30 abril 2018

Sobre o mundo paralelo


Carybé, Figuras (1965)


Há algum tempo ensaiava escrever o que se me anunciava como um exagero, é verdade, mas que encontrava consistência nos atos e principalmente nos silêncios de nossa mídia corporativa patronal, de nossos políticos e sobretudo, de nosso judiciário. Um silêncio opaco e falso, que persistia e se mantém para abrir caminho para outras intervenções, outros ruídos, empenhados em demolir a frágil estrutura que restou de nosso estado democrático de direito.

Neste sábado, um novo atentado espetaculoso, certamente não tão fatídico quanto os atentados em andamento aos nossos grupos indígenas no interior do país, mas tão pervertido e covarde quanto o ocorrido há cinquenta dias contra a deputada Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro Gomes, em pleno espaço urbano, ocultados pela bruma da noite, expôs o andamento do que conhecemos no pós-1964 e no pré-1968, a ação desmesurada de grupos inconsequentes de direita.

Desta vez, o acampamento nomeado Marisa Letícia, um dos locais que promovem a vigília por Lula, ainda detido nas dependências da Polícia Federal em Curitiba. O ato violento em si não proporcionou qualquer manifestação das autoridades públicas dos campos citados acima. Nenhuma discussão, nenhum comentário, como se não tivesse ocorrido, ou como se pertencesse a uma outra realidade, paralela, irreal, que não merecesse maior atenção.

É aí que trago a ideia que pretendia desenvolver. Estamos diante de um tal descalabro político, marcado por tamanha indiferença do mundo jurídico, político e midiático, que não seria estranho afirmar que vivemos em um mundo paralelo, enfiados em uma realidade pautada pelo tempo do game, onde não passamos de personagens virtuais de jogadores poderosos que nos conduzem pelo cenário tão próximo do real e ao mesmo tempo tão distinto dele.

As aventuras programadas reproduzem valores a serem assimilados. O tempo social e as escolhas são assediadas, onde nossa autonomia de ação é controlada pelo sistema de programação do software. Na verdade, como vilões da história, os personagens de esquerda com suas aparições só conseguem protelar o movimento dos jogadores, que no final das contas é chegar a lugar nenhum. Nesse sentido, prender Lula e mantê-lo sob cárcere foi um bônus especial, que prolonga indefinidamente o jogo.

Em outras palavras, para ir al grano, aí reside a vida de cada um de nós, encapsulados em um mundo de semelhança com o real, só que marcado pelo controle. E do que se trata a realidade da vida cotidiana? É onde recuperamos um punhado de nosso tempo e escolhas, com a finalidade tolerada de jogarmos, de praticarmos o jogo. Vivemos então a representação mais explícita de nossos desejos recônditos de nossos prazeres, de nossa agressividade, de nossa individualidade.

Só não temos a liberdade de atuar no pleno direito de nossa cidadania; assim, invertemos o sentido do tempo e nosso espaço, vivendo uma vida esvaziada, seja no mundo paralelo, seja na realidade da vida cotidiana. Elas se invertem no tempo e no espaço e seguem às avessas, sem necessariamente produzir significado. É como se a razão mágica da vida fosse abstraída por forças dominantes, restringindo-a a funções programadas ou previsíveis.


Tolkien ou Carpentier, cada qual a expressar o maravilhamento de suas imaginações, não seriam capazes de proporcionar uma realidade assim distorcida. O mundo bancário, com suas normatizações tacanhas, encontra a oportunidade de estabelecer sua verdade ilusória. Já não se trata de impor ideologias, mas de prevalecer um poder, um poder acovardado em meio às sombras, onde se espraia ao melhor estilo dissimulado. Um poder sem cara, que se move de modo inclemente por seus interesses.


Um poder que acima de tudo não se emociona, posto que se limita a se satisfazer. Um poder que não teme suas contradições. Um poder que não sujando as mãos, produz e reproduz seu bando de ignorantes para difundir e sustentar, como diz o jurista Eugênio Aragão, o caos comunicativo em nossa sociedade, capaz de subverter a realidade da vida cotidiana em mundo paralelo. Por essa singela razão, e mais também por não existirmos para a submissão controlada, seja esse um poder que não permanecerá.  



10 abril 2018

Estupidez e retrocesso

Carybé, Cangaceiro, nanquim sobre cartão 


A cada dia que passa sente-se no ar a brutalização dos fatos, comandados, mas não controlados, pelos agentes do golpe institucional. Só para os desavisados ou de mau-caráter o roteiro sustentado por uma narrativa infame não é a reprodução de um estado de exceção, daqueles bem torpes, que surgiram em tempos passados em nossa América Latina. 

Mas também está claro que, à medida que o roteiro é cumprido, o formato do golpe foi atualizado para as circunstâncias contemporâneas. O mais importante é que o conteúdo é o mesmo, provocação de órgãos de segurança, intolerância disseminada e não coibida, cerceamento das manifestações de esquerda, sensação asfixiante para aqueles que minimamente analisam o desenrolar dos fatos, e não se limitam às programações entorpecentes veiculadas nos meios de comunicação hegemônicos.

Este fim de semana foi rico em fortes impressões: na sexta-feira a resistência de Lula em seu Reduto lendário, o sindicato dos metalúrgicos do ABC, no sábado o discurso histórico, a saída, carregado nos braços do povo, e o processo de sua detenção; no domingo, uma final no futebol envolvendo duas das principais torcidas do Estado, e o título do mais popular, o Corinthians, onde praticamente não se viu comemoração pela cidade. Seria um sinal de que a população acusava caladamente as sucessivas surpresas golpistas em pleno desenvolvimento?

Já não se trata redigir sobre comentários insensatos desse ou daquele posicionamento de um comentarista da mídia ou de um empresário da Fiesp. Essa etapa já foi superada e agora estamos em plena arregimentação das forças brutas, vale dizer, o escárnio de generais, a chantagem midiática, para a complementação de um ato obtuso, do qual a população ainda não consegue vislumbrar com nitidez. A desfaçatez foi superada, estamos no estágio da implementação do obsceno, com a efetivação do desmonte de uma nação.

Retomamos o fio da meada: os agentes do golpe institucional não se incomodam mais em ser ou não desmascarados, apenas atuam em função do roteiro programado há mais de dois anos, para a reafirmação do poder das corporações financeiras. O Leviatã programado é mais cínico que o proposto por Hobbes, pois nele a figura do soberano não se expressa por sua personalidade, mas por seus interesses, fragmentados entre um oligopólio de dominadores. Do congresso, cenário do primeiro ato, passamos para o judiciário no segundo ato.

O terceiro ato se dará todo nas ruas e seus personagens não serão apenas ouvidos vagamente, como nos dois atos anteriores, mas serão protagonistas da ação. No domingo uma gigantesca Ocupação marchou em São Bernardo do Campo, sob as bandeiras do MTST, após a conquista de suas reivindicações por terra. Caminhavam pelas ruas bradando palavras de ordem e na frente, empunhavam uma enorme faixa, "Lula Livre". Em menor intensidade, foram manifestações vistas nos grandes estádios de futebol, nas finais dos estaduais.

Esse não é o terceiro ato em si, mas apenas uma preparação, em que o coro anuncia o desenrolar da tragédia. O governo obscuro de Temer já não interessa para ninguém, agora também para os golpistas. Será mantido como forma de se ganhar tempo nos bastidores, ondem procuram soluções para o desfecho desse lamentável drama, iniciado por declarações irresponsáveis, de senadores como Aécio Neves pregando a ruptura institucional em pleno parlamento. Inconsequente, se escafedeu, provavelmente escondido em algum reduto obscuro.

Sinto nas pessoas uma discrição, que dependendo do posicionamento assumido em face do processo histórico, pode significar omissão ou desconsolo. Omissão para os que desejam se afastar de suas escolhas, desconsolo junto àqueles que fraquejam pela escolha de mais uma derrota. Ora, escolher o caminho que leva à derrota nada significa, até porque o processo histórico prossegue, e com ele, a luta que nos glorifica. Há também os que abraçam o mórbido gracejo, ironizando os fatos e desincompatibilizando-se da responsabilidade política. 

Vivemos um tempo de miserabilidade (não de desconsolo), o Estado democrático de direito sob ataque de grupos facínoras, que se acreditam acima do bem e do mal. Já havíamos visto isso na atuação dos grupelhos direitistas no pós-golpe de 1964, por aqui, no pré-golpe de 1973 no Chile, no pré-golpe de 1976 na Argentina e Uruguai. Eles agem impunes, até que o estado de exceção se estabeleça e abarque seus mórbidos impulsos. Desde 2013 panelinhas como o Vem pra Rua ou o MBL preparam o terreno da infâmia e sem fazer política, semeiam o ódio. 

Lula seguirá preso por um bom tempo, até que as pressões internas e externas modifiquem a vilania de um judiciário impotente em seu labirinto. De nenhuma parte dos meios corporativos - e ainda hegemônicos - virá o contraponto para a compreensão dos fatos, pois todas as vozes autorizadas que representam alguma forma de oposição à essa marcha da insanidade foram excluídas da pauta. Eles abandonaram há tempos sua função de 'meios', para se transformarem em instrumentos ideológicos do golpe (necessário retornar a Althusser!), manipuláveis pelos interesses do capital financeiro. 

O quarto ato, eleições ou golpe consumado? Seguimos na luta pela retomada da legalidade, tal como os bravos fizeram em 1961, porque o espírito dessa resistência há de persistir. E gostaria de lembrar o jornalista Chico Pinheiro, que citou a composição "Pesadelo", de Maurício Tapajós e Paulo Sérgio Pinheiro, "Quando o muro separa uma ponte une/ Se a vingança encara o remorso pune/ Você vem me agarra, alguém vem me solta/ Você vai na marra, ela um dia volta (...)"  


01 abril 2018

Primeiro de abril, 54 anos depois

Ernesto de la Cárcova, Desocupados 

Estamos anos-luz do malfadado golpe militar de 1964 e não obstante, muito próximo de suas peculiaridades, exarando a convicção de que nossa sociedade nada aprendeu. A truculência que os tanques exibiram nas ruas naquela ocasião foi substituída pela sutilidade das decisões nos salões congressuais e nas cortes jurídicas. No mais, os atos são retomados com a mesma brutalidade e intolerância por parte de grupos proto-fascistas, oriundos da mesma classe média ignara, que persiste em funcionar como correia de transmissão dos interesses dominantes. Estes, por sua vez, permanecem praticamente os mesmos, o grande capital transnacional, o empresariado industrial e ruralista, amparados pela narrativa midiático-corporativo. No lugar da igreja católica, uma presença considerável de lideranças evangélicas e claro, e como destacado no começo, no lugar da força militar, uma falsa legitimidade instaurada por votações no Congresso e pela sutileza nas decisões das cortes jurídicas, comandadas por uma primeira instância de Curitiba.

Fortemente entrelaçados, essas instâncias da vida civil abafaram o descontentamento das classes trabalhadoras, ignorando qualquer movimento que surgisse desses setores. Como já discutido neste blogue, a virulência e principalmente a determinação contra a normalidade institucional do país, vindos do executivo, legislativo e judiciário, demonstra que seus atos foram "pensados e desenvolvidos" por forças ideologicamente muito bem estruturadas, e porque não dizer, de origem forânea. Grupos de estudos e reflexão pautados por um liberalismo virulento, com forte ascendência e circulação nas classes dominantes deste país, decerto deixaram um contributo decisivo, eliminando os cuidados que sempre pautaram a política congressual. Alguns desses agentes reverberam de maneira agressiva, como o empresário Flavio Rocha, da Riachuelo, ligado ao artificial Movimento Brasil Livre (MBL), ou João Dória, empresário-prefeito de São Paulo, que na mesma linha do ultraliberalismo, pretendem sepultar quaisquer vestígios do Estado do bem-estar social. Tais figuras, acrescidas ao malfadado capitão Bolsonaro, tratam de fazer terra-arrasada com o sentido da prática política, tal como a conhecemos desde o surgimento da Teoria Política moderna, com Maquiavel, Bodin, Hobbes, dentre outros. 

O que paira é a incerteza do que virá até outubro de 2018. As idas e vindas do processo político parece mais disforme que em 1964, vale dizer, em ondas dispersas e fluidas são tomadas decisões pelas cúpulas no poder, fortemente suscetíveis aos interesses dominantes. Em outras palavras, os atos institucionais impostos a partir de 1964 pela cúpula militar reaparecem com tons e formatos diversos, ainda que preservem os mesmos sentidos autoritários. Com isso, um novo AI-3 pode ressurgir com o julgamento no STF do ex-presidente Lula nesta semana e pelo eventual afastamento do corrupto Temer, trazendo por caminhos distintos a hipótese de eleições indiretas nacionais, o que significaria, sem subterfúgios, a consolidação do processo de golpe institucional, e muito mais do que isso, um desastroso retrocesso sócio-político-econômico.


18 março 2018

As certezas de Jeremias

Los Olvidados, Luís Buñuel

De tempos em tempos sou surpreendido em sala de aula pela mesma circunstância, a teoria e suas obrigações com a realidade cotidiana. Desta vez foi Jeremias quem me provocou com as agruras da vida, justamente quando develava algo das ideias de Rousseau, em um de seus aspectos menos conhecidos para aqueles alunos de Ciência Política, a educação. 

Interpretávamos livremente um trecho destacado por Comparato em seu ótimo livro Ética, "É a educação que deve dar às almas a força nacional e dirigir de tal maneira as opiniões e seus gostos, que elas sejam patriotas por inclinação, por paixão, por necessidade", quando Jeremias abandonou o silêncio convencional e interrompeu, "como entender tudo isso de modo que a dona F., já uma senhora idosa e cansada, lá do fundão da leste, consiga comer com dignidade?" 

Essa foi a parte objetiva de seu longo e trôpego arrazoado, que em meio à timidez, elaborou seu pensamento sinuoso e bastante lógico sobre o desalento atávico das gentes das periferias, marcado pela luta sem fim, pelos privilégios concentrados, pela escola distanciada da realidade social. Em suma, de que valia conhecer mais um conjunto de ideias, mais um autor, se a vida seguiria provocando suas tragédias.

Contou sobre sua mãe, que cansou da política e resolveu acomodar-se diante da televisão, "como condenar esta escolha?". Pensei uma vez mais na luta dos direitos burgueses que a esquerda esclarecida procura oferecer como suporte para as transformações sociais. Pensei uma vez mais no buraco da formação educacional provoca na percepção da cidadania, pensei no professor Milton Santos denunciando o aprendizado acadêmico encerrado nos muros da universidade. 

Estávamos com Rousseau, e de algum modo pudemos dialogar abertamente sobre os problemas levantados por Jeremias. Procurei frisar a importância do conhecimento como ferramenta de ação social, e que a alienação, por mais sedutora que pudesse ser, não nos faria melhores. Por mais que fracassássemos na luta pelos direitos, ela não podia ser abandonada, e não se tratava de uma luta individual, mas social, daí a importância dos movimentos e coletivos.

Ainda uma vez me veio a iluminação dos poetas periféricos, do Sérgio Vaz e seu trabalho de formiguinha sobre a leitura nas escolas públicas. Mas esse brilho de atitudes comprometidas por muitas razões não conseguia se contrapor ao sentimento doloroso do abandono, da profunda opacidade da vida cotidiana dos esquecidos. 

Minhas certezas não eram mais conclusivas que as de Jeremias.  


17 março 2018

Retrato de um sonho


Diego Rivera, Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central 


A velha loja de sapatos de meu avô se transformara em uma confeitaria, em aconchegante estilo rústico, pintado em cores amenas, com pequenas mesas de madeira sólida e cadeiras de buinho entrelaçado no assento e no costado, convidativas para um viajante fatigado. Marcavam-me as dimensões mais amplas do ambiente outrora escuro e cheio de esconderijos por entre os balcões enegrecidos pelo tempo, e que agora se expunha de maneira explícita e sem graça. O salão ficou mais arejado pelas duas grandes entradas e pela pintura verde água, sutil como a poeira roxa que ainda gostava de recobrir as superfícies. O que me pareceu ser o proprietário logo surgiu, os cabelos penteados por trás dos óculos mal-ajeitados, os gestos melífluos de quem quer agradar novos clientes. Fiz a opção por uma mesa próxima a uma das entradas, a que se abria para a esplanada de asfalto, na bifurcação da avenida Britânia e o início da praça da fonte. Deixei a mochila no chão e sentei-me sem pressa. O alvoroço das falas e das marteladas me despertavam a atenção, avançava-se na montagem do palanque, que mais tarde acolheria o evento político. Ruídos mansos e repetidos que me agradavam, anestesiavam os sentidos, faziam com que espairecesse para outros pensamentos. O sujeito acercou-me oferecendo seus préstimos,

            ‘Um café por favor’...
            ‘Mais alguma coisa’?
            ‘Não... só um café preto’. 
            
Do mesmo modo que se aproximou, retornou para trás dos balcões, agora outros balcões. Passei a recordar-me dos antigos, envidraçados, de boa madeira, envelhecidos como a pintura esmaecida das paredes, que pareciam se erguer ao infinito, a escorar estantes repletas de caixas de sapatos. Muito tempo depois descobriria que se tratava de um truque de meu pobre avô, impressionar a clientela indicando uma carga enorme de sapatos, na verdade inexistentes. O homem prontamente retornou com uma bela taça de café e um pratinho com paçoca.

Ao redor, apenas mais duas mesinhas vazias e o calor que adentrava pelas amplas portas, juntamente com a claridade da tarde. Não se tratava de um lugar maldito, como pensava ser em sua tenra infância, sob a influência das zangas, dos sinais de torpor, da mesmice da triste clientela de seu avô. Estar de volta não representava qualquer espécie de resgate emocional, mas um necessário acerto de contas. O destino deixava de encarnar as histórias mal contadas de desesperança, para recuperar as coisas como agora estavam, sem o avô, sem a família. Cambeville surpreendia pela absoluta indiferença, como se não se incomodasse com seu passado familiar de tantas situações vivenciadas e narrativas geracionais ouvidas. Agora tudo aparentava artificial e arranjado, tal como o estabelecimento em que punha os pés. 
 
Voltei-me para a paisagem externa, para os trabalhadores martelando, serrando, pintando, arrumando faixas, o ritmo das pessoas de acordo com o ritual urbano que se transformava, preservando suas características, Poderia ficar mais trinta anos fora e encontraria a mesma essência simples e esquecida... sob a serenidade da tarde nublada. Menos cavalos, mais automóveis, mais gente, mais caras fechadas, menos dor na alma. Não perdia cada gesto, cada atitude, vislumbrava o antanho mesclado com o tempo presente e ambos se fundiam no déjà-vécu. Permaneci por longo tempo, observando sem me preocupar e sem desejar outra coisa além de uma merecida pausa para amenizar o cansaço da viagem, antes de seguir para a casa de minha avó, Ruth querida, como estará depois de tantos anos?... Meus olhos inquiriam sem a mesma destreza, ou quem sabe sem o mesmo interesse do início e essa imobilidade benfazeja conduzia a outras ideias, a outros sons, a novas imagens, os passantes, bem diante de si, na calçada, mulheres com seus filhotes, homens bem vestidos subindo a Britânia, em direção à igreja, jovens em grupos, uma bela de tornozelos largos, caminhando, que logo deixou seu campo de visão, descendo para o outro lado, rumo à praça. Essa visão me inspirou, de pronto retirei da mochila caneta e um caderno de anotações e redigi, embalado pelas impressões frescas,

A bela caminhando
os olhares arredios
balouçando a cintura
esboçando um sorriso
louvando o céu escuro
(as nuvens plúmbeas)

A bela caminhando
feliz
os pelos do corpo eretos
toda a emoção
evidenciada pelos largos tornozelos

O chão úmido
as árvores docilmente inclinadas, indiferentes
as paredes frias espreitam
o vento fino abstrai a alma
e desperta a consciência

Os homens silenciosos, evadidos
os carros imóveis, também mortos
o sol distante que não se espraia
mas o gato no telhado atento acompanha
a bela caminhando.
...
 
Vagamente passei a discernir um bolero muito suave, e cuja letra podia compreender e quase antecipá-la em seus versos amargurados. Relembrei, por estímulo da música, da voz aveludada, longínqua e ao mesmo tempo íntima... em um salto temporal, a recordação dos movimentos insinuantes de Marta... Sólo la penumbra me acompaña hoy/ Perdido tu amor/ no podré disfrutar de felicidad... Os trabalhadores já não faziam mais nenhum sentido em toda a sua balbúrdia, permaneci imóvel à mercê da evolução dos registros passados e fragmentariamente recuperados. A melodia sussurrava das frestas daquele espaço cheirando a pintura nova, Nunca a convenci sobre o jazz... preferia Compay a Coltraine, bongos e maracas ao sax tenor, os negros do caribe aos negros do Harlem... Na ausência de Marta submetia-me docemente à invasão morna de Ferrer e pensei em Roquentin... a música o afastava da angústia que o ameaçava, Mas Roquentin não teve a presença de Marta... o que parecia fazer diferença naquele momento, a lembrança ao alcance das mãos e dos lábios, toda a volúpia estremecendo sob os acordes de Naima, a magia dos acordes do sax tenor, por alguma razão sobreveio as sonoridades com Marta, trepar com Marta ouvindo Coltraine, ambos a cortejar o presente em meio a estímulos e segredos, e toda imaginação discernia como um som distante e fugidio o Ferrer do presente, com seu bolero encantado, "... Recordaré tu mirar, tu sentir/ No lo puedo evitar/ Y sufriré añorando el ayer/ no te puedo olvidar..., não mais Coltraine, mas o cubano e sua trupe do Buena Vista que poderiam despontar nas vagas e tão presentes recordações, mágicas como os acordes distantes, que conduziam as tramas do desejo, no toque do corpo e na iminência do gozo, suscetibilidades vivenciadas intensamente...

Foi a vez do proprietário reaparecer, tendo nas mãos uma xícara de café, substituindo a que estava sobre a mesa. Por conta da casa, disse. Foi o ruído do pires na mesa que rompeu com o fluxo de seus pensamentos, mas ao contrário de uma reação intempestiva, moveu os lábios num espasmo de agradecimento e acompanhou o homem de volta para trás do balcão frigorífico. Não foi possível retomar os momentos com Marta e no lugar sobreveio a presença de um vazio incômodo, como se flutuasse de um lado para outro, prestes a esboroar-me na próxima vaga... Já não havia mais o aconchego que acalentava e dos impulsos que me alcançavam, desejei retornar para a rua, deixando para trás aquele lugar que um dia fora uma loja de sapatos e o espectro de meu avô circulando junto à caixa registradora, fazendo botões, organizando com minúcias os recibos das compras, a contabilizar os recursos empenhados no arroz e no feijão de cada refeição. Mas acima de tudo abandonava o lugar, que me parecia tão mais amplo, e que me acolhia generosamente, em seu profundo silêncio. Abandonava mais uma vez meu pobre avô, sua imagem nebulosa imóvel por trás do antigo balcão de madeira, tal como o capitão Drogo a esperar pelos tártaros, com a expressão serena de um derrotado em contínua luta pela sobrevivência.


28 fevereiro 2018

O fim e o recomeço

Quando informação se confunde com publicidade

Há quase dez anos mostrava-me ansioso pela democratização de nossa mídia e meu esforço natural foi constituir um espaço para expressar em primeiro lugar minha indignação contra as formas de conteúdo midiático que naquele momento, antes das eleições de 2010, pipocavam pela mídia corporativa.

Simultaneamente avancei na expectativa de que as mídias digitais alternativas chegavam para democratizar a informação. Escrevi empolgados textos acadêmicos projetando uma democratização das mídias via coletivos e movimentos sociais, e penso hoje que me antecipei exageradamente ao processo histórico. 

O pior foi ver, ao longo desses anos, a esperança de independência política e econômica ao sul do rio Bravo dissipar-se como água na água. Nem autonomia política, nem desenvolvimento nacionalista, nem tampouco o fim da "velha mídia", como passamos a nos referir ao condomínio carcomido das famílias midiáticas.

As coisas falharam de modo desavergonhado, pois políticos da pior laia, os neoliberais de cartilha, os agentes do mercado financeiro, a burguesia ignara, a mídia corporativa-publicitária, assumiram a canalhice de fazer andar o desmantelamento do Estado do bem-estar social. Mais além de Keynes, Aristóteles e mesmo Maquiavel ficariam chocados com a destruição do conceito do bem viver.

Seja como for, a imagem que ilustra esta postagem é a prova cabal da desfaçatez desses atores que, juntos, e por um punhado de dólares, desestabilizam o Estado democrático de direito, fazendo prevalecer os seus interesses, formatados sabe-se lá em quais escritórios ideológicos. Uma coisa sei, essa corja não teria competência por si só para elaborar um projeto tão brutal e acabado.

São sombrias as perspectivas, muito mais do que as que se apresentavam no pós-golpe de 1964. Agora, a impressão é que não sobrará pedra sobre pedra ao final dos mandatos, golpistas ou não, após a vigência desse governo a serviço do Capital e das ordens forâneas. Venderão nosso patrimônio, dilapidarão nossos direitos, farão prevalecer uma ordem miserável e o que é grave, nos informarão disseminando a publicidade de seus interesses. Não sobrará além de um rastro de desconsolo e humilhação.

Nossa luta, em um governo de salvação nacional, há de começar pela denúncia dos traidores lesa-pátria, e prosseguirá com a democratização à força dessa mídia-corporativa-publicitária, que uma vez não tendo mais preocupações com o jornalismo - as verbas publicitárias governamentais são cada vez mais polpudas - já se desvincularam de qualquer responsabilidade ética com a notícia produzida.


08 fevereiro 2018

Formas de sucumbir a um golpe institucional

 
Os que, um dia, foram denominados bandidos sociais

Passo aqui a elencar algumas impressões acerca da impostura política semeada pelo Estado neoliberal, que ao contrário do que se afirma, se reduz para as classes menos favorecidas, mas preserva o vigor e subserviência aos donos do poder, ou em outras palavras, ao 1% dos privilegiados diferenciados, alocados nos poderes legislativo, executivo e judiciário, no controle da mídia corporativa, no grande empresariado, em parte das lideranças neopentecostais.

São percepções incompletas, que apreendo ao longo desses meses infindáveis de martírio contra as classes trabalhadoras brasileiras, e transcrevo sem a preocupação de desenvolver um texto linear, com a profundidade acadêmica necessária que por certo virá mais tarde. Opto por chamar os partidos da coalizão deposta, impedida, de nacionalista, que me parece mais adequada do que 'partidos de esquerda'. E considero, sem meias palavras, os atores que assumiram o poder como golpistas - e que se mostram habilmente entreguistas do nosso patrimônio. Nada mais do que uma livre e pesarosa reflexão. Vamos às impressões. 

1) As formas de resistência dos partidos nacionalistas são frágeis e previsíveis. Frágeis pois imediatistas, quando se considera a interação com as massas populares; previsíveis porque institucionalmente seguem a mesma cartilha formal. Em suma, não há um processo de organização que envolva, a longo prazo, as bases populares. 

2) De outra parte, as hostes golpistas mobilizam internamente seus fantoches, midiaticamente conhecidos e com algum capital simbólico, para o serviço sujo de caluniarem livremente instituições e personalidades nacionalistas. Os fantoches difundem, além do plano ideológico golpista, a desfaçatez e o cinismo, que instigam a desconstrução discursiva do estado de direito, implantando o vale-tudo nos gestos e nas palavras, que antes de chocar, aprofundam a impressão de uma hipotética anomia social. O que convalida o esforço de ruptura constitucional, ainda que pela miserabilidade argumentativa. 

3) Os políticos da plataforma golpista representam a face mais sinistra desse ventriloquismo, ao se exporem cotidianamente como correia de transmissão e expressar a abjeção de caráter. Boa parte da articulação parlamentar do golpe é constituída por delinquentes que respondem processos por peculato, e até segunda ordem, são apropriados para avançar o processo de desmonte social.

4) A violência policial, cirúrgica, calculadamente direcionada contra grupos de manifestantes esparsos, tem por objetivo criar insegurança nos movimentos e impor a impressão de força a serviço da ordem. É amplificada por imagens espetaculares produzidas pelos veículos de comunicação hegemônicos, "casualmente" presentes no local. Essa atuação policial, ao contrário dos golpes anteriores, não é massiva e indiscriminada, ao contrário, é localizada e incisiva. Assim, a repressão valoriza o efeito simbólico de suas intervenções, infundindo o sentimento de impotência nas mobilizações sociais.

5) Enquanto o silêncio das nações industrializadas incorpora um solene apoio ao golpismo institucional, os nacionalistas apeados do poder amealham apoios isolados, sem força política, como cantores de rock, professores, juristas ou políticos aposentados. Aprofundam assim a "marginalidade" de sua causa. 

6) Por sua vez, confiantes com a adesão estratégica do poder político global, e com apoio logístico das corporações econômicas, o comando golpista expõe sua cara sem qualquer desconforto; o que antes 3% de apoio popular seria sinônimo de crise institucional, hoje não passa de inabalável detalhe circunstancial. O governo golpista subordina seus atos a setores dominantes que dispensam votos, uma característica da ordem neoliberal. Vale dizer, qualquer decisão política será afiançada por essa troika gerencial, oculta e silenciosa, porque dela emanam os princípios a serem cumpridos.

7) Portanto não é exagero se afirmar que o desenvolvimento do golpismo pós-moderno se define, antes de mais nada, pela sociopatia característica de seus atores, cujos atos, burlescos ou não, confirmam uma outra ruptura infame na tradição política: desqualificar a sobriedade do poder. 


24 janeiro 2018

Olga Berggolts

"Subestimaram a nossa fome voraz de vida"

Dentro de algumas horas um tribunal de apelação deverá confirmar a condenação do ex-presidente Lula, tendo como objetivo descartá-lo do processo eleitoral deste ano. A ação togada vem com um sabor de autoritarismo como há muito não se via neste país, vale dizer, a partir de um objetivo claro e delimitado ainda em 2016 - fazer terra-arrasada de Lula e das conquistas de seu governo - encontrar motivos plausíveis ou não para escorraçá-lo da história. Quem diz isso não sou eu ou alguma das inúmeras mídias independentes, mas o jornal NYT

Apoiando esse processo com ares kafkanianos, a tropa unida da mídia corporativa galopa em planícies verdejantes, comandada pelas organizações Globo, sendo secundada pelos pistoleiros de sempre, o empresariado politicamente medíocre; lideranças neo-pentecostais gananciosas; um congresso vergado pela inépcia; um judiciário envergonhado pela omissão e sem dúvida nenhuma, toda essa tropa amparada em esquema com forte orientação ideológica vinda de corporações estrangeiras. Digo isso porque esse exército Brancaleone, por si só, seria incapaz de proceder golpismo tão bem-sucedido. No final das contas, essa imensa engrenagem avança solene e irredutível rumo ao horizonte de seus interesses. E neste momento, nada irá detê-la, nem mesmo a grandiosa mobilização em Porto Alegre, que será importante como oposição ao processo histórico vergonhoso em andamento, porém sem o poder necessário para se impor.

Tudo isso porque o povo brasileiro não está organizado para uma forte e prolongada resistência. A ruptura primeva do caráter nacional, ocorrida a partir do golpe militar de 1964, demoliu seus ímpetos nacionalistas. O grande déficit, que não será discutido aqui, está na formação política. Na Argentina, em dezembro passado, houve uma reação fortíssima contra a sessão que promoveu reformas na previdência, em cenas dramáticas de embates diante do Congresso, e nenhuma comoção mundial se posicionou junto ao povo em luta. São tempos permissivos de hipocrisia e traição. São tempos em que os movimentos sociais estão na defensiva, ao contrário das forças invisíveis do mercado, que marcham alucinadas com base no poderoso caballero, el don dinero, impondo sua ideologia financeira, não importa o preço a pagar. 

A transformação na sociedade, alardeada pelos meios corporativos, jamais visou a ordenação moral via extinção das práticas de corrupção. Ao contrário, esta se instaura como moeda de troca para as tais transformações, que têm como objetivo jogar a nação ao solo, humilhada e ofendida, demolindo as conquistas sociais alcançadas e a estrutura econômica que se edificava. Se os negócios financeiros estão em alta, temos a brutal contrapartida que não aparece nas planilhas contábeis dos lucros: a febre amarela voltou, estamos com 15 milhões de desempregados, a educação superior gradativamente transformada em curso técnico de pouca qualidade, os direitos trabalhistas destroçados, a previdência pública condenada, transformando a aposentadoria em benefício de luxo para os trabalhadores. O esforço discursivo das hordas dominantes procura demonstrar a normalidade das coisas, como se o mundo real não fosse mais do que a atmosfera de um mundo secundário, e o mundo secundário das telinhas a verdadeira realidade, praticada nos longos deslocamentos do transporte público.

É por estarmos justamente investidos em um game sem fim, órfãos de informação e acovardados em nossa ignorância política, que vejo o julgamento desta manhã como um acontecimento impactante, ao mesmo tempo que condenado ao doloroso silêncio do day after, dominados por analises caricatas do "jornalismo" hegemônico. Toda essa carga de pessimismo, porém, não significa abandono ao quietismo. As mobilizações sociais em andamento são significativas, nas ruas e nas redes digitais, e embora careçam de densidade neste momento para alterar o resultado, sinalizam o otimismo de um futuro inquieto, de lutas. Lutas que serão travadas em sucessão, e se tivermos capacidade para acumularmos humildade e determinação, seremos capazes de colocar em xeque esse sistema econômico e político que nos entorpece.

Colocar em xeque significa retomar a iniciativa, pela sociedade como um todo. As hostes vinculadas ao mercado não conseguirão sustentar a vitória com base na profunda desigualdade social. O engodo midiático tem data marcada para ser desmascarado, se no íntimo das pessoas já não o foi, e a ideologia do trabalho ignóbil, como se demonstrou no passado, será fortemente combatida. Será novamente pela cultura que anteciparemos os signos dos novos tempos. A essa altura, parece-me sugestivo lembrar de uma poetisa soviética, Olga Berggolts, que descrevendo seu desprezo pelo invasor nazista, manteve acesa a chama da esperança, anunciando a cada verso o modo de enfrentar o inimigo. E foi o momento de maior desconsolo que inspirou a luz da vitória:

"Naquele inverno, a morte olhou-nos diretamente nos olhos e fixou-nos longamente, sem vacilar. Queria hipnotizar-nos, tal como uma cobra constritora hipnotiza a sua vítima, privando-a de vontade e dominando-a. Mas aqueles que nos mandaram tanta morte calcularam mal. Subestimaram a nossa fome voraz de vida".

Que ao menos nos valha o valente sentido simbólico dessas palavras.