30 maio 2017

O que sabemos de cada dia

Diego Rivera, La noche de los pobres

O que sei é que não temos a menor ideia do que acontece por aí, no entorno da nossa realidade social. Sei também que estava ultimando algumas anotações referentes ao curso, no final da noite. Foi quando C. adentrou a sala de aula com seu jeito informal, pedi para que se sentasse e começamos uma conversa tímida, que de algum modo envolvia nossas aulas no semestre, mas ia além, passou a descrever outras impressões, mais pessoais, com muito cuidado com a narrativa, principalmente ao envolver outras pessoas. Antecipei-me em meu primeiro comentário, dizendo-lhe da virtude daquele comportamento respeitoso, C. concordou olhando para um ponto no chão e enquanto durou sua fala, encarou-me fortuitamente, aproveitando minhas poucas intervenções. Logo de início percebi que minha função ali seria ouvir, apenas ouvir a fala que também era um desabafo sereno, já que seu tom nunca ultrapassou os limites ponderados de uma arguição amistosa. Também percebi que se fizesse comentários, deveriam estimular a fala-prospecção, deveriam apoiar a fala-testemunho, deveriam cingir-se a gestos na fala-reconhecimento. 

Passou a descrever o pai militar com seus movimentos incertos, da imposição de vídeos do quartel onde se pregava medalhas direto na pele à surra homérica pela descoberta da homossexualidade do filho. O parceiro expulso de casa, os dois anos sem palavra com o pai, que a retoma dizendo que para reconhecer o filho, só quando C. merecesse, ou seja, ficasse rico. Nenhuma palavra de revolta escapa em sua narrativa, mas a profunda vontade de compreender ou de perdoar, ou talvez as duas coisas, pois no final das contas, sentia-se bem em descobrir sua liberdade, e essa liberdade prescindia do pai - e da mãe, mulher negra, que ausente desde o primeiro momento de sua vida, voltava de quando em quando, arrependida pelo abandono. Não me disse do espaço do seu lar, mas passei a imaginá-lo em sua tacanhez nas dimensões e nas horas compartilhadas. A irmã, sim, havia a irmã, de início não concordava com nada, de princípio não era boa interlocutora, mas desde que entrou na faculdade de letras, rompendo com o desejo do pai para que fizesse direito, coincidiam mais nas ideias, ainda que em certas conversas insistisse para que C. procurasse o pastor. A avó, bem, ela não entendia muitas das suas coisas, mas oferecia a ternura de toda avó. C. não morava perto dos seus prazeres ou das suas obrigações, precisava tomar metrô, trem e ônibus, e mentalmente imaginei as agruras dos deslocamentos, cumpridas com disposição ou sujeição. 

A faculdade tornava-se o manancial de sua liberdade. E que o modelo desse esforço bem-sucedido era o pai, o mesmo pai intolerante, pois ele era analfabeto até os 20 anos e venceu com muito esforço, primeiro vendendo balas nos trens, ato moralmente condenável pois é prática proibida pelas autoridades, mas que permitiu os recursos para mantê-los, então como condenar, Quem sou eu para condenar, dizia-me com o mesmo olhar baixo, sem dor ou compaixão, mas apenas a necessidade de dizer o relato, esse relato barroco, generoso, bem de acordo com as falas de nosso povo. A liberdade conquistada seguiu o caminho da vitória do pai, e a ultrapassou pois agora estuda com bolsa, ainda é aprendiz, mas acredita que este ano haverá de ser efetivado, e assumiu sua sexualidade. Ela veio com as primeiras baladas, no final do ano passado, quando conheceu gente diferente, que o ensinou muitas coisas, e em seguida, a faculdade, o aprendizado das aulas, novos conhecimentos, a ruptura para novas descobertas. Para C., uma surpresa tudo isso, pois imaginava que o mundo se resumisse ao espaço de sua casa, a companhia de seu pai e de sua irmã, e de vez em quando de sua avó.


14 maio 2017

Morrer e viver sob o neoliberalismo


Simbólico desse governo golpista: a imagem do ritual fúnebre


Não se vislumbra qualquer saída política por parte das hostes que empreenderam o golpe empresarial-midiático-judiciário de 2016, e a não ser que disponham na manga de seus paletós soturnos um plano alternativo, ou como diria o Leão da Montanha, uma saída pela esquerda, darão com os seus burros na água, muito antes do próprio sistema concorrencial em que apoiam suas medidas econômicas, o neoliberalismo. Este, tal como ocorreu com o laissez-faire há cem anos, declinará por sua incapacidade de uma leitura social apropriada, e consequentemente, pela inaplicabilidade de seus fundamentos em privilegiar a "vitória dos mais aptos" em um período de profunda crise econômica. 

Não está no horizonte dos eventos a retomada do comunismo, mas as tensões sociais serão levadas ao limite, de tal modo que essa espécie de retomada do utilitarismo a la Spencer é uma crônica anunciada do esgotamento de uma política sem projeto econômico. O que se anuncia, porém, são anos de dura e contínua luta, que irão por fim demarcar até para os neoliberais mais ufanistas, a impossibilidade desse capitalismo devotado à subjetivização contábil e financeira. No mínimo, o retorno de uma nova fórmula keynesiana, a retomada de um Estado atuante como regulador e redistribuidor, a necessária solidariedade ante a razzia da racionalidade neoliberal.

(modificado em 20.05.2017)


01 maio 2017

Ressonâncias da Greve Geral

Detalhe de Cangaceiro (1958), Cândido Portinari


Uma bonita manhã de sol neste Primeiro de Maio, friazinha e aconchegante como costuma ser as manhãs de outono. Escrevo em uma pequena boulangerie na esquina de casa. Aqui não acertam nunca o volume do som ambiente, uma desnecessidade dessas casas que atraem pelas características de abrigo e distração. A música em volume desproporcional incomoda e afugenta, e por vezes já pensei ser uma técnica desse pós-capitalismo mambembe, que pensa grandes coisas para fazer dinheiro, mas se equivoca nas mais simples e por isso segue fracassando nas substanciosas transformações.

Nada mais apropriado pensar no capitalismo que se instala de maneira insultuosa, o que não significa de maneira vigorosa, em especial no Brasil. Aqui, seguem os desmontes sociais e trabalhistas conduzido por uma plêiade de velhos incompetentes e corruptos até a medula, que a cada passo demonstram serem títeres de forças mais poderosas e se acobertam nas sombras, sejam elas midiáticas, do poder judiciário ou do capital financeiro, não importa, em algum lugar ou momento se encontram para a articulação contra a sociedade civil.

Saímos na sexta-feira de uma Greve Geral exitosa, que paralisou fortemente os serviços, cuja narrativa foi construída tanto pela mídia corporativa e patronal, de acordo com interesses políticos em conjunção com o empresariado e com a casta golpista do congresso que votará as mudanças na legislação; como também pelas chamadas mídias digitais, que se desdobraram para relatar os acontecimentos em tempo real, com muitas imagens e reflexão crítica.

Neste último caso, o que ocorre é que as postagens de sites independentes de jornalismo, como Jornalistas Livres e Mídia Ninja, se apoiam na transmissão em tempo real, em fotos e vídeos, mas com pouco texto crítico, ao contrário das corporações, que não cansam de “contextualizar” os fatos de acordo com seus interesses. O que ocorre é que uma legião de simpatizantes dissemina as postagens provocando uma enxurrada de imagens nas redes, picadas isoladas de um formidável enxame.

O impacto emocional persiste ao lado das mídias corporativas, especialmente rádio e TV, que ainda dispõem de capital cultural suficiente para fazer prevalecer suas estratégias políticas. As grandes transformações comunicacionais dos últimos anos não contagiaram os fiéis ouvintes e espectadores, que por conforto intelectual, prosseguem ligados a essa poderosa narrativa, talvez acreditando que elas não poderiam estar “do lado errado”.

Com o desvirtuamento crasso do relato dos acontecimentos ocorridos nesta ampla Greve Geral, mais o apoio descarado às mudanças trabalhistas a favor de uma elite endinheirada, é de se acreditar que a confiança nesse tipo de narrativa sofra inevitáveis desgastes, pois não é possível construir uma ficção que prevaleça sobre a dura realidade. Será a persistência dessas pequenas, porém contínuas picadas, a contraposição narrativa fundamental para questionar a mentira, a farsa comunicacional.

Já não estou mais entre os que acreditam no fim dessa mídia corporativa, até porque agora ela se redesenha camaleonicamente e se posiciona como um sistema de divulgação dos interesses do capital financeiro, formatando-se como um componente precioso para a disseminação desse discurso. A nova roupagem aprofunda a desfaçatez, própria desse neoliberalismo ainda mais brutal que o de vinte anos atrás. É a constituição de um poder não eleito – financeiro, judicial e midiático – que passa a controlar o poder eleito – legislativo e executivo – à custa do povo. Será preciso ver até onde isso vai e como acaba.




27 abril 2017

A árvore de Gernika

Imagem do filme A Árvore de Gernika, de Fernando Arrabal

Eram quatro e meia da tarde, os camponeses chegavam com suas carroças para a feira a céu aberto, quando a chegada do primeiro Heinkel 111 alemão foi anunciada pelos sinos da igreja. Logo em seguida outro Heinkel apareceu para despejar suas bombas de 22,5 quilos. Quando as pessoas deixavam os abrigos, quinze minutos depois, um troar de Junkers 52 foi ouvido a leste, cerca de 50 deles, que lançaram bombas de 22,5 e 45 quilos, além dos bastões de termita para potencializar o incêndio, o fogo de Prometeu. Foram ondas sucessivas de ataques, a cada vinte minutos, que impedia o deslocamento dos habitantes para fora da cidade. Quando não eram as bombas, era a metralha dos caças que varria indistintamente o que se movesse pelas ruas. Às 7h45, depois de três horas, o último avião nazista desapareceu no horizonte, deixando apenas o "crepitar nervoso da conflagração criminosa em toda a cidade". Gernika havia acabado.

Casa das Juntas, Gernika, 1989 (foto: autor)

Sem dúvida o filme de Fernando Arrabal, A Árvore de Guernica, visto no início dos anos 1980, acabou por me conduzir à pequena cidade basca, em agosto de 1989. Sua narrativa alegórica e marcada pela luta republicana na Guerra Civil me comoveu de modo definitivo. Uma das sequências inesquecíveis é a encenação de uma corrida de touros pelos falangistas, depois da tomada da fictícia Villa Romero, assistida por representantes da burguesia e pelo clero local. Carrinhos de mão são conduzidos com anões amarrados, condenados a morrer na arena por um franquista que faz as vezes de toureiro. Sob o silêncio completo, interrompidos pelos aplausos forçados da claque burguesa, o 'toureiro' completa sua performance ao projetar a espada no peito do anão. Por fim, um plano geral de uma enorme bandeira espanhola estendida na arena, acolhendo os vários anões assassinados na sessão, sob o hino espanhol.  

Fac-símile da capa A Árvore de Gernika

Poucos dias mais tarde, em visita ao Prado, em Madri, detive-me longamente diante do quadro de Pablo Picasso, Guernica, inspirado pelo texto do jornalista George L. Steer que relatou de modo contundente o antes, o durante e o depois da tragédia basca. A propósito, que maravilhosa cobertura jornalística desse cidadão inglês, que não poupou esforços pessoais para transformar sua presença no território basco sitiado em contundente testemunho da brutalidade franquista. Leio-o aos bocados, os capítulos se sucedem fora da ordem cronológica, que me relatam o isolamento e a fome em Bilbao, os brutais ataques aéreos alemães, a mentira dos informes oficiais franquistas e a contrapartida, o esforço por uma cobertura mais equânime dos jornalistas estrangeiros, dentre eles, Steer. No Prado, distante da aura marcante da cultura basca, apreciei os diversos esboços da obra de Picasso, então expostos no corredor que conduzia ao grande salão em que repousava o quadro final.

No momento em que escrevia o primeiro parágrafo deste texto, cumpria-se exatamente oitenta anos do ataque realizado por um misto de aviões alemães e italianos. Realizado entre as 16h30 e as 19h45 do dia 26 de abril de 1937, o bombardeio ceifou a vida de três centenas de pessoas, de uma população aproximada de 6.000 habitantes, acrescida por cerca de 3.000 camponeses que participavam da feira a céu aberto. Dois dias mais tarde, segundo a descrição de Steer, "o governo de Salamanca foi claramente desonesto" ao passar para a opinião pública que a destruição de Gernika fora obra dos Vermelhos. A má-fé das versões fascistas - haveria mais de uma em um breve lapso de dias - foram encampadas por parte da imprensa estrangeira, havendo o caso de um correspondente francês que, quando da queda da cidade, "acabou liberado (pelos franquistas) e escreveu artigos favoráveis ao generalíssimo". 


Gernika após o ataque aéreo franquista, em 26.04.1937

Para mim, as impressões que obtenho com a leitura ainda não finalizada de A Árvore de Gernika, de George Steer, são de um qualificado registro jornalístico, sob as condições mais duras, onde se destaca uma elegância sensível no estilo narrativo, que nos posiciona com clareza diante dos fatos descritos. Particularmente gosto de sua isenção comprometida, simpática aos bascos, mas sem ser "incapaz de detectar suas deficiências". E aprecio sua declaração espontânea ao bom jornalismo, que escreve como que num impulso, ao final do capítulo 16, cansado pelas farsas publicadas em relação ao suposto bloqueio de Bilbao pela marinha franquista, que na ocasião quase sacrifica a causa basca: 

“Um jornalista não é mero fornecedor de notícias, sejam sensacionais ou controversas, bem ou mal escritas, ou apenas engraçadas. Ele é um historiador dos eventos cotidianos, e tem um dever para com o público. Se lhe impedem o acesso a esse público, cabe a ele recorrer a outros métodos; pois, como historiador em ponto menor, ele pertence à mais honrada profissão do mundo, precisa estar tomado do apego mais passional e crítico pela verdade, e por isso o jornalista deve, com o enorme poder que detém, cuidar para que prevaleça a verdade”.
   
Penso que esta declaração sirva perfeitamente aos propósitos atuais de como deve atuar um verdadeiro jornalista.


11 abril 2017

Jorge Teillier



Para falar com os mortos
(Jorge Teillier)


Para falar com os mortos
há que escolher palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam a pelagem de seus cães na escuridade.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na taça
ou as cadeiras ordenadas pela mãe
depois que se foram os convidados.
Palavras que a noite acolha
como os pântanos aos fogos fátuos

Para falar com os mortos
há que saber esperar:
eles são temerosos
como os primeiros passos de uma criança
porém se tivermos paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho partido
com uma chama de súbito reanimada na lareira
com um regresso velado de pássaros
frente ao olhar de uma mulher
que aguarda imóvel em um umbral.

(Extraído e traduzido de Jorge Teillier: Poemas Secretos. In: Anales de la Universidad de Chile, julio-septiembre de 1965). 


29 março 2017

As sequelas escravocratas

Eduardo, OsGêmeos e Dick Tracy nos baixios da praça Roosevelt

Nesta semana discutimos em sala de aula o capítulo As Raças e os Mitos do livro de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, que sempre contribui para compreendermos mais a formação social e política de nosso país. Em especial, são abordados dois pensadores conservadores do início do século XX, Nina Rodrigues e Oliveira Viana, fortemente influenciados pelo que se denominava então de evolucionismo social, com um olhar pessimista para a nossa miscigenação.

O olhar racista de Nina Rodrigues para nossa sociedade analisava o negro como raça inferior, e dessa forma, a herança de nosso mestiçamento marcada pelo "pelo equilíbrio mental instável que acarreta", inferindo-se, conforme Moreira Leite, que o brasileiro seria um desequilibrado. De Oliveira Viana, a descrição social pouco ou nada tem de científico, onde enaltece os sentimentos de uma aristocracia rural do início de nossa colonização, "não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura".

Moreira Leite desmonta passo a passo a construção dessa hipotética visão idílica de nossa sociedade; a esse respeito, vale a pena consultar as páginas de Tinhorão Ramos sobre o cotidiano tedioso e modorrento de nosso momento, mais animado nos espaços onde a festa e o batuque de negros escravos, quando permitida, se fazia presente. A aristocracia rural, para Oliveira Viana, constituía o "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade", por certo aqui influenciado pelos ventos do fascismo europeu que sopravam vigorosos nos anos 1930. 

A discussão em aula torna-se muito oportuna pois assim identificamos de algum modo a linhagem do pensamento conservador, machista e ainda com fortes elementos escravocratas de nossa elite econômica, que promoveu o golpe institucional para assumir as rédeas políticas, ao modelo da Velha República, para não dizer do Segundo Império. Nina Rodrigues e Oliveira Viana são apenas alguns dos representantes desse pensamento arcaico, que como Euclides da Cunha, Silvio Romeiro e tantos outros intelectuais formadores de opinião, escoravam-se nas teses do embranquecimento como o caminho para a virtude moral e o desenvolvimento da nação.  

As marcas desse pensamento derivadas da superioridade biológica persistem nos dias presentes, em manifestações regulares pelas redes sociais, reproduzidas por quem apenas se inspira em reproduzir e causar impactos, sem mensurar os efeitos, como também por esse universo medíocre de pseudo-intelectuais que se arvoram em buscar ideias às suas palavras. No extremo desse conduto de presunções, a bancada ruralista do congresso não se cansa de revelar pequenos Oliveiras Vianas.

Ao fim e ao cabo, a imensa e complexa realidade do povo brasileiro, mestiço, pobre e trabalhador, descartado como gênese e fundamento do nosso processo histórico e social. Para a construção de pontos de vista mais abrangentes é que estão aí os coletivos e os movimentos sociais, e a eles não resta alternativa senão lutarem renhidamente, pois nenhuma contemplação terá desses das classes dominantes. E felizmente sucedem-se os interpretes intelectuais adictos à análise crítica de nossa sociedade, Caio Prado Jr., Moreira Leite, Gilberto Freyre, Milton Santos, Florestan Fernandes, Jessé Souza, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manoel Bomfim e tantos outros, com os quais alimento-me e ofereço aos educandos. 

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Com regularidade bissexta tenho trabalhado com um texto muito oportuno, de Robert Pechmann, que discute o controle dos "vadios", os negros escravizados, em sua circulação pelo espaço urbano. A designação da vagabundagem, prevista como crime no Código Penal da colônia e do império, de algum modo ilustra a discussão acima, e incide diretamente em uma parcela sem direitos e arbitrariamente submetida da nossa sociedade. Destaco um trecho do texto de Pechmann, ligando-o ao vídeo Enquadro, um relato atual da realidade de nossas periferias urbanas.


Enquadro, reportagem de José Cícero da Silva, 2017
    
"Soltos no mundo, obrigados a perambular pela cidade à procura de sobrevivência, os 'vadios' são identificados na sua viração como desordeiros. Ninguém lhes perdoa a fluidez, mormente numa cidade escravista, cujo equilíbrio era conseguido, em grande parte, pela vigilância dos passos dos escravos. (...) Tidos como incapazes de educação e de princípios, os 'vadios' são vistos como tendo outra humanidade, representantes que são da 'anti-sociedade'."

(Robert Pechmann, Cidades estreitamente vigiadas, 2002).


20 março 2017

Um pouco mais com Cortázar





Sequências


Deixou de ler o relato no ponto onde um personagem deixava de ler o relato no lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo e chegava ao lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo.

(Traduzido do original em espanhol, Papeles Inesperados, Buenos Aires: Alfaguara, 2009).



16 março 2017

Dia Nacional de Paralisação e Mobilização


por volta das 19h,  milhares reunidos


Ontem, provavelmente a mais grandiosa manifestação contra o desgoverno golpista de Temer. Pudemos sentir na pele a concentração espetacular, vinda de todos os lados da cidade, articulada por diversos sindicatos e movimentos, em nossos deslocamentos ao longo da avenida Paulista. Ao contrário de tantas outras em que participamos, a aglomeração de manifestantes começou antes das 16 horas, horário programado, e prolongou-se bem depois da fala de Lula, que ocorreu quando já passavam das 19 horas; a desmobilização do ponto de encontro, diante do Masp, foi lenta e dificultosa para os dois lados da avenida, lembrando-me o público dos grandes clássicos no Morumbi, nos anos 1970, quando se ultrapassava facilmente 100 mil pessoas. 


a chegada dos manifestantes, vindos da praça da República

Desta vez, diferente das manifestações anteriores, contribuiu muito a enorme concentração dos professores na República, no início da tarde, e que se deslocaria para a Paulista. Repentinamente, um mar de gente representando diversos coletivos e movimentos pela educação transbordavam feito a água que agora chega ao agreste nordestino, pela transposição do São Francisco, gente de todas as cores, de todos os gestos, chegando para ficar. 


presença das  professoras  aguerridas, sem perder a ternura

Se havia pela manhã a expectativa de paralisação dos serviços de transporte, à tarde ela se verificou parcial, permitindo que a mobilização para o encontro ocorresse sem problemas. Ao contrário das vezes anteriores, não concorreu um clima pesado pela presença ostensiva da polícia militar; desta feita, ela mal foi percebida em alguns cantos da avenida, e mesmo  seus helicópteros não surgiram com seus rasantes, para incomodar a massa.


quando possível, o esboço do gesto socialista

Contribuiu para o sucesso do evento a presença de dois enormes carros de som, um da Frente Brasil Popular, atravessado entre o Masp e o Trianon,  e o que veio da República, da Apeoesp, que chegou literalmente estremecendo a avenida com o cântico Fora Temer na versão Carmina Burana. Espetacular e poderoso, que arregimentava com emoção as pessoas que iam caminhando.  O tempo ajudou, se não fez sol, também não choveu, e se não estava quente e abafado, também não esfriou, pudemos avançar em meio a encontros com amigos; às nossas avaliações sobre o espectro político; ao registro contínuo em fotos e vídeos do crescimento da mobilização.


presença de centrais sindicais, mas não só

O tempo passou e a avenida se coloriu em tons vermelhos, com muitos balões indicando os partidos, centrais e sindicatos presentes. Nenhuma presença da mídia corporativa, o que não causou surpresa, ao contrário, reforçou a certeza de que nossa luta não se limita à preservação dos direitos trabalhistas, ou ao enfrentamento do posicionamento neoliberal privatista desse desgoverno, mas a uma pauta indispensável, a democratização dos meios de comunicação, que assumiram  às caladas, ao longo desse interminável processo golpista, uma postura de apoio inequívoco às ações de Temer e seus lacaios (permito-me recuperar este termo).


um mar de gente, a perder de vista

Até porque é fato que os lacaios de Temer se reuniram de modo conspirativo para vencerem as eleições de 2014, tanto na esfera majoritária (governo), quanto na esfera legislativa (congresso), o que explica ao menos parcialmente a força e a amplitude do movimento golpista. Os políticos misóginos de Brasília articularam-se com o dinheiro da Fiesp e com a boutade das mídias patronais para  o assalto ao poder. Uma vez lá instalados, não dão respostas às demandas sociais que sejam continuidade das praticadas no governo Lula e Dilma, e o que é pior, vendem a preço de banana nosso patrimônio, ameaçando com essa reforma trabalhista estapafúrdia.


um  Lula mais  incisivo  e direto

Lula demorou, mas chegou e falou, curto e grosso. Acaba tendo uma importante representação na luta, nesse enfrentamento desigual contra todas essas instâncias dominantes que esmagam nossos direitos. Pode parecer contraditório, mas delegamos nossa esperança a um homem que acertou em muitos atos, mas também errou em tantos outros, dentre eles, não ter mantido a proximidade com o movimento sindical, não ter realizado profundamente as reformas necessárias, como a agrária e a dos meios de comunicação. Aliou-se a grupos da casa grande, na esperança de uma governabilidade sem turbulências, e quando a conta veio, ela foi brutal, e todos estamos pagando. 

A Síria também é aqui, não aquela da demolição das estruturas físicas e morais, mas a da demolição do estado social. Lula tem essa força de galvanizar mobilizações e esperanças; de outra parte, nas palavras de Antonio Cândido, ele teria a estatura de um radical, aquele que propõe transformações sem deixar de contemporizar. Talvez, e apenas um talvez, será oportuno que retome neste seu final de vida a grandeza da ousadia de seus primeiros dias, e que possa contribuir para a consolidação de uma esquerda verdadeiramente unida e mobilizada.