23 setembro 2026

John Coltrane


John Coltrane (1926-1967)


Em uma data como a de hoje, há cem anos, nascia John Coltrane. Tive a felicidade de ter contato com sua música a partir de diversos álbuns, coisas maravilhosas que aos poucos fui coletando, Soultrane, My Favorite Sings, cuja faixa-título cantarolo neste momento, Blue Train, o formidável Impressions, o hipnótico A Love Supreme, o mágico e grandioso Cosmos. 

A cada viagem para o exterior, trazia um álbum. Foi nos anos 1990 sem dúvida minha aproximação definitiva, e lembro que uma imagem sua catapultou meu interesse, uma foto maravilhosa de seu perfil, sério, capturado sem que se dessem conta. Era um pôster que aparecia incidentalmente, no filme de Spike Lee, Mo' Better Blues, com Denzel Washington e Wesley Snipes, a melhor atuação de ambos em um filme de cinema. 

Quantas vezes terei reproduzido o seu CD duplo de Cosmos, a todo o volume na Augusta, sentado em minha poltrona, tomando um copo de uísque, entregue ao vento fresco da madrugada?... Alguém teria me dito (ou teria lido em alguma matéria jornalística) que ouvir Coltrane era uma fantástica experiência metafísica, podendo-se ouvir o som das esferas. Não é apenas isso, trata-se de um experimento muito pessoal, indizível. Ainda assim, como é maravilhoso deleitar-me em cada oportunidade disco, em cada música, sem esperar nada a não ser a profunda satisfação do momento.



15 setembro 2026

Patricio Guzmán


Patricio Guzmán Lozanes (1941-2026)

 

Há mais ou menos 25 anos, retirei um vídeo triplo em uma locadora famosa aqui em São Paulo, exposto como novidade recém-chegada. O nome, A Batalha do Chile, dirigido por um diretor que então desconhecia, Patricio Guzmán. Fiquei maravilhado, e revi diversas vezes. Tal foi minha admiração, que sugeri para que o departamento de Comunicação da FAAP, onde eu ministrava aulas de Comunicação Comunitária, adquirisse o vídeo, o que acabou ocorrendo. Tornei-me um divulgador entusiasta do filme, e a cada vez que o assistia, ficava fascinado não só com a direção de Guzmán, como com a fotografia de Jorge Müller Silva, que seria sequestrado e desaparecido pouco depois. 

Tudo no filme impressiona: a decisão em filmar os anos do governo da Unidade Popular nos diversos setores sociais; o consistente roteiro que avançava "às cegas" captando todos os movimentos políticos; e como disse, a beleza e a mão firme da fotografia de Müller Silva, não tendo pressa para registrar cada momento, cada circunstância, absorvendo a força e a fraqueza do governo Allende. Sucedem-se as entrevistas nos sindicatos, mas também dos grupos adversários; as comemorações da vitória de Allende nas ruas, mas também a zanga de uma classe média pouco disposta a suportar a política socialista que se implantava; o drama das votações no parlamento e também a presença cada vez mais forte dos militares, como na célebre sequência (a qual descrevi neste blog) do sepultamento de Arturo Araya Peters, o edecan de Salvador Allende. 

Patricio faleceu hoje, aos 85 anos. teve uma carreira bem-sucedida no cinema, com filmes como Nostalgia da Luz e El botón de Nacar. Sobreviveu à brutalidade do período Pinochet e assistiu o Chile a retomar o processo democrático. Por toda a intensidade que vivi ao assistir seu cinema, sinto uma dolorosa pontada no peito, um profundo lamento pela perda, e mesmo a consciência de seu poderoso punhetazo na cara da ditadura de Pinochet, embora tão espetacular a cada vez que o recordo, não será suficiente para cobrir sua ausência definitiva. 



10 setembro 2026

Sobre a velhice


Fragmento de Dos viejos, de Goya


Diante da imagem que os velhos propõem sobre o futuro, somos incrédulos. Uma voz nos murmura absurdamente que não nos ocorrerá; antes de mais nada a velhice é algo que diz respeito somente aos outros. Assim se pode compreender como a sociedade consegue dissuadir que vejamos os velhos como nossos semelhantes. Não nos enganemos: no futuro que nos aguarda este será o modo e o sentido de nossas vidas. Não sabemos quem somos se ignoramos o que seremos. Recordemo-nos neste velho, nesta velha, assim tem de ser se quisermos assumir em sua totalidade a nossa condição humana.

Simone de Beauvoir, A velhice.



02 setembro 2026

Lugares Comuns


Maria Fiorentino (Tutti Tudela)


"experiencia no implica conocimiento, yo no sé nada de mujeres (...) las pocas mujeres que conoci en mi vida las admiré, las observé, intenté descifrarlas. Nunca dejaron de ser un misterio, nunca dejaron de sorpreenderme, pero lo importante es desfrutar de su presencia. Yo no me de cuenta enseguida, pero un tiempito después aprendi a escucharlas, a valorar los silencios, las miradas, esos momentos en los que parece que no pasa nada y pasa un mundo... aprendi a respetar su intuición, su inteligencia y aprendi a amarlas (...)”


Federico Luppi (Fernando Robles) em Lugares Comuns, 2002, filme dirigido por Adolfo Aristarain.