 |
| O punctum da imagem: FOME |
O frio permanece nestes dias,
temperaturas em média 12º.C, um pouco menos durante a madrugada, um pouco mais
durante o dia. Ontem o sol apareceu, timidamente, e hoje deve permanecer
brilhando em céu despejado, aquecendo-nos livremente. Agora pela
manhã, são onze horas, o calor não é suficiente (16º.C) para afastar a ambiência
fria que nos envolve. Seja como for, neste final de agosto o inverno está
com os dias contados, o que por si só é uma alegria, para mim e para tanta
gente. Os dias serão mais longos e mais aquecidos, esqueceremos por um bom
tempo o que é sentir o incômodo das noites geladas.
A imagem revela
parte da realidade presente na região da Paulista, a mais rica da cidade, onde
há maior movimentação de capital, onde o dinheiro - como diria Simmel - se
eleva a denominador comum de todos os valores (e) corrói irremediavelmente o
cerne das coisas. A indiferença racional que a sua circulação provoca, nos
torna cúmplices do crime diário das mortes por inanição ou por hipotermia. Ao redor do parque Trianon, tal qual
um abraço medonho, se estende um cinturão de barracas, indigentes jogados à própria
sorte, em um acampamento sem prazo para terminar. O abandono do poder público é
visível, e o que é pior, o distanciamento dos olhares é o efeito mais explícito
do comportamento blasé das pessoas que ainda desfrutam de alguma renda para
viver.
O blasé a que me refiro é mais uma
referência de Simmel, trata-se da completa ausência de reação, da
impossibilidade do espírito se sensibilizar com as diferenças ao redor. Numa
palavra, o embotamento do caráter. A ilusão da meritocracia propicia
esse deserto de solidariedade, e consequentemente, a reprodução da
miserabilidade. Quanto à imagem, ela confirma o punctum inquietante: a tabuleta
com os dizeres 'Fome'. Se há fome na avenida Paulista, o que podemos esperar
nos territórios com mais precariedade?
Sob o Masp, o grande museu
latino-americano, onde outras dezenas de barracas guardam em silêncio gente que
foi despejada pelas ganâncias do sistema econômico vigente, é possível imaginar
o autorretrato de Van Gogh deparar, de maneira perplexa, tamanha degradação social.
Tem sido cansativo ouvir
comentaristas de futebol e cada vez menos estimulante escrever estas crônicas.
No primeiro caso, a limitação, acompanhada da predisposição mercadológica dos
temas de análises, me afastam da apreciação do futebol. Não subsiste mais o
brilho com a surpresa do toque diferenciado, pelo detalhe da defesa do goleiro,
pelo respeito ao trabalho dos profissionais da bola, sem que concorra a
polêmica como artifício mercadológico para fomentar a audiência. Além do que,
uma maçaroca de estatísticas enquadra a subjetividade lúdica, em repetição ao
que ocorre nas análises dos esportes coletivos norte-americanos, eliminando
significativamente a singeleza do futebol. Todos os lances passam a ter causa e
efeito nos números. Restrinjo-me, então, a ver os resultados, sem qualquer
ânimo especial. Quanto a prosseguir com o blog, ainda resisto, imaginando que
em breve, talvez, não tenha mais esta obrigação. Certas perguntas começam a me
assediar, por que, para quê?
Lula permanece em torno dos 45%, o
ex-capitão em torno dos 32%, faltam trinta dias para as eleições. No Estado,
Haddad tem boa dianteira sobre o segundo e terceiro colocados, mas não leva no
primeiro turno. Que desespero! Quão doloroso o sofrimento destes quatro anos,
acrescidos aos dois de Temer! Quantas péssimas notícias, que começam com o
desemprego em massa e a redução dos direitos trabalhistas, na destruição
acelerada da Amazônia, na privatização de parte do patrimônio do Estado
brasileiro, no abjeto sistema de controle e distribuição de verba pública do
orçamento secreto, no sucateamento da educação e da saúde públicas, e que
terminam com o morticínio da pandemia. Só espero que estas eleições possam
afastar a matilha dirigente, que em seis anos conseguiu nos reconduzir à
condição de um país miserável.