29 março 2017

As sequelas escravocratas

Eduardo, OsGêmeos e Dick Tracy nos baixios da praça Roosevelt

Nesta semana discutimos em sala de aula o capítulo As Raças e os Mitos do livro de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, que sempre contribui para compreendermos mais a formação social e política de nosso país. Em especial, são abordados dois pensadores conservadores do início do século XX, Nina Rodrigues e Oliveira Viana, fortemente influenciados pelo que se denominava então de evolucionismo social, com um olhar pessimista para a nossa miscigenação.

O olhar racista de Nina Rodrigues para nossa sociedade analisava o negro como raça inferior, e dessa forma, a herança de nosso mestiçamento marcada pelo "pelo equilíbrio mental instável que acarreta", inferindo-se, conforme Moreira Leite, que o brasileiro seria um desequilibrado. De Oliveira Viana, a descrição social pouco ou nada tem de científico, onde enaltece os sentimentos de uma aristocracia rural do início de nossa colonização, "não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura".

Moreira Leite desmonta passo a passo a construção dessa hipotética visão idílica de nossa sociedade; a esse respeito, vale a pena consultar as páginas de Tinhorão Ramos sobre o cotidiano tedioso e modorrento de nosso momento, mais animado nos espaços onde a festa e o batuque de negros escravos, quando permitida, se fazia presente. A aristocracia rural, para Oliveira Viana, constituía o "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade", por certo aqui influenciado pelos ventos do fascismo europeu que sopravam vigorosos nos anos 1930. 

A discussão em aula torna-se muito oportuna pois assim identificamos de algum modo a linhagem do pensamento conservador, machista e ainda com fortes elementos escravocratas de nossa elite econômica, que promoveu o golpe institucional para assumir as rédeas políticas, ao modelo da Velha República, para não dizer do Segundo Império. Nina Rodrigues e Oliveira Viana são apenas alguns dos representantes desse pensamento arcaico, que como Euclides da Cunha, Silvio Romeiro e tantos outros intelectuais formadores de opinião, escoravam-se nas teses do embranquecimento como o caminho para a virtude moral e o desenvolvimento da nação.  

As marcas desse pensamento derivadas da superioridade biológica persistem nos dias presentes, em manifestações regulares pelas redes sociais, reproduzidas por quem apenas se inspira em reproduzir e causar impactos, sem mensurar os efeitos, como também por esse universo medíocre de pseudo-intelectuais que se arvoram em buscar ideias às suas palavras. No extremo desse conduto de presunções, a bancada ruralista do congresso não se cansa de revelar pequenos Oliveiras Vianas.

Ao fim e ao cabo, a imensa e complexa realidade do povo brasileiro, mestiço, pobre e trabalhador, descartado como gênese e fundamento do nosso processo histórico e social. Para a construção de pontos de vista mais abrangentes é que estão aí os coletivos e os movimentos sociais, e a eles não resta alternativa senão lutarem renhidamente, pois nenhuma contemplação terá desses das classes dominantes. E felizmente sucedem-se os interpretes intelectuais adictos à análise crítica de nossa sociedade, Caio Prado Jr., Moreira Leite, Gilberto Freyre, Milton Santos, Florestan Fernandes, Jessé Souza, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manoel Bomfim e tantos outros, com os quais alimento-me e ofereço aos educandos. 

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Com regularidade bissexta tenho trabalhado com um texto muito oportuno, de Robert Pechmann, que discute o controle dos "vadios", os negros escravizados, em sua circulação pelo espaço urbano. A designação da vagabundagem, prevista como crime no Código Penal da colônia e do império, de algum modo ilustra a discussão acima, e incide diretamente em uma parcela sem direitos e arbitrariamente submetida da nossa sociedade. Destaco um trecho do texto de Pechmann, ligando-o ao vídeo Enquadro, um relato atual da realidade de nossas periferias urbanas.


Enquadro, reportagem de José Cícero da Silva, 2017
    
"Soltos no mundo, obrigados a perambular pela cidade à procura de sobrevivência, os 'vadios' são identificados na sua viração como desordeiros. Ninguém lhes perdoa a fluidez, mormente numa cidade escravista, cujo equilíbrio era conseguido, em grande parte, pela vigilância dos passos dos escravos. (...) Tidos como incapazes de educação e de princípios, os 'vadios' são vistos como tendo outra humanidade, representantes que são da 'anti-sociedade'."

(Robert Pechmann, Cidades estreitamente vigiadas, 2002).



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