15 maio 2009

Paul Zumthor...


... foi uma presença essencial em minha recém-concluída tese de doutoramento. Curioso, em se tratando de uma pesquisa em Ciências Sociais, onde se fala de periferias de São Paulo, em construção de identidades e de busca de cidadania. Mas que também fala de poesia, e mais além, em performance poética, em interação entre público e poetas. Foi através de Zumthor que entendi a beleza da declamação, bem como o efeito mágico da música e do congraçamento na vida das pessoas, seja onde for.
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Abaixo, um relato de seu maravilhoso Introdução à poesia oral:
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Com meios mais pobres, um grupo de Brazzaville, embaralhando de propósito a indumentária tradicional e o terno, mas sempre de pés nus, mistura suas vozes àquelas de um público frequentemente instalado entre mesas e banquetas, vibrante do canto sincopado que lhe fala de terra, de mar, da unidade africana, outra festa esperada. Eis que os aldeões da selva, acolhendo seus ecos, os repercutem a sua maneira, em quermesses na cálida noite equatorial, onde a vida local de seu povo se conta em canções, em gritos de guerra, em estridências de tamborins, de maracas e de batidas de garrafas... Exemplos dispersos, dos quais o sentido último não seria que, através do mundo desamparado de nosso fim de século, se desenha pontilhada, de tentativa em tentativa, de lugar em lugar, tateante, ameaçada incessantemente pelos poderes mercantis, uma festa perdida, autocelebração comunitária do verbo, da voz e do corpo?


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