16 dezembro 2008

Uma circunstância lamentável


Sei do senhor Martinez desde a tenra idade. Eu morava três quadras da sua loja, que ficava na avenida Santo Amaro, de sorte que era comum vê-lo sentado em sua cadeira, folgazão, à espera de seus clientes. Minhas primeiras recordações me remetem a um homem solitário, de feições graves e pouco tolerantes (do meu ponto de vista de criança, claro). Era comum me perder nas várzeas ainda existentes no Brooklin, jogando bola ou participando de uma cruenta guerra de mamonas com os amiguinhos. Na volta dessas brincadeiras, por alguma razão, não gostava de desperdiçar nenhuma oportunidade para observá-lo escorado cada vez mais pesadamente em sua cadeira, de frente para a rua. Ao lado de sua indiferença, eu conseguia ver no volume de seu corpanzil uma nobreza próxima do sagrado, acreditando que mais cedo ou mais tarde, por uma razão que até hoje desconheço, ele se tornaria mais do que uma referência simbólica, um tio-amigo que eu não tive. Por isso, talvez, o esforço obsedante em vê-lo. 

E foi dentro dessa expectativa silenciosa que passei a sonhar com o senhor Martinez, a criar em meu imaginário conversas com ele e mesmo a criar umas lendas sobre ele. Uma delas era que, devido ao seu comportamento previsível e solitário, ele fosse um homem sem família, nascido já daquele tamanho enorme e que seu primeiro presente fora uma cadeira. Bem mais tarde, já de uma perspectiva mais madura, fui saber que ele era casado, tinha filhos, gostava do Palmeiras... um homem com desejos e problemas comuns. Jamais tive a oportunidade de conhecer alguém da sua família, o que me faz crer que ele gostava mesmo era de ficar sossegado, em seu infindável e onipotente silêncio.

Uma só vez arrisquei entrar em seu estabelecimento, já devia ter uns treze anos. Aproximei-me, peguei um gibi e quis pagar. O senhor Martinez abanava-se, fazia muito calor naquele dia. Os seus olhos estavam mais ou menos na mesma altura dos meus e, enquanto ele apalpava o nada com seu olhar entorpecido, reparei em suas rugas, sulcos por onde escorria o suor, suas bochechas moles, seu barrigão de velho desleixado, quase fazendo explodir os últimos botões da camisa, as pernas entrecruzadas, soltas e inúteis. Após um breve impasse abandonou seu transe, movimentou o braço em minha direção e a mão gorda capturou as moedas com um lânguido desinteresse. Balbuciou o obrigado mais distante e desanimado que eu já tinha ouvido.


Saí às pressas e não mais regressei à loja, todavia isso não me impediu de continuar crescendo e olhando, por uma estranha compulsão, para dentro dela, inevitavelmente localizando o senhor Martinez no mesmo lugar, ora se abanando, ora com os olhos voltados para o seu infinito, ora se protegendo do frio com uma manta pesada, enfim, uma verdadeira montanha desolada, eternamente à espera do próximo freguês.


A velhice passou a imobilizá-lo ainda mais à época que eu cursava a faculdade, pois em minhas passagens esporádicas diante da loja, constatava seu espaço mais abandonado, acompanhando de certo modo a decadência do nosso próprio bairro. As transformações urbanas foram severas, a avenida Santo Amaro transformou-se em um corredor com tráfego perigoso, sem calçadas, e as várzeas e os terrenos baldios renderam-se à especulação imobiliária. A verticalização das construções expulsou moradores e trouxe a canalização de ventos, que vieram a circular com intensidade e desconforto. Minha primeira namorada não entendia quando eu insistia em esticar o caminho, só para cruzar com a loja do senhor Martinez e verificar, no breve segundo que a velocidade do ônibus permitia, aquele que, para ela, não passava de um velho gordo inútil e decrépito.


Certa vez, logo após terminar a faculdade, estacionei meu carro e subi até o mezanino de um edifício comercial bem em frente de sua loja e, munido de um binóculo adquirido num shopping, vasculhei seu ambiente. Patético. O vento contínuo bramia em rajadas sibilantes contra a cabeça do senhor Martinez, enquanto insetos, uma infinidade deles, circulavam a vontade ao seu redor e sobre as montanhas de jornais e revistas imprestáveis, dentro dos potes de guloseimas que nunca arrisquei experimentar. Por que não conseguia tomar uma atitude para livrar o senhor Martinez de sua tumba? O mundo ao seu redor tomava conta de si, como a querer envolvê-lo e efetivá-lo como um elemento a mais da paisagem embrutecida.


Até que um dia, ao subir no mesmo edifício, vi o senhor Martinez imóvel, mais imóvel do que de costume. Como se estivesse morto, ou inteiramente entregue ao desconsolo. No meio de tanta devastação, também os ratos infestavam o lugar. Brotavam de todos os cantos e pareciam conjurar entre eles sobre a melhor forma de dar o golpe de misericórdia no senhor Martinez e assumirem de vez a loja. Jornais, revistas e doces eram detalhes sem importância, transformados em meros aconchegos para os bichos. A cena me impressionou de tal maneira que, um dia, ao passar com um de meus filhos diante da loja, decidi não mais rever aquela paisagem lúgubre, tampouco o velho gordo e decrépito.


Mudei para outro bairro, nunca mais soube do senhor Martinez e imagino que tenha sucumbido sem ter se livrado do estado lamentável em que se reduziu sua loja. Devo concluir, acrescentando que não guardo qualquer espécie de decepção pelo senhor Martinez, quiçá um pouco de compaixão e tristeza pelas coisas terem tomado o rumo que tomaram. Sua presença me acompanhou por muitos anos da minha vida e penso que isso significou demais para mim. Hoje estou velho, próximo do fim, e minha única preocupação atualmente é não permanecer sentado por muito tempo no mesmo lugar.



14 dezembro 2008

A crise...


I.

... ora a crise, continua comendo solta. Você vai aos centros comerciais - dos mais populares como a 25 de março aos mais sofisticados como os shoppings - e as vendas se superam a cada final de semana. Já que natal virou tempo de avaliar o desempenho da economia, então prossigamos: os feirões de automóveis novos e usados seguem vendendo, tomando carona nas medidas do governo, de redução de impostos. É provavel que os jornalões, revistas e noticiários globais achem uma brecha para inserir o pânico da crise, bem-vinda crise, adorável crise, que detona o mundo. Há que se disseminar o desespero, a insegurança, já que o mercado das notícias explora o clima de temor e terror para faturar. Sobrepõe-se a indagação: os interesses das corporações (quaisquer que sejam, da midiática à automobilística) em enfrentar a tal crise coincidem com os interesses da população em geral? Trocando em miúdos, a preocupação veiculada reflete de fato os temores cotidianos da massa sem voz?...


II.

Estive na rua Oscar Freire, o deslumbrante shopping a céu aberto da Paulicéia, frequentado por 9 entre 10 aristocratas paulistanos com rolex, e nada consegui levantar sobre o tema, pois os problemas foram postergados para depois do ano novo (Crisis, what crisis?). O que tem contado é a voracidade pelas compras...
Aliás (o que seria um interessante tema para uma reportagem natalina), tem-se observado nesta região dos Jardins a presença crescente de indigentes igualmente vorazes, só que por um prato de comida. Estes sim, poderiam falar sobre crise.


12 dezembro 2008

O senhor Gouveia



Encontrei o senhor Gouveia adentrando o recinto, após tomar uma intensa chuvarada, e o acompanhei até o escritório. Sua figura alta e esguia mostrava-se impiedosamente encharcada e como era de costume, mostrava-se conformado pela situação desconfortável, pouco antes de tomar assento diante de sua mesa, para o início de sua jornada de trabalho. Mais uma vez perguntei-lhe sobre o guarda-chuva, e mais uma vez ele me respondeu, indiferente, Não tenho guarda-chuva... Era a quarta ou quinta ocasião em que o via naquele estado e indaguei-lhe em tom de broma se os deuses o haviam castigado de modo especial, ao que ele respondeu pacientemente, Eles estão aperfeiçoando o método... e prosseguiu, de modo mais incisivo, enquanto enxugava os óculos, Desta vez esperaram que eu chegasse no meio da esplanada, para que eu não pudesse escapar... 


11 dezembro 2008

Cooperifa




Fiz mais uma visita a esta assembléia de poetas das periferias, não só por ela ser tema de minha investigação de pós-graduação, mas sobretudo pelo prazer em apreciar as performances de pessoas tão simples quanto vencedoras.

A viagem de hoje - há que se entender assim o deslocamento dos bairros centrais até este rincão longínquo - foi o mais difícil dentre tantos que realizei, porque me desloquei até lá no horário do rush, e porque desabou uma tormenta diluviana por uma hora, que paralisou o já caótico trânsito de São Paulo. Foram duas horas e meia, quando normalmente se leva uma hora e meia. Ao meu redor, gente esfalfada pela desgastante jornada de trabalho, mas sem perder o bom humor nas conversas, ou o que é mais incrível, sem uma palavra de revolta diante da situação.

Conversei com meia dúzia de pessoas, que não faziam idéia de onde ficava o Batidão, o bar que faz as vezes de centro cultural e hospeda esses saraus. Na verdade, não viam a hora de chegar em casa, fazer a janta, ver alguma coisa na TV e se desligar até a madrugada seguinte, quando retomariam o duro ritual rumo ao trabalho. Tudo sem nenhuma graça. São percursos reais, vivenciados por milhões de paulistanos em busca de um lugar ao sol, e que são ignorados cotidianamente pelos meios de comunicação. De apenas uma boca, em meio a dezenas de viajantes no ônibus, ouvi uma fugaz referência sobre 'estes tempos de crise', e pude sentir que ele apenas reproduzia o que ouvia insistentemente das bocas midiáticas. Logo mudou de assunto, pelo dar de ombros de seus interlocutores, como se respondessem 'ora, quando foi que a gente da perifa não estivemos em uma crise?'...

Mas não há dor ou ressentimento nos olhares dessa gente sofrida e esquecida. Simplesmente mergulham num cotidiano áspero, sem novidades, que começa e termina em um ônibus, ao menos três horas por dia. Não têm forças para ler, apenas para uma conversa ligeira, quando o cansaço os derrubam en route. Acho uma pena que não conheçam os saraus da Cooperifa, pois os dois ou três que de cada ônibus deste conhecem e vão até lá, estes saem verdadeiramente transformados, convertidos para as letras. Porque não irão apenas uma vez, nem duas, mas com regularidade, e o que é 'pior', começarão a ler e fazer poemas!

A resultante disso é construção de uma consciência crítica poderosa, imune a qualquer crise, ou a qualquer hipocrisia. E os poetas tecem a rede da cidadania pelas periferias, levando a palavra para quem quer partilhar as leituras, e disseminando o conhecimento pela quebrada. É tão belo quanto difícil, mas aí está o verdadeiro caminho (ôpa!) trilhado por cada um, em comunhão com a coletividade!


10 dezembro 2008

Como não fazer jornalismo




O casal sorridente anuncia, dentre outras notícias, o crescimento trimestral recorde da economia, mas (ultimamente tem sempre um mas...) declara na sequência que a crise, bendita crise, amada crise, colocará a perder os ganhos conquistados...

O casal sorridente (há tantos motivos para estarem sorridentes...) comenta a crise... ou melhor, o crescimento do 3. semestre em todos os setores produtivos, acrescentando que isso faz parte do passado e, portanto, deixa entrever que não adiantou nada.

Entra o repórter, que com sua mobilidade, bom texto e edição eficiente, confirma (corroborado por entrevistas) que a realidade deste e dos trimestres vindouros serão bem diferentes (mergulhados em crise, ora bolas!)...

O homem do casal retoma o noticiário e diz que a reunião do banco central de hoje será importante, deixando entrever que será de bom tom que o governo abaixe os juros, não para acabar com a crise, mas para... para...

A notícia sobre o crescimento abalroado pela crise, bendita crise, querida crise, se encerra, deixando a impressão de que as coisas boas são agora ruins, e continuarão ruins (até as próximas eleições presidenciais...).

O sorriso perverso do casal prossegue...



07 dezembro 2008

Expulsos do paraíso




Eles estão por toda parte, como os pioneiros de uma invasão prometida. Perambulam sem direção definida, ou mofam ocupando os cantos da avenida, nem sempre silenciosos. Quando falam, dão voz à alucinação do momento, doce companheira de um infortúnio sem fim. Assim, é possível vê-los declamando, blasfemando, ou apenas em meio a um solilóquio libertador. Quando cessam, retomam o olhar sem porto, compenetrados no silêncio inescrutável.

A espacialidade da invasão é o centro financeiro mais importante deste país, a avenida Paulista. Lugar em que se realizam as mais importantes negociações, onde circulam milhares de executivos e empresários bem-sucedidos, onde as marcas do sucesso se apresentam na imponência dos edifícios, na pujança dos automóveis importados, na disseminação de produtos globais. Este, o mundo invisível dos fluxos financeiros que decidem o equilíbrio econômico de uma nação, e porque não dizer, também o desequilíbrio de milhões de cidadãos, que aos poucos mergulham na invisibilidade social.


Não se trata de uma manifestação anunciada; por falta de onde caírem mortos, esses invasores surgem para a última cartada, tentando se amparar nas migalhas onde há intensa circulação de capital. Não interpelam aos transeuntes porque perderam a iniciativa do diálogo, ou porque intuitivamente saibam que o mundo os perdeu. Sair do recanto concedido para abordar as pessoas sempre apressadas lhes parece menos atraente do que prosseguir no ritual de lançar palavras ao vento. Nada do mundo ao redor lhes parece ao alcance, não há como se converter ao ritmo incontrolável, o que os convence de que estão de fato perdidos para o mundo.


Alguém poderia dizer que, como humanos, estão sendo expulsos pela segunda vez do paraíso. Eu diria que não foram expulsos, mas que optaram por sair dessa ilusão de um mundo de oportunidades. Um mundo cada vez mais exclusivo e descartável não pode, definitivamente, arrogar-se como um paraíso a ser almejado.


04 dezembro 2008

Sobre o despudor



Domingo passado, no horário nobre (?!), em um programa da C5N (Argentina) conduzido por Muriel Balbi, acompanhei três especialistas argentinos em relações internacionais comentarem acerca da exuberância da economia brasileira, da sua bem conduzida política exterior na América do Sul e no final, uma sóbria comparação entre os números da economia brasileira e argentina (renda per capita, reservas em dólares, crescimento econômico, valores exportados etc), descrevendo a robustez dos indicadores do estado brasileiro. Muita isenção e bom senso (não gosto desta expressão, mas, vá lá...) nas intervenções dos analistas, que agora lamento não ter anotado os nomes. 

De todo modo, duas coisas me chamaram a atenção: um, a qualidade das análises feitas, fartamente ilustradas e apresentadas ao melhor estilo do jornalismo crítico; e dois, nunca presenciei semelhante exposição por parte de nossos colonistas (ainda há os desejosos pelo colonialismo!...), ao longo do governo Lula.

É doloroso ter de admitir, mas as melhores informações que pude obter a respeito da economia e da política externa deste governo, as tive a partir de um programa estrangeiro!... Isso confirma minha profunda desconfiança acerca do discurso ideológico que compromete o jornalismo produzido pelos grandes veículos de comunicação deste país, ressalvando umas poucas honrosas exceções. Costumo dizer aos meus alunos que, houvesse esse espírito de camaradagem na deformação da verdade, e não teria sido aplicada a censura no período militar.

Insisto para que construam o espírito crítico a partir da leitura dos mais diversos veículos informativos, principalmente do exterior, pois só assim para escapar da armadilha silenciosa por aqui montada, a respeito da omissão/deformação dos fatos. Degrada-se com isso a função do jornalismo, que desde sempre se norteou pelo esclarecimento e (por que não?!) formação do indivíduo. De modo corporativo, especializa-se em divulgar rebotalhos de notícias, no mais das vezes tendenciosas, com a preocupação essencial de ampliar audiência e negócios.

Esta é uma oportunidade propícia para dizer que, como cidadão (e não apenas consumidor), sinto-me no dever de questionar essa pasteurização da informação, que avança sem comprometimento com a ética. Faço a minha parte, não compro jornais ou revistas, nem acompanho a programas televisivos ou sites da internet que comunguem com esse tipo de vilania informativa.



02 dezembro 2008

Juan Gelman




Jugos del cielo mojan la madrugada de la ciudad violenta. 
Ella respira por nosotros.
Somos los que encendimos el amor para que dure,

para que sobreviva a toda soledad.
Hemos quemado el miedo, hemos mirado frente a frente al dolor
antes de merecer esta esperanza.
Hemos abierto las ventanas para darle mil rostros


Madrugada, in Velorio del solo