16 fevereiro 2014

Sublime experimentação


Os alunos sabem apreciar uma aula expositiva. A palavra que se apresenta generosamente e seduz o ouvinte, o convida a interagir com o conteúdo apresentado, seus propósitos, sua importância. A construção da narrativa pedagógica incorpora assim a arguição aprimorada, cuidadosa, amparada pelo gestual envolvente, a refletir o prazer do educador com o tema. Em outras palavras, a performance corporal em completa sintonia com a fala. 

Minhas aulas deste semestre caminham cada vez mais neste espírito, em um contínuo convite à intervenção do aluno. Não vejo outro caminho para superarmos juntos as deficiências estruturais. As leituras são feitas e refeitas com antecipação, articuladas mentalmente e reproduzidas em tópicos. Em sala, os tópicos funcionam como ideias para uma argumentação mais densa, exposta de modo pausado, entremeado por espaços para a participação do aluno. Por alguma razão, talvez pela afinidade com a disciplina, pelo próprio comportamento ativo e interessado dos educandos, a satisfação do educador é imensa. 

Com a performance corporal, procuro conduzir a classe para o tempo histórico da discussão social. Ao falar com todos, não deixo de dirigir o olhar a cada um, não como forma de controle, mas como um convocação para interagirem com a narrativa em seus detalhes, seus deleites, suas dificuldades. Desta forma, os prazeres da viagem se prolongam por toda a aula, sem nos preocuparmos com o seu fim. Trago neste processo, sem dúvida, a experimentação que adquiri no acompanhamento dos saraus periféricos, no aprendizado com Paul Zumthor, a manifestação performática, dentre outras virtudes, promovida abertamente como fonte de eficácia textual.

Compartilho com eles a minha confiança, disseminando uma expectativa em especial, aquela de que poderão eles mesmos se apropriar da narrativa, ao tempo que desejarem. Não falham! Animamo-nos com a plasticidade dos fatos analisados, com o desenrolar das ideias e as interpretações possíveis. Não tenho dúvida em afirmar que a cada aula nos conscientizamos do valor de nossas discussões, que no final das contas, se incorporam efetivamente como parte de nossas vidas.

  

08 fevereiro 2014

relações estreitamente vinculadas

Sin pan y sin trabajo (Ernesto de la Cárcova)

'Em presença dos outros, o indivíduo geralmente inclui em sua atividade sinais que acentuam e configuram de modo impressionante fatos confirmatórios que, sem isso, poderiam permanecer despercebidos ou obscuros'.
Erving Goffman


comem a comida macia, sem exalar suspiros ou ruídos, tempo de recomposição das energias despendidas nos altos negócios. regozijam com o silêncio, justa pausa nas ávidas tensões. irmanam-se em torno do mesmo ideal, por um momento não se deixam fisgar pelo ritual dos movimentos de chegada e partida, de quem senta ou quem levanta. ou talvez sim, um bom tapinha nas costas de uma boa oportunidade de negócio, que esteja rolando ao lado da mesa, um 'curtir' facebookiano indispensável para não perder o prestígio. é hora de se alimentar, é hora de retomar as habilidades das mãos e das mandíbulas. uma procissão de gestos, os guardanapos a circundar metodicamente os lábios, as vozes amenas, o tilintar espaçado dos talheres na porcelana, as crianças disciplinadas em suas cadeiras especiais. apreensões imagéticas e sensoriais que se perderão para todo o sempre, mas que não deixarão de se reproduzir com o mesmo zelo, ou seja, nada se perde, tudo se recria. os sorrisos entediados dão lugar à seriedade do próximo ataque do garfo, ali o coq au vin, acolá o salmão poché, o profiterole como sobremesa. a senhora dos cortes demorados, o homem das garfadas compassadas, a jovem que rompe a sinfonia dos gestuais para silenciar a estridência do celular. foi o tempo certo para retomar as atividades, acaba de comer e os assuntos profissionais voltam a procurá-la. entre goles de café, insiste para que demitam a novata, aproveitem que ela perdeu a criança e volte a engravidar. A fala é macia, como a comida ingerida, pausada como os suspiros dos iguais, que simulam a naturalidade entediante dos que compreendem que ganhar dinheiro é, afinal, a resultante do bom gerenciamento em face das difíceis decisões...  


03 fevereiro 2014

Todos os esforços para deter o cidadão Silva


Hohe Strasse, 2010


Foi a primeira decisão das férias, pagar as contas em atraso no Centro Comercial. As festas de fim de ano cobravam, enfim, seu preço, de modo que lá se foi Gualberto Silva, uma caminhada até o ponto, cinquenta minutos no coletivo e mais um trecho do metrô. Desceu no calçadão e em poucos minutos (teria chegado mais rápido se não houvesse tanta gente aproveitando as liquidações de começo de ano) alcançou o destino. Poderia escolher uma de três entradas, optou pela principal, ao seu juízo mais ampla e acolhedora, e qual não foi sua surpresa quando logo foi detido. O segurança afirmou que não poderia permitir sua entrada. Gualberto Silva observou o homem, bem mais alto e forte, mas sem um argumento razoável para contê-lo. Em situações de tensão não conseguia exprimir-se, balbuciava sílabas, pedaços de frases, a gagueira o tolhia. Então sacou as três prestações do bolso e as brandiu próximo das narinas do sujeito. O intercomunicador ligado transmitia mensagens codificadas, QAP, prossiga...; informar o QTI... vozes espaçadas por um forte chiado. Permaneceram por alguns instantes um diante do outro, Gualberto Silva tentou pela direita, pela esquerda, foi contido. O segurança estava bem treinado, movia-se sem acrescentar uma palavra sequer ao já dito, não pode passar. Os gestos dos dois despertou a curiosidade da multidão que passava, até que um outro segurança, mais baixo e com um colete especial se acercou, e antes que fosse colocado a par do problema, informou a Gualberto Silva para que os acompanhasse. Mas que papo é esse?... e o mais baixo prontamente imobilizou, com toda a discrição, ao pobre Silva. Dirigiram-se a um trecho menos movimentado, um corredor de um branco imaculado, em que as paredes se confundiam com o piso e o teto. Ao final, uma porta, entraram e pediram para que Gualberto Silva se acomodasse. A mobília da sala era um conjunto de cadeiras, além de uma mesa de madeira. Pela porta oposta, atrás da mesinha, adentrou recinto um homem gordo, calvície avançada. Sentou-se diante de Gualberto Silva, olhou para os seguranças com uma expressão cansada e sem graça. Sem pressa, tirou do bolso um maço de cigarros, escolheu um, acendeu, deu uma longa tragada e ao final, mirou o elemento detido. É proibido fumar aqui, mas hoje me deu vontade... Outra longa tragada. O dia vai ser longo, mas que saco... Deu uma risadinha ridícula e olhou para Gualberto Silva, que por sua vez começava a se preocupar, atento aos movimentos ao redor. Estava isolado em um ambiente neutro, cercado por três sujeitos desconhecidos, que representavam a segurança do Centro Comercial e o fato, o tinham detido. Quis argumentar e balbuciou nervosamente, palavras entrecortadas que ampliavam a suspeita, fosse qual fosse. Quando percebeu, estava a dois passos do gordo, capturado e recolhido de volta ao banco pelos dois seguranças. É o seguinte, que porra você veio fazer aqui, cara? Cadê sua turma? Qual é o esquema?... A presunção dos gestos o indicava como chefe, Gualberto Silva por fim conseguiu mostrar as três prestações, Estou aqui para pagar estas... justamente quando o gordo as tomou, forjando analisá-las com seriedade. Retornou para trás da mesa, sacou o intercomunicador da cintura e chamou alguém pelo rádio. Em meio ao diálogo, disparou já sem paciência, Faça-me o favor, este é um caso 32-B, não é comigo, levem o elemento pro Xavier... O Xavier tá de folga, falou aos poucos o mais alto, Então vai lá pro Tobias, caralho... Gualberto Silva foi erguido e bem que se esforçou por argumentar algo, quando o segurança mais baixo o imobilizou e o grande, com seu jeito legal, acrescentou, Não, não fale... Aguardaram mais dois chegarem, um de óculos e outro careca, e todos os quatro mais Gualberto Silva, imobilizado, saíram silenciosos rumo à sala do Tobias. Tiveram de tomar os caminhos menos frequentados pelos clientes, o Centro Comercial estava cheio, era o primeiro fim de semana depois do rolezinho que conduziu mais de cinquenta jovens para o mesmo passeio restrito. O ar que se respirava era de desejo por compras, normal como sempre fora, nem uma referência a qualquer tipo de problema que só a direção perscrutava, deixando a segurança em prontidão máxima. Gualberto Silva deu azar de ser jovem, negro e estar muito à vontade quando entrou naquele templo do consumo. Agora caminhavam os cinco pelos caminhos interiores, novamente os corredores imaculados, entraram por uma porta estreita e Gualberto Silva foi despejado em uma sala maior que a anterior, com pelo menos outros quinze cidadãos de aparência suspeita retidos para averiguação. Havia mais seguranças, e lá na frente, o Tobias. O tempo escoou gota a gota, Gualberto Silva ainda imobilizado por uma correia de plástico tentava se indignar, mas era sempre lembrado pelo mais alto, Não, não fale... e posteriormente, Não, não se mexa... Parecia haver neste aviso um sinal de solidariedade, mas a frieza do comentário pareceu-lhe de fato uma construção de meses de treinamento. Um a um os suspeitos retirados de circulação foram trazidos ao Tobias, o interrogatório variava de acordo com a disposição do detido. A fila foi andando, os caras eram encaminhados para a mesma porta aos fundos, outros foram chegando, a sala não dispunha de ar condicionado, o cheiro de tensão e sofrimento percorria as narinas de seguranças e detidos, até que chegou a vez de Gualberto Silva. Tobias checou o documento de identidade, fez as perguntas olhando nos olhos do rapaz, que contido, desconfortável, vigiado, esgotado, respondia com a indignação possível. Por fim, sem que fosse necessário, Gualberto Silva exalou um derradeiro e perigoso comentário, Minha mulher e minha filha estão me esperando... como se isso pudesse acelerar a burocracia da detenção. O rádio do Tobias não parava, parecia que um verdadeiro sistema de segurança funcionava a pleno vapor, com várias instâncias sendo consultadas. Tobias avaliou as prestações, não queria dizer o que disse, Bom meu chapa é o seguinte, o Gileno, esse sujeito que está do teu lado - que era o mais alto - vai te conduzir quietinho até o Adamastor e lá ele resolve a situação... Gualberto Silva esperou pelo brinco colado na orelha que alguns antes receberam, mas era um eleito, safou-se na boa, foi erguido e conduzido por uma outra porta pelo Gileno, mais alto, mais ambíguo e mais sem graça, rumo ao Adamastor. Mais corredores, um trecho do terceiro andar do Centro Comercial, por um momento Gualberto Silva sentiu-se cidadão e compartilhou em seu deslocamento forçado com famílias que circulavam na praça de alimentação, momento de inesperado alívio, uma fresta de sagrado direito em que pode observar os casais de mãos dadas conversando, olhando para as vitrinas, crianças correndo, muitos jovens à vontade, sorrindo, passeando, namorando sem serem incomodados. A sala que entraram era quase exclusiva, Gileno despejou Gualberto Silva diante do Adamastor, nem cadeira para se acomodar. Havia uma pequena conferência, eram ao todo três, uma conferência de supervisores, chefetes da segurança, quando Silva chegou. O Adamastor se antecipou e tomou as prestações que o detido lhe mostrou. Na boa, parece que está tudo bem por aqui, não é mesmo?, ao que Gualberto Silva, já bem fatigado, concordou. Coisas do sistema, temos de separar o joio do trigo, nem sempre as coisas são o que são... e prosseguiu repetindo sobre as coisas, tentando convencer Gualberto Silva que as coisas, bem, que a sociedade de consumo não previa tamanhas transformações, que ali estava a prova de um espaço de insondável penúria no sistema capitalista, que era necessário entender que tudo continuaria sendo pensado naquela estrutura cautelosa e preconceituosa. Adamastor não pretendia que Gualberto Silva entendesse, e talvez nem soubesse explicar, ficava mais fácil assimilar que ele e sua equipe estavam apenas cumprindo ordens superiores. Liberado para, enfim, pagar suas prestações, Gualberto Silva foi acompanhado pelo Gileno, que era tão negro e das margens quanto ele. Gualberto Silva arriscou dizer algo quando foi liberado da correia, e mais uma vez e de modo mais suave o segurança lhe pediu, Não, não fale... dont speak!, de acordo com o aprendizado visando a Copa. Tomaram o elevador dos fundos, desceram, desceram e diante de um novo corredor, menos brilhante como os anteriores, o cidadão Gualberto Silva estava livre para se encaminhar à única porta disponível e que uma vez atravessada, se viu inopinadamente banhado pelo sol supremo de um lindo dia. Estava de volta à rua.


28 janeiro 2014

Virgilio Piñera



Tive contato com os textos do escritor cubano Virgilio Piñera vários anos depois de conhecer a obra de Kafka. Faço essa relação porque identifico pontos semelhantes na literatura de ambos que de algum modo me agradam, como as escolhas temáticas, o estilo seco, as elaborações evolutivas, enredadas em uma descrição extravagante (evito o termo absurdo), que proporciona ao leitor o saboroso estranhamento que nos faz persistir em meio aos delírios narrativos, estendidos às últimas consequências. 

Nos Contos Frios de Virgílio Piñera, cuja leitura retomo, me aproximo dos textos menos extensos e chama atenção o grotesco das situações cotidianas, que evoluem marcadas por fina ironia, a crítica que se converte em deboche das coisas menores de nossa condição humana. O crítico José Rodrigues Feo não fala de ironia, mas de humor: O humor tem em seus relatos as mais singulares manifestações. Em alguns provoca um riso saudável; em outros já nos deixa um sabor amargo na boca. O destino de seus personagens se revela no final da narrativa, o desfecho que os encerra em uma apreensão humorada, ou por vezes bem a propósito de Sísifo, os acomoda em um singelo desconforto, a sugerir uma continuidade (expiação?) indefinida.

Não posso negar a filiação direta em alguns de meus contos escritos nos começos dos anos 1990, quando o li pela primeira vez, como em O senhor Martinez ou Ônibus. Marcou-me em especial o modo que constrói sua narrativa, os fatos alinhavados em sua evolução teleológica, o tema lançado e desenvolvido em um processo linear e finalizado com a habilidade de um grande narrador. 

Abaixo, dois pequenos contos de Virgilio Piñera.

O INFERNO

Quando somos crianças, o inferno não é outra coisa senão o nome do diabo posto na boca de nossos pais. Depois, essa noção se complica, e então reviramos no leito, nas intermináveis noites da adolescência, tratando de apagar as chamas que nos queimam - as chamas da imaginação! Mais tarde, quando já não nos olhamos nos espelhos porque nossos rostos começam a se parecer com o do diabo, a noção do inferno resolve-se em um temor intelectual, de maneira que, para escapar a tanta angústia, nos pomos a descrevê-lo. Já na velhice, o inferno se encontra tão à mão que o aceitamos como um mal necessário e até deixamos ver nossa ansiedade por sofrê-lo. Mais tarde ainda (e agora, sim, estamos em suas chamas), enquanto queimamos, começamos a entrever que talvez poderíamos nos aclimatar. Passados mil anos, um diabo nos pergunta com cara circunspecta se sofremos ainda. Respondemos que a parte da rotina é muito pior que a parte do sofrimento. Por fim chega o dia em que poderíamos abandonar o inferno, mas energicamente rechaçamos tal oferecimento, pois quem renuncia a um costume querido?


NA INSÔNIA

O homem deita-se cedo. Não pode conciliar o sono. Dá voltas, como é de se supor, na cama. Enreda-se entre os lençóis. Acende um cigarro. Lê um pouco. Torna a apagar a luz. Mas não pode dormir. Às três da madrugada levanta-se. Acorda o amigo do lado e confia-lhe que não pode dormir. Pede conselho. O amigo lhe aconselha a dar um pequeno passeio a fim de cansar-se um pouco. Que em seguida tome uma xícara de chá de cidreira e que apague a luz. Faz tudo isso, mas não consegue dormir. Torna a levantar-se. Desta vez recorre ao médico. Como sempre sucede, o médico fala muito, mas o homem não dorme. Às seis da manhã carrega um revólver e estoura os miolos. O homem está morto, mas não pode dormir. A insônia é uma coisa muito persistente.

(Textos extraídos do livro Contos Frios, ed. Iluminuras, 1989)



09 janeiro 2014

Simone de Beauvoir




Antes de Jean-Paul, foi Simone quem me orientou e consolou na vida. Não a jovem Simone dos anos de ouro do existencialismo francês, mas a Simone mais velha, poucos anos antes da morte. Aos meus 23 anos, lá estava eu devorando A Cerimônia do Adeus, sem qualquer embasamento da filosofia existencial, mergulhando na narrativa límpida de uma história de vida que se projetou incessantemente, em meios a compromissos e engajamentos, para o futuro. A leitura desse percurso de vida me ofereceu a compreensão da angústia, e paradoxalmente me proporcionou um profundo consolo, ainda que sob as permanentes dúvidas do espírito. 

Fui lançado às circunstâncias objetivas da vida, de um modo franco, que me dizia claramente, "eis o que tens, agora, como proceder é contigo!". Difícil lembrar outra sugestão assim concludente. Não foi preciso antecipar o sentido de responsabilidade, a ausência de desculpas, a liberdade como condição humana, antessalas da filosofia sartriana, onde mais tarde me dedicaria com empenho. Não foi preciso nenhum tipo de misteriosa sedução: naquele momento, mais do que proteção, era meu desejo puramente assimilar novas possibilidades, e Simone de Beauvoir as ofereceu sob o gosto amargo de seu desconsolo.  

Os movimentos que compunham a cerimônia final, ao lado do homem amado que fenecia aos poucos, me propiciaram a apreensão de um olhar terno para a vida, enlaçado a esse destino assumido das nossas escolhas, que nos acompanha e nos renova a cada dia. As palavras de Simone, ao registrar em um diário o convívio com uma vida declinante, física e intelectualmente, me permitiu aproximar dessa complexa definição do mais genuíno amor humano. Pude senti-lo, revestido por descrições que se preocupavam com a chegada do fim, sem a hipocrisia dos sentimentos benevolentes. Ao contrário do que a crítica da época esperava, Simone apenas nos expressa seu amor, neste estágio prenhe de dor, sem deixar de olhar a irreversível a ampulheta da vida, o restinho de areia a esvair. 

Poucas vezes busquei outros livros de Simone e quando o fiz, retomei o mesmo sentimento de serenidade e de amor que vivenciei na leitura de A Cerimônia... Vieram depois partes de O Segundo Sexo, A Força das Coisas, breves passagens de entrevistas feitas com Sartre, além de literaturas secundárias, como a interessante biografia escrita por Claude Francis e Fernande Gontier, Simone de Beauvoir. Meu deslocamento para a filosofia de Sartre, simultaneamente ao meu interesse pelo círculo intelectual de Paris do pós-guerra, por certo se deu como extensão deste primeiro contato, destas primeiras e abundantes impressões, que me alimentam até hoje. 

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(...)
Tentei pôr ordem no quadro, à primeira vista incoerente, que se ofereceu a mim: em todo caso, o homem se colocava como o Sujeito e considerava a mulher como um objeto, como o Outro. Essa pretensão explicava-se evidentemente por circunstâncias históricas; e Sartre me disse que eu devia também indicar as bases fisiológicas. Estávamos em Ramatuelle; falamos disso muito tempo, e eu hesitei: não pensara em escrever uma obra tão vasta. Mas efetivamente, meu estudo sobre os mitos ficaria incompleto se não se soubesse que realidade eles recobriam. Mergulhei, portanto, nos livros de fisiologia e de história. Não me limitei a compilar; os próprios cientistas, e dos dois sexos, estão imbuídos de preconceitos viris, e eu tentei redescobrir, por trás de suas interpretações, os fatos exatos. Em história, destaquei algumas ideias que não encontrara em nenhum luar: relacionei a história da mulher à história da herança, o que quer dizer que ela me pareceu como um contragolpe da evolução econômica do mundo masculino.

Comecei a olhar as mulheres com um olhar novo e fui indo de surpresa em surpresa. É estranho e estimulante descobrir de repente, aos quarenta anos, um aspecto do mundo que salta aos olhos e que não era percebido. Um dos mal-entendidos que meu livro suscitou foi que se pensou que nele eu negava qualquer diferença entre homens e mulheres: ao contrário, ao escrevê-lo, medi o que os separa; o que sustentei foi que essas dessemelhanças são de ordem cultural, e não natural. Contei sistematicamente como elas se criam, da infância à velhice; examinei as possibilidades que este mundo oferece às mulheres, as que lhes são recusadas, seus limites, suas oportunidades e faltas de oportunidades, suas evasões, suas realizações. Compus assim o segundo volume [de O Segundo Sexo]: "A experiência vivida". (...)

(Simone de Beauvoir, em A Força das Coisas, Ed. Nova Fronteira, 2010)


04 janeiro 2014

Flavio Rangel


Acabo de ver um belíssimo documentário sobre um homem de teatro que tangenciou minha juventude e escapou para a eternidade, sem que eu, lamentavelmente, tivesse a oportunidade de conhecê-lo em suas habilidades profissionais e intelectuais. Na verdade a linguagem teatral sempre me acompanhou muito discretamente, foram raras as oportunidades em que me debrucei em leituras sobre autores, diretores, dramaturgos, e curiosamente nas poucas vezes que o fiz, me apaixonei. Creio que o teatro é bem isso, puro afeto, pura entrega de quem faz e de quem aprecia. Conto as vezes que isso aconteceu, uma ou outra peça, esta ou aquela atuação, Becket e Esperando Godot, aproximando-me de Cacilda Becker e Walmor Chagas; Sheakespeare, principalmente a partir das adaptações de Orson Welles; Ibsen e seu espetacular O inimigo do povo; as peças de Nelson Rodrigues no cinema; Os físicos, de Dürrenmatt; O Pai Ubu de Alfred Jarry, Os Pequenos Burgueses de Máximo Gorki, quantas mais?... De volta ao documentário, mal sabia o quanto este importante diretor e dramaturgo contribuiu para a linguagem do teatro brasileiro e o quanto seu trabalho propiciou, nos anos duros da década de 1960, um espírito de resistência cívica de que eu tanto procurava me alimentar, vinte anos mais tarde, nos estertores da mesma ditadura militar.

Refiro-me a Flavio Rangel, de quem como disse, me aproximei muito vagamente nos anos 1980, graças às suas colunas na Folha de São Paulo. Curiosamente nunca consegui sentir em seus textos a força e o carisma de sua personalidade, a riqueza de sua história no teatro brasileiro, sua presença como diretor preocupado em oferecer peças tradicionais em uma linguagem popular, em que todos pudessem desfrutar. De acordo com o generoso depoimento de Antunes Filho, ele se dava ao público, por sua elegância, por seu amor ao teatro. Ao seu testemunho seguiram os de pessoas igualmente generosas, imensas em suas qualidades como semideuses do teatro em suas diversas funções, como Milton Gonçalves, Ferreira Gullar, Dias Gomes, Bibi Ferreira, Gianni Ratto, Cleide Iáconis, Paulo Autran e tantos outros. O documentário, dirigido por Paola Prestes, chama-se Flavio Rangel, o Teatro na palma da mão, e é perfeitamente possível compreender o sentido do título, acompanhando o desenvolvimento a evolução da trama, desta personalidade tão intensa, dedicada, inquieta, voltada de corpo e espírito ao teatro. Uma força acompanhada do mais absoluto encanto que me envolve, que me conduz a escrever estas linhas descompassadas, aflitas pela incompletude e pelo desejo de saber mais, de querer mais de nosso teatro, dessa gente tão especial como Flavio Rangel.

Um Feliz 2014 a todos!


29 dezembro 2013

As partes do todo




Fazia alguns anos que não chegava por Ezeiza e quando me dei conta, estava no setor de desembarque, um saguão espremido entre um Café e quiosques e caixas eletrônicos. O imenso aeroporto estava às moscas, exceto aquele exíguo espaço, com umas cinquenta pessoas esperando alguma coisa, os derradeiros voos, a chegada de familiares, ou como eu, o último transporte rumo a Buenos Aires. O som inusual do sistema de som, ao estilo Quilapayun, vozes que entoavam solenemente uma canção popular. Não demorou e, em fila indiana, seguimos até o micro-ônibus, em um instante retomava meus pensamentos esparsos, minha lembrança desse momento seria os curtos solavancos nas entradas e saídas dos pedágios. Pensava em meu computador no bagageiro, saltitando espremido entre outras bagagens. Não era uma viagem inspirada, não tinha um programa definido, era tão somente um curto retorno, depois de quase seis meses. Só desejava chegar no hotel, tomar um banho, descansar um pouco e acordar bem cedo, para aproveitar o máximo do dia.

Foi uma jornada que me colocou em contato com os dois grandes problemas deste verão portenho, ou melhor, três, que juntos transformavam a cidade em um polvorín: o calor intenso, os cortes de energia e os bloqueios das avenidas, pelos movimentos sociais. Desde o governo Kirchner, estabeleceu-se a plena liberdade de manifestação de rua, de modo que me foi muito comum nestes últimos sete anos de visitas à Buenos Aires a expressão dos mais diversos grupos sociais ou políticos tomarem as avenidas com seus bumbos, cantorias e bandeiras. Mas desta feita, senti o exagero pois eles se multiplicaram pela cidade, bem o percebi ao percorrer as quadras centrais, Callao, Corrientes, Florida. No caminho, desgarrei-me para as livrarias e os cafés. Alcançava o tempo bondoso, como disse sem qualquer inspiração, movido pelo desejo em ver e ouvir a realidade ao redor, mesmo sob as áridas circunstâncias que se apresentavam. 


Muitos estabelecimentos, como hotéis, restaurantes e espaços de comércio, utilizavam geradores barulhentos. No hotel em que me hospedei era audível o ronronar abafado pelos vidros antiruído. Foi perceptível identificar os quarteirões sem energia no final das tardes, pelo apagão que os envolvia. A situação foi explorada pela oposição (e aqui, inclua-se os veículos midiáticos) e pelo oficialismo. De um lado, a crítica por um governo sem um projeto de desenvolvimento energético para o país, de outro, a condenação pública das duas empresas (Edesur e Edenorte) responsáveis pelo abastecimento de energia da capital. A princípio, me pareceu óbvia a incompetência de empresas que deviam cumprir com seus contratos e não o faziam. Mas os embates transcendiam o problema, avançando para o custo de vida, inflação, inapetência governamental. 

O turbilhão midiático mais uma vez explorando politicamente as fragilidades escancaradas do que chamam governo K. Posteriormente, em um texto do Le Monde Diplomatique Brasil, assinado por Roberto Reyna, encontrei um bom argumento sobre as posturas recentes em especial do grupo Clarín. Em permanente confronto contra a Ley de Medios, Reyna afirma que A linha editorial do jornal Clarín (...) (tornou-se) mais errática e com um tom fortemente agressivo em relação ao governo. Utilizando discurso semelhante ao utilizado pela mídia hegemônica aqui no Brasil, o conglomerado midiático argentino assume sua posição editorial como a única voz crítica existente no país, como se isso justificasse o tom oposicionista.

O que sobressai é o desgaste. Segundo o Instituto Verificador de Circulaciones, em dois anos (2010-2012) o jornal perdeu um quinto de seus leitores. Para Reyna, o cidadão se vê em meio a um confronto sem fim, perdendo em parte o interesse pela prática política: A notícia, como matéria-prima básica da tarefa do jornalista, tornou-se um bem escasso e o principal prejudicado foi o cidadão, que passou a não ter acesso a dados imprescindíveis para formar opinião. De outro lado, tenho visto em alguns momentos que o jornalismo pró-governo se perde no enredado de suas avaliações, tornando-se igualmente desinteressante para o público. Algumas sessões recentes do programa 6,7,8, que no seu momento inicial surgiu como um saudável contraponto às opiniões hegemônicas da mídia, me pareceram por demais panfletários, perdidos em sua causa. 

Seja como for, há algo mais no ar, em torno do debate entre mídias em nossa Latinoamérica, e que certamente não explorarei aqui, mas deixo indicado: a formulação de um discurso forçosamente desgastante, com propostas ideológicas distintas, uma (a dos conglomerados privados) a forçar o cansaço da opinião pública e assim abrir um flanco para explorar futuros ganhos políticos; outra (oficialismo) manter a ferro e fogo um discurso de defesa em nome das conquistas populares - no caso argentino, associando à tradição do peronismo - apostando na preservação do poder.  


Minhas experiências desta feita me pareceram lânguidas, um pouco influenciadas pelo que me pareceu o 'espírito de final de ano' dos portenhos, ou seja, um desinteresse crônico, um estar-aí voltado essencialmente para o consumo. Cheguei antes das grandes levas natalinas de turistas (brasileiros), e o calor certamente contribuiu para o notável refluxo nos espaços públicos, com alguma exceção nas áreas tradicionais de compras, as Galerias Pacífico, a Florida, a Santa Fé.

Em uma das noites, acompanhei na TV pública (Canal Encuentro) uma entrevista de Roberto Rossellini a Joaquín Soler Serrano, pela RTVE.es realizada em 1976 ou 1977. Serrano formulava suas competente abordagem sobre o percurso do cineasta em espanhol, e Rossellini respondia em italiano. Mesmo que a conversa não estivesse legendada, seria muito fácil compreender o mestre, O realismo é sempre uma questão sobre a posição do homem em relação à vida, do homem em relação à sociedade, do homem em relação à realidade das coisas, não?



Tamanha foi a impressão que me causou o formato e a qualidade da entrevista, que mais tarde procurei por outras, encontrando uma esclarecedora entrevista do escritor Ernesto Sábato, propondo como saída para este mesmo homem tematizado por Rossellini, um novo projeto comunitário, em que prevalecem os valores e o espírito do convívio humano. Dois nobres artistas de nosso tempo, pensando humildemente suas obras, voltadas não para o sucesso, mas para os desígnios do ser humano.  

Deslizei por sob as sombras das marquises, ainda que o incômodo climático estivesse quase insuportável apenas no primeiro dia, terça-feira, com sensação térmica em torno dos 40 graus. Foi a desculpa para me enfurnar principalmente nas livrarias e ali esquecer do tempo. Reencontrei uma obra que desde minha última visita à cidade (julho) me solicitava, o ótimo La extraña no-muerte del neoliberalismo, de Colin Crouch, e em minha leitura randômica, é possível que tenha encontrado uma explicação para a crise energética portenha:

(...) em muitas privatizações, as parcerias público-privadas incorporam as empresas privadas ao tempo que limitam o papel do mercado, demonstrando uma vez mais o cerne da política neoliberal, cada vez mais (voltada) para as empresas do que para os mercados. Enquanto durar o contrato, a autoridade pública contratante perde sua possibilidade de exercer seu poder como cliente, e não há necessariamente um elemento de opção de mercado para o consumidor final, usuário do serviço. O cliente da empresa contratada é a autoridade pública que adjudicou o contrato. A empresa contratada não possui nenhuma relação de mercado com os usuários, enquanto que o público também perde seu direito 'cidadão' de reclamar à autoridade pública, pois esta já não é responsável pelos detalhes da prestação de serviços.  

Neste retorno nada de literatura, apenas referências bibliográficas em sociologia e comunicação, como o interessante Fans, Blogueros y Videojuegos, de Henry Jenkins, ferramenta destacada para a pesquisa em que participo sobre cosplays. Um trecho sugestivo:

Os fans são caçadores inquietos e furtivos que roubam apenas aquilo que realmente amam (...). Ao abraçar os textos populares, os fans reivindicam tais textos como seus, refazendo-os à sua imagem e semelhança, forçando-os a responder às suas necessidades e a satisfazer seus desejos. As fans convertem Star Treck em cultura feminina, transformando-a de ópera espacial em novela romântica feminina, de maneira que sacam à superfície o contratexto feminino no escrito que se oculta nas margens do texto masculino escrito. (...) O consumo torna-se produção; a leitura torna-se escritura; a cultura do espectador torna-se cultura participativa. 


Uma visita às Madres de Mayo, na Hipólito Irigoyen, como não poderia deixar de ser. O espaço permanece convidativo, sempre com novos painéis ou ambientes, saudando o peronismo kirchnerista pelo grande apoio que tanto Néstor quanto Cristina empenharam à causa dos desaparecidos políticos e pela responsabilidade dos culpados. De certo modo continuo me sentindo bem ao visitar o local, por reconhecer em ambos governos uma recuperação dos direitos sociais e trabalhistas na Argentina. A livraria, embora menos abundante que em outros tempos, continua a atrair, principalmente com títulos sobre a história social. As mesas normalmente estão disponíveis para que o visitante permaneça lendo ou escrevendo, enquanto degusta un cortado con empanada


Ainda sobre a questão dos desaparecidos, é comum abrirmos o Página 12 e encontrarmos notas de familiares e amigos dos desaparecidos políticos, normalmente na data natalícia do sequestro. Como no dia 21, o caso de Gerardo Alvarez, a chama que não se apaga:

A 36 años de tu secuestro y desaparición, tus compañeros de militancia exigimos justicia y castigo para tus verdugos. No perdonamos, no nos reconciliamos, exigimos cárcel y castigo a los genocidas.

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Tinha pensado em uma nota sobre minhas impressões gerais desta espacialidade central de Buenos Aires, espaço de grandes decisões políticas, de inúmeros encontros poéticos, de fecunda inspiração musical. A brevidade desta passagem não me permite um aprofundamento diferenciado em relação a outras visitas. Posso agregar, porém, uma percepção muito vaga, que me surge de um olhar distanciado, a de que as disputas políticas entre oposição e oficialismo desagregam tanto o espírito cívico como a forma estética da cidade. 

A cada retorno, e eles ocorrem com regularidade nestes últimos sete anos, constato perdas cumulativas em seus mais diversos significados. Como descrever sucintamente estas impressões? Não são robustas o suficiente para traduzir-se em palavras, de modo que prefiro defini-las como sensações, sentimentos que brotam em mim com o desejo de justificar o mundo que capturo. Sensações que por mais angustiadas, não modificam meu afeto pela cidade, por suas representações históricas, políticas e culturais. 
   



08 dezembro 2013

Um outro Rio



Uma destas situações em que não incorporamos devidamente os sons e os gestos do lugar, passamos por ele sem sentir, sem saborear. Eram pouco mais de onze horas da manhã e embarcava para o Rio, cidade mágica, para uma entrevista no Iuperj, uma bolsa de pós-doc. Levei o mínimo suficiente, minha pasta com um netbook, as provas do dia a serem corrigidas, meu projeto de pesquisa e um pequeno caderno, para eventuais anotações. Um salto alucinado, mal chegaria, já estaria retornando. Tomei as precauções de reservar as passagens para horários amplos, ir pela manhã, voltar à noite, sendo que a banca ocorreria no meio da tarde. 

Desembarquei pouco após o meio-dia, tomei o Premium, o ônibus especial que liga o Galeão ao Santos Dumont e lá me fui, com boa margem de tempo, avançando pelo trânsito caótico da avenida Brasil e Presidente Vargas. O dia estava generoso, aberto, mais de trinta graus, mas eu percorria um outro Rio, longe do mar, do azul, da poesia visual... Nem sentia a temperatura local, amenizada pelo ar condicionado do veículo. Avançávamos lentamente, as reformas na região portuária nos seguravam em meio a uma paisagem de veículos, de poeira, ingrata, tão parecida com qualquer grande cidade, um Rio em preto e branco. 

Desci próximo à Candelária restando menos de trinta minutos para a entrevista. O prédio do Iuperj é bem ao lado, fiz o trajeto de duzentos metros caminhando lentamente, no meio do caminho, a avenida Rio Branco. Comprei um saquinho de caju e com a pasta a tiracolo, cheguei à esquina histórica. Um trânsito infernal, muitos coletivos com diversos destinos, a ausência de faixa de pedestre, atravessei aos bocados, quando o vermelho conteve o fluxo da antiga avenida Central. Foi meu primeiro momento de satisfação por sentir-me no Rio, ainda que de modo efêmero. Ao cruzar a pista da Rio Branco, pude desvelá-la em perspectiva, imaginando a Cinelândia e mais além, o aterro do Flamengo e o mar.

Antes de subir até o sexto andar do prédio número 7 da Praça Pio X, tive um tempinho para ir até o agradável espaço do Banco do Brasil e tomar um café. Quando cheguei ao sexto andar, ainda aguardei por meia hora até o início da minha entrevista, quatro andares acima, na reitoria. No corredor de espera, encontrei uma doutora que participaria do concurso como eu, mas em Relações Internacionais. Conversamos sem pressa, ela expressando-se segura em seus argumentos, em um tom baixo e suave, relatando-me circunstâncias da política externa do Brasil, em especial voltada para os direitos humanos, tema de seu doutorado. Logo chegou seu marido, um homenzarrão jovem, advogado, de modos e olhares cuidadosos, porém aberto a uma boa conversa. Ela é chamada e ficamos, eu e ele conversando sobre concursos, política, Milton Santos... 

Sou convocado a ir ao décimo andar, e lá ainda aguardo alguns minutos antes de me posicionar diante da mesa. O processo durou mais do que as vezes anteriores e foi mais consistente, tanto nas indagações quanto em minhas falas. Falei um bocado das periferias paulistanas, da Cooperifa, dos jovens e suas oficinas culturais, Sérgio Vaz, Ferréz, Alan da Rosa, os saraus, tudo surgiu à baila, num jorro saboroso e terno, e meus argumentos fluíam como minha passagem no Rio, rápida, atenta, carregada de desejos, e só percebi que tocou um ponto sensível em meus examinadores quando falei da Semana de Antropofagia Periférica, Oswald nas margens! Um deles cutucou o outro dizendo, 'viu, antropofagia...', como se eu tivesse falado a palavra mágica.

Despedimo-nos mais uma vez entre sorrisos e sem sair do prédio, procurei um espaço live no andar para a correção das provas, que tinha de lançar no sistema naquele mesmo dia. Recebeu-me uma jovem estudante, que me ofereceu um canto confortável, na sala que me pareceu uma parte da biblioteca do instituto. Avancei bem nas correções e de quando em quando me detinha para olhar através da janela ao meu lado, divisando em cheio a Candelária, por um ângulo inédito, de cima para baixo, tão próxima e tão histórica, com um ar abatido pelas pixações. Intervalos em que também refletia sobre a presença negra no Rio, tão perceptível, tão natural e simpática, em todos os momentos, a presença incorporada como de fato deve ser, coexistindo sem dramas com a parte branca e com os ritmos da cidade. A jovem doutora na antessala, a estudante que me recebeu na biblioteca, os jovens retornando comigo ao Galeão, profissionais bem remunerados, comunicando-se em inglês com turistas, vivendo plenamente a vida social, sem as reservas que identifico regularmente em minha cidade... 

Faltavam umas dez provas e decidi iniciar a volta. Caminhei até frente do hotel Guanabara, na Presidente Vargas e aguardei no ponto comum a todos os ônibus, o conhecido Premium, conduções metálicas azuis e nada especiais no conforto, como sugere o nome, a não ser pelo preço majorado, 11 reais. Comprei dois pacotinhos de amendoim na banca em frente e após longa espera, surgiu o coletivo. Embarque para logo em seguida o desembarque: a máquina pifou. Saímos todos, sob o sol escaldante, sob os ruídos incessantes, para muitos papos animados, e depois embarcar em um outro veículo e prosseguir até o aeroporto. No retorno não revi o Corcovado, que na chegada me alimentou o imaginário, confirmando-me como um dos poucos ícones a serem apreciados nesta furtiva visita...

Eram mais de 19h e estava de volta ao Galeão, minha primeira vez ali. Nenhuma simpatia, o lugar está submerso em reformas, o que fez minha espera de duas horas um pequeno martírio sonoro. Retomei as provas que faltavam, o cansaço começou a me reter os movimentos e os pensamentos. Só me restava fragmentos, as imagens da bela mulher da minha vida, a possibilidade de trabalhar no Rio, os desejos de um convívio prazenteiro... Demorou para que, por fim, pudesse me sentar na poltrona do avião e relaxar. Ainda esperaríamos outro tanto, pois um dos passageiros passou mal e se retirou, e com ele suas bagagens já embarcadas.

Foi mais um desses voos discretos, em que mal temos tempo de pensar na vida, meros quarenta minutos, é o que me distancia do Rio e de tantas diferenças culturais! Ainda tive de fazer um derradeiro esforço nesse movimento alucinado e sem pausa, para encontrar um local e lançar as notas, pois não teria tempo de chegar em casa e encontrar o sistema aberto. Na Paulista, ao descer do ônibus, o nosso 'Premium', entrei em um hotel e solicitei permissão para utilizar o wi-fi, bendita solução digital. Foi então que pude utilizar, pela única vez, meu notebook e aos poucos registrar uma a uma as notas dos alunos, em meio a vagos pensamentos.