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| Foto de Ernest Haas |
30 maio 2024
Diretrizes de quem manda (ou pensa mandar)
16 maio 2024
A São Paulo de Person
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| Minha dissertação sobre Person, publicada |
Acaba de sair em versão digital, pelo excelente Selo PPGCOM UFMG, minha dissertação A São Paulo de Person, revista e atualizada. Sinto um especial orgulho por esta publicação, pois afora o fato de esperar exatos 25 anos para vir a lume, trata-se de meu primeiro trabalho de fôlego, acadêmico ou não, e que me qualificou como mestre em Comunicação e Semiótica pela minha adorada PUC de São Paulo.
A história dessa pequena aventura já foi contada, mas gosto de me referir à coincidência dos acontecimentos. Já com um tema definido para a minha pesquisa, que seria uma leitura sobre o primeiro cinema de Roman Polanski, um belo dia desci de meu apartamento para assistir no então Espaço Banco Nacional o filme São Paulo Sociedade Anônima, de Luiz Sérgio Person. Conhecia apenas superficialmente tanto o diretor quanto sua obra, havia visto anos antes uma sequência em que Zeloni/Arturo proferia para Walmor Chagas/Carlos um discurso nacionalista, enquanto avançavam pela Via Anchieta, dentro de um Oldsmobile.
Aquele trecho ficou registrado de tal modo que, ao assistir o filme, a sequência na tela grande me convenceu a mudar o objeto de pesquisa, e de Polanski e a Polônia, passei a investigar Person e São Paulo. Nada mais natural para um pesquisador com bolsa brasileira! O trabalho me consumiu três anos e ao final, em abril de 1999, sob a orientação de Lúcia Nagib, com banca de Irene Machado e Fernão Ramos, fiz minha defesa pública. Já na época sabia que o trabalho não tinha alcançado o desenvolvimento que pretendia, considerando todo o material teórico e oral que havia recolhido, mas ainda assim sabia que tinha elaborado um trabalho original e precursor sobre o diretor paulista.
A necessidade de reorganizar o texto e dar mais qualidade às referências bibliográficas manteve-se calada durante anos e ressurgiu há dois ou três anos atrás, com a oferta da editora mineira. Optei por dar prioridade ao meu texto de doutorado, As redes de escrituras nas periferias de São Paulo, publicado em princípios de 2022, para então me debruçar no mestrado, que me parecia um desafio. O texto mostrava-se pouco desenvolvido em diversas passagens, fosse na análise teórico-metodológica, como no aspeto histórico. Pior, não alcançava a paixão poética que sempre desejei e que o tema continha em si. Em suma, a montagem do texto final apresentava uma estrutura que precisava ser revista. Como se não bastasse, uma interessante entrevista que fiz com a Marina, filha de Person, estava de fora.
As observações dos pareceristas convidados pela editora me apontaram objetivamente os problemas, o que contribuiu para a correção de muitos (não todos) deles, fazendo com que o trabalho final, do ponto de vista formal e de conteúdo, melhorasse substancialmente. Tive a felicidade de poder contar com um belíssimo prefácio de Irene Machado, e, juntamente com uma caprichada edição, dar por encerrada com chave de ouro essa longeva produção, o que muito me orgulha.
Fica o convite para o acesso livre e gratuito do livro:
https://seloppgcomufmg.com.br/publicacao/a-sao-paulo-de-person/
09 maio 2024
Gaza (poema)
Gaza
no hay mayor desolación
el sol demarca lo que se
superpone
en la superficie machacada
sin calles
sin viviendas
no hay donde moverse
los huesos están rotos
la carne ya no es la misma y
bajo sudor intenso
palidece...
el hambre que no se quita
y las bombas...
la metralla que no se rinde
y el zumbido de los drones...
nada más que los escombros...
las imágenes interminables
ruidos y sombras
sin redención
sin piedad
y el tiempo que pasa
pronto serán las manos
manos benditas
a abandonar el cuerpo inerte
¿qué refugio - dónde?
no importa, hay desolación en
todas partes
Y luego vendrá el fracaso de los
ojos:
será noche en los cielos, fugaz
será noche en la mirada, eterna.
30 abril 2024
Narrativas
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| Última cena, 1958 |
Sinto-me (...) iluminado pela jornada, onde prevaleceram as conversações com meu pai. Não há mais como manter qualquer enfrentamento, querida, e disso já me dei conta há algum tempo; sinto-me muito melhor ouvindo-o em seus relatos, que me trazem o conhecimento de minha própria origem. Olhares sofridos, de coragem, de dor, de afeto, e de uma longa trajetória de vida, onde sem dúvida prevaleceu a reprodução de um cotidiano muitas vezes sem graça, repetitivo, mas de onde surgem relatos pungentes, como se me fizesse personagem de uma outra narrativa mítica, forjada em disputas, amor, conquistas, em grande medida, por desesperança superada pela persistência. Novos e velhos personagens relidos por novas interpretações, em alguns casos pelas descrições mais serenas e prolongadas, em outros, pela memória que, sem ser a mesma, não confirma as mesmas lembranças de outras narrações. Aproveitei, assim, o tempo bondoso junto ao meu pai.
A ceia trouxe, para mim, essas
superposições da vida, passado que projetou o futuro e nos oferece o presente,
todos ali, com as certezas que podemos ter, com as ausências que não podemos
evitar. Como se cumpríssemos uma nova etapa de renovação, como você cita em sua
fala, preparando-nos para mais um ciclo de vida, com todas suas boas e
desagradáveis surpresas. Nosso tempo cronológico sempre 'zerado' com as festas de final de ano,
a partir do congraçamento, das reflexões. Somos fortes e imaginosos, e
competentes o suficiente para, nos momentos de mudança, sabermos como improvisar
e descobrir novos 'caminhos epistêmicos' para a vida. Tenho sentido já há algum
tempo nas falas de meu pai uma concordância com a verdade suprema, e talvez por
isso sua leitura da vida surge tão límpida e tranquila. Repassa assim os passos
erráticos do pai, a perdição de uma mãe tuberculosa peregrinando solitária rumo
a Campos do Jordão, os episódios com os primos-irmãos, as peculiaridades de sua
aproximação com o mundo de minha mãe, histórias, que bem vejo, também me
pertencem...
(...)
Sobre o nefasto que nos atribula
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| O mar quebrado |
Há que se ter força e determinação para enfrentar as hostes de um conservadorismo bronco que se esparramam ameaçadoras, por todas as partes. Em sintonia com outras épocas históricas, surgem amparadas por interesses econômicos poderosos, tornando o embate muito desigual. Apenas ir para a rua não parece a solução adequada, essa direita ressurge obscena, fútil, despreocupada com as consequências de uma esquerda mobilizada. Em sua luta pelo poder, desprezam seus adversários, tratando-os como inimigos, promovendo cruzadas sucessivas, ao preço que for, contra os novos infiéis.
Não lhes falta dinheiro e disposição para a farsa, haja vista o que ocorreu recentemente com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez, atacado de maneira vil por um flanco inesperado, a integridade de sua esposa, Begoña Gómez. Inicialmente disposto a renunciar ao cargo (felizmente desistiu de fazê-lo), Sanchez declarou que “não vale a pena” caso “mentiras mais grosserias substituam o debate respeitoso e racional baseado em evidências”. Essa direita ressurgida na farsa acintosa e movida pela corrupção moral, não parece dar sinais de compreensão da dignidade e do respeito ao próximo.
Não resta outro modo de agir à essa direita senão a mentira e a violência. A primeira é um bólido substituível por outros bólidos, mais possantes, a segunda se perpetua na carne e no imaginário. A primeira se realiza através da reprodução maciça orientada por uma pulsão de morte, que transborda silenciosa os espaços digitais e se cala no coração dos incautos. A outra é uma consequência da primeira, trata de reavivar a alma perecida com a energia irascível da intolerância, do ódio, da ignorância, os três espectros que se movem nas charnecas do ser e o fazem silenciar ante todas as evidências do gesto insano, agora cometido com naturalidade e presteza.
22 abril 2024
Pétalo Nauseabundo, crônicas
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| O novo livro de crônicas |
E eis que já se encontra em pré-venda, junto à Ópera Editorial, e com 20% de desconto, meu segundo volume de crônicas, Pétalo Nauseabundo, no endereço https://operaeditorial.com.br/produto/petalo-nauseabundo/.
Este livro compõe o segundo volume de crônicas, que dá continuidade a O que aparentemente nos resta (Kotter, 2022). Os relatos aqui presentes abordam o período 2020-2021, e a imagem de capa, de meu arquivo pessoal, remete a uma cena urbana de Puerto Vallarta, em minhas andanças pelo México, em 1997.
No total, são 36 crônicas, com uma apresentação e um posfácio, que sinalizam um período sinistro e devastador para a população brasileira. Tal como descrito em uma delas, "Passamos por um momento tenebroso e muito triste (...) com as políticas de aniquilamento das redes de proteção social, dos direitos trabalhistas, da educação pública". Foi o tempo em que a Covid-19 avançou e ceifou quase 700 mil vidas, sob o olhar condescendente de um desgoverno hipócrita, "que em sua irresponsabilidade cognitiva condenou uma nação ao opróbrio".
Mas nem sempre prevaleceu o horror: ao longo do livro, desvela-se aqui e ali um olhar mais auspicioso, presente em reflexões sobre o cinema, sobre a literatura, sobre a educação, enfim, sobre a esperança da vida, tal como ela pode e deve ser.
Abaixo, destaco um fragmento de uma crônica:
A noite se faz mais escura que de costume, pois a vejo diante de mim, absoluta, quebrada por um punhado de luzinhas tremeluzentes ao longe. O silêncio da cidade desconhecida não me assusta, não estou cansado ou mesmo deslocado. Não me sinto no meu lugar, e não me esforço em torná-lo, após a superação do estranhamento, simpático. Na verdade, não sei o que faço aqui. Nas inúmeras viagens que realizei por tantas partes, o momento mais ingrato sempre foi a chegada, e o mais triste, a partida, e assim foi em todos os lugares, pequenos, grandes, confusos, atraentes, feios, bonitos. É difícil superar o inesperado na chegada e a amargura da partida. Desta feita, o estranhamento não se desfaz e prolonga-se já como amargura. Sentimentos muito sutis, que vão e veem, sem se incomodar comigo. (...) Há uma brisa que se esgueira pelo quarto, deixando-me serenamente acolhido, absorto em meus pensamentos, isso é um bom sinal. Foi muito fácil chegar até aqui, mas será muito complicado sair, haverá um tempo de espera que parecerá eterno, sem ser ameaçador ou ingrato, como um passeio em torno de uma ratoeira de mentira, que simboliza, despreocupada, o fim de qualquer ilusão, o que também pode ser uma mentira. O lusco-fusco da tarde se acentua, há uma chance de que se possa compreender esse tempo nebuloso e seguir adiante. É isso, estar aqui não me confirma a realidade nem a ficção, não é possível fazer mais do que acreditar, para saber se o que vai acontecer será bom ou meramente desnecessário...
03 abril 2024
Eduardo Galeano, Las palabras andantes
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| Serigrafia, J.Borges |
14 março 2024
Was ist Metaphysik?
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| A mercadoria como protagonista |
O texto abaixo tem pelo menos quinze anos, foi escrito quando ainda atuava como professor de Comunicação Comunitária na FAAP, no curso de Comunicação Social, na época um dos mais concorridos entre os jovens pertencentes à nata da sociedade burguesa paulistana, e bem por essa razão, um dos mais caros da cidade. A reflexão sobre o liberalismo na pós-modernidade, já bastante em voga nos meios acadêmicos, aqui formulado em seu processo de diluição - e não de constituição - do indivíduo livre e bem-sucedido, me parece muito atual.
Provavelmente em função da fatalidade neoliberal ao longo do processo histórico, cuja essência se manifesta na ambição pelo lucro desavergonhado, lamento as perdas desse tempo: o saudável curso de Comunitária, no qual tive o prazer de contribuir por mais de 11 anos; a decadência da pujança da instituição, que se perdeu em meio às fúteis escolhas administrativas; e a falência do local em que ocorre o encontro com meu aluno, a então magnífica livraria Cultura.
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A livraria estava no caminho do mercado,
iria comprar umas frutas para o desjejum da manhã, e vi que ocorria um
lançamento, um autor desconhecido de uma literatura que não me interessava. Mas
ainda assim achei por bem entrar por uns minutos, ver os títulos
recém-chegados, sentir o movimento, o frisson na fila de autógrafos, nada além
do que esses pobres desejos.
Diante da estante de filosofia,
folheava uma pequena biografia de Heidegger quando alguém me tocou nas costas.
Ao virar-me, deparei com o garçom sustentando uma bandeja em uma das mãos e com
a outra enchendo uma taça com um vinho vagabundo. Sorriu-me e proferiu a frase
do dia, "Como vai, professor?". Não estava a fim de pensar em nada
àquela altura da noite, o cansaço envolvia meus sentidos e a desolação começou
a invadir-me. "Lembra-se de mim?", questionou-me, com seu semblante
vivaz. Olhei bem nos olhos do jovem garçom que acabava de encher minha taça.
Dei uma risadinha sem graça e perguntei como estava. Ele estendeu-me o copo de
maneira polida e sem perder a compostura facial, disse que ia tocando a vida.
"Consegui este trabalho faz dois meses... com o tempo, consigo uma função
na administração...", e me falou de sua conquista sem perder o sorriso
prestimoso. Peguei a taça de vinho vagabundo e suas obrigações como garçom
aliadas ao meu torpor colocaram um ponto final ao encontro. "Até mais,
professor, foi um prazer vê-lo...", e logo se afastou para o próximo
cliente.
Pouco depois saí da livraria
apertando o passo para encontrar o mercado ainda aberto. Refletir sobre o
ocorrido foi uma consequência inescapável. Se foi meu aluno, devia ter se
formado em comunicação, e a razão de não me recordar de sua fisionomia confirmava
sua discrição como aluno. Bem, não ter passado de um aluno mediano não era razão suficiente para distribuir taças de vinho em um lançamento de livro. Está bem, vamos começar de novo: o fato de
ter se formado numa das melhores faculdades de comunicação de São Paulo deveria
lhe apresentar possibilidades de voos mais ousados na área. Perguntei-me o que
faria com os conhecimentos adquiridos. Nossas
conversações sobre a consciência da realidade social, sobre a importância do outro, as discussões sobre os filmes
vistos, documentários de Eduardo Coutinho, o Irã de Makhmalbaff e Kiarostami... As leituras
feitas sobre a cordialidade
Enquanto escolhia laranjas, maçãs, bananas, reconheci o que me havia molestado de modo especialmente cruel naquele encontro: a assepsia, o excesso de zelo, sem lugar para o gesto autêntico do entusiasmo ou da decepção. Ao contrário, o sorriso que permeou nossa conversação foi uma necessidade imposta pelo nosso admirável mundo insosso. Da parte dele, indicou a gentileza do bom atendimento, condimentada por uma conversa acessória, bastante contida sobre o passado recente. E da minha parte, o sorriso evidenciou a satisfação pelo serviço prestado, condimentado pelo breve deleite de ser lembrado por um ex-aluno. Nossas almas não foram recompensadas. Sonhos e emoções diluídos como água na água.
O que me convence da funcionalidade pós-moderna, ainda uma vez, é a engrenagem que se alimenta de frivolidades sedutoras. Não deseja se sustentar por sua força intrínseca, mas por uma eficiente concorrência que se dissimula como essência de nossas ações. Após ouvir a cantilena de que deus é pai, agora me preparo para compreender que a verdade do mundo é ilusão, ou melhor dito, conforme as palavras de Hamsum, citadas por Heidegger, "(o nada) instala-se entre seus ouvidos e escuta o vazio verdadeiro. De todo curioso, uma alucinação (...) Aqui, porém, o Nada sobre nada. Não há nada, nem sequer um buraco. Só se pode balançar resignadamente a cabeça".







