31 dezembro 2014

Transitórias ponderações

!no estamos conformes!


O último dia do ano segue como um barco em alto mar, flutuando ao sabor do acaso, onde o céu imenso se confunde com o mar, outrora inquieto e que por ora refulge a luz coroada de pequenas inconstâncias e que se esparge pelo caminho. O brilho que nos aquece e nos dá conta da mansidão da água, do silêncio de fundo à sonoridade marítima, do balouçar a deslizar nas ondulações, o sol a pino, a brisa que aporta os rumores abafados, as acrobacias dos atobás, navega-se com as certezas dos dias anteriores e de acordo com as possibilidades do presente. As ausências estimulam a rememoração, assim como a consciência de mundo nos solicita a ação. As conquistas não são feitas do sucesso, mas do equilíbrio, o que nos salvaguarda da autossuficiência, tão dourada quanto inconsequente. Este ano foi de conquistas duras, obtidas ao longo de muita entrega, mas o discernimento das dificuldades não encobriu a importância de se pensar na continuidade, na reflexão do que está por vir. Compreender que os esforços não se encerram na caminhada individual, mas se prolongam e ganham sentido no bem-estar coletivo. A farsa da ilusão ou da mentira, muito presente nesse tempo de interesses mesquinhos, não se sustentam perante a consciência política. O encanto da realidade da vida cotidiana não se esgota na reprodução do espetáculo.

        

21 dezembro 2014

César Vallejo


A primeira vez foi na segunda metade dos anos 1990, quando cumpria meu mestrado na PUC, que ouvi seu nome na fala do querido professor Amálio Pinheiro. Não saberei dizer se foi em uma aula, em uma conferência ou em uma conversa informal entre pesquisadores. Mas guardo a emoção de suas palavras, ao citar a poesia de Vallejo. Para mim, na época, a configuração da poesia latino-americana e o conceito de Pátria Grande faziam pouco sentido, ainda que me calasse fundo sua arguição sobre a força de nossa mestiçagem. Em minha banca de qualificação, não compreendi o alcance de sua sugestão ao tentar me fazer ver que a leitura do universo simbólico, espacial e psicológico do filme São Paulo Sociedade Anônima, meu objeto de pesquisa, seria mais natural partindo de uma interpretação latino-americana, Lezama Lima, Carpentier, César Vallejo, em vez de Sartre. Sua inquieta explanação não conseguiu me persuadir. Já naquele momento teria sido fascinante envolver-me com as teias da magia poética que recobre um continente. Talvez eu pudesse deixar um pouco de lado a rispidez da fenomenologia europeia e me deliciar com o realismo maravilhoso. Amálio, curtido pelos imaginários que designam "o lar, a mãe, as paisagens andinas, a fome, a injustiça essencial da vida humana",  por certo anteciparia o meu caminho. Como sempre, uma questão de perdas e ganhos. 

Para escrever esta postagem, me inspiro nesta breve antologia poética de César Vallejo, publicada pela Alianza Editorial, com um detalhado prólogo de José Miguel Oviedo, com a qual vou e volto no universo da poética vallejiana, a construção marcada por três momentos distintos, Trujillo, Lima e Paris, uma obra que sofreu por parte de críticos, compiladores e pesquisadores "a mais intensa manipulação (...) de que se tenha memória em nossa literatura". Mas Miguel Oviedo também destaca duas importantes virtudes da sua poética, "uma nova e outra bem conhecida: sua agônica e profunda compreensão da complexa natureza dos fenômenos históricos que envolvem o homem, e sua inesgotável capacidade de invenção verbal para registrá-los tal como passavam diante de si, mas ao mesmo tempo como se passassem ante nós mesmos". Essa 'experiência universal' o leva a militar pela causa republicana na guerra civil espanhola, porém sua opção ideológica não o cega diante da condição humana, "a ação é a consequência imediata do sentimento de solidariedade". 

Gostaria de destacar, no original, trechos de dois poemas representativos da obra de César Vallejo, primeiro Trilce e depois, España, aparta de mí este cáliz. Para sentir o pulsar inclemente de suas palavras, "o não haver sido senão mortos sempre"

LXXV

"Estáis muertos.

Que extraña manera de estarse muertos. Quienquiera diría no lo estáis. Pero, en verdad, estáis muertos.

Flotáis nadamente detrás de aquesa membrana que, péndula del zenit al nadir, viene y va de crepúsculo a crepúsculo, vibrando ante la sonora caja de una herida que a vosotros no os duele. Os digo, pues, que la vida está en el espejo, y que vosotros sois el original, la muerte.

Mientras la onda va, mientras la onda viene, cuán impunemente se está uno muerto. Sólo cuando las aguas se quebrantan en los bordes enfrentados y se doblan y doblan, entonces os transfiguráis y creyendo morir, percibís la sexta cuerda que ya no es vuestra.

Estáis muertos, no habiendo antes vivido jamás. Quienquiera diría que, no siendo ahora, en otro tiempo fuisteis. Pero, en verdad, vosotros sois los cadáveres de una vida que nunca fue. Triste destino. El no haber sido sino muertos siempre. El ser hoja seca sin haber sido verde jamás. Orfandad de orfandades.

Y sinembargo, los muertos no son, no pueden ser cadáveres de una vida que todavía no han vivido. Ellos murieron siempre de vida.

Estáis muertos".


Batallas
(IV)

"Los mendigos pelean por España,
mendigando en París, en Roma, en Praga
y mendigando así, con mano gótica, rogante,
los pies de los Apóstoles, en Londres, en New York, en Méjico,
Los pordioseros luchan suplicando infernalmente
a Dios Santander,
la lid en que ya nadie es derrotado.
Al sufrimiento antiguo
danse, encarnízanse en llorar plomo social
al pie del individuo,
y atacan a gemidos, los mendigos,
matando con tan solo ser mendigos.

Ruegos de infantería,
en que el arma ruega del metal para arriba,
y ruega la ira, más acá de la pólvora iracunda.
Tácitos escuadrones que disparan,
con cadencia mortal, su mansedumbre,
desde un umbral, desde sí mismos, !ay! desde sí mismos.
Potenciales guerreros
sin calcetines al calzar el trueno,
satánicos, numéricos,
arrastrando sus títulos de fuerza,
migaja al cinto,
fusil doble calibre: sangre y sangre.
!El poeta saluda al sufrimiento armado!"