12 maio 2016

A montanha pariu um rato, ou, A propósito do impostor Temer


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“(...) Algo aqui se anima e se remexe... Suavemente, deixo cair o braço ao longo do corpo, com a mão encolhida como uma colher. E o milagre se produz. Pelo túnel da manga, desce uma migalha de vida. Levanto o braço e estendo a palma triunfal.

Suspiro e a multidão suspira comigo. Sem me dar conta, eu mesmo dou o sinal do aplauso e a ovação não se faz esperar. Rapidamente se organiza um desfile assombroso ante o rato recém-nascido. Os entendidos se aproximam e olham por todos os lados, certificam-se de que respira e se mexe, nunca viram nada igual e me felicitam de todo o coração. 

Mal se distanciam uns passos e já começam as objeções. Duvidam, levantam os ombros e balançam a cabeça. Houve tramoia? É um rato de verdade? Para me tranquilizar, alguns entusiastas planejam levar-me em seus ombros, mas não passam disso. 

O público em geral vai se dispersando pouco a pouco. Extenuado pelo esforço e a ponto de ficar sozinho, estou disposto a ceder a criatura ao primeiro que me peça.”

(Trecho do conto Parturient Montes, de Juan José Arreola)



07 maio 2016

Oposição trabalhadora a Macri


Diego Rivera, Tierra y Libertad


No Primeiro de Maio, a mobilização conjunta das centrais sindicais, CGT e CTA em Buenos Aires, ainda que convenientemente ignorada pela mídia corporativa brasileira, reuniu mais de 300 mil pessoas no cruzamento da av. Independência com Paseo Colón. Lá, o projeto de ajuste neoliberal já está em marcha, com seus aumentos tarifários e demissões massivas. Luz, gás (fundamental para a calefação), alimentos (Victor, um trabalhador, me contou não comer carne há mais de 100 dias) tiveram majorações pesadas, com reflexos na inflação.


Em defesa dos direitos trabalhistas, os dirigentes sindicais se revezaram nos discursos e Hugo Moyano, a quem não se pode definir como um líder peronista, pontuou ao final como se dá o estado de ânimo das coisas: “Quien se ponga enfrente de los trabajadores lo vamos a enfrentar. Estamos preparados para pelear hasta las últimas consecuencias”.

1 de Mayo (1964), Ricardo Carpani




Estratos despudorados do golpismo

Resultado de imagem para sessão da camara 1 de abril de 1964


A sessão adentrava a madrugada de 2 de abril de 1964, quando o então presidente Auro de Moura Andrade pronunciou o fatídico discurso em que declarava de modo precipitado e bem de acordo com o movimento golpista, a vacância da presidência da República (Jango havia se deslocado para Porto Alegre).
Em meio ao rebuliço de vozes, ouve-se Tancredo proferir um sonoro "Canalha", e outros deputados gritavam "Golpista, golpista". É quando um deles, Rogê Ferreira rompe o cordão de isolamento e dispara duas cusparadas em Auro Andrade. Nas palavras de Almino Afonso, então ministro do Trabalho de Jango, aquelas foram "duas cusparadas cívicas".
Na noitada golpista versão 2016, as 'cusparadas cívicas" ressurgiram, devidamente aplicadas. (sobre o gesto cívico do deputado Jean Wyllys contra Jair Bolsonaro).  
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A mídia estrangeira constata o óbvio muito tarde, e de maneira lamentavelmente tímida. O espírito de corpo impediu que a denúncia ocorresse há muito mais tempo. 
A mídia corporativa brasileira não foi um simples caso de desinformação, mas a vanguarda do golpismo pós-moderno, asséptica, silenciosa, inconsequente.
Assim, é mais fácil dizer que não temos mídia.
Sua função se restringiu a legitimar gente da laia de Temer, Wellington Franco, Aécio Neves, Eduardo Cunha. Para o infortúnio da sociedade, conseguiu ultrapassar os limites despudorados de um Rupert Murdoch e deixará o legado da farsa e da hipocrisia, a dizer o mínimo, devidamente registrado nos anais da História. 
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"À noite (31 de março de 1964), em presença de alguns ministros, Goulart recebeu um telefonema do general Amaury Kruel, comandante do II Exército, que se ofereceu para servir de mediador (da crise) e impôs, como condições, o fechamento do CGT, da UNE e outras organizações populares (...). Em seguida, ao perceber o tom de ultimato, passou a tratar Kruel cerimoniosamente, dizendo-lhe com rispidez: 'General, eu não abandono os meus amigos. (...) Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia abertamente'. E desligou o telefone". 
(O governo João Goulart, Moniz Bandeira, p.338)
A traição, alinhada à extrapolação das funções de cargo e em seus vários formatos, é uma atitude corriqueira nos movimentos golpistas. 

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A tragédia mexicana, que para nós é apresentada como o sucesso de uma 'economia dinâmica e integrada'. Há dois anos, antes das eleições de 2014, compartilhava este artigo de José Luis Fiori, que já denunciava o cerne das políticas neoliberais propostas por Aécio e seu PSDB.
Agora essas políticas pretendem chegar com uma força ainda mais brutal, implantadas por Temer e sua trupe de golpistas, pela necessidade de correr contra o tempo e de satisfazer o nefasto arco de alianças composto por hienas corruptas. Muito pior do que o México, a tal da 'mão invisível do mercado' se mostra horrorosamente visível em sua composição ideológica, evidenciando o que há de pior e mais superado na política brasileira.
Como diz Fiori, "o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico, ou estratégia internacional? As três coisas ao mesmo tempo".



17 abril 2016

Aproximações com a realidade

Ernesto de la Carcova, La hora del almuerzo


Chegamos ao dia da votação na câmara da proposta mais descabida de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, sem uma ideia nítida do que irá acontecer. Os meios de comunicação corporativos abandonaram de vez qualquer fio de discernimento em sua função de mediar os fatos com sobriedade e equanimidade, ao assumirem de modo progressivo o papel da oposição e produzirem nos últimos meses, dia a dia, semana a semana, um tom irascível de descaracterização de um governo democraticamente eleito.

Para isso, se valem de todos os artifícios, desde a divulgação de áudios vazados, robustecimento das delações premiadas, análises insinuantes a favor do impeachment, seja por analistas da 'casa', seja por 'especialistas' convidados, de acordo com a orientação editorial dos patrões. Neste particular, impressiona o discurso unificado, muito bem articulado nos detalhes da elaboração semiótica e da construção do discurso. 

Impressiona a ordem unida em sintonia dos jornais diários, das revistas semanais, dos programas de rádio, dos telejornais de canal aberto e fechado, dos sites hegemônicos. De nada parece adiantar a posição crítica dos meios estrangeiros, que condenam esse posicionamento parcial; a impressão é que os meios corporativos de nosso país estão com 'o corpo fechado', protegidos por uma força poderosa, o deus dinheiro, que os ampara de quaisquer prejuízos na imagem. 

O discurso concatenado não deixa dúvidas a respeito de um grande acordão, assinado por esses barões midiáticos, e que envolve grandes parcelas do ministério público, do empresariado, dos deputados e senadores, todos alinhavados em torno de interesses que se cruzam. Se Dilma e Lula são temas cotidianos de um assalto brutal e indiscriminado à intimidade, numa clara ruptura dos padrões aceitáveis de jornalismo, indivíduos como Eduardo Cunha e Michel Temer, condutores do movimento golpista, são poupados da investigação mais apurada de seus crimes de responsabilidade.

(Aqui no café, escrevo com dificuldades para me concentrar, não pela sonoridade natural desses espaços públicos, mas pela fala despudorada de um casal de 'coxinhas', logo à minha frente, que analisam o fim do governo Dilma. A mulher então comenta, 'O desfecho mais bonito hoje seria, ao final da tarde, todos acenderem uma vela em agradecimento, aqui na Paulista'... Imagino o lugar ideal, em frente à Fiesp, sob os auspícios do famigerado Deus Pato!)

Sigo daqui a pouco para o Anhangabaú, onde ocorrerá a vigília a favor da Democracia, contra o golpe. Na Paulista, uma movimentação ainda difusa, que mistura pessoas que passeiam a pé ou em bicicletas, no belo espetáculo de cada domingo, com manifestantes em defesa do que chamo de golpe. Talvez o segundo grupo ganhe com o passar das horas mais adesões, e dependendo do que ocorrer em Brasília no final da tarde, se expanda ou feneça. 

Em minhas aulas ao longo da semana não pude deixar de comentar os acontecimentos políticos de nosso país. Na sexta-feira à noite, praticamente suspendemos o tema da aula pela discussão aberta do processo de impeachment. Descrevi minha preocupação, como cidadão atuante, pelos caminhos de nossa Democracia, estabelecendo relações da evolução política de hoje com a de março de 1964. Foi muito interessante ver o interesse e a clara adesão dos alunos ao debate, desejosos em saber mais sobre o golpe cívico-midiático-militar do passado e o ritual golpista de hoje. 

Concluo provisoriamente, realçando o patético e, ao meu ver, irreversível estágio em que os meios corporativos de comunicação alcançaram. A escalada dos ataques ao governo Dilma e de modo especial à pessoa de Lula se diluíram no pastiche de mal gosto, e o que é pior, ultrapassaram o limite razoável de recomposição da credibilidade. Com a permanência do governo Dilma, o que espero que aconteça, esses órgãos terão de abandonar definitivamente o papel de mediação equilibrada (e não digo neutra!) dos fatos, para assumir aquele que bem realizam nestes tempos, o de panfletos publicitários de um modelo ultrapassado de política.



03 abril 2016

Jornada Nacional contra o golpe



A Jornada Nacional de Mobilização pela Democracia, modificou a relação com a data 31 de março, até então fatídica para a história do Brasil, marcada pelo golpe cívico-midiático-militar de 1964. Desta feita, entre 40 e 60 mil pessoas estiveram na Praça da Sé, em um ato suprapartidário contra o golpe jurídico-midiático. Cenas semelhantes, em diversas cidades brasileiras, mostraram a força das vozes democráticas, legalistas. Abaixo, imagens do evento paulistano.





















Resposta ao golpismo: mobilização democrática



A primeira metade de março foi sombria, indicando tenebrosos movimentos vindos de Curitiba, comandados pelo juiz de primeira instância, Sérgio Moro. Começou com a condução coercitiva do ex-presidente Lula para depoimento, com ação simultânea da PF no Instituto Lula. Ficamos boquiabertos com a desfaçatez da ação, que por pouco não o conduziu à prisão. Posteriormente, a passeata da classe média pelas capitais do Brasil, com intensa cobertura midiática. Nunca o Pato gigante e sem graça da Fiesp foi tão ameaçador, mas percebia-se até ali o avanço cataclísmico de um golpe jurídico-legislativo contra o governo de Dilma, e nada parecia suficiente para oferecer alguma resistência. O PMDB, então, oportunista como de costume em sua convenção, indicou a saída da base de apoio governista.

Na segunda metade do mês as coisas começaram a mudar. A esperança surgiu da mobilização popular nas ruas, de fato a única cartada governista. Para as ruas e avenidas foram centrais sindicais, organizações populares, intelectuais, trabalhadores, estudantes, respondendo ao apelo das redes sociais, o grande canal de comunicação disponível. Aqui a Paulista ficou tão cheia quanto na passeata da classe média, encorpada com a presença de Lula, que impossibilitado de assumir a pasta da Casa Civil, continuou movimentando-se e com isso, retomando sua dimensão de negociador. Foi o ato decisivo para as redes se incendiarem e assumirem seu protagonismo comunicacional, bastante discutido na academia e poucas vezes tão efetivo e decisivo.

Foi uma atuação política com milhares de vozes intervindo com cores, imagens, palavras, em imaginosa ação pela democracia, contra o golpe. À anunciada saída do PMDB, com a péssima estratégia de contar com Eduardo Cunha na foto, sobreveio a grande manifestação democrática na Praça da Sé, no Largo da Carioca e em dezenas de locais pelo Brasil, estendendo-se a Pau dos Ferros, no RN. Novamente a presença de milhares de pessoas de todas as origens, cores, gêneros, crenças, partidos, promoveu um tilt na oposição golpista, jogando-a em uma inesperada defesa, procurando sustentar-se no discurso de que o impeachment está previsto na constituição, sem se preocupar em identificar algum crime de responsabilidade da presidenta.

Enfim, respiramos, nós, a parcela da sociedade que luta pela legalidade, pelo respeito à letra constitucional, contra o golpe. Se há vinte dias o horizonte parecia tenebroso, ameaçador, agora se percebe saudáveis frestas, as nuvens pesadas se dissipam, o sol volta a brilhar. O que não significa que as coisas serão fáceis doravante. Ao contrário, a mídia corporativa, agora assumidamente golpista, não se cansa de promover investidas, algumas risíveis de ridículas, outras dolorosas pela discriminação contra a mulher, contra Dilma. Ainda os grupúsculos proto-fascistas se movimentam ameaçando aqui e ali, em pequenos grupos ou em brados ostensivos nas redes sociais, sempre amparados por sua covardia ontológica. O importante será manter a mobilização, integrando diversos segmentos sociais, e com isso interagir nos próximos movimentos no Congresso. 

Superando as adversidades, uma a uma, e subjugando os impulsos doentios daqueles que desejam macular nossas conquistas democráticas, constituiremos uma linda e inesquecível vitória.


19 março 2016

#NãoVaiTerGolpe!




Avenida Paulista, 18 de março de 2016. Antes de ir para as aulas da noite, pertenço ao movimento que diz não ao golpe de Estado, conduzido por um juiz de primeira instância e pela mídia corporativa, agora sem qualquer pudor.

Os abusos perpetrados nos últimos dias contra o estado democrático de direito tiveram como resposta a concentração de milhares de pessoas em defesa da legalidade, em várias cidades do Brasil.

Aqui, uma coleção de imagens das pessoas, dos gestos de tanta beleza e participação popular. 



































15 março 2016

Tempo de dissolver




Um período muito complicado para a política brasileira, e em especial, para o governo do PT. Não sei, mas sinto uma pressão, uma ação poderosa, invisível, muito bem concatenada, que ganha espaços de poder, eliminando o consolidado das práticas constitucionais. O mais impressionante é sentir o esvaziamento do estado de direito, das conquistas arduamente sacramentadas, dissipando-se sob o discurso duvidoso de um punhado de arrivistas, que contagiam parcelas mais amplas da sociedade. Qual o segredo? A tola presunção, que aceita e profere os mais disparatados argumentos. Silenciosamente imagino que em poucos meses teremos novidades drásticas.

A velocidade deixou de ser a marca deste tempo, substituída pelo descaramento. A perda do caráter parece constituir o santo graal desta época cada vez mais leviana e sem graça. O futebol se repete aos borbotões, jogos sobre jogos, campeonatos que atravessam campeonatos, onde não se considera a qualidade como norma para proporcionar melhores espetáculos, mas a quantidade, como garantia de mais arrecadação, de mais lucro. O debate político promovido pela mídia corporativa é de uma frivolidade completa. Ele descarta o embate dos pontos de vista distintos, e investe na ideologia de seus interesses, o ponto de vista dominante, mercadológico. E como cidadãos, ficamos à deriva, de braços com a rotina repetitiva. Para Richard Sennett, "o que falta ao trabalhador da rotina é qualquer visão mais ampla de um futuro diferente, ou o conhecimento de como fazer a mudança".

Muita coisa parece ter se deslocado em seus significados, sem que algo estimulante tenha ganho o lugar. O que se perde, parece se perder definitivamente, e no lugar, um nada travestido de conhecimento.