31 dezembro 2010

Recortes urbanos (1)


Do meu ponto de vista, tinha uma parte do seu rosto, o nariz afilado, os lábios graciosamente desenhados, a face acetinada, o queixo discreto e mais abaixo, as mãos apostas sobre o colo, os dedos longilíneos, sem anéis, unhas pintadas em grená, as pernas dobradas, as botas, o inevitável tom negro recobrindo-a. Uma mulher em seus quarenta anos, que me seriam ditos ao certo se pudesse apreciar seus olhos, teimosamente encobertos pela recurvada aba do chapéu.
Eu estava em pé, do outro lado do corredor, ela sentada nesses bancos voltados para trás, bem ao lado da porta de saída. Meu ponto se aproximava, talvez mais três ou quatro minutos para desvelar por completo o brilho de seu rosto. Abaixar-me acintosamente, por sob a aba do chapéu?... Na altura da Potsdamerplatz, um fluxo de pessoas que entra e sai, o vento gélido que açodou a todos por um instante.
As portas se fecham, o veículo prossegue. Surge uma vaga no assento diretamente em frente ao dela, e então por fim, a vejo mover a cabeça para o interior da condução, as mãos a esfregar-se umas às outras. Tem os olhos azuis, marcados pela reminiscência de um outro tempo. Logo tornou a olhar através da janela. Os lábios ofereceram um breve sorriso, acaso um espasmo de sua distração, um detalhe da paisagem, uma recordação efêmera?...
Outra parada, a minha. As portas que se abrem, a ruptura, o corpo expelido para o frio inclemente, que absorve o ruído do motor, a distanciar-se em definitivo.
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