04 janeiro 2014

Flavio Rangel


Acabo de ver um belíssimo documentário sobre um homem de teatro que tangenciou minha juventude e escapou para a eternidade, sem que eu, lamentavelmente, tivesse oportunidade para conhecê-lo em suas habilidades profissionais e intelectuais. Na verdade a linguagem teatral sempre me acompanhou muito discretamente, foram poucas as oportunidades em que me debrucei em leituras sobre autores, diretores, dramaturgos, e curiosamente nas poucas vezes que o fiz, me apaixonei. Creio que o teatro é bem isso, puro afeto, pura entrega de quem faz e de quem aprecia. Conto as vezes que isso aconteceu, uma ou outra peça, esta ou aquela atuação, Becket e Esperando Godot, aproximando-me de Cacilda Becker e Walmor Chagas; Sheakespeare, principalmente a partir das adaptações de Orson Welles; Ibsen e seu espetacular O inimigo do povo; as peças de Nelson Rodrigues no cinema; Os físicos, de Dürrenmatt; O Pai Ubu de Alfred Jarry, Os Pequenos Burgueses de Máximo Gorki, quantas mais?... De volta ao documentário, mal sabia o quanto este importante diretor e dramaturgo contribuiu para a linguagem do teatro brasileiro e o quanto seu trabalho propiciou, nos anos duros da década de 1960, um espírito de resistência cívica de que eu tanto procurava me alimentar vinte anos mais tarde, nos estertores da mesma ditadura militar.

Refiro-me a Flavio Rangel, de quem como disse, me aproximei muito vagamente nos anos 1980, graças às suas colunas na Folha de São Paulo. Curiosamente nunca consegui sentir em seus textos a força e o carisma de sua personalidade, a riqueza de sua história no teatro brasileiro, sua presença como diretor preocupado em oferecer peças tradicionais em uma linguagem popular, em que todos pudessem desfrutar. Conforme um bonito depoimento de Antunes Filho, ele se dava ao público, por sua generosidade, por seu amor ao teatro. A ele se seguiram pessoas igualmente generosas, imensas em suas qualidades como semideuses do teatro em suas diversas funções, como Milton Gonçalves, Ferreira Gullar, Dias Gomes, Bibi Ferreira, Gianni Ratto, Cleide Iáconis, Paulo Autran e tantos outros. O documentário, dirigido por Paola Prestes, chama-se Flavio Rangel, o Teatro na palma da mão, e é perfeitamente possível compreender o sentido do título, acompanhando o desenvolvimento a evolução da trama, desta personalidade tão intensa, dedicada, inquieta, voltada de corpo e espírito ao teatro. Uma força acompanhada do mais absoluto encanto que me envolve, que me conduz a escrever estas linhas descompassadas, aflitas pela incompletude e pelo desejo de saber mais, de querer mais de nosso teatro, dessa gente tão especial como Flavio Rangel.

Um Feliz 2014 a todos!


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