23 junho 2018

A primeira onda neoliberal

Inhotim, 2018

Estamos em 1995, meses após a vitória de FHC e do então projeto neoliberal, que começava a se expandir pelas Américas sob o tacão estadunidense. Retomo as anotações de então, um diário não muito denso, mas razoavelmente didático e marcado por minhas apreensões, com minhas impressões sobre o vendaval que se acercava, em meio a recessão, desemprego, privatizações em andamento ou anunciadas. Foi a primeira onda do que hoje sofremos de modo mais incisivo e brutal. 

Hoje, os atores sociais são outros, porém embebidos pela mesma voracidade de vinte e tantos anos atrás. FHC, o presidente de antanho, agora nos bastidores, segue coordenando o assalto aos direitos dos trabalhadores e à entrega do país, juntamente com seus discípulos José Serra, Aluízio Nunes, Geraldo Alckmin et caterva. 

As perspectivas seguem agourentas, sob a retomada dessa política insustentável. Mas não percamos o foco, segue abaixo a reprodução de trechos do diário de 1995, para compreendermos um pouco mais a filiação de nossa atual desgraça.

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"Sob o antigo sistema colonial não era tarefa fácil escapar às cadeias do crescimento econômico permitido pelas pressões metropolitanas. O neocolonialismo de um lado, e o subdesenvolvimento de outro, produzem a mesma alienação".

(Florestan Fernandes, Folha SP, março de 1995)


"Reformas. A luta continua. O que poderíamos denominar como Governo insiste em empurrá-la goela abaixo da população, sem sequer propor uma discussão. O que poderíamos denominar Oposição – cerca de um quinto da bancada do Congresso e mais algumas entidades não-governamentais por este Brasil – tenta obstaculizar heroicamente o que parece ser o rumo irreversível dos acontecimentos. A mídia joga o seu peso descarado no que acredita serem ‘as mudanças saudáveis e necessárias’ e uma nuvem cinzenta de deputados conservadores atuam numa política pendular no meio dessa barafunda sem fim, ora apoiando o governo, ora rejeitando as mudanças, principalmente quando estas vêm no sentido de acabar com o fisiologismo. Ninguém se entende, o governo vai e vem e nada engrena. A Previdência e os monopólios estatais (Petrobrás e telecomunicações) são o alvo preferido nesta tal de reforma constitucional. FHC acabou de retornar de uma viagem à terra de tio Sam onde certamente foi pedir a benção e recebeu um pito por não estar desenvolvendo como deveria a política estabelecida pelo Consenso de Washington. ‘Que merda de servilismo inoperante é esse?’, devem ter guinchado os líderes da Metrópole! Enfim, o certo é que a marcha irreversível dos acontecimentos deve ganhar fôlego novo e impor as mudanças, passando por cima da oposição desgastada e desfigurada. Com que armas poder-se-ia resistir à fome capitalista, à urgência de reestruturação da nova ordem mundial?"

(abril de 1995)


"quem sabe sejamos idiotas o suficiente para nos humilharmos diante de sua impostura, diante de seu magnetismo torpe, e aprendamos a viver sob seu tacão, sob uma nova ordem mundial estabelecida

e sobre excrementos, não distinguiremos mais merda de caráter. Cagareis vosso caráter, dareis como palavra vossa merda... 
      Escrotice.
      Exortar a Exalar Exegese Exequível.
      Exício.
      E as Exéquias".

(Junho de 1995) 


(...) A estratégia em questão nos pretende botar contra a parede: ou a modernização com globalização, nos termos dados, ou a morte ignominiosa no atoleiro do atraso. Literalmente ou dá ou desce. Ou segue a receita americana ou recebe atestado de esquerda burra. (...)

(Nelson Werneck Sodré, JB, 08.07.1995)


"Direto ao assunto: a realidade neoliberal se compraz em infundir as maravilhas do mercado cada vez mais em relação/detrimento ao Estado e sua inescapável incompetência. Há que se alavancar um ideal em relação/detrimento a outro, mesmo que seja aquele não passe de um cadáver jogado numa ribanceira malcheirosa. Assim, divulga-se que é muito melhor ter conta em banco privado, estudar em colégio pago, em utilizar serviços da iniciativa privada...  Num primeiro momento, quem divulga as maravilhas do mercado esquece ou ignora que o banco, a educação ou o serviço público foi a partir de um determinado momento sucateado, e por indivíduos incapazes ligados à elite do poder. Nomeações são a norma de governos burgueses recém-instalados e assim os escalões intermediários do poder são preenchidos por apaniguados sem qualquer afeição às funções que passam a ocupar na máquina. Resultado: uma constante depauperação do bem público.

Em sintonia com essa ação depilatória intramuros, os barões do capital têm os meios para desencadear seguidos golpes na administração pública, no sentido de desacreditá-la junto à opinião pública. Não quero aqui me mostrar um defensor corporativista do Estado, mas não posso aceitar a falácia neoliberal por entender que esta ação difamatória visa destruir o bem público, a estrutura pública, e não os falcões que a dirigem. Estes, ao seu belo tempo, depois de extorquirem muita grana com obras suspeitas, caem fora e passam mais tarde a fazer coro com seus pares burgueses, Abaixo a administração do Estado!"

(23.08.1995)


"O processo de globalização prossegue por este mundo afora, como forma de assegurar a reprodução do sistema capitalista e afastar contratempos ideológicos impeditivos para o estabelecimento de uma pax moderna. Seus conceitos variam um pouco de acordo com a localização geográfica. É óbvio que ela não pode ser a mesma no Canadá e no Mali, há que se preservar diferenças substanciosas, o que nos faz crer que os ideólogos deste novo mundo integrado certamente pensaram em espaços diferenciados e indo mais além, em utilização diferenciada dos espaços diferenciados.

Suspendo abruptamente o assunto para referir-me ao mestre Florestan Fernandes, morto no início deste mês de agosto, uma perda bastante sentida por mim. De sua brilhante trajetória como sociólogo e homem público, apenas acompanhei mais atentamente seus últimos dez anos de vida, lendo seus artigos na Folha e admirando seu sólido posicionamento ideológico. Tive o prazer de votar duas vezes em seu nome para o Congresso, meus votos mais profícuos em quase vinte anos. Li pouco, pouquíssimo de sua ampla obra, mas o acompanhei sempre muito de perto em suas manifestações, inclusive a última, em dezembro de 94, no programa Roda Viva da Cultura, reprisado poucos dias após a sua morte. É um desses homens que passam pela vida da gente e deixa indelével a marca de sua magnificência, de sua dignidade, de sua personalidade. Nunca o encontrei pessoalmente, o que hoje lamento muito. Com certeza devo ter tido inúmeras oportunidades nestes dez anos para apertar-lhe a mão, simplesmente, sem necessariamente ter de expressar algo que não fosse a profunda satisfação de poder cumprimentá-lo.

Vivo cautelosamente nestes novos tempos neoliberais. Traço minhas perspectivas futuras dentro de um contexto duro e bastante instável. Diante da propalada estabilidade monetária, a nação se contorce em espasmos sofridos em busca de alternativas dentro de um quadro socioeconômico desolador. Sempre tomo como ponto de referência a indústria automobilística para ter uma ideia, mesmo que instantânea, da evolução econômica. Há três semanas temos pátios inundados de automóveis, promoções em cima de promoções das revendedoras, exasperadas pelo marasmo do mercado, e demissões ocorrendo em várias montadoras. Aparece um economista e diz que são as evidências de recessão econômica; surge outro e diz que não, que as empresas que se prepararam nestes dois últimos anos estão aptas a colher frutos. Estes sujeitos dentro de suas idiossincrasias sem resultados pensam que somos todos uns tolos. (...) Contenção de gastos, enxugamento da máquina visando torná-la mais ágil, eficiente, moderna... bah, quanta bobagem"

(24.08.1995)



22 junho 2018

Entreter antes de devorar


Cena do filme Viramundo (1965), de Geraldo Sarno


Em meio a comemorações esvaziadas, em mais uma copa do mundo, a pergunta que hoje não quer calar: o que significa torcer para uma seleção de jogadores que, hipoteticamente, representam uma nação chamada Brasil?

A cada dia esse exercício de identificação não passa de uma prática vazia, sem qualquer significado relevante. Em tempos de ditadura do capital financeiro, em conjunção com a ganância das grandes corporações, o que sobrou da identidade nacional transforma-se em mera subordinação aos vultosos investimentos, onde 22 jogadores vestidos de verde e amarelo não representam mais do que suas esquálidas ambições profissionais, habilitados a mobilizar uma imensa rede publicitária que exprime a razão de ser do torneio. 

São tempos em que o futebol, como esporte popular, é segregado de seu contexto social e, higienizado, passa a representar os mais segmentados desejos de consumo, que vão dos utensílios materiais utilizados pelos jogadores, à imagem bem-acabada deles mesmos, como signos vencedores do sistema. Já não faz mais diferença se é isso ou aquilo, se esses jogadores são modelos da razão neoliberal no lugar de representantes de ideologias ou sistemas sócio-político-econômicos distintos. Se se perdeu alguma coisa pelo caminho, isso escapa à percepção cada vez mais estandardizadas dos indivíduos à deriva. 

O ideário da brutalização cotidiana penetra no tecido social visando a naturalização das desgraças, essa a viabilidade do neoliberalismo que se robustece pela espoliação e pela especulação. Como subproduto do capitalismo, promove a concentração de capital como uma alternativa "moderna e eficiente" para o bem-estar, e por esse caminho avança com a retirada de direitos trabalhistas, a privatização dos recursos naturais, a segregação social privilegiando "os mais capazes", a criminalização dos sans papiers, os indocumentados, em outras palavras, os imigrantes.  

O ódio não surge do movimento súbito e articulado de proto fascistas enrustidos em cada sociedade, mas de todo um conjunto institucional que facilita a voz dessa gente. O ódio é parido como uma forma de desarticulação, como a desvelar uma espécie de totalitarismo que propõe a reconstrução total da sociedade, com nova mentalidade, com novas instituições. O ódio das ruas de Berlim no início dos anos 1930 ressurge com outras roupagens, legitimado pelos mesmos descompassos sociais. E a omissão parece ser o catalizador desse movimento destrutivo, por isso não consigo mais compreender os sentimentos de uma copa do mundo a partir dos referenciais que a geraram no final dos anos 1920, e que de algum modo permaneceram até a última copa dos anos 1980.

A falácia golpista de nossa recente história se junta aos descaminhos autoritários do mercado neoliberal, e a copa do mundo não se faz mais do que um espetáculo cientificamente reestruturado para entreter as ovelhas antes que sejam devoradas.



03 junho 2018

A condição bancária

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Realizei há algum tempo uma triagem dos arquivos e documentos guardados por meu pai, papéis que um dia representaram comprovantes de operações contábeis, que se acumulavam sem qualquer serventia. Os estratos e memorandos bancários eram de uma monotonia a toda prova, reproduzindo o olor amaldiçoado desses espaços recheados de dinheiro e ambição, as agências bancárias em que trabalhou. Hoje em dia meu pobre pai ainda se vê refém das imposições administrativas dessa ambiência que tomou 35 anos de sua vida, ao se preparar para compromissos com clientes imaginários, ao reviver as tensões das demandas cotidianas, expressas em números, metas, saldos bancários. Um horror de poder e controle contábil, que como um vírus, desorganiza a lucidez de seu pensamento.

De seu trabalho não sobrou reconhecimento ou presteza. Cumpriu as tarefas impostas com abnegação, pois sabia que se não o fizesse, outro faria. Tal abnegação significou abjurar da diversão, do lazer, da política, da reflexão. Em seu raciocínio, valeria a pena construir uma carreira que lhe daria respeito e um bom pé-de-meia, ainda que rodeado por gente medíocre, que o rodeou sem qualquer imaginação. Valeria a pena enfurnar-se 10, às vezes 12 horas por dia em seu trabalho, apenas para mostrar que era confiável aos seus patrões, e que seu trabalho resultava da entrega incondicional reiterada a cada dia, como uma oração suicida, ou como os termos de uma nefasta mensagem a Garcia, alardeada institucionalmente em forma de folheto panfletário, que sugeria o respeito hierárquico, a plena submissão no cumprimento das tarefas. 

Em poucas palavras, eis o significado de uma existência bancária. Ainda existem muitos papéis arquivados nas estantes, que não expressam mais nada a não ser tédio - e a vigarice de quem os criou. Meu pai foi um mero executor, de reconhecida competência. Aprendeu a cumprir as ordens comparecendo todas as manhãs no local de trabalho, bem barbeado, terno e gravata, exarando disposição que verdadeira ou falsa, seria sugada no correr da jornada. A ele foi vedado contribuir para a solidariedade do mundo, até porque os empréstimos que aprovou foram em grande parte sorvidos por uma burguesia voraz, que cresceu, se multiplicou e hoje se arrasta à deriva. A acumulação de capital para a instituição privada à qual vendeu sua força de trabalho foi proporcional ao seu comportamento de cabresto, e todos os números aí envolvidos traduziram nada além de um redundante desperdício. 

Em outras palavras, nenhum valor que se forjasse na chama das próprias entranhas como um brado altivo escapou à sanha da hierarquia canina. Jamais a mais primária indignação floresceu, por mínima que fosse. Pleno foi a conivência de se esvaziar, em nome de um propósito tão opaco como sedutor. E hoje, mesmo os fartos rendimentos auferidos ao longo de tantos anos, dissipou-se como água na água. Assim a narrativa da história pessoal fundiu-se com a avidez do projeto de uma sociedade anônima, a reproduzir o olor diáfano de dinheiro e ambição. De toda essa leitura fatídica que inesperadamente retomo, emerge por similaridade a ideologia do governo que nos desgoverna, em nome do renovado poder invisível do capital financeiro, insuperável abstração do modo bancário de ser.


27 maio 2018

Reminiscências em tempos de embate político


Aconteceu algo inusitado, pero muy simpático! no ônibus que tomo entre minha casa e a altura da Augusta em que fica a cafeteria que frequento. Quando subi, um senhor me vê com os livros e pergunta o que estudo, se sou professor. Avança nos preâmbulos e sugere uma conversa crítica sobre o papel da Grécia na Europa. Tenho paciência e sem entrar em um debate abrasivo, ofereço uma contra-argumentação, discorrendo sobre cada reprodução midiática que me apresenta. 

Perto do ponto, peço licença, cumprimento-o e me afasto para descer. Vejo então um cidadão negro, idoso, que me sorri, apontando a cabeça com o dedo indicador, como a dizer "saiu-se bem!"... Certamente ouviu a conversa e apreciou o modo com que denunciei o que foi feito da Grécia e de todos os governos que afrontam os sistema financeiro. 

De fato, foi muito agradável observar o meu interlocutor aos poucos ceder na sua voragem em jorrar desinformação midiática. E melhor ainda ver os olhinhos sábios e brilhantes do senhor negro. Ao sair, segurei em sua mão, também silenciosamente, como um gesto de agradecimento.

Esse olhar que jamais reencontrarei me traz a lembrança de outros olhares negros que tenho acompanhado nestes dias. Olhares expressivos, que esperam antes de se pronunciar. Olhares com muita coisa a dizer, prestes a romper uma atávica submissão que nunca lhes agradou sentir.


24 maio 2018

A insurgência contínua

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Osvaldo Guayasamin, El Grito (1976)

Em meio à disfunção do comando político e econômico que toma conta do Brasil, somos obrigados a tocar a vida da melhor maneira, sem deixar de lado a luta por denunciar esse estado de coisas. É impressionante como a incompetência, mais negligência e desfaçatez tornam-se corriqueiras nas instituições que governam o país. Sob esses substantivos, gerenciam o cinismo que prevalece nas atitudes contra a população brasileira, que em qualquer circunstância menos infeliz, seriam tomadas como insustentáveis.

Essa gentalha resolveu se aliar a sabe-se lá quais interesses forâneos e concordam em cumprir o papel de correia de transmissão das suas decisões estratégicas, por certo encomendadas nos grandes balcões de negociatas financeiras. Desaparece aos bocados o respeito aos cidadãos, ao bem público, à perspectiva de soberania nacional. Por mais pressão que exista de organizações internacionais, de líderes políticos, de intelectuais, a justiça brasileira reitera a mão forte e devora o estado democrático de direito, zombando da constituição. A mídia corporativa, sem qualquer responsabilidade em cumprir seu papel de debater e denunciar, referenda o circo de horrores, ainda que contaminado por desvios éticos.

Ainda assim, de muitas partes surge uma resistência incômoda, que se contrapõe e se insurge, embora sem a dimensão necessária para transbordar o copo. É quase uma luta carbonária, que quando se revela, incorpora pequenas multidões. Dessa insatisfação, sobrevém uma corrente silenciosa de solidariedade que suplanta o ódio e dessa maneira vamos enfrentando o Leviatã invisível, que se bate menos por segurança e mais por desestabilização.

Não sabemos no que isso vai dar. É possível perceber o poder e a onipresença desse comando que nos oprime sem estardalhaço, e que a única resposta é a insurgência contínua, ora em grandes multidões, ora individualmente. Essa oposição deve ser melhor articulada pelos partidos políticos, e de algum modo fazer valer a força do apoio popular nas próximas eleições. As centrais sindicais e os movimentos sociais devem acompanhar as decisões e atuar fortemente, como se cada oportunidade fosse a última.

É nesse estado de mobilização permanente e de ações concludentes, que faremos o inimigo político – não mais adversário político – fraquejar em seus objetivos.   


07 maio 2018

Don Carlos Jorquera

Carlos Jorquera lendo no Las Lanzas

Todas as vezes que o ouvi, em depoimentos sobre os últimos momentos do governo da Unidade Popular, suas palavras terminavam embargadas por uma emoção que o tempo não conseguiu consolar. Ao descrever o La Moneda sob ataque, e mais ainda, Salvador Allende em sua última alocução ao povo chileno, demonstra sua profunda lealdade ao presidente constitucional.

Curiosamente na semana que passou assisti a vídeos que ainda não conhecia sobre os acontecimentos que antecederam e que foram posteriores ao 11 de setembro de 1973. A tibieza do golpe não foi capaz de eliminar a sensatez dos homens e mulheres que foram escorraçados do poder, e minha alegria não cessa em constatar os semblantes sempre iluminados pela convicção das palavras. De outra parte, é sempre difícil lidar com a arrogância discursiva dos golpistas, a justificar a intervenção militar. 

Na sexta-feira, 4 de maio, a voz de Carlos Jorquera, secretário de imprensa do governo Allende, calou-se para sempre. No sábado, dia 5, em triangulações nas redes sociais, deparei com um breve comunicado de sua filha, Alejandra Jorquera, publicada no twiter, "Há pouco morreu meu pai e não sei o que dizer, salvo que às vezes a vida é uma m..., e que apesar de todos os esforços, não consegui chegar a tempo para darmos todos os beijos que nos faltaram".

Don Carlos Jorquera fazia parte de uma linhagem de políticos dignos, cuja competência profissional incorporava sofisticação intelectual, muito diferente da estupidez dos políticos neoliberais de hoje, por demais preocupados com suas ganâncias. Ele se soma a um elenco de personalidades que me marcaram e que jamais terei o prazer de um cumprimento pessoal, seja no restaurante Las Lanzas ou em outro local público de Santiago. Consola-me o fato de que suas lágrimas resultam das certezas indeléveis de sua luta, tão bela quanto imprescindível.


06 maio 2018

Quando um bando de medíocres se articula

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Guayasamín, Lagrimas de sangre

A chuva caía pesadamente e o vento começava a soprar de novo
Paul Bowles, Que venha a tempestade

Não precisamos mais de quarenta ou cinquenta anos para desvelar a ação irresponsável da burguesia quando ela intervém de modo acintoso para retomar o poder, fora das normas institucionais. Passam-se poucos meses para vir à tona o que parlamentares corruptos, mais o capital financeiro, mais a mídia corporativa patronal, e agora a complacência, ou o movimento moroso (um achado esse duplo sentido!) do judiciário, para a sociedade civil tomar plena consciência do grave coup d'état promovido, cujo processo tratou de subtrair os direitos dos trabalhadores e empoderar ainda mais a classe dominante. Um escárnio. 

Temos exposto pari passu os desdobramentos dessa lamentável aventura comandada por institutos científicos forâneos, os tais think tanks conservadores coordenados por políticas de estado imperialistas, ou neocolonizadores, como se preferir, cujas ações de algum modo articulam-se de modo sincronizado com nossas burguesias politicamente ignaras e economicamente vorazes, para o controle das economias latino-americanas como um todo. Assim ocorre no Brasil, no Paraguai, no Peru, na Colômbia, no Equador, na Argentina e subindo pela América Central, até alcançar o México.

Na Argentina, chega-se por fim a um momento de impasse dessa voragem brutal e inconsequente. A semana que passou foi trágica para o governo neoliberal de Macri: forte desvalorização do peso, fuga de dólares, aumento da taxa referencial de juros para 40%, previsão de mais tarifazos, congelamento dos salários, com recessão e inflação batendo à porta. Talvez o mais grave para esses inconsequentes travestidos de gestores liberais, a perda da confiança dos mercados. Ou seja, a sombra do trágico dezembro de 2001 retorna ao horizonte das possibilidades. Sobrevém na arguição diária desses falsos profetas o solene ungido pela desfaçatez, com o agravante que ela aprofunda uma sensação que guardo desde o início desse governo, uma psicopatia irreverente.

Tal como é impossível conceber a plena democracia em um governo dotado de políticas neoliberais, porque elas em si são a negação dos direitos e do bem-estar social que contemple a população como um todo, é improvável que o comando de um governo pautado por políticas neoliberais incorpore a sensibilidade no trato do bem-estar social. Em outras palavras, não consigo ver e ouvir Macri, como também Temer et caterva como seres sensíveis à miserabilidade do povo, e pior ainda, como gestores preocupados em preservar a autonomia e o sentido de nação, porque a bem da verdade, não fazem mais que gerenciar as oportunidades do capital especulativo e os interesses das grandes corporações transnacionais.

No Brasil, um cemitério em termos de reflexão e tolerância política, as manchetes já não são sobre ideias, mas sobre mentiras ardilosamente constituídas, para disseminar a confusão, a incerteza, e de modo subliminar, o medo. A informação ganhou, nesse jornalismo pós-Murdoch, o sentido de ousar em nome da fofoca, do escândalo, e para isso todos os recursos são válidos, da escuta ilegal ao fake news, hoje tão badalado pelas editorias políticas e econômicas da mídia corporativa. Com o poder ilimitado para editar a realidade, a mídia se alimenta da omissão de um judiciário acovardado, que não tem o menor interesse em confrontar a classe dominante em sua espoliação não só da narrativa histórica, como dos direitos constitucionais. 

O título da postagem se refere a um bando - referência a um ajuntamento oportunista de pessoas - que incorpora a mediocridade, ou melhor esclarecendo, um nível quando muito mediano de percepção da realidade social, nos seus mais profundos e delicados meandros. Vejo seus capitães do mato diversas vezes ao dia, circulando para lá e para cá, vestidos em seus ternos baratos, a exalar conversas que agregam profusão e futilidade. Curioso como são afetados no gestual, sem dispensar qualquer afeto por seus temas, o que não deixa de ser triste se pensarmos por um momento que são referência de atuação produtiva no mercado, a representação do profissional bem-sucedido. Sociologia, história e filosofia destituídas em nome da rapacidade. 

Não obstante, constituem os braços da mentalidade medíocre que os remunera, do poder infausto nascido no golpe institucional, e por essa razão não deixam de ser triviais. Ao representarem suas corporações financeiras, os men in black se mobilizam em seus afazeres dispensáveis, cuja imponência reflete a farsa de nossa contemporaneidade, nada além do que superfície em busca de profundidade.   


30 abril 2018

Sobre o mundo paralelo


Carybé, Figuras (1965)


Há algum tempo ensaiava escrever o que se me anunciava como um exagero, é verdade, mas que encontrava consistência nos atos e principalmente nos silêncios de nossa mídia corporativa patronal, de nossos políticos e sobretudo, de nosso judiciário. Um silêncio opaco e falso, que persistia e se mantém para abrir caminho para outras intervenções, outros ruídos, empenhados em demolir a frágil estrutura que restou de nosso estado democrático de direito.

Neste sábado, um novo atentado espetaculoso, certamente não tão fatídico quanto os atentados em andamento aos nossos grupos indígenas no interior do país, mas tão pervertido e covarde quanto o ocorrido há cinquenta dias contra a deputada Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro Gomes, em pleno espaço urbano, ocultados pela bruma da noite, expôs o andamento do que conhecemos no pós-1964 e no pré-1968, a ação desmesurada de grupos inconsequentes de direita.

Desta vez, o acampamento nomeado Marisa Letícia, um dos locais que promovem a vigília por Lula, ainda detido nas dependências da Polícia Federal em Curitiba. O ato violento em si não proporcionou qualquer manifestação das autoridades públicas dos campos citados acima. Nenhuma discussão, nenhum comentário, como se não tivesse ocorrido, ou como se pertencesse a uma outra realidade, paralela, irreal, que não merecesse maior atenção.

É aí que trago a ideia que pretendia desenvolver. Estamos diante de um tal descalabro político, marcado por tamanha indiferença do mundo jurídico, político e midiático, que não seria estranho afirmar que vivemos em um mundo paralelo, enfiados em uma realidade pautada pelo tempo do game, onde não passamos de personagens virtuais de jogadores poderosos que nos conduzem pelo cenário tão próximo do real e ao mesmo tempo tão distinto dele.

As aventuras programadas reproduzem valores a serem assimilados. O tempo social e as escolhas são assediadas, onde nossa autonomia de ação é controlada pelo sistema de programação do software. Na verdade, como vilões da história, os personagens de esquerda com suas aparições só conseguem protelar o movimento dos jogadores, que no final das contas é chegar a lugar nenhum. Nesse sentido, prender Lula e mantê-lo sob cárcere foi um bônus especial, que prolonga indefinidamente o jogo.

Em outras palavras, para ir al grano, aí reside a vida de cada um de nós, encapsulados em um mundo de semelhança com o real, só que marcado pelo controle. E do que se trata a realidade da vida cotidiana? É onde recuperamos um punhado de nosso tempo e escolhas, com a finalidade tolerada de jogarmos, de praticarmos o jogo. Vivemos então a representação mais explícita de nossos desejos recônditos de nossos prazeres, de nossa agressividade, de nossa individualidade.

Só não temos a liberdade de atuar no pleno direito de nossa cidadania; assim, invertemos o sentido do tempo e nosso espaço, vivendo uma vida esvaziada, seja no mundo paralelo, seja na realidade da vida cotidiana. Elas se invertem no tempo e no espaço e seguem às avessas, sem necessariamente produzir significado. É como se a razão mágica da vida fosse abstraída por forças dominantes, restringindo-a a funções programadas ou previsíveis.


Tolkien ou Carpentier, cada qual a expressar o maravilhamento de suas imaginações, não seriam capazes de proporcionar uma realidade assim distorcida. O mundo bancário, com suas normatizações tacanhas, encontra a oportunidade de estabelecer sua verdade ilusória. Já não se trata de impor ideologias, mas de prevalecer um poder, um poder acovardado em meio às sombras, onde se espraia ao melhor estilo dissimulado. Um poder sem cara, que se move de modo inclemente por seus interesses.


Um poder que acima de tudo não se emociona, posto que se limita a se satisfazer. Um poder que não teme suas contradições. Um poder que não sujando as mãos, produz e reproduz seu bando de ignorantes para difundir e sustentar, como diz o jurista Eugênio Aragão, o caos comunicativo em nossa sociedade, capaz de subverter a realidade da vida cotidiana em mundo paralelo. Por essa singela razão, e mais também por não existirmos para a submissão controlada, seja esse um poder que não permanecerá.