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| São Jorge e o dragão, 1490/95 Bode Museum - Berlim |
17 outubro 2022
O dragão da maldade contra o Santo guerreiro
05 outubro 2022
Os fatos e seus meandros
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| Os espectros rondam as ruas e as mentes |
Desde o domingo os acontecimentos políticos ainda mobilizam grande parte da sociedade brasileira, sejam nas pequenas conversas de rua, nos encontros familiares, nos locais de trabalho. Isso não significa dizer que as discussões sejam amistosas, serenas, construtivas. Muitas se dão no calor do que já se consagrou denominar de "polarizações", e nesse sentido, carregadas de força desmedida, beirando rupturas. De minha parte, entendo que este país sempre viveu, em tempos eleitorais, disputas "polarizadas": assim foi entre Erundina e Maluf em 1988 (gosto de recordar essa disputa em especial, por conta da torrencial migração de votos, no derradeiro momento, de Serra para a candidata do PT); entre Lula e Collor em 1989; entre FHC e Lula por duas vezes, em 1994 e 1998; entre Lula e os candidatos do PSDB por duas vezes, em 2002 (Serra) e 2006 (Alckmin) e depois, entre Dilma e novamente os candidatos do PSDB, Serra em 2010 e Aécio em 2014. Em 2018, os fatos excepcionais eliminaram Lula da disputa e robusteceram a candidatura, de início esquálida, de um certo ex-capitão.
Aí se produziu o ovo da serpente que hoje, quatro anos mais tarde, se reproduz e espalha o horror pelo país. O drama, ainda que não mais sob a animação decidida da mídia corporativa e do grande empresariado, prossegue em seus capítulos assustadores, comandado pela serpente e seus filhotes, ao inocular seu veneno em quase metade da população brasileira, majoritariamente localizada no centro-sul do país. No momento, se processa uma luta titânica entre uma crescente frente ampla democrática contra o terror monstruoso, que se ampara em lideranças farisaicas, em uma suposta liberdade individual e na truculência argumentativa, para que, ao fim e ao cabo, consigamos recuperar o sentido do debate político. Sem dúvida será a nossa Estalingrado, na intensidade da luta e no significado que a vitória poderá proporcionar, ao demolir paulatinamente com o mito (aqui no seu duplo sentido, figurado e literal) da superioridade de uma ordem protofascista.
Lula terminou o primeiro turno com 48,4% dos votos válidos, o ex-capitão, com 43,2%, diferença de mais de seis milhões de votos. Em uma análise rápida, mesmo sendo uma diferença menor que a esperada - os institutos de pesquisa apontavam uma diferença em torno de 10%), não é simples de ser suprimida. Na primeira pesquisa do segundo turno, que saiu hoje (IPEC), Lula abre uma diferença de 10 pontos (55% a 45%). O ex-capitão, que alimentou de modo irresponsável em suas hostes o prazer pela intolerância racial e de gênero, não tem como conquistar mais votos no Nordeste e entre as mulheres. Seu índice de rejeição supera os 50% e não há campo fértil para realizar uma colheita que lhe ofereça o que precisa. Restam 25 dias para o domingo de segundo turno e aos poucos, bem aos poucos, desponta no horizonte um brilho potente, um novo sol a nos iluminar com todas as cores vibrantes da democracia.
Hoje, 14 anos deste blog Chá nas Montanhas. Foram mais de 81.600 visualizações e quase 750 postagens ininterruptas (faltam 4) sobre política, cultura e cotidiano. Muita satisfação e orgulho por este trabalho que me entusiasma a cada texto publicado, sempre desejoso por instar o espírito crítico nestas trocas com o leitor. Que possamos comemorar muitos outros aniversários de construtivas análises.
19 setembro 2022
Gonzalo Millán, um poema
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Gonzalo
Millán (1947-2006) |
Poema 48
O rio inverte o curso de sua corrente
A água das cascatas sobre
As pessoas começam a caminhar
retrocedendo
Os cavalos caminham para trás
Os militares desfazem o desfilado
As balas saem das carnes
As balas entram nos canhões
Os oficiais guardam suas pistolas
A corrente penetra pelas tomadas
Os torturados deixam de agitar-se
Os torturados fecham suas bocas
Os campos de concentração se esvaziam
Aparecem os desaparecidos
Os mortos saem de suas tumbas
Os aviões voam para trás
Os rockets sobem até
os aviões
Allende dispara
As chamas se apagam
Tira-se o capacete
La Moneda se reconstitui íntegra
Seu crâneo se recompõe
Sai a um balcão
Allende retrocede até Tomás Moro
Os detidos saem de costas dos
estádios
11 de Setembro
Regressam aviões com refugiados
Chile é um país democrático
As forças Armadas respeitam a
constituição
Os militares regressam a seus
quartéis
Renasce Neruda
Retorna em uma ambulância à Isla
Negra
Dói sua próstata. Escreve.
Victor Jara toca o violão
Canta
Os discursos entram nas bocas
O tirano abraça a Prats
Desaparece
Prats revive
Os desempregados são recontratados
Os operários desfilam cantando
Venceremos!
12 setembro 2022
Uma poesia - Mario Benedetti
31 agosto 2022
Fim de agosto
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| O punctum da imagem: FOME |
O frio permanece nestes dias, temperaturas em média 12º.C, um pouco menos durante a madrugada, um pouco mais durante o dia. Ontem o sol apareceu, timidamente, e hoje deve permanecer brilhando em céu despejado, aquecendo-nos livremente. Agora pela manhã, são onze horas, o calor não é suficiente (16º.C) para afastar a ambiência fria que nos envolve. Seja como for, neste final de agosto o inverno está com os dias contados, o que por si só é uma alegria, para mim e para tanta gente. Os dias serão mais longos e mais aquecidos, esqueceremos por um bom tempo o que é sentir o incômodo das noites geladas.
A imagem revela parte da realidade presente na região da Paulista, a mais rica da cidade, onde há maior movimentação de capital, onde o dinheiro - como diria Simmel - se eleva a denominador comum de todos os valores (e) corrói irremediavelmente o cerne das coisas. A indiferença racional que a sua circulação provoca, nos torna cúmplices do crime diário das mortes por inanição ou por hipotermia. Ao redor do parque Trianon, tal qual um abraço medonho, se estende um cinturão de barracas, indigentes jogados à própria sorte, em um acampamento sem prazo para terminar. O abandono do poder público é visível, e o que é pior, o distanciamento dos olhares é o efeito mais explícito do comportamento blasé das pessoas que ainda desfrutam de alguma renda para viver.
O blasé a que me refiro é mais uma referência de Simmel, trata-se da completa ausência de reação, da impossibilidade do espírito se sensibilizar com as diferenças ao redor. Numa palavra, o embotamento do caráter. A ilusão da meritocracia propicia esse deserto de solidariedade, e consequentemente, a reprodução da miserabilidade. Quanto à imagem, ela confirma o punctum inquietante: a tabuleta com os dizeres 'Fome'. Se há fome na avenida Paulista, o que podemos esperar nos territórios com mais precariedade?
Sob o Masp, o grande museu latino-americano, onde outras dezenas de barracas guardam em silêncio gente que foi despejada pelas ganâncias do sistema econômico vigente, é possível imaginar o autorretrato de Van Gogh deparar, de maneira perplexa, tamanha degradação social.
Tem sido cansativo ouvir comentaristas de futebol e cada vez menos estimulante escrever estas crônicas. No primeiro caso, a limitação, acompanhada da predisposição mercadológica dos temas de análises, me afastam da apreciação do futebol. Não subsiste mais o brilho com a surpresa do toque diferenciado, pelo detalhe da defesa do goleiro, pelo respeito ao trabalho dos profissionais da bola, sem que concorra a polêmica como artifício mercadológico para fomentar a audiência. Além do que, uma maçaroca de estatísticas enquadra a subjetividade lúdica, em repetição ao que ocorre nas análises dos esportes coletivos norte-americanos, eliminando significativamente a singeleza do futebol. Todos os lances passam a ter causa e efeito nos números. Restrinjo-me, então, a ver os resultados, sem qualquer ânimo especial. Quanto a prosseguir com o blog, ainda resisto, imaginando que em breve, talvez, não tenha mais esta obrigação. Certas perguntas começam a me assediar, por que, para quê?
Lula permanece em torno dos 45%, o ex-capitão em torno dos 32%, faltam trinta dias para as eleições. No Estado, Haddad tem boa dianteira sobre o segundo e terceiro colocados, mas não leva no primeiro turno. Que desespero! Quão doloroso o sofrimento destes quatro anos, acrescidos aos dois de Temer! Quantas péssimas notícias, que começam com o desemprego em massa e a redução dos direitos trabalhistas, na destruição acelerada da Amazônia, na privatização de parte do patrimônio do Estado brasileiro, no abjeto sistema de controle e distribuição de verba pública do orçamento secreto, no sucateamento da educação e da saúde públicas, e que terminam com o morticínio da pandemia. Só espero que estas eleições possam afastar a matilha dirigente, que em seis anos conseguiu nos reconduzir à condição de um país miserável.
24 agosto 2022
Lançamento de O que aparentemente nos resta
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| Espaço Anexo Itaú de Cinema |
Neste espaço belíssimo, tão delicado e agradável, encontramo-nos com amigos, eu e Mônica, para o lançamento de meu livro de crônicas pela editora Kotter, O que aparentemente nos resta, organizado e revisto por longos meses, com todo o carinho. Apesar do frio de 10o.C, a tarde de sábado foi aquecida pela generosidade de muitas pessoas queridas, que acorreram ao Anexo Itaú de Cinema para uma boa conversa, para matar a saudade de anos de espera. Foi o primeiro lançamento em três anos, em um ambiente que exalava otimismo e esperança, como se decretássemos com amor o fim de um longo período de trevas, marcado pela pandemia e pelos desmandos do ex-capitão. Curiosamente no início da mesma tarde houve um evento da candidatura de Lula, no Anhangabau, de onde muitos amigos vieram para o lançamento, descrevendo-nos os entusiasmantes momentos vivenciados.
Não foram muitas as imagens captadas, e destaco abaixo algumas delas, para registrar a beleza do evento, dentro do espírito que sempre desejei realizar, na esteira das próprias crônicas escolhidas, qual seja, o de uma alegria engajada politicamente, comprometida com um objetivo de luta, em que nada se dá por acaso, mas ao contrário, tudo faz parte de uma busca incessante no processo histórico que vivemos. Espero que o livro cumpra esse desígnio, pois afinal de contas, foi escrito sob o torpor de um tempo de dor e sofrimento ao povo brasileiro.
16 agosto 2022
Crônicas tormentosas
04 agosto 2022
Favas contadas
Triste
ver a situação que o país se encontra: miséria nas ruas, sucateamento do
ensino público, mais de um terço dos trabalhadores com renda mensal de até um
salário mínimo, ou seja, até 1.212,00 reais. Sigo me adaptando à volta da
Europa, aos horários, ao ritmo dos dias, ao sentimento do mundo ao redor. Nas
ruas, um impressionante contingente abandonado mostra o desinteresse pelas
políticas públicas, da esfera municipal à federal. Nossa condição de
periféricos do capitalismo se expressa de modo indubitável no desprezo pelo
humano e na incapacidade de produzir políticas que amenizem a exploração dos
países centrais. Dói-me constatar que não sairemos desse ramerrão, dessa
indigência moral, social e econômica. Somos incapazes de articular um consenso
interno que nos redima, ou que possibilite alguma ousadia nos fóruns
internacionais.
São
muitos, imensos e atávicos os caminhos que conduzem aos interesses das elites
famintas que não se importam em esfaimar o povo. O tempo da dignidade já
passou, talvez tivéssemos mais chances lá atrás, nas composições dos fóruns
mundiais pós-segunda guerra. Talvez se Vargas tivesse suplantado as marionetes
a serviço do Império, ou se Goulart incorporasse o destemor de Brizola, ou mais
recentemente, se não tivéssemos cedido de modo tão indulgente as chaves do
poder aos representantes dessa oligarquia devoradora, que ousou refestelar-se
como nunca em sua ignorância abjeta, a ponto de propagar a nova ordem de uma
Terra plana, de fomentar à luz do dia os caprichos da corrupção institucional,
de aprofundar despudoradamente o ódio, a mentira, a incompetência, tendo ao
fundo as mazelas de uma desigualdade social que nos reporta ao fazendão
colonial que um dia fomos.
(atualizado em 04.08.2022)























