21 janeiro 2011

Condenados


O primeiro acordou com a descarga breve e múltipla, produzida no pátio. Os demais companheiros permaneceram imóveis. Acordou, deu uma geral em meio ao lusco-fusco da cela e fixou o olhar no teto, remoendo a ideia de que ocorrera mais um fuzilamento, agora mais impactante, pois envolvia um dos colegas de cela, levado na noite anterior. Os disparos que ocorriam frequentemente em outras ocasiões pareciam circunstâncias de rotina, considerando a tensão do cotidiano prisional de um cárcere em que se fuzilam condenados. Desta feita, os tiros significaram um golpe dolorosamente ameaçador. 

Sentou-se no grabato, a luz difusa da aurora embaralhando sua visão, enquanto buscava organizar os pensamentos. Lançou um olhar lânguido para o leito inferior do beliche em frente, agora vago, pronto para receber um novo sentenciado à morte. Recordou-se de algo importante e ergueu o travesseiro, tomando nas mãos o caderno de capa dura onde realizava suas anotações e com o toco de lápis que lhe restava, recomeçou a escrever com sua letra miúda. Palavras que somadas a novas palavras, geravam frases e orações que compunham impressões inacabadas, fustigadas pela certeza de que não resultariam jamais em idéias concludentes. Folheou as páginas, agora sob o alvorecer do novo dia, detendo-se nos comentários mais lúcidos por seus efeitos acabrunhantes, “Serei o próximo a sucumbir, como uma maldita mosca no verão... Angústia que não desanima, que clama sem ser mais ouvida... Nada, a não ser os ecos de cada manhã, estampidos mortais...”, ou então preocupações sem sentido, “... essa sobremesa, a melhor coisa que me aconteceu desde que cheguei nessa espelunca...”, e que às vezes beirava o bizarro “... coloco-me sob a bondade divina, é o que me ampara... os cães já não latem nem nos meus pesadelos...)”. 

Nesse ínterim, o segundo condenado despertou do sono agitado e indagou sobre o ruído externo, Foi o que estou pensando?... É, aconteceu..., respondeu o primeiro, indiferente, contendo-se na leitura. Não conseguem impedir nunca... retomou o segundo, com a fala mais encorpada, desejoso por entabular uma conversa. O terceiro prisioneiro veio a si, lançando um olhar desavisado para os companheiros. Voltou-se então para a parte inferior do seu beliche e constatou a ausência. Por que vocês não voltam a dormir?, comentou remexendo as bochechas, Não vão trazer o cara de volta com essa conversa mole..., ao que recebeu do primeiro um Vai à merda!... assim bem seco e grosso, extravasando a tensão acumulada. Em qualquer outra ocasião teria sido uma provocação de consequências imprevisíveis, porém, naquela manhã, a iniciativa estava em falta e os ânimos, por demais retraídos. O segundo condenado resolveu intervir com um balbucio inofensivo, mais para desconversar e aquietou-se sob as cobertas. O primeiro detento deu continuidade a suas anotações no caderno de capa dura, enquanto que o terceiro remoeu-se em seu desprazer, atalhando por fim um Depois a gente se acerta... antes de virar-se para o concreto e calar-se pelo resto da manhã. 

(Pois os atos mais acerbados poderiam esperar, todos ali teriam o resto do dia para esgrimir suas futilidades e tergiversar sobre seus sonhos. E se o dia não fosse suficiente, poderiam prolongar a conversação pelo resto da semana, do mês, ou calar-se por anos a fio... Mais um pouco e a luz do sol se projetaria pela pequena abertura gradeada, definindo seus tons diversificados ao longo do dia, até seu esmaecimento, no crepúsculo da jornada. Teriam como companhia o rumor da chuva caindo, com seu cheiro sempre refrescante, ou o bramido de um vento tempestuoso; o gotejar da água em algum ponto do teto ou o chilrear de um pássaro desgarrado, na primavera, acontecimentos tão efêmeros quanto desinteressantes na vida de um quase-expurgado. No espaço áspero, a estima fenece com o andar do tempo; já o desprezo e a fantasia se acumulam em evolução crescente, acentuados com a ignomínia do isolamento. Daí que as reações promovem a exasperante ruminação de palavras e ideias inicialmente hostis, mas que cerceadas pelos muros acabam resignadas, recolhendo-se aos seus donos...).

O primeiro, o que tinha o caderno nas mãos, desistiu e o repôs sob o travesseiro. Manteve os pensamentos por mais uns minutos e quem sabe fosse seu desejo prosseguir em suas ponderações, se não sucumbisse ao único prazer solícito de um condenado, o sono.

(ao som de Superunknown, Soundgarden)



13 janeiro 2011

A dura luta




Vejo em meus papéis, na ordem, Para presidente da SIP, Lula ameaça democracia (Folha, 17 de julho de 2010), e mais adiante, SIP critica 'escalada contra liberdade de imprensa' na Argentina (O Estado SP, 24 de agosto de 2010).

No primeiro caso, o cubano miamero Alejandro Aguirre, afirma que Lula, pasmem os senhores, "não pode ser chamado de democrático". E mais adiante, o define, na companhia de Chávez, Evo, Cristina, como governantes que 'reduzem a liberdade de imprensa'. O tal Aguirre, ao longo de sua entrevista, atira para todos os lados, indicando fraqueza da democracia do Brasil, juntamente com o que ocorre na Argentina e no Equador.
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O jornalão da Barão de Limeira prossegue dando espaço para a voz boçal: "Temos governos que se beneficiaram das instituições democráticas, de eleições livres, e estão se beneficiando da fé e do poder que o povo neles depositou para destruir as instituições democráticas"(...) (grifo meu). Tais declarações foram tomadas como preâmbulo para o ataque brutal que a velha mídia se utilizaria nas eleições presidenciais no Brasil. Em outras palavras, começava a preparar o terreno para a cobertura tendenciosa que realizaria nos meses de setembro e, principalmente, outubro, buscando desequilibrar a disputa a favor do candidato sem projeto e cooptável pela elite dominante, José Serra.
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As questões decorrentes dessa entrevista desastrosa (quem é mesmo Alejandro Aguirre?) são diversas, vamos a algumas: 1) Onde está o desdobramento desse pensamento inebriante, no qual Lula significa um mal à liberdade de expressão? 2) Por que tal comentário foi assacado em momento tão propício para uma 'campanha' contra o governo Lula? 3) Por qual razão questionar o posicionamento político de governos eleitos democraticamente e que se norteiam por programas políticos de inclusão social, sem privilégios de classes sociais? Em outras palavras, por que contestar raivosamente a ruptura programática, não alinhada aos 'eternos donos do poder'?
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É o que ocorre com a manchete do Estado, em relação à Argentina. Também utilizando-se da malfadada SIP, a matéria se insurge contra a ação do governo Kirchner em romper os privilégios da empresa Papel Prensa, a principal fabricante de papel jornal do país, para com os diários La Nación e Clarín. A matéria, mais uma vez tendo como protagonista o tal Aguirre, destaca a preocupação da SIP, que "vê com muita preocupação a disputa do governo contra os meios de comunicação críticos e também o modo pelo qual a liberdade de imprensa pode sofrer com interesses políticos".
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Qualquer mortal que lê de maneira crítica Clarín ou La Nación compreende o que significa estar alinhado com 'interesses políticos'. Nesse momento, travava-se (e ainda se trava) um intenso debate público sobre o histórico do poder midiático tradicional e seus miseráveis privilégios, investidos desde os governos militares (1976-1983). A preocupação do Estadão em sua matéria não era outra senão alinhar-se aos interesses ideológicos de seus correlatos argentinos, defendendo-os da quebra dos monopólios midiáticos conduzido pelo governo de Cristina Kirchner.
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Por trás desse movimento da mídia hegemônica, subsistem os residuais interesses da famigerada política neoliberal. Como bem descreve Sandra Russo, jornalista e escritora argentina (Página 12, 17 de agosto de 2010),"Te dou um guarda-sol amarelo e ponho bancos de designers nas praças do norte (zona rica de Buenos Aires), mas fico com os recursos dos hospitais e não executo o orçamento da educação"... E na continuação de seu argumento, "E quanto ao emprego, se pudessem, cortariam sistematicamente as cabeças, de novo, a cada conquista e dariam baixa nos subsídios trabalhistas"...
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Russo conclui, "O modelo que (os neoliberais) têm em mente não tem qualquer resposta para o mundo do trabalho, já que é em si mesmo a resposta do mundo do capital para o Estado do bem-estar". De algum modo Bauman nos antecipou essa análise, quando diz que o Estado social é substituido pelos interesses do mercado. A voz mansa do oligopólio midiático se coloca em sintonia com os ensejos de uma alquebrada elite, insensível às demandas populares. Juntos, não toleram a presença do contradito dos novos atores sociais, cada vez mais conectadas nas mídias eletrônicas.
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O poder midiático custa a entender como se constrói a diversidade social, que se pauta não pelo privilégio vertical, classista, impositivo, mas pela expansão horizontal, democrática, dos interesses. Enquanto isso não for entendido em sua formulação tão natural, os cidadãos de bem continuarão pagando o preço da dura luta por uma sociedade mais justa, e longe das garras da SIP.



08 janeiro 2011

Agonias de um passado (4)



(...) Reformas. A luta continua. O que poderíamos denominar como Governo insiste em empurrá-la goela abaixo da população, sem sequer propor uma discussão. O que poderíamos denominar de Oposição – cerca de um quinto da bancada do Congresso e mais algumas entidades não-governamentais por este Brasil – tenta obstaculizar heroicamente o que parece ser o rumo irreversível dos acontecimentos. A mídia joga o seu peso descarado no que acredita ser "as mudanças saudáveis e necessárias" e uma nuvem cinzenta de deputados conservadores atuam numa política pendular no meio dessa barafunda sem fim, ora apoiando o governo, ora rejeitando as mudanças, principalmente quando estas vêm no sentido de acabar com o fisiologismo. 

Ninguém se entende, o governo vai e vem e nada engrena. A Previdência e os monopólios estatais (Petrobrás e telecomunicações) são o alvo preferido nesta tal de reforma constitucional. FHC acabou de retornar de uma viagem à terra de tio Sam onde certamente foi pedir a benção e receber um pito por não desenvolver como deveria a política estabelecida pelo Consenso de Washington. "Que merda de servilismo inoperante é esse?", devem ter guinchado os líderes da Metrópole!

Enfim, o certo é que a marcha irreversível dos acontecimentos deve ganhar fôlego novo e impor as mudanças, passando por cima da oposição desgastada e desfigurada. Com que armas poder-se-ia resistir à fome capitalista, à urgência de reestruturação da nova ordem mundial? (...)

(in Diários, sábado, 22 de abril de 1995)



Agonias de um passado (3)



(...) A sofreguidão das últimas semanas termina em uma ressaca insossa e aparentemente nada didática. À submissão do México (iniciada em dezembro) sobrevém a debacle argentina, gradual, porém ruidosa. Desde a minha visita, em fevereiro de 93, ficou muito claro que os indicadores sociais eram – para dizer um termo suave – tenebrosos. Preços altos, estáveis sim, porém em patamares elevados; uma enxurrada de eletrodomésticos importados nas vitrinas; a pobreza tomando conta das ruas, poucos indícios de que o plano de estabilização visava um equilíbrio social. Menem escancarou a Argentina ao capital estrangeiro, sem que se pudesse verificar alguma vantagem ao país. Fui obrigado a solicitar auxílio da telefonista para uma ligação internacional de péssima qualidade; A YPF foi rendida ao setor privado; o transporte público prosseguiu seu doloroso sucateamento, o custo dos produtos e dos serviços nas alturas!(...) Mas o que me convenceu do blefe neoliberal foi a insatisfação popular. Bastava cutucar as pessoas para que elas saíssem de uma certa apoplexia mental e enveredassem para uma argumentação hostil à política em andamento.

Chocou-me a brutalidade da ação de desmantelamento: foi como se a população fosse colocada parcialmente a par das decisões políticas, por sua vez tomadas em uma esfera absolutamente inacessível, por gente mais sintonizada com os interesses externos. E foi como se, simultaneamente à cadeia de decisões "em prol do melhor para a nação", essa gente mandasse a soberania do país à pqp... Na realidade, essa gente quebrou os mecanismos de atuação e participação do povo, solapando a organização sindical do país, enquanto a mídia fazia sua parte nessa empreitada neoliberal. Senti-me de certo modo agoniado em vivenciar uma realidade tão amordaçada, tão desesperançada e entregue nas mãos de tão poucos canalhas sem faces, subservientes...
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Pois de fevereiro de 93 a março de 95 a Argentina vem soçobrando, sem perspectivas de uma vida justa e participativa. Nessa esteira de fatalidades econômicas, o Brasil pinta ao horizonte. Não é possível que as forças neoliberais ainda encontrem eco em meio às ruínas que semeiam em nossa miserável América Latina! (...)

(in Diários, sexta-feira, 24 de março de 1995)




07 janeiro 2011

Pelo que vale a vida (2)




Há cerca de vinte anos Miguel de Unamuno me acompanha. O que ocorre é que tenho sido por demais ingrato, ou digamos melhor, desatento aos seus ensinamentos. Certa vez em Buenos Aires, em uma tarde abafada, como sói ocorrer nos verões portenhos, entrei em uma livraria e estendi a mão para o livrinho de capa vermelha, atraído pela força do título, Del sentimiento trágico de la vida. Eram meus anos existencialistas, e tais palavras me sinalizavam para a paixão inútil da existência humana.

Aos poucos descobri que a presença da fé, em constante luta com a razão, condenava o meu desejo em avançar na filosofia unamuniana. Não eram tempos de paciência, tampouco de concordância. Em outras palavras, nada que arranhasse a interpretação sartriana da vida merecia minha contemplação.

Com isso, posterguei indefinidamente a compreensão do olhar sensível de Unamuno. Nem o sentimento faz do consolo, verdade; nem a razão faz da verdade, consolo. Se por um lado a razão é o impeditivo para o desejo vital da imortalidade, a fé nos dá a aceitação da imortalidade, mas graças à nossa condição humana, em meio à permanente dúvida e incerteza.

E diz Unamuno, A fome de Deus, a sede de eternidade, de sobreviver, nos afogará sempre esse pobre gozo da vida, que passa e não fica. A pura agonia, que nos projeta para o futuro, sem definir ao certo o que virá. Mas não é suficiente ao humano satisfazer-se com sua finitude, ou, de outro modo, essa consciência não lhe trará sossego. Há uma verdade (a esperança?) que se coloca para além de nossos propósitos... Oh, quem pudera prolongar este doce momento e dormir nele e nele eternizar-se!...

E o que se pode indagar acerca da razão da imortalidade? (...) Para que queres ser imortal? Não entendo a pergunta, porque é perguntar a razão da razão, o fim do fim, o princípio do princípio... Ou dito de outra maneira, A fé na imortalidade é irracional. E, no entanto, fé, vida e razão se necessitam mutuamente (...) Razão e fé são dois inimigos que não podem sustentar-se um sem o outro...

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Miguel de Unamuno era o reitor da universidade de Salamanca, quando da cerimônia do Día de la Raza. Na ocasião, o general Millán Astray, um dos líderes do alzamiento, fez uma alocução em que proferiu o clássico grito de guerra falangista, Viva la muerte!
A resposta de Unamuno não tardou, eloquente:

Acabo de ouvir o grito necrófilo e sem sentido de Viva la muerte! Isso me soa o mesmo que Morra a vida! (...) O general Millán Astray é um inválido. Não é preciso dizê-lo em um tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém, os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, há hoje em dia demasiados inválidos... E logo haverá mais se Deus não remediar. Me dói pensar que o general Millán Astray possa ditar as normas da psicologia de massas. Um inválido que careça da grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem - não um super homem - viril e completo, apesar de suas mutilações; um inválido, como disse, que careça dessa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados ao seu redor.

Houve um tumulto no plenário. Há que se recordar que esse pronunciamento se deu em um recinto coalhado de altas patentes franquistas. Segundo a descrição do historiador Rafael Abella, da qual me utilizo, Unamuno aguentou a tormenta e sua voz retomou a firmeza, prosseguindo em seu discurso,

Este é o templo da inteligência. E eu sou seu sumo sacerdote. Vós estais profanando este sagrado recinto. Eu sempre fui, diga o que diga o provérbio, um profeta em meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque tereis força bruta de sobra, mas não convencereis porque convencer significa persuadir. E para persuadir, necessitais algo que vos falta, razão e direito na luta. Me parece inútil pedir-vos que penseis na Espanha. Tenho dito.

Miguel de Unamuno não sobreviveria à guerra civil espanhola, falecendo poucos meses mais tarde, na mesma Salamanca.


01 janeiro 2011

Pelo que vale a vida (1)




Caim - És feliz?
Lúcifer - Somos poderosos!
Caim - És feliz?
Lúcifer - Não, e tu?
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(Caim, Lord Byron)


- ... e isso pode ser o tangível, mas não é o que conta, entendes?...
- Como se fosse um... transgredir?...
- Pensa desta forma, o teu objeto de desejo, este carro, aquela mulher, tal poder, alguma grandeza... tudo o que desejares, nesse estágio em que te encontras, tens de possuir...
- E para possuir...
- ... não tens de pensar em como possuir... esse não é o objetivo final, ou se preferires, o objeto a ser alcançado... Possuir é a primeira compensação do teu movimento...
- Passar pelas coisas como se elas...
- ... Nada significassem!... Entendes, não é mesmo...?
- Busco o efêmero?...
- Buscas o teu brilho refulgente, que intriga enquanto dura e não pode ser reproduzido... Buscas o agora que rebenta em novos agoras e se renova em um movimento cíclico... um processo que te conduzirás, vê bem o que te falo, às ações pelas quais desejas manipular... que te atiçam e que te empurram para outras ações, que te proporcionam conquistas... Busques os prazeres que te estimulam, não os que te satisfazem!...
- E o sentimento...
- Abandona tua compaixão... vês o casal que se encontra para o café? De nada te serve, para nada te inspira... Representa a bolha de um prazer condenado!... Como não conta a recordação, a poesia do olhar, como não faz diferença Marx ou Che... Tua transfiguração está para além do teu horizonte... esqueças o ético ou o aético, que hoje nada são que palavras jogadas ao vento... Lembra-te, não és mais nem melhor, és o que te proporcionas o momento infinito, que já se alimenta do próximo... é o que basta, ao tempo que não basta...
- E o conhecimento?...
- Utiliza-o!... Forja-o, se necessário!... Apropria-te do que lhe convém!... Saberás sempre como, e tua assistência te reconhecerá como aquele que sabe!... Qual fim mais emblemático senão a realização do instante... em plena sucessão... livres, desconectados, à sua mercê... Conquista e abandona!... Tens a lâmina, fere como quiseres...
- O mais solícito improviso...
- ... e te dispõe para o argumento seguinte...
- E quanto à moral?...
- Aprende bem, como deve ser, sem remendos ou escrúpulos!... Ali tens, vê aquela paisagem, significa algo em si? Pois te confirmo, nada! não significa nada, sem os teus artifícios, sem a tua marca! O belo em um pôr do sol, sublime em si, um vago desperdício! O quadro todo, vejamos: o mar ao fundo, a resplandecência de seu brilho nas águas, as árvores se interpondo, a brisa fresca afagando os galhos imprecisos, adensados por belas folhas e flores, a ramagem dengosa, o claro-escuro pronunciando-se nas sutis concavidades... as rochas em contínuos fragmentos, menos azuladas, a rebentação borbulhante... matizes de verde, de azul, de harmonia... Nada mais lindo e incompleto em si... nada significa sem teus propósitos, sem agregares a tua ambição... Podes usufruir? Por quanto tempo? Ah, mansamente estendido sob a sombra, te servem em teus caprichos, te alimentas, resfolegas, despertas e aprecias... Entendeste por fim... Nenhuma beleza se constitui sem que possas assentá-la à tua necessidade...
- Qual olhar?...
- Menos o contemplativo per si... teu sorriso insinua que compreendes bem... (um sorriso metálico, que eclode na justa medida em que fenece) Há que alimentá-lo, sempre, com novas aspirações... teus objetos de desejo... o carro com que sonhas, ali, bem posto ao abrigo, a casa mais adornada, aqui, valorizada pela paisagem... a mulher... bem isso não interessa... vê o quanto tua alma sedenta pode converter!... vê o que pode te preencher, sem jamais te completar!...
- O tempo...
- Faze do tempo o teu tempo!... Quando conseguires, os outros hão de te ouvir...
- E o outro...
- Compõe com quem te é confiável, pelo tempo que te for útil...
- Me repreenderão...
- Que os parvos falem, mas só estes, porque não ousarão te afrontar... Desfaça as resistências à tua passagem, sem te deteres nos emaranhados da justificação... Prepara-te para o subterfúgio... tua argúcia, mais do que a razão, é o teu móvel, e aprenderás com ela...
- E o que me define...
- Nada, senão a ambição do presente! O brilho refulgente, lembra-te... Hás de ser hábil e astuto... E assim é: nenhuma palavra torna-se tão sábia que permaneça, nem consistente, que impeça a tua versão...
- A versão me define...
- A versão te empurra para o próximo passo... Pascal, Benjamin, Lorca, Piazzolla... transforma-os em teus caminhos, não em teus obstáculos, iluminando-os à tua maneira...
- Sem detalhes...
- Para que os detalhes?... condensações te imobilizam... não te detenhas em princípios de análise, mas nas artimanhas do discurso mais propício...
- Elas me conduzirão!...
- E o mais importante, saberás como manejá-las no impacto e na intensidade, sempre em teu interesse... Controla e te renova, capiscas?
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(gargalhadas estrepitosas, metálicas...)
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31 dezembro 2010

Recortes urbanos (1)


Berlim, 2010


Do meu ponto de vista, tinha uma parte do seu rosto, o nariz afilado, os lábios graciosamente desenhados, a face acetinada, o queixo discreto e mais abaixo, as mãos apostas sobre o colo, os dedos longilíneos, sem anéis, unhas pintadas em grená, as pernas dobradas, as botas, o inevitável tom negro recobrindo-a. Uma mulher em seus quarenta anos, que me seriam ditos ao certo se pudesse apreciar seus olhos, teimosamente encobertos pela recurvada aba do chapéu.

Eu estava em pé, do outro lado do corredor, ela sentada nesses bancos voltados para trás, bem ao lado da porta de saída. Meu ponto se aproximava, talvez mais três ou quatro minutos para desvelar por completo o brilho de seu rosto. Abaixar-me acintosamente, por sob a aba do chapéu?... Na altura da Potsdamerplatz, um fluxo de pessoas que entra e sai, o vento gélido que açodou a todos por um instante.

As portas se fecham, o veículo prossegue. Surge uma vaga no assento diretamente em frente ao dela, e então por fim, a vejo mover a cabeça para o interior da condução, as mãos a esfregar-se umas às outras. Tem os olhos azuis, marcados pela reminiscência de um outro tempo. Logo tornou a olhar através da janela. Os lábios ofereceram um breve sorriso, acaso um espasmo de sua distração, um detalhe da paisagem, uma recordação efêmera?...

Outra parada, a minha. As portas que se abrem, a ruptura, o corpo expelido para o frio inclemente, que absorve o ruído do motor a distanciar-se em definitivo.



16 dezembro 2010

Memórias de ontem e de sempre


Albergue da juventude, Amsterdã, 2001

Por uma dessas razões insondáveis do ser, tenho me voltado para o silêncio das memórias, tomadas aqui e ali, vivenciadas em um átimo, ao saboroso acaso. Passagens como registros que anunciaram mudanças, expressão de movimentos sensíveis, que se desdobraram em delicadas intervenções... A russa que, sem falar uma língua cognoscível, o impediu de perder-se nas mãos de um farsante, em uma fronteira esquecida no mundo... A linda adolescente, subindo de costas a acentuada ladeira, para não perder o belo desenho do casario e, ao fundo, o mar azul... O publicitário pressionado, que exausto, cochilava no trem, a caminho de casa, e sonhava com uma cidadezinha bucólica chamada Willoughby... A criança com a cabeça apoiada no colo, ouvindo-lhe as histórias do mundo...

Ou o último minuto do avô, ainda jovem, na casa dos pais... sua saída pé ante pé, do quarto com seus seis irmãos em sono profundo. O instante imóvel à porta e voltando-se para apreciar um por um os irmãos, dar uma olhada geral e partir para nunca mais voltar. Um último olhar, o fim de um tempo, o começo de outro, novos ares, incertos e desafiadores...

Momentos de singeleza, suspensos em um tempo que foi e que, naturalmente, ressurgem no presente.

***

Nenhuma despedida é fácil, nem parecida com outra. Cada uma guarda sua dor, seus mistérios. Nenhuma parece durar além do tempo necessário, me refiro à despedida trágica, aquela que parece nos despir um pouco mais para a morte, que desponta como um rasgo na vida, rompendo com uma maneira de ver o mundo, para sobrepor algo mais dramático... A professora de português do ginásio, odiada ao longo do curso por suas exigências de leituras, mas que, naquele último encontro, fez resplandecer seu brilho de educadora à saída da sala de aula, o bondoso sorriso que havia guardado para uma ocasião especial, e logo retirando-se pelo caminho dos deuses...

Ou o olhar da última visita... o difícil foi saber, desde o princípio, que tratava-se da derradeira visita. Ao chegar, os olhos da avó perscrutaram detidamente o ambiente, as pequenas coisas, sem se preocupar com a conversação dos presentes. O sorriso derramava-se por todo o espaço, todo o tempo, apresando-lhe as palavras... Por fim levantou-se, beijou o neto e caminhou até a porta. Avançou mais um pouco e, como é tão comum à espécie humana, voltou-se ainda uma vez, desejando quem sabe apreender o inapreensível, e o fitou como jamais o fizera antes...

***

Abandonar um parêntesis da vida, uma breve ficção da existência. A manhã despontando através dos janelões, a quietude do salão antes do burburinho do café da manhã, o olhar atento perdido na paisagem gelada do lado de fora, os pensamentos fomentados incessantemente, o desejo de ficar, em conflito com a necessidade de reassumir a realidade da vida cotidiana, e assim os minutos contados antes do inevitável regresso...

Ou o oposto, os últimos passos na cidadezinha não amada, mas que o recebera por um longo período. O passeio final, para ver o que até então não tinha visto, as pessoas com suas faces altaneiras, as ruas com sua mansa sonoridade, os recantos não mais odiados, o sol, bendito sol, que sempre estivera ali e que irrompia em sua poderosa energia... Era seu tempo de juventude, e sabia que naquele momento reencontrava a liberdade. A despedida significando o abandono de um imobilismo, mais do que prematuro, opressor...

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O registro memorial do particular, aqueles notáveis, de significativos desdobramentos, como também os impressos nas esferas do universal, de serena manifestação... O sujeito perdido em um cruzamento, abordado pela velha que lhe expõe a beleza de cada destino... A criança com os pés descalços, sentindo a areia quente e fofa do caminho... O homem velho, que se aconselha com a mãe, há muito não mais presente no mundo... O olhar marejado da mulher, a compartilhar a desventura do amado... O rapaz indeciso na plataforma, que resolve tomar o primeiro trem, redimensionando seu destino... A garota no banco da praça, detida nas minúcias da leitura, deixando-se levar pelo encanto da narrativa e pelo passo do tempo...

Múltiplas e surpreendentes lembranças, cuja simples retomada me renova, neste momento de expectativa...