30 novembro 2014

Consolidação democrática

a parcialidade midiática já não é mais suficiente para decidir eleições

Em um primeiro momento, logo após as eleições, confesso que fui tomado pelo desgosto que ameaçava a compreensão serena dos fatos. A sucessão de acontecimentos não foi fácil, sobretudo para os que temos de enfrentar as notícias midiáticas ao longo de todos estes anos de governança, mas as semanas que se sucederam à reeleição de Dilma foram difíceis ao extremo. A absurda matéria de capa da Veja, nas vésperas das eleições, sem chances para o direito de resposta à altura, ameaçou a serenidade do processo eleitoral. Depois, talvez menos por este motivo, a vitória arrancada a fórceps, no derradeiro momento, sobrevindo ao longo dos dias seguintes a reação virulenta dos derrotados nas redes sociais, com a multiplicação assustadora das reações xenofóbicas que já havíamos presenciado em 2010. Para inflamar o delicado momento, os discursos inconformados de uma parte da mídia que acusava o golpe da derrota, investindo com força redobrada em argumentos pesados contra o PT, e confesso, não foi fácil ver e ouvir tantos Mervais atarantados. 
Ao mesmo tempo que fortes investidas brotavam das redações, elas expandiam-se naturalmente nas falas de líderes políticos derrotados, ou vice-versa, e não era difícil imaginar que desta feita a estratégia havia sido coordenada para reproduzir uma versão tropical do Tea Party estadunidense, ameaçando a impasse político e consequentemente, a ingovernabilidade. E sucederam-se os primeiros movimentos de parcela da sociedade civil, atendendo a convocatória da oposição, alimentada pelo rancor inercial da derrota, a avenida Paulista ocupada por cerca de 2000 pessoas clamando furiosamente uma mistura de impeachment de Dilma e a volta dos militares. No alto dos carros de som, personagens como Lobão, pobre Lobão, e Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, modelos mais acabados de um fascismo inacabado que insiste em vicejar. 

Foi o correr do tempo mais o equilíbrio nos atos das pessoas serenas que permitiram com que as coisas retornassem à aparente sensatez. Ontem, não mais de 600 desses protofascistas sacudiram seus cartazes contra os mesmos alvos, Dilma, Cuba, o comunismo, além de loas renovadas aos militares. Pessoas que apenas demonstram a absoluta falta de noção histórica, ao não compreenderem que não só Cuba e o comunismo não estão mais aí para assustar seja quem for, como os próprios militares rechaçam qualquer apoio a um tresloucado regresso ao poder. Como se não bastasse, o próprio desejo pelo impeachment se vê cada vez mais abandonado pela força dos acontecimentos, já que não existe qualquer base legal que se possa utilizar para tocá-lo avante. Em suma, deste primeiro mês de turbilhão pós-eleitoral, prevalece a serenidade de quem soube respeitar o caminho da democracia e o desgaste dos desesperados, que não desistirão no anseio por atalhos.

O percurso da presidenta Dilma se consolida com o passar dos dias, nem tão maravilhoso como sonharia um militante petista tradicional, nem tão agourento como desejaria a mídia hegemônica. A equipe do novo governo surge aos poucos, e ao meu ver, com a sobriedade de quem sabe perfeitamente das dificuldades que haverão de surgir, principalmente no âmbito econômico. Mas sinto que a política que diferencia este governo de 12 anos, pautada nos avanços sociais, permanecerá inabalável. Isso é o que verdadeiramente conta, a transformação do Brasil pelas bases sociais, com mais acessos à cidadania. Ao assistir na semana passada a conferência de Thomas Piketty, ficou claro que não há no momento outro objetivo senão perseverar neste caminho, se possível aperfeiçoando-o com mais distribuição de renda, no caso, oriundas das grandes fortunas. Ao longo de todas as recentes tormentas que mobilizaram principalmente intolerantes emoções e tentaram macular o desdobramento natural da vida política da nação, saio convencido de que nossa democracia está fortemente arraigada e em contínuo desenvolvimento. Em outras palavras, não há como temer por um tenebroso retrocesso, desses que só as mentes mal informadas sobre nossa história persistem em alimentar.


          

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