31 dezembro 2019

Um novo ano

Carybé, Compadre de Ogum - boteco


Na passagem de ano penso em Paulo Freire, porque é urgente e indispensável lembrá-lo neste momento de nossa vida cívica, em sua compreensão de esperança como ato transformador, a esperança que nos possibilita "aprender, ensinar, inquietar, produzir e juntos igualmente resistir aos obstáculos a nossa alegria".

Um ótimo 2020, de muita paz, saúde e realizações transformadoras!!



28 dezembro 2019

A procissão dos tolos


Relógio sem tempo, Pueyrredón, 2008


Convivi na minha infância com seres humanos que me pareciam complexos e distintos. Frequentavam a agência bancária que meu pai gerenciava imprimindo seus conceitos intuitivos de gestão. Descobriria rapidamente que ambas as realidades eram falsas: aqueles clientes estavam longe de se constituir em gente complexa e distinta, e meu pai jamais teve a liberdade para aplicar suas qualidades inatas de gestor.

Quanto aos clientes, eram adultos, masculinos, que se apresentavam em trajes formais – terno e gravata como sugeria o figurino da época – e alguns exalavam um desagradável olor com seus perfumes baratos. Pude acompanhar essa espécie de procissão diária sem restrições, por ser uma criança que gostava de ficar no cercadinho da gerência, próximo à mesa em que meu pai recebia essa gente.

Mostravam-se na maioria das vezes simpáticos nos gestos e palavras, mas no fundo tinham comportamentos fugidios, muito semelhantes em seus interesses, a busca pelo naco de empréstimo que os aguardava no período do “milagre econômico”. Pequenos e médios empresários, comerciantes da região, profissionais liberais, gente que ao adentrar a agência se amesquinhava nos mesmos propósitos, no mesmo ritual que conferiam os valores de cada demanda.

Tudo muito corriqueiro, profundamente cansativo para o olhar de uma criança. O que se tinha na mesa de negociações era um pedido relativamente simplório, atendido no mais das vezes, o agradecimento pegajoso, o dinheiro na conta e no final do ano, o agradecimento em forma de presentes natalinos, que enchiam a nossa sala. Meu pai se submetia às cansativas consequências de uma vida pautada pelo dinheiro.

Penso que foi o grande momento dos bancos neste país, crescimento vertiginoso acobertado por uma política econômica que estimulava o financiamento do que fosse a juros baixos. De um lado, a soberba ingênua de um comportamento empresarial que dava seus primeiros passos, amparado por uma falsa impressão de um capitalismo inovador e idealizador, sonhos e desejos que sucumbiriam de maneira abrumadora poucos anos mais tarde, na esteira das crises do petróleo.

No plano pessoal, o momento exigiu um esforço hercúleo em sintonizar o equilíbrio do corpo sob a voracidade das demandas insaciáveis do mercado financeiro em plena expansão. Foram dez anos cheios, de 1964 a 1974, muito dinheiro, muitos afagos, muita expectativa e a profunda destruição do caráter. Depois, o lento esvaziamento dos empréstimos privados, o recuo dos índices mágicos do crescimento econômico, o robustecimento das garras que hoje aprisionam e esfacelam o indivíduo em nome da ideologia neoliberal.

Nada resta daqueles tempos presumidamente áureos, e a falsa ingenuidade transformou-se em imbecilidade. Da procissão dos tolos com suas artimanhas fúteis, não sobrou poeira. Hoje, olho para bem perto e vejo meu pobre pai refletindo os fragmentos desse tempo a partir de números desconexos, construindo dia após dia compromissos imaginários que se dissolvem no ar, como se o corpo não conseguisse se desvencilhar das mazelas que o dinheiro fomenta.



26 dezembro 2019

Sartre no cinema

Capa de Filosofia Ciência e Vida, número 156


A sair nestes dias na revista Filosofia Ciência e Vida um longo artigo meu sobre dois temas que me fascinaram há vinte anos e que se complementaram em minha pesquisa de mestrado, Sartre e Luiz Sérgio Person. O título, Sartre no Cinema: uma aplicação da fenomenologia sartreana no filme São Paulo Sociedade Anônima. Meu esforço puro e simples foi discutir o filme de Person sob a luz da fenomenologia sartreana. Ainda hoje penso que a proposta ousada não foi devidamente explorada, seja do ponto de vista cinematográfico - deixei de lado diversas e importantes questões teóricas a serem analisadas - quanto do ponto de vista filosófico - poderia ter aprofundado alguns conceitos existenciais que utilizei. 

No começo do texto publicado comento sobre os papéis avulsos encontrados em meus arquivos, páginas e mais páginas de anotações das minhas leituras teóricas. Embora metodologicamente tenha encontrado um caminho sustentável, faltou me debruçar sobre tanto material recolhido e organizá-lo na pesquisa. Acerca de interpretações sobre Sartre, são mais de vinte laudas datilografadas, envolvendo Roquentin e Carlos, personagens de A Náusea São Paulo... respectivamente; o espaço urbano, no caso São Paulo e a linguagem cinematográfica. Havia muito mais, de autores diversos, registros que acabaram abandonados ou subutilizados. 

De todo modo, o artigo publicado na revista, consegue dar uma boa ideia sobre a discussão. O texto se baseia em um capítulo de minha tese, com alguns acréscimos introdutórios. Fiz uma boa revisão, que eliminou certas fragilidades da argumentação e organizei um pouco mais o contexto urbano em que o filme se dá, a São Paulo em transformação no final dos anos 1950 e princípios de 1960, que coincide com o golpe de Estado de 1964. Também corrijo a análise das personagens principais, Luciana, Hilda, Ana, Arturo, além de Carlos, o fio condutor da narrativa fílmica, dando-lhes mais profundidade psicológica e social.

Abaixo um trecho do artigo.

(...)
No meio de tantos fatos políticos que há tempos sacodem a vida brasileira, acabei me envolvendo com uma pesquisa para a elaboração de um texto que me foi solicitado por uma revista eletrônica. Decidi, então, retomar a leitura sartreana sobre o intelectual moderno e sua responsabilidade social. Seria essa a fronteira a ser desbravada, aspectos como a necessidade de ruptura com a falsa universalidade de sua compreensão burguesa de mundo. A princípio, enveredei pela leitura do opúsculo Em Defesa dos Intelectuais, de 1965, e avancei na conferência Função do Intelectual. Busquei uma relação com a farsa dos analistas contemporâneos, ditos intelectuais, que forjam análises e métodos particularistas, em defesa de seus interesses corporativos, e que são apresentados como posturas universalistas. São os falsos intelectuais, como dirá Sartre, antes de tudo, uns vendidos.

Todavia ao aprofundar as leituras, os documentos que passei a manusear modificaram completamente o objeto do tema pesquisado. Sabia que dispunha de arquivos das minhas pesquisas de mestrado e para eles me dirigi. Para minha agradável surpresa, encontrei uma pasta verde nomeada Projeto São Paulo Sociedade Anônima e em seu interior, revolvi um mundo! Súbito retomei contato com anotações densas, que realizei a partir de diversos textos de fenomenologia e existencialismo, como por exemplo os apontamentos de toda a primeira parte do livro de Paulo Perdigão, Existência e Liberdade, onde ele faz uma análise muito didática de O Ser e o Nada. As anotações preenchiam um caderninho, e havia muito mais. 

         Folheei um denso fichamento da obra mestra de Sartre, O Ser e o Nada. Registros valiosos cujos conceitos destacados certamente foram por mim incorporados na prática cotidiana dos últimos quinze anos, conceitos como a má-fé, transcendência, o homem sincero, temporalidade, reflexão - "Mas a reflexão pura continua a descobrir a temporalidade apenas em sua não-substancialidade originária; em sua negação de ser Em-si, descobre os possíveis enquanto possíveis, suavizados pela liberdade do Para-si, revela o presente como transcendente e, se o passado lhe aparece como Em-si, ainda é sobre o fundamento da presença"... - desdobrando as distinções do Para-si e do Em-si.

Dentre outros apontamentos menores, retomei as anotações de As Ideias de Sartre, de Arthur Danto, que se bem me recordo, ajudaram bastante como guia para adentrar o pensamento da filosofia sartreana. Juntamente com as definições de vergonha, o absurdo, angústia, desenvolvi, já tendo em vista a minha dissertação, uma aproximação com Carlos, personagem principal de São Paulo Sociedade Anônima, fio narrativo do drama existencial em que consiste a obra fílmica realizada pelo cineasta Luiz Sérgio Person, de 1965.

No mesmo caderno de anotações, as ricas descrições de A Náusea, onde aí sim relacionei diretamente as personagens centrais do romance e do filme, Roquentin e Carlos. Destaquei, por exemplo, o conceito da temporalidade, no primeiro caso, "Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia"... - e no segundo caso, "Carlos não encontra nada no passado e o futuro o assusta. O problema é que faz do presente uma transição entre essas temporalidades - passado e futuro - sem interferir, sem decidir-se por uma atitude que contemple o seu estado de espírito, seu desejo e a sua falta"...

O reencontro com esses documentos escritos me animou a organizar o presente artigo, aprofundando-me no prazer do reencontro da filosofia com o cinema, permitindo-me uma breve aplicação de conceitos e experimentações da fenomenologia sartreana a um dos mais belos filmes brasileiros.
(...)


18 dezembro 2019

A volta do peronismo

Plaza del Congreso, 2013


A vitória dos Fernández na Argentina - Alberto e Cristina - trouxe um punhado de esperança na retomada das políticas de bem-estar social, interrompendo com um governo que consistiu em uma aliança entre diversas frações do capital (1). Todos os índices sociais foram fortemente atingidos, são mais argentinos desempregados, mais argentinos empobrecidos, forte aumento das tarifas dos serviços públicos (gás, eletricidade, água, transporte), inflação redobrada, queda na produção industrial, menos investimentos na cadeia produtiva, novo ciclo de endividamento externo, no que culminou em um rotundo fracasso da política econômica. 

O que impressiona é que Macri obteve 40% dos votos válidos, ainda que a terra-arrasada de seu governo tenha atingido indistintamente todas as classes, das mais miseráveis às mais privilegiadas. O fracasso completo manteve um discurso fantasioso que conseguiu, pelo menos no photochart das eleições, convencer uma substanciosa parcela da população. Nem os fabulosos empréstimos contraídos junto ao FMI, no final de seu governo, impôs a Macri as consequências da negociação com cara de negociata. Menos mal que na legislação eleitoral argentina basta atingir 45 dos votos válidos para haver um vencedor, sem a necessidade de balotage

Curioso rever uma pesquisa feita junto a 2.000 pessoas pela Celag em junho de 2019, cerca de cinco meses antes da eleição presidencial, quando Alberto Fernández já consolidava 46,2% das intenções de voto. O que chama atenção é que, naquele momento, Macri somava meros 21,3% das preferências e Lavagna, 1,9%. Somados "outros" e "não sabe/não respondeu", o índice alcançava impressionantes 30%. Desse contingente, Alberto conseguiu agregar apenas 2% enquanto Macri praticamente dobrou seu universo de votantes!

Ainda assim, a derrota macrista foi contundente, quase dez por cento, além da perda dos governos na maioria das províncias para o peronismo, incluindo a estratégica Buenos Aires. Venceu na pequena Jujuy, fronteira com a Bolívia, e em Mendoza, onde a vitória foi de um macrismo sem Macri. O peronismo com Alberto e Cristina Fernández terá um panorama político favorável para governar à sua feição e paulatinamente desarmar as armadilhas neoliberais da economia, recuperando o papel do Estado em sua função reguladora do crescimento e distribuição de renda. 

(1) BASUALDO, Eduardo. Endeudar y fugar - un análisis de la historia económica argentina. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2017, p. 190.

(Atualização em 07.11.2021)


07 dezembro 2019

Uma vez em Marrakech


praça Djema el Fna

Chegamos pelo final da tarde, o sol se punha e seu tom alaranjado se confundia com a coloração argilosa das muralhas, a uns duzentos metros da estação rodoviária. Mal iniciamos a caminhada no sentido dos portões da medina, um jovem nos abordou oferecendo-se para nos conduzir a um alojamento. Pedi em francês que fosse barato e no centro, ele entendeu e pediu para segui-lo, serpenteando pelos suqs, passando por toda sorte de pequenas tendas e lojas, onde se comerciava de tudo. Os espaços se alargavam e se estreitavam, cruzávamos homens e mulheres em djelabas, crianças, desocupados nos cafés ou conversando nos espaços públicos, o jovem não se detinha, caminhava célere e nós atrás, com as pesadas mochilas nas costas. 

Por fim desembocamos em uma ampla praça esvaziada, atravessando-a no mesmo ritmo até um hotel discreto e de aparência simpática. que ao fim e ao cabo atendia as expectativas para uma ou duas noites. Pagamos nosso condutor, preenchemos os formulários para a estadia e subimos ao quartinho do segundo andar, em cujo pequeno terraço tive tempo de desfrutar a beleza do por do sol. Antecipamo-nos em uma ou duas horas a chegada dos demais companheiros de viagem, com os quais compartilhamos uma bela mesa no jantar. Ao que me recordo, no dia seguinte uma parte iria até Ouarzazate, na entrada do deserto, outra parte ficaria em Marrakech, não havia pressa para deixar a bela cidade marroquina. 

É dessa época meu contato com o maravilhoso relato de Canetti, Vozes de Marrakech, embora confesse ser muito provável não ter lido todas as narrativas. Tratava-se de uma tradução precária, que não ajudou a leitura. Levei quase vinte anos para ter em mãos a preciosa versão da Cosac e Naify, quando por fim pude realizar com muito gosto toda a leitura. E percebi que meus parcos dois dias na cidade não foram suficientes para me deleitar com pelo menos uma parte das surpresas que Canetti vivenciou trinta anos antes de mim. Por isso desejo muito retornar. Trata-se de uma cidade dos sonhos, com toda sua pobreza e exuberância. O encanto está nas pessoas, nos sinais de mistério da cultura, na profusão de seu mercado, nas cores que se revelam ao pôr do sol. 


A partir da esquerda, Marcelo, eu e Flávio, com crianças, 1989