26 outubro 2021

Paulina Chiziane

Paulina Chiziane

As grandes premiações pelo mundo costumam ter o mérito (mas nem sempre) de lançar para o público leitor nomes de escritores raramente considerados pela mídia corporativa. Neste ano, surgiram dois nomes bem desconhecidos, Abdulrazak Gurnah, escritor da África negra premiado com o Nobel de Literatura (o que não acontecia desde 1986), e Paulina Chiziane, escritora negra moçambicana, imortalizada pelo prêmio Camões. Um duplo acontecimento espetacular, sem dúvida grandioso, e tal como a passagem do cometa Halley, levará décadas para se repetir!

Tomo o caso da premiada lusófona, Paulina Chiziane, o que sabíamos dela? Muito pouco. Eu, particularmente, nunca tinha ouvido falar e nesse sentido, demonstro a falha inadmissível de meu desinteresse. Paulina já faz parte do acervo de algumas editoras brasileiras, como a Dublinense (O alegre canto da Perdiz) e a Companhia das Letras (Niketche). Ainda não houve tempo para me debruçar em sua narrativa, mas assisti a diversas entrevistas suas, dadas em Moçambique, Portugal e até aqui no Brasil. 

A primeira delas, a mais longa (1h e 17 min) e mais recente (maio deste ano), foi a que me apresentou à Paulina de maneira profunda. Impressionou a delicada contundência de suas revelações. Sua fala é explícita, sensível, não se furta em avaliar os temas propostos, por mais espinhosos. Expõe, por exemplo, sua postura dura contra a hipocrisia dos grupos religiosos, "a oração é levada como uma receita fácil (...) usam a capa da oração, que não passa de uma atitude hipócrita", que trouxeram pouca compreensão ou conforto espiritual quando esteve em tratamento psíquico, há uns dez anos. 

A doença mental trouxe de algum modo o lado bom dessa dolorosa experiência, ao entender melhor os valores do mundo social. Juntamente com a decepção com os grupos de oração e com as pessoas "dos grandes salões", teve as pessoas anônimas que lhe estenderam a mão. Sua fala discorre sem atropelos ou rancor, apenas relata os momentos difíceis desse momento em que esteve no chão. 

Como ela diz, conseguiu curar-se ao concentrar-se em si, "todo fim é o princípio de uma vida nova (...) o fato de eu estar muito só deu-me força". É muito bonito quando ela diz que "não acredito em Deus, tenho a certeza!...". Descarta a fé, pois entende ser uma crença induzida por alguém e repete, tenho a certeza! (da existência de Deus). O que não impede que seja uma mulher de pensamento livre, profundamente defensora da africanidade na cultura, na educação, apontando o preconceito e a ignorância pelo desinteresse em se conhecer a história, "falar de África é falar de mim, de minha existência, da minha resistência (...) falar de África para mim significa dizer: acorda!".

Um momento sublime da entrevista é a descrição do "ponto alto" na vida, quando foi convidada para a Feira de Frankfurt e ficou sentada em uma mesinha, apartada do galpão onde se encontravam os grandes escritores. Foi o que a fez conhecida, perguntavam quem é aquela mendiga? Pois era uma mulher simples, e uma escritora com histórias a contar. Histórias que nos ajudam a desvelar a vida, as crenças, os costumes cotidianos de um imenso continente explorado e vilipendiado, a África.


20 outubro 2021

Tangidos e motivados

 

Tutlingen, 1989


"No fundo, vivemos de sobras e nos damos por felizes com isso. Sobras de salário, de tempo, de espaço, de paciência, de sonhos, de prazeres. Não nos alegramos mais com a imensidão convidativa, mas com os bocados proibidos, e nos esfalfamos cada vez mais para obtê-los. Só duas coisas contradizem essa, digamos, norma da existência pós-moderna, que se espraiam indefinidamente. Uma é a miserabilidade, plena em sua amargura, outra é a presença de deus, plena em sua bondade. Entretanto, usufruí-las não resulta de conquistas humanas, mas da imposição daqueles que possuem as maiores sobras. E assim vamos sendo tangidos, motivados pelas cartilhas de autoajuda, entusiasmados com a tecnologia e felizes em podermos adquiri-la com as migalhas espargidas pelo caminho."

 

(in Diários, 19 de dezembro de 2006)



06 outubro 2021

Julio Ramón Ribeyro - um conto

 


Se há uma beleza neste texto do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994), ela está na habilidade com que descreve uma Lima que vai aos poucos desaparecendo, em meio à especulação do espaço urbano do final dos anos 1950, quando escreveu o conto. Mas há mais belezas, se podemos chamar assim, situadas nas contradições dialéticas da narrativa, que conduz o leitor para Lince, subúrbio do subúrbio, desses lugares que proliferaram mais ou menos na mesma época nas urbes latino-americanas - conforme registra o historiador argentino José Luis Romero em seu Latinoamérica: las ciudades y las ideas - onde as periferias que se formam sob o fluxo migratório já nascem abandonadas, desprovidas de equipamentos e de dignidade. 

Ou poderíamos recuperar as descrições do real maravilhoso em Carpentier, com seus imbricados encantos e dramas cotidianos, onde se inscreve os desígnios do barroco latino-americano. Em Lince a beleza regurgita e se desdobra em múltiplas feições: se pronuncia em seu duro oposto, a miséria generalizada, de onde se estrai o gesto solidário, sem compromisso. O olhar inquieto do autor, no aparente olhar atento de seu personagem principal, nos revela o súcubo que suga a força vital das pessoas. 

Ramón é um estranho no lugar, e não terá as informações que deseja. É a mão visível de um capitalismo que expropria até as vísceras, e todos no bairro lhe negam informações. Mas mesmo essa mão visível que aparece para escavar ainda mais, dotada de mínima compreensão da condição humana, é capaz de sensibilizar-se. Ou ao menos de suspender seu papel de capataz indolente. A concisão do relato, um conto de quatro páginas, é mais do que suficiente para compreendermos a vertigem imobiliária, suas vítimas - criminalizadas pelo discurso dominante - e os vestígios humanos, que apenas amenizam a violência das disparidades sociais.

   

Endereço equivocado

Ramón deixou o escritório com a pasta de documentos sob o braço e se dirigiu à avenida Abancay. Enquanto aguardava o ônibus que o conduziria a Lince, se distraiu contemplando a demolição das velas casas de Lima. Não passava um dia sem que era posto abaixo um solar da época da colônia, um balcão de madeira talhada ou simplesmente uma dessas aprazíveis quintas republicanas, onde em outros tempos se forjou mais de uma revolução. Por todas as partes se levantavam altivos edifícios impessoais, semelhantes aos que havia em cem cidades do mundo. Lima, a adorável Lima de adobe e de madeira, ia se convertendo em uma espécie de quartel de concreto armado. A pouca poesia que restava se refugiava nas pracinhas abandonadas, em uma ou outra igreja e em uma vintena de casarões principescos, onde velhas famílias definhavam entre pergaminhos e daguerreótipos amarelados.

Essas reflexões não tinham nada que ver, evidentemente, com o ofício de Ramón: detector de devedores contumazes. Seu chefe, nesta mesma manhã, lhe havia ordenado que fizesse uma pesquisa minuciosa por Lince para encontrar a Fausto López, cliente nefasto que devia para a firma quatro mil soles em tinta e papel de imprensa.

Quando desembarcou do ônibus em Lince, Ramón sentiu-se deprimido, como em cada vez que percorria esses bairros populares sem história, nascidos há vinte anos pela arte de alguma especulação, mortos tão logo encheram alguns bolsos ministeriais, pobremente enterrados entre a grande cidade e os luxuosos balneários do sul. Viam casinhas achatadas de um andar, calçadas de terra, trilhas poeirentas, ruas retilíneas enevoadas onde não crescia uma árvore, uma planta. A vida nesses bairros latejava um pouco nas esquinas, no interior das vendas, animadas pelos proprietários e por bêbados.

Consultando sua pasta, Ramón se dirigiu a uma casa da vizinhança e percorreu seu longo corredor perfurada de portas e janelas, até uma das últimas casas.

Bateu à porta por vários minutos. Por fim ela se abriu e um homem sonolento, com uma camiseta esburacada, espreitou com o tronco.

- Aqui vive o senhor Fausto López?

- Não. Aqui vivo eu, Juan Limayta, encanador.

- Nessas notas indica este endereço - alegou Ramón, mostrando os documentos.

- E daí? Aqui vivo eu. Procure em outro lugar - e fechou a porta.

De volta à rua, Ramón ainda percorreu outras casas, indagando ao acaso. Ninguém parecia conhecer a Fausto López. Tanto desconhecimento fazia Ramón pensar em uma ampla conspiração distrital, destinada a ocultar a um de seus vizinhos. Apenas um homem lembrou vagamente.

- Fausto López? vivia por aqui, mas faz tempo que não o vejo. Parece que já morreu.

Desalentado, Ramón entrou em uma mercearia para uma bebida. Apoiado no balcão, próximo a um banheiro pestilento, sorveu vagarosamente sua coca-cola. Quando pensava em regressar, derrotado, ao escritório, viu entrar na mercearia um garoto que tinha nas mãos uns programas de cinema. A associação foi instantânea. No ato o abordou.

- Onde você pegou essa programação?

- Da minha casa, de onde poderia ser?

- Teu pai tem uma impressora?

- Sim.

- Como se chama seu pai?

- Fausto López.

Ramón respirou aliviado.

- Vamos até lá, preciso falar com ele.

No caminho conversaram. Ramón soube que Fausto López possuía uma impressora de mão, que havia mudado havia alguns meses a poucas quadras de distância e que vivia de imprimir a programação para os cinemas do bairro. 

- Quanto te pagam para distribuir a programação.

- Meu pai? Nem um centavo! Os donos dos cinemas me deixam entrar grátis para assistir os seriados.

Nos bairros pobres também há categorias. Ramón teve a impressão de estar pisando o subúrbio de um subúrbio. Já os pequenos casebres haviam desaparecido. Apenas se viam becos, altos muros dos cortiços com sua grande porta de madeira. Minguaram os postes de iluminação e surgiram as primeiras valas carregadas de imundície.

Próximo dos trilhos, o rapazinho se deteve.

- É aqui - disse, indicando uma passagem sombria - A terceira porta. Eu vou embora porque tenho de distribuir tudo isso pela avenida Arenales.

Ramón deixou o menino partir e ficou por um momento indeciso. Alguns garotos se divertiam atirando pedras na vala. Um homem apareceu, assoviando, vindo da passagem e lançou em suas águas o conteúdo duvidoso de um penico.

Ramón adentrou até a terceira porta e a golpeou várias vezes com os punhos. Enquanto esperava, lembrou das recomendações de seu chefe: nada de ameaças, cortesia senhorial, espírito conciliatório, confiança contagiosa. Tudo isso para não intimidar ao devedor, regressar com o endereço exato e poder iniciar o juízo e o embargo.

A porta não se abriu, entretanto, uma janela de madeira, pequena, como a moldura de um retrato, deixou a descoberto um rosto de mulher. Ramón, desprevenido, se viu tão subitamente frente a essa aparição, que apenas teve tempo de ocultar a pasta com os documentos às costas.

- O que deseja? O que há? - perguntava insistentemente a mulher.

Ramón não tirou os olhos daquele rosto. Algo nele o fascinava. Talvez o fato de estar demarcado pela janelinha, como se se tratasse de uma cabeça guilhotinada.

- O que você quer? - prosseguia a mulher - A quem procura?

Ramón titubeou. os olhos da mulher não o abandonavam. Estava tão perto dos seus que Ramón, pela primeira vez, se viu introduzido no mundo secreto de uma pessoa estranha, contra sua vontade, como se por negligencia tivesse aberto uma carta dirigida a outra pessoa.

- Meu marido não está! - insistia a mulher - Saiu de viagem, regresse outro dia, eu lhe rogo...

Os olhos seguiam cravados nos olhos. Ramón seguia explorando esse mundo sem espaço,, presa de uma súbita curiosidade, não como quem contempla os objetos que estão detrás de uma vitrina, mas como quem trata de reconstruir a lenda que se oculta por trás de um encontro. Somente quando a mulher continuou seus protestos, com a voz cada vez mais desfalecida, Ramón se deu conta que esse mundo estava deserto, que não guardava outra coisa que uma duração dolorosa, uma história marcada pelo terror.

- Sou vendedor de rádios - disse rapidamente - Não quer comprar um? Nós os fazemos muito baratos, a prazos.

- Não, não, rádios não, já temos, nada de rádios! - suspirou a mulher e, quase asfixiada, fechou violentamente o postigo.

Ramón ficou por um momento diante da porta. Sentia uma insuportável dor de cabeça. Colocando sua pasta sob o braço, abandonou a passagem e se pôs a caminhar por Lince, procurando um táxi. Quando chegou a uma esquina, pegou o documento, o contemplou por um momento e debaixo do nome de Fausto López escreveu: "Endereço equivocado". Ao fazê-lo, todavia, teve a suspeita de que não procedia assim por justiça, nem sequer por essa virtude suspeita que se chama caridade, mas simplesmente porque aquela mulher era um pouco bonita.

(Tradução do original em espanhol Dirección equivocada, Editora Catedra, Madrid, 2017).

(Atualizado em 24.11.2021). 



05 outubro 2021

Chá nas Montanhas, ano 13

 

Comemorando com uma grande taça de café!

Muito feliz e entusiasmado por ver o blog completar 13 anos de atividade contínua! Feliz porque não foi fácil chegar até onde chegamos; em diversos momentos houve um impulso para encerrar as atividades, fosse pelo conjunto de tarefas que se acumulavam na vida, fosse por pensar que, afinal, já se tratava de um modo de comunicação superado. Em outras situações, a dificuldade mesma em encontrar um objeto para análise. E o entusiasmo surge em cada texto redigido, em cada poesia traduzida, em cada imagem selecionada, o que me dá imensa  satisfação em vê-los publicados.

Aos poucos, percebi a importância de se ter um lugar de reflexões como este, pelo delicado prazer em escrever. E escrever me ofereceu sempre a possibilidade de expressar pontos de vista sobre, principalmente, a situação política do país. Aos poucos ficou claro que não havia a necessidade de um objeto único de análise, que poderia ser um blog abrangendo tanto temáticas como gêneros diversos. 

Ultimamente, por exemplo, tem prevalecido as pequenas biografias, que me animam porque tornam-se minhas breves homenagens a personagens da política, das letras, da educação, que estiveram muito presentes e de algum modo modificaram a minha vida. E quando não são esses adoráveis personagens, trago partes de trabalhos pessoais, eventualmente em coautoria com minha querida Mônica, que publicados em revistas científicas, lidam sobre assuntos significativos desde o meu ponto de vista.

Minha peça Terra Devastada, que comentei por aqui sua conclusão há três meses, terá uma leitura pública no Mackenzie ainda este mês. A próxima postagem, que se constituirá na 700a. publicação do blog, é a tradução de um conto do injustamente esquecido escritor peruano Julio Ramón Rybeiro, que deve entrar entre hoje e amanhã. 

O Chá das Montanhas transformou-se, aos poucos, em uma realização pessoal indispensável no meu dia-a-dia. Permanecerá como um espaço de reflexão, de projetos, de homenagens, como também de indignação, de luta, de comentários objetivos, mas nunca imparciais.

Vida longa ao Chá nas Montanhas!! 



28 setembro 2021

Victor Serge

Victor Serge no México

No livro Memórias de um revolucionário, à página 362, há uma delicada descrição de Serge, prestes a ser transferido para algum lugar não definido pela GPU, como se designava então a polícia secreta soviética: "O velho Eltsin, tolhido pelo reumatismo, vivendo num quartinho gelado, numa casa sem banheiro, quando lhe perguntei, 'Devo fazer no exterior uma campanha de imprensa para exigir a sua saída?', disse: 'Não, meu lugar é aqui' ". 

Serge, favorecido por sua dupla cidadania, belga e soviética, e por uma campanha intensa dos intelectuais europeus, conseguia, depois de três anos como deportado nos confins do Casaquistão, ser banido da URSS. Sua descrição sobre esses espaços ignotos e sem-fim impressionam pela simplicidade do processo: após dias e mais dias de transporte ferroviário, o condenado era desembarcado e entregue à própria sorte, tendo que se apresentar regularmente à sede local da GPU. Temperaturas rigorosas no inverno e verão, subempregos e as transferências constantes para outros rincões faziam da luta pela vida uma tarefa íngreme. Sobreviveu, segundo suas palavras, por não ter capitulado nos interrogatórios que amargou por apoiar Trotski e outros velhos revolucionários que faziam parte da Oposição ao regime de Stalin. Caso tivesse admitido algum dos crimes que lhe eram falsamente imputados, certamente não teria recuperado a liberdade.

Eltsin, assim como outros companheiros de Serge, Bobrov, Guirchek, Bielienki, que lutaram pela construção do socialismo na URSS, sofriam o desterro que, pouco tempo mais tarde, culminaria em seus desaparecimentos. Tinham participado da tomada do palácio de inverno, da guerra civil e depois da economia de guerra, do "passo atrás" da NEP, dos debates acalorados no Comitê Central que propiciaram, já no final dos anos 1920, a implantação da coletivização forçada e da aceleração do processo de industrialização. 

As palavras de Eltsin conformam a aceitação do destino imposto a muitos revolucionários, de variadas tendências, deportados como valorosos bolcheviques, "meu lugar é aqui", palavras ditas sem quietismo, simplesmente se aceitava beber o cálice amargo até o final. Isso nos levaria, de imediato, às descrições vívidas de Serge dos rincões perdidos na Rússia, enfiados nas estepes esquecidas, sempre piolhentas e esfomeadas, relatos que, pela sua densidade, pela ignomínia, envolve um processo semelhante para cada um dos desterrados. Não o farei aqui.

Victor Serge acabou banido da URSS em 1936, no auge dos processos de Moscou, rumo à França, graças ao forte apoio de entidades políticas e intelectuais atuantes da Europa ocidental. Sua preocupação era escrever, produzir sua literatura sob vários gêneros, relatando as experiências do exílio, a poética, as perspectivas políticas. É sugestivo passar por suas páginas das Memórias..., para se conhecer a deturpação stalinista do que deveria ser o comunismo. Fica também claro, pelo menos para mim, que os desígnios do comunismo democrático não passariam exclusivamente pelos caminhos propostos por Trotski, Bukharin, Preobrazenski, ou mesmo Lênin, mas certamente por uma conjunção de todas essas tendências. Naqueles anos turbulentos seria difícil que as escolhas políticas e econômicas mais acertadas lograssem sucesso.

A morte de Lênin, prematura, em janeiro de 1924, acelerou disputas internas que imobilizariam, durante os cinco anos seguintes, a instalação de um comunismo ao menos funcional, com uma cara minimamente humanista, voltada para a elaboração de uma sociedade que abraçasse a realização dos novos ideais. A guerra civil, que tomou três anos da jovem república, retardou de modo decisivo o início de um programa socialista, distorcendo-se com a ascensão de Stálin, então o regente de uma burocratização que imobilizaria o partido e o conduziria ao poder absoluto.

A sociedade soviética igualmente se imobilizaria, tanto pelo cansaço como pelo terror que recrudesce e que paulatinamente elimina os mecanismos democráticos de decisão. Não é por acaso que surge uma oposição da qual Serge fez parte, não como uma ação sectária, mas como o desejo de resistir ao rolo compressor burocrático. A partir de 1934, com o assassinato de Kirov, o estado policial se instaura e com isso, extingue-se toda e qualquer oposição interna, com o fim físico dos velhos bolcheviques. 

Pode-se estar ou não de acordo com o relato de Victor Serge, mas é inquestionável a qualidade da narrativa, que nos leva a vivenciar a crueldade das deportações. Trotski primeiro, e mais tarde o próprio Serge, escaparam da humilhação ao serem banidos. E ser banido representou o apagamento de intensa participação nas heroicas jornadas revolucionárias. Seu texto surge de maneira crua ou poética, dependendo da circunstância. É curioso notar que o filho adolescente o acompanha em todos os momentos mais sombrios; sua esposa, doente, passou parte do tempo internada em um sanatório de Moscou. 

Serge ainda escaparia das garras do nazismo, na última badalada, para o exílio final no México. Lá passaria a última etapa da vida, falecendo aos 57 anos incompletos.



22 setembro 2021

Juan Gelman, uma poesia (2)

 



Pedro o pedreiro


Aqui amarão, aqui odiarão, dizia Pedro, pedreiro,

cantando, levantando as paredes

suas mãos haviam se endurecido no ofício

mas nas palmas, ainda se elevavam doçuras e tristezas

que iam de encontro ao muro, ao teto

e depois, com o tempo, ardiam surdamente

ou entravam nos olhos das mulheres doces nas habitações

e elas entristeciam como quem se descobre uma nova solidão.


Pedro, desde o andaime

costumava cantar o Quinto Regimento,

falava aos companheiros sobre Guadalajara, Irún,

e de repente se fechava silente com sua Espanha.


De noite colocava suas mãos para dormir

e se via de volta à frente, envolto em seus balaços,

arrematava seus mortos para que não se esquecesse

a colher de novo se enchia de raiva.


E na manhã que se foi do andaime parecia

que uma pergunta, no fundo, ainda o iluminava

os companheiros o rodeavam esperando em silêncio

até que alguém veio e disse, "Levantem o defunto".


(Do original em espanhol, Pedro el albañil, extraído da obra Gotán, Seix Barral, 2008) 



15 setembro 2021

Paulo Freire, 100

 

Era assim o começo de cada semestre

Um dos reconhecidos prazeres de liberdade de cátedra é o educador ter a autonomia de montar seu curso e criar em sala de aula. E criar um ambiente de participação efetiva com o que se debate. Este foi o meu caso, nos últimos anos de minha atuação como professor, junto a alunos oriundos majoritariamente das áreas mais precárias da metrópole. Foi um tempo em que foi possível lançar luzes em autores indispensáveis para a nossa formação social, tais como Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Antonio Cândido, dentre outros. Não havia a chateação que deve ocorrer agora, de professor ter de seguir um conteúdo programático previamente definido, engessado, vigiado, e ao romper com isso, ser chamado de ideólogo, ou doutrinador, ou alguma bobagem desse tipo.

Tempos de realização profissional, de passar por diversas disciplinas das Ciências Sociais Aplicadas, de Filosofia a Antropologia, de Teorias Sociais a Teoria Política e encontrar uma estimulante receptividade. Lembro que era comum nos divertir, eu e os alunos. Com a ajuda de imagens, o que amenizava as dificuldades do aprendizado para muitos alunos que deparavam pela primeira vez com temas tão complexos, era possível ilustrar os acontecimentos históricos, sociais, culturais, dar carne aos autores que estudávamos, criar sentido para as narrativas, e deixar que eles analisassem e julgassem livremente. Quando digo que nos divertíamos, era comum o final da aula chegar e muitos alunos, ao redor da mesa, seguir nos comentários sobre os conhecimentos apreendidos.

Certamente nesse processo o aprendizado foi mútuo. Logo compreendi que um tema que parecesse árido, absolutamente desconhecido, podia se transformar numa agradável surpresa, e nesse sentido, valia muito o esforço coletivo para chegar a uma didática que revelasse o sentido de cidadania, de percepção do processo histórico. Sobrevinham os assuntos, Canudos, escravidão, casa grande e senzala, sociedade colonial, golpe militar, o homem cordial, dentre outros tantos, e imbricados nesses grandes painéis, os aspectos presentes da vida cotidiana, como a desigualdade social, o negro como subalterno, a mulher cerceada em seus direitos, a força e o abandono das periferias urbanas e por aí afora.

Começávamos o semestre com uma aula mestra, que iria orientar o caminho a ser percorrido, a pedagogia de Paulo Freire. Eram aulas que resultavam em intervenções performáticas, pois a partir de um determinado momento tamanho era meu envolvimento me transfigurava, incorporando a beleza do significado de podermos constituir ferramentas  para melhor compreendermos o mundo ao redor e, ao final das contas, interagir como atores sociais. Sentia-me conduzido pela naturalidade da pedagogia freireana, e muito animado em observar que tudo fazia sentido para os educandos, que absorviam os desígnios da prática libertadora como ação cultural do ser humano. 

Era difícil esgotar o tema, era difícil chegar a um resultado final, e ficava bem assim, o horizonte aberto para novas revelações, que viriam ao longo do curso. Paulo Freire foi vital para que pudéssemos, educador e educandos, conceber utopias a partir de nossa realidade. Nunca naqueles cinco anos surgiu um aluno que invectivasse as etapas de seu método, ao contrário, não foram poucas as vezes que se produziram calorosos olhares e impressionados comentários, como fruto de uma necessidade orgânica, visceral, que precisasse ser exalada e redimensionada.  

Minha condição de educador ficou muito facilitada ao incorporar às aulas aquele manancial de ação cultural, que com a sequência do curso se transformava em caudaloso rio, cuja força e beleza nos tornava um pouco mais sujeitos cognoscentes, um pouco mais cidadãos inquietos, absortos na problematização dos temas cotidianos, a refletir de maneira crítica os fatos. Seria a mais pura falácia observar nesse processo de aprendizado algum grau de doutrinamento, pois é justamente isso que Paulo Freire condena - o indivíduo automatizado, imerso em uma empobrecida memorização alienante. 

Era por demais livre e autônomo para dar chances a um grilhão desse tipo. Foi saudável incorporar, como propunha Paulo Freire, "a esperança utópica na busca da transformação social", começando pela transformação de cada um de nós.

(atualizado em 16.09.2021)



01 setembro 2021

Antonio Machado - provérbios

Antonio Machado

 

PROVÉRBIOS E CANTARES (CXXXVI)

 

XXIX

Caminhante, são tuas marcas

o caminho, e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz o caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho,

e ao olhar para trás

se vê a trilha que nunca

se há de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho,

senão estrelas no mar.


XLI

Bom é saber que os vasos

nos servem para beber;

o mal é que não sabemos

para que serve a sede.


XLIV

Tudo passa e tudo fica,

porém o nosso é passar,

passar realizando caminhos,

caminhos sobre o mar.


XLVI

À noite sonhei que ouvia

a Deus, gritando-me: Alerta!

Logo era deus quem dormia,

e eu gritava: Desperta!


PROVÉRBIOS E CANTARES (CLXI)


I

O olho que vê não é

olho porque tu o vês;

é olho porque te vê.


XVII

Em minha solidão

vi coisas muito claras

que não são verdade.


XXXI

Após o viver e o sonhar,

está o que mais importa:

despertar.


LXVI

Prestais atenção:

um coração solitário

não é um coração.


(Traduzido do original em espanhol Poesías Completas, Editorial Espasa Calpe, 1975)