de sua pátria, e sem esquecer a base metodológica, o texto de Vicente Mendoza e as audições dos corridos... Não tem fim, trata-se de um acontecimento que nos captura por tantos desdobramentos, tantas contradições e ao mesmo tempo tantas fidelidades! Seja qual lado se tome, e há diversos, nos embrenhamos em narrativas que nos trazem o sol cáustico das jornadas, a entrega desatinada na luta ou na fuga, a cantoria saudosa nas noites calmas, onde o imaginário se elabora nas armadilhas das visões míticas... E muito disso provém da oralidade, as novidades que ultrapassam as cavalgadas e se derramam nos vilarejos, para as devidas interpretações. Neste universo íngreme, que incorpora contingentes de camponeses em todo o país, alistados em batalhões villistas, zapatistas, huertistas, maderistas, constitucionalistas, federalistas, partes de um todo que se dividem e recompõem alianças, sobressai os traços de uma cultura poderosa, como a mexicana. Se por tantos anos, sob a ditadura porfirista, ela esteve vigiada, controlada, com a revolução ela explode trazendo junto as diferenças políticas por décadas abafadas. Que fazer senão deixarmo-nos levar pelas canções e com elas recriar uma época em que um país renasceu da solidão de seu labirinto.

Escrevo premido pelo tempo, chega a hora de largar a escrita. Tanto por dizer em minha empolgação... mas a viagem à Lima, Peru, me solicita. Mais adiante falarei sobre as mulheres da revolução, as adelitas o soldaderas, que ficaram imortalizadas pelas canções populares. 


18 julho 2014

Escucha Chile


Uma deliciosa lembrança de meus tempos de rádio-escuta, o programa Escucha Chile, que recuperei inesperadamente em meio às minhas consultas no Youtube. Ele era transmitido direto da rádio Moscou, ao longo dos anos 1970 e 1980, e eu sintonizava em meu rádio de ondas curtas com regularidade, no final das noites, no correr de 1978. Foi uma emoção reconhecer a melodia inicial e em seguida o timbre de José Miguel Varas, que como a transmissão aqui postada, permanecia longamente com os informes políticos do Chile. 

O que me seduzia nestas transmissões era a audição incerta, originária de um lugar (Moscou) tão distante e naquela época, pouco acessível. O toque sonoro do início, que agora retomo, era um traço simbólico desse tempo-lugar misteriosos. As ondas iam e vinham, aprofundando o tom dramático da audição e me recordo que por intermédio do programa consegui estabelecer um fugaz contato com uma família de ouvintes, na cidade de Chañaral, que se limitou a umas poucas trocas de cartas.

Outro aspecto de meu interesse eram as informações em tese proibidas, que revelavam uma infinidade de detalhes as quais eu ignorava, sobre um governo golpista, já que o clamor das vozes democráticas não nos alcançava. Em 1978 eu não passava de um jovem ingênuo sobre as questões políticas, não havia tomado uma posição sobre o golpe de 11 de setembro, o que ocorreria de modo contundente nos anos subsequentes, esclarecido pelos ares da anistia e da abertura política. Assim, ouvir o programa alimentava minha curiosidade acerca de um imaginário que só o rádio nos proporciona. 

Permanecia paralisado sentindo a força argumentativa que a locução exalava e, paradoxalmente, sua completa impotência. De algum modo me sensibilizava a abundante quantidade e qualidade de informações, destinadas a mobilizar a resistência cívica. Ainda hoje me pergunto qual o alcance daquelas transmissões, qual o legado daquelas vozes em serena modulação, que se propagavam eletromagneticamente com um objetivo específico. Em meu íntimo, penso que ao menos preservaram a chama da liberdade em muitos corações.

          

16 julho 2014

Ivan Junqueira


Ivan Junqueira faria 80 anos em novembro e de sua obra muito pouco ouvi falar e nada conhecia. Apenas com sua morte procurei conhecer um pouco mais do seu percurso como crítico literário e poeta. Sua fala, que pude acompanhar, reproduzida em sua homenagem, fluía serena e atenta, como os versos de suas poesias. Impressionou-me a oposições em perfeita harmonia, a severidade para com o cenário da poesia nacional em contraposição com a delicadeza de seus argumentos, bordada não só de cuidado no expressar escorreito, mas também filtrada por um fino olhar poético. 

E como não poderia deixar de ser, alcançou-me o valor e a consistência da sua obra poética. Por ele, nos chegaram as traduções criteriosas de Baudelaire e Eliot. Nunca, como disse, havia me aproximado de sua poesia e agora, ainda que um pouco tardiamente, começo a apreciar o frescor de sua arquitetura sutil e elegante. Estive uma vez, há seis ou sete anos, na Academia Brasileira de Letras, no Rio, com a preocupação de visitar um imortal menor, em função de um prêmio literário não recebido. Pura perda de tempo. Poderia ter me dedicado a outro, de obra mais nobre e consistente. Poderia ter sido Ivan, e no lugar da lamúria, haveria a lembrança de um inesquecível encontro.

Transcrevo abaixo dois poemas de Ivan Junqueira.

...

FLOR AMARELA

Atrás daquela montanha 
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela
o menino que você era.
Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
como o menino que você era
guardado dentro dela.

TALVEZ O VENTO SAIBA

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.


06 julho 2014

Contemplação ao alvorecer


Primeiro a voz feminina alertando alguém para soltá-la, junto a um alarido intenso de outras vozes, também o automóvel passando com o som de uma música minimalista, alto o suficiente para me despertar e alimentar o desejo, ainda sob a madrugada escura, de retomar o trabalho. Tal como uma troupe felliniana que atravessa o deserto em meio aos seus destemperos, acabaram por desaparecer e o relativo silêncio voltou a reinar. Com a possível condenação dos incompetentes gestores hídricos tucanos, a água que se faz escassa, tomei outro banho e coloco-me a postos diante do computador para prosseguir. Fico por aqui, querida, ao longo da jornada que não contará com jogo do Brasil e tampouco Copa a distrair a concentração. Sobressaem os saborosos mistérios das articulações sociais dos cosplays e dos poetas periféricos, o corpo performático que se insinua e ganha vida em seus respectivos movimentos. Há algo de felliniano nestes encontros coloridos, inebriantes, mas também de camusiano na soturna elaboração pessoal de cada participante e então me submeto à conjunção dos imaginários, agora os mágicos alentos de Cortázar, páginas de paisagens que se sucedem, que se levantam hipotéticas ao sabor do puro ensejo, a luz do mar que penetra a janela e nos confunde com as brumas misteriosas de cada luar, o chiado metálico dos bondes com animados foliões a avançar pela avenida descortinando os primeiros matizes da aurora, o olhar peregrino dos bondosos viajantes que aportam no cais, a calma expectativa em uma cadeira de balanço, deixando-nos um pouco mais sonhadores e felizes...


25 junho 2014

A Praga de Josef Koudelka


Com a mais forte das luzes pode-se dissolver o mundo. Diante de olhos fracos, ele se torna sólido, de olhos mais fracos ele ganha punhos, de outros mais fracos ainda, ele fica envergonhado e esmaga quem ousa fitá-lo.
Franz Kafka, aforismos.




Recordo-me com alguma precisão destas imagens em uma revista, provavelmente publicadas na desaparecida Fatos & Fotos, cujo estilo se aproximava bastante da famosa revista Life estadunidense, o saboroso deleite para os olhos, a generosa fartura do foto-jornalismo em preto e branco. Para uma criança circunspecta como eu, aquilo era o êxtase, era possível alongar indefinidamente cada visita, avançando e recuando em cada leitura. Viajava nos detalhes das imagens, tentando compreender o clima dos acontecimentos e o que, afinal, se encontrava no campo semântico de cada reportagem. Construía o imaginário das fotos a partir de minhas prolongadas observações, explorando cada detalhe de cada fotografia. A invasão da Tchecoslováquia oferecia uma mistura de tanques e armas com expressões de gente comum nas ruas, o espaço urbano revolto a partir de uma presença indesejável, e o contexto forjava-se na dicotomia do bem (as pessoas indignadas) e do mal (os militares, ou, os indivíduos de capacetes e armas). 


Apenas muito mais tarde saberia das circunstâncias do registro iconográfico, tomado pelo fotógrafo Josef Koudelka, que captou a invasão das tropas do Pacto de Varsóvia sufocando o que se denominou A Primavera de Praga. Os entrechoques comandado pela revolta estudantil se manifestavam naquele mágico 1968, em maio nas barricadas de Paris, em outubro na trágica Noite de Tlatelolco, em agosto com a supressão da experiência socialista tcheca. Durante anos em minha juventude o nome Alexander Dubcek significou mais do que o senso libertário de um governo comunista com feições libertárias, ofereceu-me a primeira leitura de um desejo de uma inédita organização coletiva, finalizada com a reação esperada, a resistência coletiva. Nas capas de meus cadernos colegiais, fazia questão de registrar seu nome como uma forma de independência juvenil, contra toda forma de opressão social.

  
Ainda uma vez Praga, a mesma de Jan Kubis e Josef Gabcik que se levantou contra a ocupação nazista, a mesma de um certo Josef K., que certa manhã foi detido sem que tivesse feito mal algum. No sábado passado, pude reencontrar em uma exposição no MIS uma parte do acervo fotográfico de Koudelka sobre a invasão e naturalmente reencontrar com minha infância, mais uma vez aquelas personagens que me haviam absorvido longamente, agora em um contexto histórico completamente modificado. Como da primeira vez, observei as faces dos ocupantes, em sua maioria jovens, amontoados em seus tanques, assustados com uma mobilização popular inesperada que os rechaçava. Retomei as expressões gestuais, a grande marca dessas imagens, em um tempo em que o photo op não era uma prática disseminada, elas transcendem o registro de uma decisão política para nos desvelar o sentido puro de uma reação coletiva.

   
Retomo a indignação em movimento espasmódico, que busca apenas repelir o indesejável, sem uma organização eficaz. Por certo temos a construção simbólica de uma resistência impossível, mas que não deixa de se manifestar. Quem sabe aquele jovem chinês que deteve uma coluna de tanques na Praça da Paz em Beijing, em 1989, não tinha essas imagens como referência para seu ato. Quem sabe outras tantas atitudes de resistência impossível, ao longo dos últimos quarenta anos, não foram alimentadas por estas imagens! Quando não vemos os movimentos isolados de jovens, vemos a massa estática a se colocar como um signo de oposição. Toda a paisagem sonora silenciada pela gravidade das cenas, pelo desespero e pela tristeza de um fato que se acaba de se consumar.


Tanto quando garoto, vejo o que me liga a esse momento histórico tão corajosamente apreendido por Koudelka, a profunda comoção social, manifesta por gestos e atitudes indignadas, de resistência, ainda que inútil. As condições políticas se me revelam em um plano distante; o que persiste em conduzir o meu olhar são os dois lados claramente definidos, um com face definida, que denota em vários matizes o estarrecimento que brota no instante, e outro com uma face invisível, que se consubstancia na presença implacável, premeditada. Tornam-se, juntos, a expressão de uma decisão inapelável, que rompe de modo definitivo com um estado de coisas e talvez por isso, aprofundada pelo tom sombrio das imagens, o cinza de um verão inesquecível. Mais do que as marcas de uma mudança histórica, imagens de uma primavera que se dissolve nos desvãos da intolerância burocrática.