30 junho 2015

Os pequenos lacerdas



Um dos motivos para o surgimento deste blog foi o desejo de produzir escritura. No início, aproveitei muito material que dispunha pronto, utilizado em outro blog que encerrei, o Caminhos para a Liberdade, e aos poucos, fui acrescentando novos textos. O principal tema inicial era a mídia na América Latina, e confesso que sempre me lancei de modo contundente, rompendo a análise mais criteriosa, mais distanciada, e posicionando-me ideologicamente. Resultou que as crônicas e artigos iniciais foram duras críticas à mídia hegemônica, ao tempo em que me entusiasmava com a liberdade e a expansão das redes digitais. Como muitos articulistas independentes, acreditava no fim dessa 'velha mídia' e a pronta substituição por algo não muito definido, em que as pessoas fossem protagonistas e participantes na construção da informação. Em 2008 isso soava como um convite à imaginação, como se daria a passagem da mídia oligopólica e hierarquizada para outra socializada e horizontal? 

Foi nesse espírito que desenvolvi minhas reflexões, e aos poucos a força e amplitude das análises ganharam espaço em congressos acadêmicos ou mesmo de projetos de pesquisa. O alcance das rádios digitais sulamericanas disseminando os avanços sociais me animaram a pensar a Pátria Grande, o barroco, o realismo maravilhoso - política e literatura juntos na interpretação de uma poderosa independência colegiada, enfim alcançada. Bem, não preciso transcrever meu entusiasmo, basta retomar as escrituras aqui presentes para concluir como incorporei esse processo de identificação. 

Meu duro posicionamento em relação à chamada mídia hegemônica questionou sempre sua parcialidade, ou digamos melhor, o esforço pela defesa de seus interesses, e isso passou pelos inúmeros processos eleitorais da América do Sul, em especial, Venezuela, Argentina e Brasil. Assumi o posicionamento do jornalismo independente e digital, que aos poucos ganhou destaque na denúncia de um jornalismo que representava de modo cada vez mais irresponsável a opinião do patrão, opinião que se ligava e se liga a uma oposição difusa, simpática a uma dispersa gama de políticos conservadores.

Hoje a discussão neste espaço não prossegue na oposição ao jornalismo tendencioso, o que já está suficientemente exposto ao longo dos quase sete anos de blog, mas na denúncia dos falsos profetas que, de início poucos, hoje assumem a proeminência nas redações e constituem com seus discursos distorcidos a ponta de lança ideológica que incentiva os movimentos opositores, nas diversas instâncias da sociedade civil, a mobilizarem-se com inaudita violência desagregadora, seja ela física ou verbal. 

Triste ver que são muitos, ocupando distintas funções na produção de informação, e que atuam com incrível poder de articulação. Já há uma segunda, uma terceira geração de pequenos lacerdas, derivados não de Carlos Lacerda, o jornalista e político que por vezes vestiu a roupagem de líder golpista, mas de farsantes menos competentes como os Pondés, os Constantinos, os Azevedos, os Villas, os Mainardis, os Waaks, reprodutores de falas acintosas e destituídas de uma análise crítica mais elaborada e responsável, representantes de um discurso cujo sentido polêmico se esmera em desagregar. 

Os pequenos lacerdas, que repito, não alcançam o brilho duvidoso do argumento de Lacerda, ou mesmo de um desatinado como Paulo Francis, se satisfazem em criar um clima de profunda descrença nas instituições. Nunca é demais afirmar que não se trata de indivíduos atoleimados, ao contrário, possuem grande sagacidade na artimanha discursiva, mas justamente quando mais se poderia esperar deles, fenecem, porque a leitura da realidade não constrói, não é consistente, e se propõe ao consumo imediato. No esforço de preservar um niilismo de aluguel, perdem legitimidade.

Por isso creio que o verdadeiro cidadão democrata, imbuído de um compromisso com a cidadania, não precisa temer essa estirpe. Como já escrevi antes, ela se apropria de um modus operandi que prega a reflexão rasa, sem nada acrescentar a não ser o ódio, a arrogância, o sectarismo, sentimentos que não encontram amparo junto às forças vivas da sociedade! No mesmo dia em que as bicicletas tomaram conta de uma Paulista ensolarada e solidária, um sujeito resolveu agredir verbalmente um ex-ministro. Não era Lacerda, tampouco um desses pequenos lacerdas, mas um desafortunado cujo palavrório se presta a assediar ideias e pessoas com a mesma iniquidade.







17 junho 2015

Sobre mulheres que lutam e sonham



Duas breves histórias, uma ocorrida em sala de aula, outra revisitada em vídeo. A primeira, hoje pela manhã, enquanto a parcela presente da classe fazia as vistas das provas, um aluno isolado realizava a 2ª. chamada, Honório, jovem morador da distante periferia sul de São Paulo. Ele não demorou, e ao me entregar a prova, disse-me que estava feliz por ter identificado no filme Povo Lindo, Povo Inteligente, tema de uma das questões, o Márcio Batista, um dos poetas e seu professor de educação física no ensino médio. O mais comovente, porém, foi ao ler o complemento de sua resposta. Ao comentar a importância da poesia no sarau da Cooperifa e da sua contribuição para o questionamento do mundo como parte da cidadania, frisou que isso ficava evidente ao reconhecer, no filme, “a cozinheira da escola pública onde estudei, expondo suas ideias e sua arte”.

A segunda, agora à noitinha, em um momento de descanso, sintonizei por acaso um trecho do filme Peões, de Eduardo Coutinho (que havia assistido na época de seu lançamento), sobre os trabalhadores ligados ao movimento sindical dos metalúrgicos de São Bernardo. Dentre tantos depoimentos, impressionáveis pela força inata do argumento que brota simples e direto, a fala de Zelinha, seu orgulho imenso por Lula, lembrando que entrou com ele no sindicato, no mesmo mês de março de 1976, ele como presidente, ela como copeira. “A coisa que mais desejo é ir a Brasília e servir um café para ele, no Palácio do Planalto”. Por fim, explica como salvou da polícia, quando da ocupação do sindicato, uma lata contendo um filme. Pediram para ela guardar e ela não vacilou, tratou de escondê-lo em sua sacola, sob um par de sapatos, quando saía para sua casa. “Se eles pegassem, acabariam com a nossa história”, disse mais ou menos assim. Na lata, o filme Linha de Montagem, de Renato Tapajós.

O sentido do amor, por si, pelo outro, pela vida, nestas mulheres que não se cansam de lutar e sonhar.