01 janeiro 2011

Pelo que vale a vida (1)


Caim - És feliz?
Lúcifer - Somos poderosos!
Caim - És feliz?
Lúcifer - Não, e tu?
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(Caim, Lord Byron)



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- ... e isso pode ser o tangível, mas não é o que conta, entendes?...
- Como se fosse um... transgredir?...
- Pensa desta forma, o teu objeto de desejo, este carro, aquela mulher, tal poder, alguma grandeza... tudo o que desejares, nesse estágio em que te encontras, tens de possuir...
- E para possuir...
- ... não tens de pensar em como possuir... esse não é o objetivo final, ou se preferires, o objeto a ser alcançado... Possuir é a primeira compensação do teu movimento...
- Passar pelas coisas como se elas...
- ... Nada significassem!... Entendes, não é mesmo...?
- Busco o efêmero?...
- Buscas o teu brilho refulgente, que intriga enquanto dura e não pode ser reproduzido... Buscas o agora que rebenta em novos agoras e se renova em um movimento cíclico... um processo que te conduzirás, vê bem o que te falo, às ações pelas quais desejas manipular... que te atiçam e que te empurram para outras ações, que te proporcionam conquistas... Busques os prazeres que te estimulam, não os que te satisfazem!...
- E o sentimento...
- Abandona tua compaixão... vês o casal que se encontra para o café? De nada te serve, para nada te inspira... Representa a bolha de um prazer condenado!... Como não conta a recordação, a poesia do olhar, como não faz diferença Marx ou Che... Tua transfiguração está para além do teu horizonte... esqueças o ético ou o aético, que hoje nada são que palavras jogadas ao vento... Lembra-te, não és mais nem melhor, és o que te proporcionas o momento infinito, que já se alimenta do próximo... é o que basta, ao tempo que não basta...
- E o conhecimento?...
- Utiliza-o!... Forja-o, se necessário!... Apropria-te do que lhe convém!... Saberás sempre como, e tua assistência te reconhecerá como aquele que sabe!... Qual fim mais emblemático senão a realização do instante... em plena sucessão... livres, desconectados, à sua mercê... Conquista e abandona!... Tens a lâmina, fere como quiseres...
- O mais solícito improviso...
- ... e te dispõe para o argumento seguinte...
- E quanto à moral?...
- Aprende bem, como deve ser, sem remendos ou escrúpulos!... Ali tens, vê aquela paisagem, significa algo em si? Pois te confirmo, nada! não significa nada, sem os teus artifícios, sem a tua marca! O belo em um pôr do sol, sublime em si, um vago desperdício! O quadro todo, vejamos: o mar ao fundo, a resplandecência de seu brilho nas águas, as árvores se interpondo, a brisa fresca afagando os galhos imprecisos, adensados por belas folhas e flores, a ramagem dengosa, o claro-escuro pronunciando-se nas sutis concavidades... as rochas em contínuos fragmentos, menos azuladas, a rebentação borbulhante... matizes de verde, de azul, de harmonia... Nada mais lindo e incompleto em si... nada significa sem teus propósitos, sem agregares a tua ambição... Podes usufruir? Por quanto tempo? Ah, mansamente estendido sob a sombra, te servem em teus caprichos, te alimentas, resfolegas, despertas e aprecias... Entendeste por fim... Nenhuma beleza se constitui sem que possas assentá-la à tua necessidade...
- Qual olhar?...
- Menos o contemplativo per si... teu sorriso insinua que compreendes bem... (um sorriso metálico, que eclode na justa medida em que fenece) Há que alimentá-lo, sempre, com novas aspirações... teus objetos de desejo... o carro com que sonhas, ali, bem posto ao abrigo, a casa mais adornada, aqui, valorizada pela paisagem... a mulher... bem isso não interessa... vê o quanto tua alma sedenta pode converter!... vê o que pode te preencher, sem jamais te completar!...
- O tempo...
- Faze do tempo o teu tempo!... Quando conseguires, os outros hão de te ouvir...
- E o outro...
- Compõe com quem te é confiável, pelo tempo que te for útil...
- Me repreenderão...
- Que os parvos falem, mas só estes, porque não ousarão te afrontar... Desfaça as resistências à tua passagem, sem te deteres nos emaranhados da justificação... Prepara-te para o subterfúgio... tua argúcia, mais do que a razão, é o teu móvel, e aprenderás com ela...
- E o que me define...
- Nada, senão a ambição do presente! O brilho refulgente, lembra-te... Hás de ser hábil e astuto... E assim é: nenhuma palavra torna-se tão sábia que permaneça, nem consistente, que impeça a tua versão...
- A versão me define...
- A versão te empurra para o próximo passo... Pascal, Benjamin, Lorca, Piazzolla... transforma-os em teus caminhos, não em teus obstáculos, iluminando-os à tua maneira...
- Sem detalhes...
- Para que os detalhes?... condensações te imobilizam... não te detenhas em princípios de análise, mas nas artimanhas do discurso mais propício...
- Elas me conduzirão!...
- E o mais importante, saberás como manejá-las no impacto e na intensidade, sempre em teu interesse... Controla e te renova, capiscas?
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(gargalhadas, estrepitosas e metálicas...)
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