18 novembro 2014

Reencontro com J.P.Sartre


Uma vez mais permaneço três semanas distante, sem uma única postagem. Não tem justificativa, não posso alegar sequer o cansaço emocional decorrente das eleições ou os compromissos acadêmicos. Os temas se sucederam de modo abundante, e por diversas vezes o desejo foi grande de registrar uma crônica. No meio de tantos fatos políticos, que por certo estarão presentes em intensa análise nas próximas postagens, acabei me envolvendo com uma pesquisa para a elaboração de um texto que me foi solicitado por uma revista eletrônica. A partir do tema 'Fronteiras', decidi fazer uma leitura sartriana sobre o intelectual moderno e sua responsabilidade social. Seria esta a fronteira a ser desbravada, aspectos como a necessidade de ruptura com a falsa universalidade de sua compreensão burguesa de mundo. A princípio, enveredei pela leitura do opúsculo Em Defesa dos Intelectuais, de 1965, e avancei na conferência Função do Intelectual. Busquei uma relação com a farsa dos analistas contemporâneos, ditos intelectuais, que forjam análises e métodos particularistas, em defesa de seus interesses corporativos, e que são apresentados como posturas universalistas. São os falsos intelectuais, como dirá Sartre, antes de tudo, uns vendidos.

Mas não me foi suficiente. Sabia que dispunha de arquivos das minhas pesquisas de mestrado e para eles me dirigi. Encontrei uma pasta verde, nomeada Projeto São Paulo S/A e em seu interior, revolvi um mundo! Súbito retomei contato com anotações densas, que realizei a partir de inúmeros textos de fenomenologia e existencialismo, como por exemplo os apontamentos de toda a primeira parte do livro de Paulo Perdigão, Existência e Liberdade, onde ele faz uma análise muito didática d'O Ser e o Nada. As anotações preenchiam um caderninho, e havia muito mais. Folheei um denso fichamento da obra mestra de Sartre, O Ser e o Nada, vinte e seis páginas de caderno universitário, condensando a leitura de mais de 150 páginas da obra. Registros valiosos cujos conceitos destacados certamente foram por mim incorporados na prática cotidiana dos últimos quinze anos, conceitos como a má-fé, transcendência, o homem sincero, temporalidade, reflexão - "Mas a reflexão pura continua a descobrir a temporalidade apenas em sua não-substancialidade originária; em sua negação de ser Em-si, descobre os possíveis enquanto possíveis, suavizados pela liberdade do Para-si, revela o presente como transcendente e, se o passado lhe aparece como Em-si, ainda é sobre o fundamento da presença"... - desdobrando as distinções do Para-si e do Em-si. Lembrei que as dificuldades iniciais não me impediram de seguir na leitura das complexas argumentações da dialética sartriana, nesta que ainda é tida como uma obra difícil. Na verdade, dispondo por opção de todo o tempo do mundo, procurava usufruí-lo dedicando-me longamente à leitura e anotações na biblioteca da PUC. Uma época em que podíamos enveredar por leituras e aprofundar conceitos, amparados pelo ritual acadêmico que estimulava a pesquisa, sem a pressão por resultados imediatos. 

Também retomei no acervo da pasta verde as anotações de As Ideias de Sartre, de Arthur Danto, que se bem me recordo, me ajudaram bastante como guia para adentrar o pensamento da filosofia de Sartre. Juntamente com as definições de "vergonha", "o absurdo", "angústia", desenvolvi uma aproximação à personagem Carlos, de São Paulo S/A, então o centro do meu objeto de estudo, projetando um tour de force que se alongava indefinidamente, avançando por outras obras e estudiosos de Sartre, como Camila Salles Gonçalves, que com seu Desilusão e História na Psicanálise de Sartre, trabalhava mais os aspectos subjetivos de seu existencialismo. A partir desta leitura também formulei esboços para uma compreensão de Carlos, neste caso sob o viés da consciência irrefletida - "um fluxo que, por assim dizer, não se detém para conhecer o que está fazendo, apesar de jamais ser inconsciente"... 

No mesmo caderno, mais ao final, as ricas anotações de A Náusea, onde aí sim, relacionei diretamente as personagens centrais do romance e do filme, Roquentin e Carlos. Destaquei, por exemplo, o conceito da temporalidade, no primeiro caso, "Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia"... - e no segundo caso, "Carlos não encontra nada no passado e o futuro o assusta. O problema é que faz do presente uma transição entre essas temporalidades - passado e futuro - sem interferir, sem decidir-se por uma atitude que contemple o seu estado de espírito, seu desejo e a sua falta"... 

Tudo muito intenso e o reencontro me enleva, relançando-me no turbilhão daquelas estimulantes descobertas. Uma das mais reveladoras foi a obra Ciência e Existência, de Álvaro Vieira Pinto, onde dediquei apontamentos para a maior parte dos 22 capítulos, em 28 densas páginas de caderno universitário. Este professor não fazia parte da bibliografia de estudos e sua descoberta au hasar foi uma saudável contribuição, a interação da ciência com o saber prático, uma ciência engajada, pulsante, mobilizada para fora das salas acadêmicas, promovendo análises de temas como alienação, o conhecimento científico, cultura, dialética... - "A lógica dialética alcança o objeto da pesquisa científica no plano de maior profundidade, no plano das contradições que lhe determinam a essência, no movimento dos fenômenos que têm lugar na natureza e que se tornam a causa da diversidade dos seres, contradições essas que aparecem entranhadas nos conceitos que refiram subjetivamente os dados da realidade"...

Recolhi ainda papéis avulsos sobre inúmeros temas voltados para o cinema, o estudo de Bazin, anotações sobre o filme São Paulo S/A, minha transcrição de uma longa entrevista de Person na TV Cultura, trechos fotocopiados do roteiro original do filme e minhas primeiras versões da dissertação...
Se por um lado não encontrei nesse amplo material as informações sobre o tema Fronteiras, que pretendia desenvolver para a revista digital, por outro me entretive com o vigor de tantas redescobertas, anotações cuidadosas, leituras prolongadas sobre temas fundantes, que no final das contas me permitiram constituir ao longo dos anos uma consciência de mundo e um olhar crítico à realidade social em que vivo. A essa altura talvez seja oportuno registrar o conceito de intelectual - que hoje para mim se confunde com educador social - em Sartre, "A natureza da contradição do verdadeiro intelectual obriga-o a se engajar em todos os conflitos de nosso tempo porque são todos - conflitos de classes, de nações, de raças - efeitos particulares da opressão dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está, ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos". 


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