25 janeiro 2011

A São Paulo do senhor Benega



No aniversário de 400 anos da cidade, Eduardo Benega, um jovem e solitário escrevente, saiu para um passeio matinal pelas ruas do centro de São Paulo. Resolveu caminhar de onde morava, na Rua São Luiz, até o Vale do Anhangabaú. Tomou em mãos o chapéu de feltro das ocasiões singulares e na companhia de Duque, um filhote vira-lata, desceu pelo elevador, atravessou o amplo saguão acarpetado e ganhou a calçada.
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Edu não se apressou em seu périplo; gostava de apreciar os fatos e se aprazia com o ritmo da montagem daquele dia de júbilo para São Paulo. Parava aqui e ali, na praça Dom José Gaspar, na ladeira da Memória, olhando para as ruas, para os edifícios, atento à paisagem sonora, sorrindo para os passantes, franzindo o senho e piscando para Duque, como se confabulasse mentalmente com o bicho. E passaram pela Xavier de Toledo, na esquina, o prédio do Mappin... Surgiam os casais, os grupos de homens e mulheres com suas crianças, que vagavam sem pressa sob a bela manhã de sol, animados para participar da festa.
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Diante do edifício Mackenzie, o adensamento de gente tornava o caminhar mais dificultoso. O seu mundo confraternizava: vendedores de bexigas, algodão doce, crianças e idosos felizes, os passageiros que desciam dos bondes, as barracas de flores funcionando diante do Teatro Municipal, estendendo-se pelos seus jardins, na encosta do vale. Eduardo admirou-se com a paisagem da "cidade que mais crescia no mundo" longamente... Do outro lado, o charmoso terraço do Palacete Prates, a mulher idílica debruçada na mureta, apreciando o fundo do vale, os automóveis emergindo do "Buraco do Adhemar"... Entraram no meio da multidão festiva, e avançaram aos bocados pelo viaduto do Chá, rumo à Praça do Patriarca.
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Passou a discernir um rumor que tornou-se a irrupção de um drama: estudantes que se moviam, agitados, vindos da Faculdade de Direito, expressando nas faces a insatisfação do momento, tal como arautos de más notícias. Benega voltou-se para o Vale do Anhangabaú, uma lufada de ar revolveu a farta cabeleira, fechou os olhos. Ao reabri-los, viu cruzando o viaduto o que seria o indício de uma grande manifestação com Deus pela Liberdade... As faixas, o clima sombroso, "O que está acontecendo, outra manifestação?", perguntou por fim a um grupo com bandeiras que passava rumo à praça da República. Um dos rapazes, com expressão crispada diante da gravidade dos fatos, olhou enviesado para o velho cão: "Não, meu caro... desta vez vamos tirar o Brasil das mãos dos comunas!"...

Incomodado pela tensão que pairava no ar, Benega prosseguiu pela Rua Líbero Badaró. No percurso, sentiu o clima de agitação perdurar, as pessoas atarefadas, os jovens perseguidos por militares, o vai-e-vem cada vez mais grave os comentários entrecortados sobre os tomates dos estudantes atirados no governador, em pleno 1. de Maio na Praça da Sé. Foi seu desejo esticar até o Café Girondino para degustar um bom café, afinal o fôlego não era o mesmo desde que a morte de Duque o alijara dos passeios frequentes.
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Mal se deteve para apreciar a fachada do Mosteiro de São Bento, Benega notou as pessoas acorrerem para o Viaduto Santa Ifigênia: do seu vão elas se hipnotizavam com o rubor que resplandecia nos céus, ao longe, defronte à Praça das Bandeiras. Eram tempos em que ainda se comovia com as tragédias humanas, e alguém exclamou, "oh, meu Deus, é o Joelma...", de modo tão vivaz, que o silêncio subsequente da multidão aprofundou o sentimento de dor. Benega, que não possuía a mesma visão aquilina de outrora, compreendeu-se impotente diante da situação desoladora. E afastou-se, no sentido rua da XV de Novembro.

Após o almoço, seguiu pelo calçadão rumo ao Pátio do Colégio. Não lhe escapou a profusão desencontrada de estilos arquitetônicos à sua volta, prédios de diferentes épocas, testemunhos de tempos mais afortunados do café. Enquanto se aproximava da Praça da Sé, sentiu o fragor cada vez mais forte de uma manifestação gigantesca. Desvelou-a aos poucos, visualizando também personalidades da vida pública nacional que se uniam ao clamor de milhares de pessoas pelo que indicavam as faixas, Diretas-Já.
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O senhor Benega vagou incerto em meio aos discursos produzidos no seleto palanque e retirou-se, tendo dificuldades para se desvencilhar da aglomeração. Alcançou sucessivamente, com o apoio da indefectível bengala, a Praça João Mendes, o Viaduto Dona Paulina e já exausto, no final da tarde, deparou com centenas de jovens caras-pintadas e os cartazes de Fora-Collor descendo a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, quase em frente ao cine Paramont. Um encontro que reavivou-lhe o espírito alquebrado pelos longos anos, que fez brotar na face enrugada um sorriso de satisfação.

Com tantas impressões vívidas colhidas no correr de seu itinerário, o velho Benega desejou como nunca o banco de uma praça, antes de aventurar-se mais nos espaços labirínticos da cidade. Perdeu-se nas ausências da memória coletiva e pessoal e tal como um indigente, tombou silenciosamente no início da noite, nas proximidades da Avenida Paulista. O menor que levou sua carteira guardou a arma e se evadiu furtivamente do local, sem o dinheiro que desejava e sem o remorso purificador, perdendo-se na festiva noite do domingo em que a Paulicéia oficial comemorava seus 450 anos.
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(texto escrito em 2004, originalmente com o título No correr do tempo, aqui parcialmente modificado)



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