22 dezembro 2024

Derradeiros passos encharcados


Foto de Harold Feinstein, 1969

Negociou com um Zé-ninguém a execução, um sujeito que mora num bairro distante. Sai para ver à distância o crime, um longínquo sentimento de amor e ódio o conduzem. Encontra na emoção forte – o assassinato que irá presenciar e a relação com a sra. Gubrech – o elixir para desencantar sua narrativa (e não sua vida - confusão entre realidade e ficção).

O dia chuvoso do crime. O sr. Martinez se emociona ao se preparar para ir ao local. Ônibus para a Paulista. Chuva forte, a água que alaga as calçadas e escoa como cachoeira pelas ruas transversais. O trânsito. Protela ao máximo, faltam duas horas, quer chegar antes e observar por alguns minutos o homem que desconhece seu destino.  

Pensa: Como serão os derradeiros passos encharcados do desconhecido? Afinal, por que esse pobre homem foi o escolhido? Não faz ideia. Certa vez, o viu em uma banca de livros na rua. Vestia uma camisa vermelha e como não gosta de vermelho, pronto, decidiu. Desloca-se então e encontra o sujeito, em sua brutal insignificância, no lugar de sempre. Está a poucos metros dele, sente asco. Desiste, não quer ver o desenlace contratado. 

Agora se exaspera: é o matador que não cumprirá o trato. Torce por isso. Tenta avaliar um contraplano que impeça o avanço da engrenagem. Circula pela Paulista. A água sendo retirada por rodos pelos empregados. Caos, desaba o mundo em água, foi uma péssima ideia se refugiar no Conjunto Nacional. O nível de água sobe, sufoca, desfalece, não sabe nadar, submerge aos poucos, sem que encontre alguma ajuda redentora.



10 dezembro 2024

Novas e nem tão frescas aragens




No domingo, houve a queda do governo Bachar al Assad, na Síria. As informações são desencontradas, embora tendam a aliviar as análises do grupo que tomou o poder, outrora um braço da Al Qaeda. Divulgam-se as notícias de que o ogro foi derrotado, amparadas por depoimentos de populares que temiam o ditador. A verdade é que a Síria deverá permanecer fragmentada, mais ou menos como ocorreu na Líbia, onde não foi possível (ou não foi permitida) até hoje a reconstrução da nação. 

Neste mundo de controle e segurança os velhos déspotas podem cair, mas o que se sucede é o fracasso da unidade política e a consequente fragmentação dos interesses, cada qual sustentado pela geopolítica redigida pelas potências militares, os novos déspotas. Há pouco lia uma matéria que apresenta o conceito tecnofeudalismo, do economista grego Yanis Varoufakis, onde, de modo rápido e simplista, "a extração de valor tem se deslocado cada vez mais dos mercados e para plataformas digitais, que operam como feudos ou propriedades privadas". O tema não vem ao caso, talvez discutirei em outra ocasião, já estou cansado disso. Do meu ponto de vista, a manu militari com suas ogivas e foguetes apenas comparece para corroborar o poder do capitalismo e dessa sua nova roupagem, basta que vejamos, por exemplo, como Elon Musk dá as cartas a partir de seus interesses.  

Nada parece satisfazer a alguém, e ao mesmo tempo todos permanecem felizes com esses desmembramentos das nações, ou com o poder das plataformas digitais. No primeiro caso, anula-se a presença política anterior, enquanto se escancara as portas da exploração das riquezas naturais; no segundo caso, amplia-se a sensação de liberdade pelo direito ao consumo, com a subsequente preservação das relações capitalistas e tecnofeudai). Nações desmembradas não têm como influir em seus destinos: por mais que as populações demonstrem alívio, a verdade é que elas permanecerão em um estado de subalternidade, com um ganho desprezível de liberdade individual. E padecerão cada vez mais pobres, vide a Argentina de Milei, um sucesso para o chamado mercado, uma agonia para o grosso da população. 

Esse prolongado enfraquecimento da voz social deseja se confundir com a difusão dos direitos individuais. Mas o silêncio permanece, estressa, segrega, e se manifesta no fim das contas como um ensinamento covarde para a sobrevivência.     



28 novembro 2024

E assim caminhamos...

 

O jazz, raiz popular e negra

Sai o pacote de corte de gastos do governo Lula, tão esperado pelo mercado, e então, um dos resultados que não agradam ao mercado, isenção de IR a quem ganha até 5.000 reais, e aumento (nada tão chocante) para aqueles que ganham mais de 5 milhões por mês (taxa de 10%). Vejo a indisposição e o desagrado das classes dominantes e seus representantes no Congresso, que questionam e buscam novas negociações. É isso, os ricos não querem de maneira alguma fazer parte de um esforço por mais justiça na distribuição de renda. Mobilizam-se com incrível facilidade, e devem impor modificações. Como é desagradável tudo isso. Desagradável e exaustivo. A fala do ministro da Economia, Haddad, foi realizada com todo o cuidado. Uma explanação cautelosa e didática, mas isso certamente não encontra ressonância nas classes abastadas e que ainda se consideram donas do Brasil. O esforço do governo para amenizar as perdas das classes menos favorecidas e oferecer mais oportunidades é vista com desprezo por essa aristocracia escravocrata, e claro, por seus capitães do mato. Quanta dúvida a respeito do esclarecimento! Avançamos nas meias-verdades, desinformando o público em geral, e por trás dos noticiários pouco elucidativos, uma poderosa engrenagem de desinformação e notícias falsas segue atuando com força total, não só questionando o ajuste dos gastos, como trabalhando arduamente para inocentar os golpistas de 2023, sejam eles militares, cidadãos inocentes úteis, o próprio Bolsonaro. Como diria meu amigo Kruger, durma-se com um barulho desses.



25 novembro 2024

Clube dos senhores



 

Um grupo de homens de meia-idade se reúne nas noites de sábado e se organiza em duplas, na busca de emoções pela cidade. Retrato de uma dupla em especial, o sr. Martinez e o sr. Ruben, este um argentino, que circula por espaços no centro, bares, praças, terminando no café de um cinema, observando o movimento. Encontros ascéticos, que conseguem amenizar o tédio das noites do domingo. Sem dinheiro, homens decadentes como suas metrópoles, rememoram os bons tempos enquanto apreciam as belas senhoras da fila de ingressos.  

Como desdobramento do Clube dos Senhores, surge a cantina em que passam a se encontrar diariamente, onde uma convocatória feita por cartas pessoais informa que apenas os dez senhores convocados seriam atendidos em determinado horário. Encontram-se todos os dias e as refeições já estão postas quando chegam, duas a duas em mesas separadas, sem que apareça qualquer atendente. O pagamento, cinquenta centavos por dia, basta deixar sobre a mesa. Podem desfrutar por trinta minutos, quando então uma campainha intermitente determina que devem deixar o local.



06 novembro 2024

Entre a brandura e a revolução


O argumento do radicalismo fascista  

Penso na brandura dos partidos de esquerda em nosso Brasil, o respeito pelo processo democrático e o desejo da disputa árdua, porém dentro das normas estabelecidas. Além do que, gosta de tratar os partidos de oposição como adversários políticos, e não inimigos, como os regimes de excessão cívico-militares na América Latina nos ensinou. 

Alguém poderá me dizer que esqueço de Cuba, e respondo preservando uma linha de análise histórica, uma hipótese que pode ser discutida em sua amplitude, porém não descartada, que o regime cubano enrijeceu na proporção do enrijecimento das medidas político-econômicas conduzidas pelos EUA. Por exemplo, acredito que Cuba não teria abraçado o marxismo-leninismo se o embargo não tivesse acontecido. E aconteceu de maneira desumana. Os irmãos Castro não eram marxistas-leninistas, afirmaram isso logo no início, porém, após os primeiros meses da revolução, as ações diretas do Pentágono se tornaram gradativamente mais intolerantes, culminando com a tentativa fracassada da Baía dos Porcos, em abril de 1961. O legado de Eisenhower foi o plano da malfadada invasão; Kennedy o realizou e Johnson jamais pensou em rever o bloqueio estabelecido pelo seu predecessor. Daí para a frente, as disputas da Guerra Fria deram as cartas e quando ela terminou, nos anos 1990, emergiu a arrogância desenfreada do capitalismo, que até os nossos dias busca sancionar tudo o que não for submisso aos ditames da ordem capitalista (neoliberal).

O que quero dizer com todo esse preâmbulo é que desde o PTB do governo Jango, para delimitar um período, e passando pelo PT de Lula, perdemos a oportunidade de tomadas de decisões que agregassem o poder econômico ao poder político, ou, políticas mais arrojadas, que delimitassem um poder popular democrático e orgânico, envolvendo todo o tecido social. Cito como exemplo o arrojo político de Brizola, no governo do Rio Grande do Sul. Em 1964, sua proposta de resistência ao golpe cívico-militar poderia ter levado a democracia à derrota, como de fato ocorreu, mas forjaria uma ideia perene de resistência organizada, o que nunca aconteceu em nosso país. A decepção não ficou restrita à esquerda ou ao nacionalismo popular brasileiro, se considerarmos os desdobramentos politicos na Bolívia de Juan José Torres, no Chile da Unidade Popular, no Uruguai da Frente Ampla, na Argentina do envelhecido peronismo com Perón.

Ao analisarmos o comportamento dos partidos de esquerda que estiveram no poder nos últimos sessenta anos de nossa história, contabilizamos a brandura permissiva que nos deixa hoje à mercê de uma maioria congressual conservadora até a medula, misógina, intolerante, que sustenta a iniciativa política com um forte discurso agressivo em uma luta de vale-tudo pela manutenção dos privilégios. Essa iniciativa já absorve as mazelas das populações mais carentes, marginalizadas, seduzindo-as a cada eleição ao incorporá-las em sua agenda política. Se esses grupos conservadores instalados no poder de fato irão retribuir o voto dos mais pobres em seu projeto político, isso vamos ver. 

De outra parte, falemos francamente: o que os partidos de esquerda fizeram para, de fato, obter a hegemonia, esse processo pedagógico que objetiva a formação de intelectuais orgânicos, nos mais diversos setores sociais, como proposição de uma nova ordem em construção? Nada, ou muito pouco. A construção de uma nova hegemonia necessita de uma profunda reforma (mudança, transformação) moral e intelectual do sujeito social. Conforme Gramsci, uma mudança moral e intelectual não pode deixar de estar ligada a um programa de mudança econômica". Entendemos o que quer dizer com isso.

Na Argentina de Milei ocorre o mesmo movimento sísmico da prevalência dos interesses políticos, os grupos dominantes da sociedade que desde sempre deram as cartas e viviam nas sombras, agora contam com poderosa representação no executivo e no Congresso para a manutenção do poder real. Esse poder real se estrutura em torno da mídia hegemônica, do judiciário, das corporações financeiras, da sociedade rural agroexportadora, uma elite eternamente voraz, disposta a levar às últimas consequências o mundo maravilhoso do ganha-ganha econômico e político. Ao que tudo indica, eles seguem as orientações de Gramsci com muita competência.

Resta crer que, no subterrâneo dos rincões abandonados, nos fundões mais agrios das villas e das favelas, persiste uma energia cívica, fragmentada e ultrajada momentaneamente, e que não se quebranta. Por mais distantes que estejamos de uma hegemonia moral, intelectual e econômica, como sugere Gramsci, a revolta fantasmagórica pode, em algum momento, e de modo muito forte, retomar o voluntarismo da caminhada pelas grandes alamedas da verdadeira democracia social.


30 outubro 2024

Psicopatia política


Foto de Enrico Natale


Para se assumir uma função de destaque na diplomacia, há que se ter sangue de toureiro, e estar preparado para muitas noites insones. Para se assumir uma posição na diplomacia que esteja contra o mundo, há que se comportar como um psicopata, ou em outras palavras, ter um desprezo pelo mundo. Mais uma vez foi votada na ONU, de maneira inequívoca, a condenação pelo bloqueio que os EUA impõem contra Cuba. Foram 187 votos pela resolução, uma abstenção (?) vinda da Moldávia, e os dois solitários votos contrários, Estados Unidos e Israel. Nada muda: a posição do governo estadunidense prossegue férrea, não apenas mantendo o embargo econômico, comercial e financeiro, como estabelecendo sanções contra as empresas que o rompem. Nada muda, o isolamento, a deterioração econômica, o sofrimento da população cubana prosseguem, como se ainda estivéssemos nos tempos da Guerra Fria, como se Cuba, de fato, representasse uma ameaça à segurança e à existência dos EUA. 

Em uma inesperada resolução diplomática, a Argentina votou contra o embargo, na Assembleia da ONU. Terá sido uma decisão à revelia do ministério de Relações Exteriores? Como consequência, Milei exonerou a chanceler Diana Mondino. Em comunicado oficial, o escritório da presidência declara que "iniciará uma auditoria do pessoal de carreira da Chancelaria, com o objetivo de identificar os impulsionadores de agendas inimigas da liberdade". Ou seja, a perseguição macartista (e não a liberdade) avança.

Enquanto isso, o novo objetivo atacado pelas forças de Israel no Líbano foi Baalbek, cidade designada como Patrimônio Mundial da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 1984. Existem exemplares bem preservados de templos romanos, alguns datados de 3.000 anos. Como em outras situações, em outras partes da Palestina e do Líbano, a população é obrigada a se deslocar, em razão dos ataques preparados contra alvos do Hezbollah.  


23 outubro 2024

Estesia noturna


Acervo do autor


O que me desperta a atenção não é apenas o silêncio que se instala repentinamente, mas a absoluta ausência de ação. De um tempo para cá, o início das madrugadas se passam semelhantes, umas vezes mais, outras menos: vou até a janela da sala e fico sob a luz mortiça da noite, observando a não-presença de pessoas, de carros, de animais, de vento, de ruído, em uma rua que durante o dia tem o porte e o volume de uma avenida. Em frente, a faculdade absorve para depois despejar centenas de estudantes. Ao redor, bares e restaurantes carregados de clientes, de conversas. Nas galerias, o clima convidativo da primavera leva as pessoas a sentarem nos bancos públicos na companhia de seus cães. É interessante morar em uma centralidade com escritórios e apartamentos residenciais. Ao lado, o cinema com as sessões regulares e seus habitués, principalmente nesse período de Mostra Internacional. As calçadas estreitas revelam, pela manhã, um fluxo para um lado, e à tardezinha, para o outro, no sentido do metrô. Só os indigentes não têm movimento determinado e ficam pelos caminhos. À essa altura da madrugada, suas queixas também serenam, sob seus cobertores encardidos. Então, lanço meu olhar para dentro da sala e vislumbro outra classe de apaziguamento, a quietude de meu amor. Ela, com seus cabelos longos e cacheados, ocupa a mesa de trabalho, e lê, redige, estuda. E me encanta. De tudo, agora, ouço apenas o rumor da chuva, não se pode dizer que foi repentina, as chuvas, como a peste, o amor e as palavras, se anunciam de alguma forma. Talvez seja ela a razão pela quietude profunda de hoje. Não tenho sono, e sob o aroma aprazível da noite, me aproximo da grande mesa e me acomodo silencioso, ao seu lado.   


07 outubro 2024

Gaza, Argentina, São Paulo


A obra de Netanyahu


Hoje completa 12 meses, um ano, de combates e destruição em Gaza. São contabilizados 42.000 mortos, sendo 16.750 crianças e 10.000 desaparecidos, números que mesmo Kanafani ou Said teriam dificuldades em imaginar. Pouco ou nada sobrou do pequeno território palestino de 360 quilômetros quadrados. E não há previsão no horizonte de expectativas de paz duradoura. A propósito, não vejo mais a chance de que, depois dos ataques recentes ao Líbano e Síria, seja possível algum tipo de acordo fechado em uma mesa de negociações. Ela, quando vier, será estipulada pelos Estados Unidos e União Europeia, de acordo com os propósitos estipulados pelo governo Netanyahu. Simples assim. Se não existe qualquer confiança do governo israelense para com os palestinos, agora mais do que nunca são os palestinos que não têm qualquer confiança em um acordo equânime com Israel. E nem pensar no Hezbolah e no Irã. Qualquer cessar-fogo duradouro parece ter ficado absolutamente impossível neste ano que passou. Ainda não há notícias sobre os 97 reféns restantes nas mãos do Hamas, o que parece incrível depois de uma ocupação minuciosa de Gaza. A eliminação de Nasrallah e de praticamente todo o comando do Hezbolah, os bombardeios contínuos no Líbano fazem com que Netanyahu não se detenha em sua sanha sanguinária, até o ponto de restaurar à sua maneira alguma paz na região. O forte ataque do Irã há uma semana mantém pendente uma retaliação israelense, que não se sabe como nem quando ocorrerá, mas que em todas as hipóteses, ampliará dramaticamente o cenário de destruição e morte.

Depois das marchas dos aposentados e, na semana passada, das universidades, o governo Milei sentiu mais uma vez a voz das ruas. A grande questão que fica é, até que ponto esse ruído afeta um presidente que dá mostras de não se incomodar nem um pouco com o bem-estar da população. Nos dois casos, vetou o aumento de verbas para ambas as categorias, sob a patética desculpa de não comprometer o equilíbrio das contas públicas. Balela! O impacto no orçamento não passaria de 0,14% do PIB argentino, o que, mesmo para quem diz que no hay plata, o valor é irrisório. Considerando que a inflação prevista para este ano estará em torno de 150%, praticamente sem reposição salarial, com perdas acumuladas do poder aquisitivo, o cenário de pobreza, atualmente em 52,9% da população, só tenderá a aumentar. 

Guilherme Boulos (PSOL) e Ricardo Nunes (MDB), o atual prefeito, disputam o segundo turno em São Paulo, ficando de fora o candidato surpresa destas eleições, Pablo Marçal. Um outsider sem qualquer profundidade intelectual, e que ficou menos de 1% atrás de Boulos (56 mil votos), o segundo colocado. O mais absurdo foi que, durante uma hora, das 17h35 às 18h39, o segundo turno indicava Nunes e Marçal! A grande pergunta: quem é capaz de ser seduzido pelas "ideias" de Marçal? O fato é que, ainda que o PT tenha feito a maior bancada de vereadores, 8 no total, ela é irrisória diante da frente de partidos conservadores e de direita, que deverão controlar a Câmara. No total, os partidos progressistas, incluindo o PT, não soma 20 das 55 cadeiras, prometendo problemas em um eventual governo Boulos - o que me parece muito difícil de acontecer. No Brasil também prevaleceu uma onda conservadora, que deixa as perspectivas para as eleições de 2026 bem sombrias.