07 maio 2016

Estratos despudorados do golpismo

Reprodução/rsf.org
A sessão adentrava a madrugada de 2 de abril de 1964, quando o então presidente Auro de Moura Andrade pronunciou o fatídico discurso em que declarava de modo precipitado e bem de acordo com o movimento golpista, a vacância da presidência da República (Jango havia se deslocado para Porto Alegre).
Em meio ao rebuliço de vozes, ouve-se Tancredo proferir um sonoro "Canalha", e outros deputados gritavam "Golpista, golpista". É quando um deles, Rogê Ferreira rompe o cordão de isolamento e dispara duas cusparadas em Auro Andrade. Nas palavras de Almino Afonso, então ministro do Trabalho de Jango, aquelas foram "duas cusparadas cívicas".
Na noitada golpista versão 2016, as 'cusparadas cívicas" ressurgiram, devidamente aplicadas. (sobre o gesto cívico do deputado Jean Wyllys contra Jair Bolsonaro).  
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A mídia estrangeira constata o óbvio muito tarde, e de maneira lamentavelmente tímida. O espírito de corpo impediu que a denúncia ocorresse há muito mais tempo. 
A mídia corporativa brasileira não foi um simples caso de desinformação, mas a vanguarda do golpismo pós-moderno, asséptica, silenciosa, inconsequente.
Assim, é mais fácil dizer que não temos mídia.
Sua função se restringiu a legitimar gente da laia de Temer, Wellington Franco, Aécio Neves, Eduardo Cunha. Para o infortúnio da sociedade, conseguiu ultrapassar os limites despudorados de um Rupert Murdoch e deixará o legado da farsa e da hipocrisia, a dizer o mínimo, devidamente registrado nos anais da História. 
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"À noite (31 de março de 1964), em presença de alguns ministros, Goulart recebeu um telefonema do general Amaury Kruel, comandante do II Exército, que se ofereceu para servir de mediador (da crise) e impôs, como condições, o fechamento do CGT, da UNE e outras organizações populares (...). Em seguida, ao perceber o tom de ultimato, passou a tratar Kruel cerimoniosamente, dizendo-lhe com rispidez: 'General, eu não abandono os meus amigos. (...) Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia abertamente'. E desligou o telefone". 
(O governo João Goulart, Moniz Bandeira, p.338)
A traição, alinhada à extrapolação das funções de cargo e em seus vários formatos, é uma atitude corriqueira nos movimentos golpistas. 
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A tragédia mexicana, que para nós é apresentada como o sucesso de uma 'economia dinâmica e integrada'. Há dois anos, antes das eleições de 2014, compartilhava este artigo de José Luis Fiori, que já denunciava o cerne das políticas neoliberais propostas por Aécio e seu PSDB.
Agora essas políticas pretendem chegar com uma força ainda mais brutal, implantadas por Temer e sua trupe de golpistas, pela necessidade de correr contra o tempo e de satisfazer o nefasto arco de alianças composto por hienas corruptas. Muito pior do que o México, a tal da 'mão invisível do mercado' se mostra horrorosamente visível em sua composição ideológica, evidenciando o que há de pior e mais superado na política brasileira.
Como diz Fiori, "o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico, ou estratégia internacional? As três coisas ao mesmo tempo".


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