25 junho 2026

O correr dos dias


Chas Gerretesen

As turbulências pelo mundo não cessam: segue a guerra entre Rússia e Ucrânia, sem qualquer previsão de um cessar-fogo. Os russos tomaram os territórios que desejavam, possuem melhor armamento e mais tropas, mas os ucranianos lutam sem dúvida com apoio tecnológico da OTAN. Não sei de que maneira a continuidade dos combates possa ajudar um lado ou outro, mas é evidente o interesse dos Estados Unidos em manter essa zona de atrito com a Rússia, alimentando o fogo. No Oriente Médio, o Irã deu as cartas nas negociações de cessar-fogo com os Estados Unidos, impôs reparações econômicas e descongelamento de ativos que foram aceitos. Impôs também o fim da invasão israelense no sul do Líbano, que não foi cumprido e por essa razão o acordo voltou à estaca zero. O Irã voltou a fechar o estreito de Ormuz e as negociações voltam à mesa, sem que haja confiança para um longo acordo de paz.

Dia nublado e frio. Vou preparar meu almoço, finalizar os preparativos para a viagem com Mônica para Portugal e Espanha. Antes, devo encaminhar meu livro de não-ficção Trinta Anos esta Noite, para a chamada da Urutau. A copa está em pleno movimento, já está em sua fase de definições da primeira fase, e confesso, ainda não me entusiasma – a mim e de algum modo às pessoas de um modo geral. Há um torcer volátil, que contagia como uma febre que vem e desaparece. Sinto-me incapaz de vibrar com um espetáculo perpetrado por milhonários, que não sustentam a mais vaga ideia de nação. Vejo os jogadores do Haiti, ou do Congo, e me pergunto, o que fazem ali? Há algo de chato e maçante desde a confecção do calendário, passando pela realização em si dos jogos, dessa novidade horrenda da paralização por hidratação dos jogadores, da enorme publicidade das bets, da autocracia dos miseráveis chefes da Fifa, que na falta de algo mais inteligente, buscam impedir entrevistas em espanhol após as partidas. 

Falamos aqui de um bando de canalhas, que não se incomodam com a geopolítica cruel perpetrada por Estados Unidos e Israel, mas que pelos mesmos crimes, punem a Rússia. O futebol está sem graça enquanto perde sua leveza e memória e aufere lucros formidáveis, concentrados nas mãos desses miseráveis chefes da Fifa. 



19 junho 2026

María Sotomayor, um poema


Forte Três Reis Magos, Natal, 1988

 

Eu adoro o que não vejo
e não vejo o que adoro;
do meu amor a causa ignoro
e buscar a causa desejo.
Meu confuso devaneio
quem saberá compreendê-lo?
pois sem ver venho a querer
por mera imaginação,
inclinando minha paixão
a um ser que não tem ser.
Que enamore uma pintura
não será milagre novo,
que ainda que tal amor não aprovo,
já em efeito é beleza;
mas amar a uma figura
que acaso a alma fingiu,
nada tal loucura viu;
porque pensar que hei de encontrar
causa que está por criar,
quem tal milagre pediu?
A ferida do coração
verte sangue, mas não morro,
a morte com gosto espero
por acabar minha paixão.
De estar fora da razão
Quando não morro, dormir,
mas como posso pedir
vida nem morte a um sujeito
que não teve de perfeito
mais ser que saber ferir?
Dê-me, céu, se criou
aquele ser que desejo,
de minha vontade emprego,
e antes que nascido, amado.
Mas o que pede um desditoso
quando sem sorte nasceu?
porque, a quem o sucedeu
de amor milagre tão novo
que lhe ocupasse o desejo
amante que em sonhos viu?

(Uma tradução livre de María de Zayas y Sotomayor, Novelas amorosas y ejemplares, Madrid, Catedra, 2022)


11 junho 2026

Um grupo fornido de canalhas


Tragedia del Pongo, Alejandro Yllanes


A copa do mundo começa nesta sexta-feira sob um clima emocional contraditório: há a expectativa natural produzida e incentivada pelo mercado, mas surgem situações diplomáticas exdrúxulas, produzidas nos Estados Unidos sob o governo de Trump. O árbitro somali Omar Artan, um dos melhores da África, teve sua entrada negada pela migração e retornou ao seu país, sendo recebido com festa. O atacante iraquiano Aymen Hussein, ídolo da seleção de seu país, foi interrogado por 7 horas em Chicago antes de ser liberado pela imigração. A seleção iraniana terá de se deslocar do México ou do Canadá, impedida de circular livremente ou de se hospedar em território estadunidense. São essas decisões autoritárias que regem o espírito da competição desta copa. Diante disso, a Fifa não se pronunciou diante desses episódios, e seu presidente Gianni Infantino alegou que a organização não possui poder para interferir nessas decisões políticas. Preferiu o silêncio que resguarda os covardes. 

Nesse meio tempo, os bombardeios dos EUA contra o Irã prosseguem, ao mesmo tempo que Israel continua a atacar o Líbano de maneira implacável. Nada parece sensato nestes tempos de Trump, Netanyahu, Milei et caterva. Outro país que corre riscos de ter um presidente cipayo de extrema-direita é a Colômbia, com Abelardo de la Espriella. Nas sondagens para o segundo turno, dentro de 10 dias, ele leva vantagem de 8 pontos, o que não é pouco para ser tirado pelo candidato governista, Ivan Cepeda. Ou seja, até o final do ano, teremos um quadro político muito negativo na América do Sul, com apenas o Uruguai e possivelmente o Brasil com governos democráticos de centro-esquerda (hoje já não sei o que dizer sobre a Venezuela). O resto paira sob o manto de um liberalismo autoritário e personalista, com forte restrição nos investimentos em políticas públicas, privatista e subordinado à esfera de dominação estadunidense. 

É de se esperar que novembro traga novos bons ares e confirme as expectativas da democracia com a derrota de Trump na Câmara e no Senado, e com a reeleição de Lula, o que, cá entre nós, ainda é muito pouco. O tempo avança e corrói lentamente as engrenagens desse neoliberalismo brutal, já nomeado de tecnofeudalismo por Yanis Faroufakis, prometendo implodir em algum momento no futuro. Sinais claros ocorrem na Bolívia, onde a greve geral convocada pela Centra Operária Boliviana impede o governo liberal de Rodrigo Paz avançar em seus projetos privatizantes. A insatisfação popular não está restrita à Bolívia: Peru e Equador estão em situação muito semelhante, com a forte oposição e mobilização principalmente vinda dos povos originários e camponeses. A Argentina de Milei ainda tem sobrevida de um ano, e já não resta dúvidas que, a prosseguir o quadro socio-político-econômico atual, será fragorosamente derrotado em 2027.