27 junho 2016

Aproximações de um golpe pós-moderno

Impostura, da série Estranhos Poderes


Não vivenciamos novidade no programa econômico neoliberal que incorpora o princípio das ações deste governo interino e ilegítimo; sua linhagem provém dos governos de FHC e Menem nos anos 1990. Como diz Roberta Traspadini em seu A Teoria da (Inter)dependência, "a tragédia que vivemos é o resultado de muitas farsas. A principal delas esteve constituída pelo próprio projeto do governo FHC", e prossegue mais adiante, "Tratava-se de estabilizar a economia, ganhar credibilidade internacional, abrir totalmente as fronteiras econômicas (...). O que conseguiu foi, apesar de um período algo prolongado de certa estabilidade dos preços, uma enorme vulnerabilidade frente à economia mundial (...)". 

A classe dominante brasileira se aproveitou de maneira silenciosa e canalha dos benefícios que um governo bem-intencionado de centro-esquerda, ainda que titubeante, proporcionou ao longo de 13 anos. A natureza do escorpião, no caso manifesta por sua ganância intrínseca, se revelou no primeiro momento em que a crise internacional começou a afetar seus ganhos. Passou a questionar duramente o chamado 'gasto social' e em seguida começou a agir nos bastidores, como lhe é historicamente usual, para a derrubada de um governo legalmente constituído. Para isso, o arco de composição golpista desta feita mobilizou poderosamente diversos setores da sociedade civil, como o judiciário, o grande capital e amplas parcelas da classe política. E como não poderia deixar de ser, toda a mídia corporativa.

Nestes 40 dias voltamos atrás nos avanços sociais e reativamos as negociatas políticas de balcão. As manifestações da classe média na avenida Paulista e em Copacabana, confusas em suas propostas, porém de algum modo articuladas em torno do combate à corrupção, mostraram-se na verdade um aríete contra as políticas do partido dos Trabalhadores, então no governo. O capital produtivo retomou o caminho especulativo, com consequências diretas, agora bem observamos, nos postos de trabalho. A educação e cultura foram fortemente abaladas com redução nos recursos federais, e a segunda sendo em um primeiro momento simplesmente abolida de seu ministério. Ficou claro que a corrupção não foi o problema que incitou as classes dominantes a agirem, tal o número de processados judicialmente que assumiram os diversos ministérios.

Temer e seu bando de pistoleiros do entardecer se sustentam sabe-se lá como, sem um projeto, sem carisma popular, sem apoio internacional. A economia parece, neste momento, a serviço do pagamento das contas do golpe, com os recursos sendo manejados de modo precipitado e de maneira irresponsável. Os pistoleiros tomaram de assalto a cidadezinha e o xerife, a justiça, o banco e o jornalzinho trabalham em perfeita sincronia, impondo aos cidadãos o silêncio, a censura e as normas da pilhagem como prática econômica. Enquanto a horda estiver nos postos-chave, não existe a menor possibilidade em se pensar na retomada do bem-estar social. Ao contrário, a médio prazo a tensão só promete consequências desastrosas para a população   

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Em recente forum ocorrido em Londres, no painel sobre Mídia, Percepção e Consolidação da Democracia Brasileira, a jornalista Sue Brandford apresentou argumentos consistentes e irrefutáveis em sua fala, a denunciar o papel ativo da mídia corporativa brasileira na incitação ao golpe.

A resposta do dono da Folha, que estava presente, se aproxima no tom e na justificativa ao desprezo secular que os donos da casa grande desse país sempre tiveram com os temas que lhes questionam o poder.

Em suma, Sue Brandford expôs ao mundo as mazelas de uma mídia tendenciosa, que ocupa o 104º lugar entre 180 países; o dono da Folha sem a menor disposição em debater, apenas reforçou sua arrogância classista.

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(Sobre uma notícia  de algumas semanas atrás, em que o governo ilegítimo de Temer se negava a pagar as estadias de Dilma)



Em setembro de 1960, na primeira visita da representação de Cuba à ONU sob o governo de Fidel Castro, designaram para a hospedagem dos cubanos o hotel Shelburne, em Mannhattan. Logo no segundo dia da estada, o gerente do hotel comunicou a Raúl Roa Khouri, chefe da delegação, que os cubanos teriam de fazer um depósito adiantado.

Na consulta com Fidel a decisão foi rápida: após alguns contatos, incluindo Malcolm X, a delegação cubana optou por se transferir para o Hotel Thereza, no Harlem.

Seria uma grande sacada se em suas visitas políticas, Dilma se hospedasse nos Harlens do nosso Brasil.


07 junho 2016

Cretinos mistificadores da lei

Vileza, da série Estranhos Poderes


"Auro desliga os microfones, levanta-se e sai em meio a berros de protestos ou palmas e hurras de triunfo. O deputado trabalhista Zaire Nunes Pereira, do Rio Grande do Sul, corre para esbofeteá-lo aos gritos de "cretino mistificador da lei", mas não chega a alcançá-lo. Em ambos os lados, o espanto é geral. Tudo foi tão rápido que até os que aplaudem estão perplexos. Satisfeitos, mas atônitos. Revolta e alegria se alternam por aquela insólita "declaração de vacância" do mais alto cargo do país, em que nada foi debatido ou discutido e tudo se consumou em poucas frases imperativas". 
(trecho do livro 1964 O Golpe, de Flávio Tavares)

A triste cena ganha relevância, para mim, no gesto intempestivo do deputado gaúcho que buscou o presidente da Câmara para esbofeteá-lo. Foi também neste momento o gesto aqui não descrito de outro deputado também trabalhista, Rogê Ferreira, que conseguiu disparar duas "cusparadas cívicas" em Auro. No mais, o registro frio da história, com seus trágicos contornos. 

O certo foi que, na mesma fatídica noite da deposição de João Goulart, ocorreu outro fato digno em sua pequena dimensão, conforme relato de Flávio Tavares.

"São 3h25 e agora será a posse. Alguém, no entanto, lembra um detalhe fundamental: falta um general. Sem um general que avalize a posse do novo presidente, não pode haver posse nem haverá novo presidente. Alguns senadores e deputados saem em busca de um general e entram no gabinete de Darcy Ribeiro. O general Nicolau Fico está lá, ao lado do chefe da Casa Civil, mas pensa também como Darcy, que, dedo em riste, lhes grita: Isto é um esbulho, uma usurpação. Vocês são uns usurpadores. Retirem-se daqui!"

A História levou cinquenta anos para revelar os acontecimentos do golpe em 1964; hoje ela se inscreve ao tempo em que ocorre, tudo está nas redes sociais, registrado em texto e em imagens por autores anônimos que nos revela o golpe presente e o desdobramento das consequências. 

Assim vemos os jovens ocupando espaços públicos, as mulheres organizadas cantando contra a cultura do estupro, o verdadeiro jornalismo produzindo análises em tempo real, os intelectuais mobilizando-se pela Cultura, nada escapa à vilania, nada a Temer. Já não são capazes, os comparsas do golpe, a sair livres pelas ruas, sem que sejam recepcionados pela população e devidamente chancelados como golpistas.     

Nunca será demasiado buscar um presidente da Câmara para esbofeteá-lo, nem chamar de usurpador o golpista entronizado como presidente. Momentos históricos, muito mais consistentes do que os de abril de 1964 acima descritos, possibilitam uma verdadeira ação política e redimem a democracia do vergonhoso ultraje perpetrado no Congresso. As mobilizações possuem força para permanecer - essa é a expectativa de grande parcela da sociedade civil - até a queda dos usurpadores.