27 fevereiro 2022

Eduardo Galeano, una poesia más

 

Eduardo Galeano (1940-2015)


Janela sobre a memória

Sob o mar viaja o canto das baleiras, que cantam chamando-se.

Pelo ar viaja o silvo do caminhante, que busca teto e mulher para fazer noite.

E pelo mundo e pelos anos, viaja a vovó.

A vovó viaja perguntando: 

Quanto falta?

Ela se deixa levar desde o telhado da casa e navega sobre a terra. Sua barca viaja até a infância e o nascimento e antes:

Quanto falta para chegar?

A vovó Raquel está cega, porém, enquanto viaja vê os tempos idos, vê os campos perdidos: para lá, onde as galinhas põem ovos de avestruz, os tomates são como abóboras e não há trevo que não tenha quatro folhas.

Cravada em sua poltrona, bem penteada e bem limpinha e engomada, a vovó viaja sua viagem de volta e nos convida a todos:

Não tenham medo - diz - Eu não tenho medo.

E desliza suave barca pela terra e pelo tempo.

Falta muito? - pergunta a vovó, enquanto se vai.


(Tradução do poema original em espanhol, Ventana sobre la memoriaBuenos Aires: Siglo Veintiuno, 2010).



12 fevereiro 2022

Sobre o cansaço dos atos inconsequentes


La Plata, 2011

A cada dia, um torvelinho de bobagens proferidas por ocupantes ou simpatizantes desse desgoverno. Nada de promissor. Problema maior tem sido o vácuo produzido pelas sandices, o que proporciona uma espécie de legitimação da tolice proferida. O exemplo mais recente foi em um podcast de grande audiência, onde um dos apresentadores fez uma absurda defesa da existência de um partido nazista no Brasil. Sartre tinha uma simples e objetiva consideração a respeito das nossas ações, "somos responsáveis por nossos atos". A liberdade como condição da existência do ser-humano, vale aqui realçar, considerando sua condição ontológica, era proclamada pelo filósofo como um projeto lançado no mundo, onde o indivíduo é "responsável por tudo quanto fizer". 

O argumento da responsabilidade e consequência nos atos sempre me pautou em minha atuação social. Em outras palavras, a liberdade não é um conceito abstrato, forjado ao sabor do "posso pensar e agir como bem entender", mas ao contrário, ela é resultante da concretude do processo histórico, da materialidade humana capaz de produzir e reproduzir as condições de exigência da sociedade. Dito isso, não podemos nos livrar das experiências do passado, nem tampouco alimentar sonhos de transformação sem uma compreensão do mundo em que vivemos. Aí o cara sobrepõe o anseio de liberdade irrestrita do indivíduo para validar a existência do partido nazista, como uma tolerância atribuída ao pensamento liberal. Não entendeu nada, do passado, de onde estava e onde queria chegar, e lhe bastaria a compreensão histórica para inviabilizar o argumento defendido com tanta ênfase. Mais tarde, de maneira oportuna, se justificaria (a má-fé sartriana) como tendo assumido (o argumento) por estar alcoolizado.

Insisto neste ponto: a abertura para a tolice tornou-se um caminho desenfreado e tentador, que somente passa a ser negado quando as consequências econômicas estabelecem limites. Nada mais abjeto do que ser lembrado de que uma bobagem foi dita, que um ato inconsequente foi realizado, somente depois da perda do(s) patrocínio(s). Temos aí o retrato da fragilidade moral do ser humano, em tempos de concorrência neoliberal, onde bastam os fins para justificar os meios, onde o sucesso é permitido e escarafunchado a qualquer preço. É certo que ao longo da existência desse podcast, houve um momento em que a ousadia covarde do ou dos apresentadores, propiciou uma oportunidade para dobrar o cabo da boa esperança - e da compreensão dos limites de nossa liberdade enquanto seres sociais - acreditando que quando mais longe se pudesse chegar, quanto mais alucinante pudesse ser a droga usada (no sacrifício das hipóteses éticas e morais), mais formidável seriam os resultados de audiência - para não dizer o quão atraentes seriam os eventuais novos aportes financeiros. 

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A política segue como uma esperança de fundo: uma grande maioria aguarda o mês de outubro, com a subsequente eleição de um novo governo que proporcione novas esperanças, que reacenda o alento pelos valores comunitários, pela importância da existência do outro. O país também adoeceu nesses anos, tornou-se uma carcaça frequentemente devorada por novos agentes do capitalismo financeiro. Antes que percamos tudo, inclusive a confiança em um mundo mais justo, que possamos eliminar esse protofascismo que nos aflige e aspira por se disseminar descontroladamente pelos desinformados, pelas milícias, por um empresariado vendido e sem amor-próprio. O sol pode voltar a brilhar, e do meu ponto de vista (até porque é imprescindível atuarmos com um posicionamento político objetivo), alimento a expectativa de que seja sob um novo governo Lula.



05 fevereiro 2022

Noite



 

De volta das aulas, o senhor Cesar Malbernat costumava tomar o metrô, linha verde. Da Ana Rosa até a Consolação, meras 4 estações. Retornava com aquela exaustão de quem havia cumprido bem o dever com a educação. Agora, por cerca de dez ou quinze minutos, o esforço não dependia mais dele: entregava a tarefa ao maquinista e procurava aproveitar o breve momento de repouso. Fechava os olhos e adorava quando percebia que era aquele maquinista que conduzia muito vagarosamente, ou por estar adiantado, ou por desejar recolher o máximo de pessoas que saíam tarde do trabalho. A velocidade reduzida fazia com que o tempo se expandisse, os ruídos do movimento das composições ficavam menos enfáticos, a redução da velocidade era quase imperceptível na chegada das estações e o período de espera também se estendia preguiçosamente. Então, vinha aquele sonido percebido tão vagamente, que alertava para o fechamento das portas, e aos poucos a retomada da velocidade cruzeiro, morna, suave, como se pretendesse deslizar pelo resto da noite, desprendendo-se dos trilhos e flanar tal como um trem voador, sem destino. O senhor Malbernat gostava de desfrutar aqueles minutos sem fim, nos bons dias de aula conseguia fechar os olhos e adentrar a dimensão dos sonhos. Recuperava em flashes a atenção carinhosa dos alunos, a despedida entusiasmada, ansiosos pela próxima semana. Adormecia ao sabor do sacolejo, como se o movimento o embalasse e o vagão o acolhesse em um merecido descanso.   



04 fevereiro 2022

As derrotas de cada dia

 

Día de los muertos, S. Eisenstein

Foi um período tumultuado e acrescento, doloroso. Não mais de seis anos, mas que fraturaram a estrutura social, política, econômica e cultural, para ficarmos nessas áreas. Um horror. Ontem, o ministro do STF, Luis Barroso, afirmou para quem queira saber que "a justificativa formal (para o impeachment) foram as denominadas "pedaladas fiscais", embora o motivo real tenha sido a perda de sustentação política". Há aqui pelo menos dois pontos a considerar: primeiro, onde está previsto em nossa constituição que um governo 'com perda de sustentação política' mereça ser impedido? E tal impedimento, para quem acompanhou o processo, foi um ataque voraz, concatenado por diversos setores da sociedade brasileira, envolvendo diversas instituições, da mídia patronal ou corporativa, ao Congresso, passando pelas hostes endinheiradas da avenida Paulista - a Fiesp, e pelo judiciário do país, tendo o juiz-promotor Moro na ponta de lança e, como tropas de reserva, a serem utilizadas onde fosse necessário no front, o próprio STF, que na época se "apequenou", para utilizarmos uma expressão do Lula.

Em segundo, a afirmação coloca a nu o esforço retórico, sob o comando dessas instituições, que fez com que toda uma nação acreditasse na lenga-lenga das pedaladas fiscais. Cheguei a acompanhar debates televisivos em que juristas, economistas e deputados se esforçavam para convalidar o argumento. Sabíamos, os de boa índole, ou os legalistas (constitucionalistas), que algo não cheirava bem, e que toda a orquestração tinha como propósito derrubar Dilma, retirar o PT do poder - achincalhando-o da maneira mais vil - e posteriormente prender Lula. Nesse sentido, a Lava Jato, instituída no início de 2014, funcionou como um para-raios que absorvia toda a razoabilidade da ordenação jurídica, com vistas a alcançar seus propósitos. Com mão de ferro condenou, processou, incapacitou, tornando-se a única voz a deliberar e executar mandados judiciais. O Vichinski contemporâneo gostava de aparecer e mostrar seu poder. A tal república de Curitiba se forjou em torno da farsa e a partir dela outros promotores surgiram dos ralos para brandir o bastão da lei e da ordem, segundo seus princípios. E chegaram a ameaçar um fundo com recursos advindos de punições contra a Petrobras. 

Felizmente esse período de terror sem controle, sucumbe em parte ao peso da legislação em vigor, e por outra parte à incompetência dos agentes alucinados, que ao final das contas, regressaram ao ponto de partida da sua aviltante estupidez. Significa dizer, há um silêncio moribundo emanado desse desgoverno - fruto direto dos arroubos da canalhice desses anos - em que poucos ousam confrontar, pelo menos por ora. Ontem, foi a vez de um dos ministros do Supremo Tribunal Federal. É possível que se empurre com a barriga esse estado de letargia, de frustração ética e moral, até outubro, quando, ao que tudo indica, a custosa ação criminosa, hipócrita e irresponsável dessa classe dominante, será por fim suspensa, com a eleição de um novo governo de matiz popular. Já lambendo as feridas, as classes menos favorecidas contabilizarão as perdas do período, sem a certeza de que conseguirão recompor os direitos subtraídos e recuperar plenamente o poder político e econômico. Todos esperamos que sim, que isso possa ocorrer, ao custo da prisão dos saltimbancos criminosos e que ao fim, possamos bradar nossa voz a plenos pulmões, e pleitear com vontade, com muita gana e com tanto atraso, a justiça social que de fato nos represente.