15 setembro 2026

Patricio Guzmán


Patricio Guzmán Lozanes (1941-2026)

 

Há mais ou menos 25 anos, retirei um vídeo triplo em uma locadora famosa aqui em São Paulo, exposto como novidade recém-chegada. O nome, A Batalha do Chile, dirigido por um diretor que então desconhecia, Patricio Guzmán. Fiquei maravilhado, e revi diversas vezes. Tal foi minha admiração, que sugeri para que o departamento de Comunicação da FAAP, onde eu ministrava aulas de Comunicação Comunitária, adquirisse o vídeo, o que acabou ocorrendo. Tornei-me um divulgador entusiasta do filme, e a cada vez que o assistia, ficava fascinado não só com a direção de Guzmán, como com a fotografia de Jorge Müller Silva, que seria sequestrado e desaparecido pouco depois. 

Tudo no filme impressiona: a decisão em filmar os anos do governo da Unidade Popular nos diversos setores sociais; o consistente roteiro que avançava "às cegas" captando todos os movimentos políticos; e como disse, a beleza e a mão firme da fotografia de Müller Silva, não tendo pressa para registrar cada momento, cada circunstância, absorvendo a força e a fraqueza do governo Allende. Sucedem-se as entrevistas nos sindicatos, mas também dos grupos adversários; as comemorações da vitória de Allende nas ruas, mas também a zanga de uma classe média pouco disposta a suportar a política socialista que se implantava; o drama das votações no parlamento e também a presença cada vez mais forte dos militares, como na célebre sequência (a qual descrevi neste blog) do sepultamento de Arturo Araya Peters, o edecan de Salvador Allende. 

Patricio faleceu hoje, aos 85 anos. teve uma carreira bem-sucedida no cinema, com filmes como Nostalgia da Luz e El botón de Nacar. Sobreviveu à brutalidade do período Pinochet e assistiu o Chile a retomar o processo democrático. Por toda a intensidade que vivi ao assistir seu cinema, sinto uma dolorosa pontada no peito, um profundo lamento pela perda, e mesmo a consciência de seu poderoso punhetazo na cara da ditadura de Pinochet, embora tão espetacular a cada vez que o recordo, não será suficiente para cobrir sua ausência definitiva. 



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