17 agosto 2015

O disperso agregado

manifestação
"Essas cicatrizes constituem deformações (...) podem tornar as pessoas burras"
Adorno/Horckeimer - A dialética do esclarecimento.

Nada me pareceu tão vago quanto esta manifestação organizada pelas oposições no Brasil. Na verdade, mais um encontro do tipo convescote de final de semana ensolarado do que propriamente um movimento reivindicatório. O dia estava bonito, a força convocatória nas mídias em pleno vapor, então porque não ir até a Paulista com a família, vestindo as camisas amarelas? Como de costume, os carros de som se distribuíam pela avenida, martelando palavras de ordem proferidas ao sabor do ódio do momento, em falas curtas, nem sempre audíveis, finalizados com os chavões usuais que ditos com a fúria esperada, empolgam os participantes do pedaço. As diatribes geradas pelo sistema de som de um veículo nunca é o mesmo daquele outro, trezentos metros adiante, e assim, em cada pedaço da manifestação, uma sandice distinta da outra, animando a indignação de quem transita com suas faixas disformes. Aqui, uma em inglês rechaçando tornar-se uma Cuba, ali outra pedindo a intervenção militar, acolá uma justificando a sonegação como legítima defesa... Procurei caminhar por entre os manifestantes, não se nota unidade, mas fragmentos que circulam, como blocos no degelo de um caudaloso rio. Se persiste o sentimento de repúdio, não é menos verdade que ele não se integra em uma agenda, como disse acima, em um discurso consistente, que dê força e sentido ao movimento, fazendo-o avançar. Se não há representação política, se não há proposição organizada em um conjunto de demandas, então o que move aquelas pessoas? Quem são? Provêm de quais setores sociais? É difícil compreender que não se articulam em torno de uma finalidade a não ser a retirada de Dilma e do PT do poder. Também parece muito simplório dizer que sejam conduzidos por uma onda de desprezo gerada nas mídias hegemônicas, ou patrocinados por não sei quais corporações. O que sei é que desfilam de modo descontraído, milhares deles, em sua maioria brancos, com aparência saudável, em família, com trajes verde-amarelo, exalando mais do que indignação, o vigor de uma repulsa raivosa, em muitos momentos grosseira, preconceituosa e presunçosa, e não raro, historicamente equivocada. O andar incerto de uma tarde, um disperso agregado que é sem se consubstanciar, sintoma de uma episteme que não se consolida, de um mal-estar que não se dilui, mas também não ganha força implacável. Temos um movimento contemporâneo, parido do ventre neoliberal, que se agrega de acordo com os matizes do momento, em torno de pequenos grupos que arregimentam com base em sua notoriedade efêmera, canalizando sentimentos fragmentários e como consequência, produzindo posicionamentos tão díspares quanto indefinidos. 

Eis meu esforço, em torno de palavras, que não conseguem dimensionar uma clara impressão dos fatos.


28 julho 2015

A propósito da mediocridade que nos pertence




"(...) do entulho da terra arrasada, foram poucos os que restabeleceram a integridade moral como outrora; era triste perceber os vagalhões sonolentos, entrecruzando-se à deriva, os corpos vergados sem o menor vislumbre de um desejo específico, os semblantes aturdidos murmuravam para si mesmos palavras incompreendidas, como se abrissem espaço para suas almas fatigadas se pronunciarem. Em um primeiro olhar, não se distinguia homens de idosos de mulheres, mas estas logo se pronunciavam por sua natureza acolhedora, identificadas ao se aproximarem dos pequenos destroços humanos, as crianças. Acalentar seria um nobre exagero, pois mesmo elas, mais sábias e atentas, não dispunham de reservas mentais para a virtude da compreensão, esgotadas quando alguma coisa ainda podia ser salva. De modo vago, se distinguiram aqueles que desde sempre foram mantidos nas margens sociais urbanas; mostravam-se mais adaptados às circunstâncias, c'est à dire, imunes ao descalabro moral pelo vilipêndio secular, tornavam-se por fim os agentes protagonistas da recomposição do que outrora se denominou vida social".


20 julho 2015

Regresso multifacetado


Fachada, calle Montevideo

Um ano e sete meses mais tarde, no mesmo hotel, próximo do Congresso e da estimada calle Callao de tantos percursos...

Encontro em um sebo da avenida de Mayo, após breve consulta, um livrinho de Caillois, Imágenes, Imágenes..., e considerando a pesquisa atual em que me envolvo, e também considerando a pechincha, a primeira de minha estadia na cidade, 40 pesos, o adquiro. É sobre o tema do fantástico, eu o folheio em saltos aleatórios enquanto caminho rumo ao Café Florida Garden. Sobrevêm frases que me convencem do acerto da aquisição, 'Lo fantástico (...) manifiesta un escándalo, una rajadura, una irrupción insólita, casi insoportable en el mundo real (...)'. O frio não se manifesta em sua intensidade esperada, neste inverno portenho. É possível caminhar com leveza, agradavelmente tomado por reflexões incertas em meio à multidão que circula no anoitecer do sábado. Havíamos estudado Roger Caillois há um ano, no grupo de estudos, e sua leitura sobre uma sociologia dos jogos. Nesta pequena obra que perscruto avidamente, sinto a fluidez característica de seu argumento, a beleza de como aporta o tema, servirá de embasamento teórico-metodológico para o texto que preparo, ainda em fase de pesquisa bibliográfica, uma relação entre os fantásticos das narrativas midiáticas e o fantástico maravilhoso da narrativa latino-americana. 

Até alcançar o Florida Garden, diversas alternativas se abrem e se oferecem para mim, convidando-me serenamente a adentrá-las. Corrientes, Córdoba, Santa Fé, cada uma oferecendo destinações distintas, entre outros cafés e livrarias. Meu primeiro problema está em utilizar meu cartão de crédito, problema que irá me acompanhar até o final da estadia. De posse de pouco dinheiro en efectivo, cuido com os gastos. Não será desta vez que terei meu chapéu de feltro, ou uma jaqueta forrada para o inverno. Serão consumidos, em suma, meramente os ingredientes que faziam o slogan do governo socialista de Allende, vino y empanadas.

Os livros, as refeições, as roupas, o custo de um modo geral está elevado. Um prato com um bom contra-filé con papas está em 85 pesos; um bom livro, por exemplo, sobre as entrevistas da Garganta, uma revista muito popular por aqui, está 200 pesos; o café do Florida, com seus saborosos petit-fours, 25 e as deliciosas empanadas do La Americana, 14 cada; o modelo de sapatos da ESE que tanto aprecio, 690 pesos. Barato ainda está o transporte, 5 pesos para o metrô, 16 pesos a bandeirada do táxi. O problema está no câmbio que se faz. Nos lugares oficiais, um real vale 3 pesos no máximo; em alguns postos mais conhecidos, como nas Galerias Pacífico, não vale mais do que 2,3 pesos. Já no câmbio negro das ruas, se consegue 3,8 pesos. Nos jornais não se vê mais a cotação da moeda argentina em relação a outras, pelo simples motivo de que há uma inflação elevada em curso. Viajei com meros 600 reais, o que me sustentará pelos cinco dias na cidade, mas não me permitirá pagar as despesas do hotel, o que é um problema a ser resolvido.

A estada cobre três dos cinco dias de discussões sociológicas, nas Jornadas de Sociologia da UBA, e assim, cumprir adequadamente minha missão em Buenos Aires. Porém, por conta dos transtornos causados pela não-liberação de meus cartões, dedico-me apenas a uma mesa-redonda na noite da segunda-feira, e à seção da mesa 2 em que fiz minha apresentação, na terça pela manhã. Ainda assim muito proveitoso, mais uma vez surpreso com a clareza da discussão epistemológica-metodológica em cada trabalho, presente em cada arguição das comentadoras. 

Em razão do final do semestre letivo, não consego me dedicar à preparação de um texto consistente ao meu gosto. Realizo o necessário para assegurar minha participação, ao encaminhar um trabalho no último prazo, em uma primeira versão. Proponho uma continuidade de minhas investigações do doutorado, agora estudando o acesso e a importância das redes sociais nas periferias paulistanas. O título, A Periferia Digital, mobilização e cidadania nas margens sociais em São Paulo, e pode ser lida na página do evento, aqui.

Vagueio minimamente por caminhos e lugares que aprecio, como também descobri outros, como a própria Faculdade de Ciências Sociais. Mas frequentemente, no lugar da costumeira flanêrie, me vejo percorrendo ansiosamente o espaço público, na busca por respostas ao acesso monetário que jamais viria. Termino por visitar mais casas financeiras do que cafés, com o comprometimento da reflexão sociológica. 

Na segunda-feira participo de uma mesa-redonda, Diálogos entre saberes y pensamiento crítico en América Latina, com professores da casa e convidados, seis ao todo, e mais uma plateia de dez ou quinze pessoas. Sempre esse frescor latino-americano no pensamento e na palavra da sociologia argentina, já tinha sentido este prazer nas Jornadas de 2013 e no curso sobre Pierre Bourdieu, em 2012. A necessidade de se abordar o complexo panorama de Nuestra Pátria, de incluir as diversidades presentes, de configurar o sul não apenas geográfico, mas também epistêmico. 

Acompanho com deleite o argumento visceral de professores da minha geração, firmes em um propósito que se realiza a cada encontro como aquele, generosos em suas proposições, em seu entusiasmo por novos paradigmas de atuação nas Ciências Sociais, insatisfeitos com a mera aplicação da teoria. Falam de uma investigação participante, de um saber que se constrói na ação, nesse sentido deslocando-se ao encontro de seus alunos, das pessoas das ruas, da sociedade de modo geral, repondo novas utopias pelo caminho. Gosto dessa urgência, desses caminhos que designam aportes de um Mariátegui ou Prebisch, que educam e aprendem ao mesmo tempo, o investigador em posição de escuta. 

Nora Garita, da Costa Rica, aprofunda o sentido de uma ciência social mais de acordo com seu tempo, diz sobre a importância de repensarmos todas as categorias em que trabalhamos, e muito importante, romper com a maneira eurocêntrica de fazer (e pensar) ciência social. Deixa bem claro que nossa língua ibérica, e consequentemente nosso pensamento, nunca estarão contemplados devidamente nas base de dados que avaliam a qualidade e o ineditismo da pesquisa, saibamos lidar com isso e seguir em frente. E Alejandro Horowitz nos brindou com uma fala contundente sobre o drama grego, a operação de saque explícito levada a cabo pela bancocracia global! E reiterou a importância da produção de conhecimento como instrumento político para a ação, pois afinal das contas, para quem estão trabalhando os intelectuais e os acadêmicos?

A Grécia que não deixa de aparecer na televisão, com direito a trechos de falas do primeiro ministro Tsipras. Como também o tempo todo, a situação político-econômica da Argentina de hoje, pelas boas ou estrambólicas interpretações. Noto que por mais que o cidadão comum discorde dos rumos do governo kirchnerista, sua crítica não sobrepõe a necessidade de uma consciência crítica em relação aos desígnios do país. Em outras palavras, não abandona com argumentos levianos o compromisso político com a nação. Claro que não me refiro aqui à nata da burguesia de Barrio Norte ou Palermo, ou dos representantes ruralistas, essa gente não se difere ideologicamente em qualquer parte da América Latina, seus pensamentos e sentimentos se vinculam desde sempre aos ideais e aos prazeres de Miami. Falo, repito, do cidadão comum, esse que encontro no espaço público, que sofre com os problemas, que se zanga ou apoia o oficialismo, e daí, mais do que as divergências, surgem as narrativas, caudalosas, deleitosas.

Com Labarba, tive meu primeiro e provavelmente o último encontro. Nos cruzamos em frente à praça do Congresso, eu saía do hotel, ele caminhava na calçada da Yrigoyen, tudo muito casual. Tomou a iniciativa de fazer um comentário sobre esses imigrantes que não querem trabalho. Atravessamos a rua e por alguma razão, optei por ouvi-lo, apenas ouvi-lo, até onde poderia ir, em sua crítica ou em seu preconceito. Ficamos parados na esquina, ele vestindo um garboso sobretudo e o pescoço envolto em um cachecol. Havia certa crueldade em sua indignação, uma suave convicção de que aqueles imigrantes (víamos alguns pedintes con rasgos bolivianos...) eram diferentes dos imigrantes de outros tempos. Os italianos como meu pai, vieram para trabalhar duro... dizia e até aí o discurso não prometia nada, mas aos poucos, derivou do social para o particular, para a ambiência de Gênova, a terra de seus ancestrais, e mostrou curiosidade com meu apellido Bin, muito pouco italiano... Contou como assistia seu avô sangrar um porco, contou o que significou a loucura econômica dos tempos de Menem, contou... 

Sua voz mantinha um compasso amistoso, ainda que em um tom aristocrático, expressando o desejo de falar, a fala como posse impositiva do argumento, trazida como a expressão do habitus de sua classe social. Perguntei-lhe a idade, meu derradeiro e distante interesse pelo homem que surgira do nada, e que retomaria o caminho, altivo, por entre os imigrantes.



30 junho 2015

Os pequenos lacerdas




Um dos motivos para o surgimento deste blog foi o desejo de produzir escritura. No início, aproveitei muito material que dispunha pronto, utilizado em outro blog que encerrei, o Caminhos para a Liberdade, e aos poucos, fui acrescentando novos textos. O principal tema inicial era a mídia na América Latina, e confesso que sempre me lancei de modo contundente, rompendo a análise mais criteriosa, mais distanciada, e posicionando-me ideologicamente. Resultou que as crônicas e artigos iniciais foram duras críticas à mídia hegemônica, ao tempo em que me entusiasmava com a liberdade e a expansão das redes digitais. Como muitos articulistas independentes, acreditava no fim dessa 'velha mídia' e a pronta substituição por algo não muito definido, em que as pessoas fossem protagonistas e participantes na construção da informação. Em 2008 isso soava como um convite à imaginação, como se daria a passagem da mídia oligopólica e hierarquizada para outra socializada e horizontal? 

Foi nesse espírito que desenvolvi minhas reflexões, e aos poucos a força e amplitude das análises ganharam espaço em congressos acadêmicos ou mesmo de projetos de pesquisa. O alcance das rádios digitais sulamericanas disseminando os avanços sociais me animaram a pensar a Pátria Grande, o barroco, o realismo maravilhoso - política e literatura juntos na interpretação de uma poderosa independência colegiada, enfim alcançada. Bem, não preciso transcrever meu entusiasmo, basta retomar as escrituras aqui presentes para concluir como incorporei esse processo de identificação. 

Meu duro posicionamento em relação à chamada mídia hegemônica questionou sempre sua parcialidade, ou digamos melhor, o esforço pela defesa de seus interesses, e isso passou pelos inúmeros processos eleitorais da América do Sul, em especial, Venezuela, Argentina e Brasil. Assumi o posicionamento do jornalismo independente e digital, que aos poucos ganhou destaque na denúncia de um jornalismo que representava de modo cada vez mais irresponsável a opinião do patrão, opinião que se ligava e se liga a uma oposição difusa, simpática a uma dispersa gama de políticos conservadores.

Hoje a discussão neste espaço não prossegue na oposição ao jornalismo tendencioso, o que já está suficientemente exposto ao longo dos quase sete anos de blog, mas na denúncia dos falsos profetas que, de início poucos, hoje assumem a proeminência nas redações e constituem com seus discursos distorcidos a ponta de lança ideológica que incentiva os movimentos opositores, nas diversas instâncias da sociedade civil, a mobilizarem-se com inaudita violência desagregadora, seja ela física ou verbal. 

Triste ver que são muitos, ocupando distintas funções na produção de informação, e que atuam com incrível poder de articulação. Já há uma segunda, uma terceira geração de pequenos lacerdas, derivados não de Carlos Lacerda, o jornalista e político que por vezes vestiu a roupagem de líder golpista, mas de farsantes menos competentes como os Pondés, os Constantinos, os Azevedos, os Villas, os Mainardis, os Waaks, reprodutores de falas acintosas e destituídas de uma análise crítica mais elaborada e responsável, representantes de um discurso cujo sentido polêmico se esmera em desagregar. 

Os pequenos lacerdas, que repito, não alcançam o brilho duvidoso do argumento de Lacerda, ou mesmo de um desatinado como Paulo Francis, se satisfazem em criar um clima de profunda descrença nas instituições. Nunca é demais afirmar que não se trata de indivíduos atoleimados, ao contrário, possuem grande sagacidade na artimanha discursiva, mas justamente quando mais se poderia esperar deles, fenecem, porque a leitura da realidade não constrói, não é consistente, e se propõe ao consumo imediato. No esforço de preservar um niilismo de aluguel, perdem legitimidade.

Por isso creio que o verdadeiro cidadão democrata, imbuído de um compromisso com a cidadania, não precisa temer essa estirpe. Como já escrevi antes, ela se apropria de um modus operandi que prega a reflexão rasa, sem nada acrescentar a não ser o ódio, a arrogância, o sectarismo, sentimentos que não encontram amparo junto às forças vivas da sociedade! No mesmo dia em que as bicicletas tomaram conta de uma Paulista ensolarada e solidária, um sujeito resolveu agredir verbalmente um ex-ministro. Não era Lacerda, tampouco um desses pequenos lacerdas, mas um desafortunado cujo palavrório se presta a assediar ideias e pessoas com a mesma iniquidade.







17 junho 2015

Sobre mulheres que lutam e sonham



Duas breves histórias, uma ocorrida em sala de aula, outra revisitada em vídeo. A primeira, hoje pela manhã, enquanto a parcela presente da classe fazia as vistas das provas, um aluno isolado realizava a 2ª. chamada, Honório, jovem morador da distante periferia sul de São Paulo. Ele não demorou, e ao me entregar a prova, disse-me que estava feliz por ter identificado no filme Povo Lindo, Povo Inteligente, tema de uma das questões, o Márcio Batista, um dos poetas e seu professor de educação física no ensino médio. O mais comovente, porém, foi ao ler o complemento de sua resposta. Ao comentar a importância da poesia no sarau da Cooperifa e da sua contribuição para o questionamento do mundo como parte da cidadania, frisou que isso ficava evidente ao reconhecer, no filme, “a cozinheira da escola pública onde estudei, expondo suas ideias e sua arte”.

A segunda, agora à noitinha, em um momento de descanso, sintonizei por acaso um trecho do filme Peões, de Eduardo Coutinho (que havia assistido na época de seu lançamento), sobre os trabalhadores ligados ao movimento sindical dos metalúrgicos de São Bernardo. Dentre tantos depoimentos, impressionáveis pela força inata do argumento que brota simples e direto, a fala de Zelinha, seu orgulho imenso por Lula, lembrando que entrou com ele no sindicato, no mesmo mês de março de 1976, ele como presidente, ela como copeira. “A coisa que mais desejo é ir a Brasília e servir um café para ele, no Palácio do Planalto”. Por fim, explica como salvou da polícia, quando da ocupação do sindicato, uma lata contendo um filme. Pediram para ela guardar e ela não vacilou, tratou de escondê-lo em sua sacola, sob um par de sapatos, quando saía para sua casa. “Se eles pegassem, acabariam com a nossa história”, disse mais ou menos assim. Na lata, o filme Linha de Montagem, de Renato Tapajós.

O sentido do amor, por si, pelo outro, pela vida, nestas mulheres que não se cansam de lutar e sonhar.


31 maio 2015

Sobre Culturas Juvenis




Um belíssimo lançamento, com diversos olhares sobre a Cena Cosplay, organizado com muita competência pela querida Mônica Nunes, do qual tenho a satisfação de participar com um texto, "Espaço urbano, performance e memória: a poética do corpo na poesia marginal e na cena cosplay". Procurei desenvolver e ampliar uma discussão elaborada em congressos, e que se origina em minha dissertação de doutorado, aqui ganhando novas leituras com o acréscimo da cena cosplay. No ensaio, procuro tratar da presença das culturas juvenis no espaço urbano, em especial os poetas marginais e os cosplayers, suas formas de representação social, seus exercícios de sociabilidade. Procurei destacar a narrativa do corpo performático, aspecto fundamental em ambas as práticas culturais.  

No sítio da editora Sulina há um bom resumo sobre a temática discutida no livro:

'Com base em pesquisa de campo em eventos de animes nas capitais da região Sudeste do Brasil, os dez artigos que integram este livro abordam a cena cosplay em seu engendramento e suas articulações com outras cenas urbanas, como a poesia marginal; com o jogo e a cognição; com a moda e as paisagens sonoras geradas; com o universo dos games e das coleções de objetos pop.'

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Destaco abaixo pequenos trechos do meu texto. O convite para o lançamento será divulgado oportunamente:

"(...) Vimos nas ocorrências dos rolezinhos, em junho de 2013, a busca por espaços estruturados de entretenimento e de consumo ainda faltantes nas periferias. Os cidadãos das periferias – e muitos dos que participam dos circuitos dos saraus poéticos e da cena cosplay – percorrem necessariamente os circuitos globalizados, desejando e consumindo seus produtos. Movimentam-se em busca do que há de mais contemporâneo, a resposta aos estímulos formulados pelos brilhos faiscantes dos centros de consumo. Considerando a matriz de bloqueios, ou mesmo a segregação social (os baixos acessos aos bens públicos), há que se compreender melhor essa vertente de buscas. Ainda que os equipamentos de consumo e seus circuitos se expandam pela cidade, não significa dizer que essa possibilidade de encantamento seja a norma exclusiva a ser alcançada. É importante verificar as práticas culturais como opções interessantes de consumo cultural, como é o caso aqui analisado dos cosplayers e dos poetas marginais. 

De todo modo, esse entramado de linhas que se cruzam e entrelaçam caracterizando a fruição social no espaço urbano é regido por um poderoso setor, denominado por Flávio Villaça de quadrante sudoeste. Para ele, existe um padrão de desenvolvimento intraurbano das metrópoles brasileiras, que seguem uma estruturação definida pelos interesses históricos da classe média. No caso de São Paulo, a centralidade original da cidade, definida pelo sítio original na região da Sé, sofre um deslocamento espacial no sentido sudoeste, alcançando a região da avenida Paulista e mais recentemente a região da avenida Luis Berrini. Trata-se de uma expansão estimulada pelo capital imobiliário, proporcionando uma área de segregação que atrai os equipamentos urbanos e estabelece uma dominação sobre o espaço intraurbano como um todo. Segundo Villaça, “a segregação é um processo segundo o qual diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole”.

Tal concentração não ocorre de modo homogêneo, exclusivo. Um exemplo é o bairro de Paraisópolis, um enclave de renda baixa no valorizado bairro do Morumbi; assim como na expansão do quadrante sudoeste, os ricos formam seus enclaves ao se aproximar dos bairros de populações mais pobres. Por isso a presença crescente dos muros com arames eletrificados, estabelecendo os limites fronteiriços das áreas de poder político e econômico das classes de alta renda. Ainda Villaça: “As burguesias produzem para si um espaço urbano tal que otimiza suas condições de deslocamento (grifo meu). Ao fazê-lo, tornam-se piores as condições de deslocamento das demais classes”. A apropriação dessa centralidade oferece um controle pulverizado das classes de alta renda, trazendo para mais próximo dela os equipamentos de controle da sociedade, seus empregos, seus serviços, adaptando a cidade a seu modo preferencial de locomoção, o automóvel. (...)

(...) Ao longo das etnografias realizadas com os cosplayers, um aspecto que modificou minha maneira de compreendê-los foi observar como não se incomodavam em incorporar suas personagens em pleno no espaço público, a caminho dos eventos. A expressão é bem essa, incorporar, dar forma corpórea a uma representação, da maneira mais natural possível, “quanto mais sua origem é esquecida e sua natureza convencional é ignorada, mais fossilizada ela se torna” (Moscovici...). Significa dizer que, a personagem do cosplay está naturalmente presente, a representação passa a ser incorporada no cotidiano, para além dos eventos e das relações compartilhadas com outros cosplayers, e guardadas as devidas proporções, “cessa de ser efêmero, mutável e mortal e torna-se, em vez disso, duradouro, permanente, quase imortal” (Moreira...). A criação da representação se dá de maneira intensa, enquanto dura, havendo certa restrição nas circunstâncias em que existe o risco de manifestações preconceituosas, como veremos adiante. Vestir o cosplay escolhido é um ritual que se constrói desde a confecção material e termina em meio aos eventos, na companhia dos amigos e do público participante. Em muitos casos, o corpo assume a fantasia do ídolo antes da cena cosplay, no trajeto de casa até o lugar do evento (...).

(...) Temos também a violência como um elemento constitutivo da vida cotidiana das periferias. Se excluirmos aquela regularmente praticada pelos órgãos de segurança pública, que possuem um caráter desagregador, podemos pensar sua função estruturadora “de novas expressões do social (...) e no plano da linguagem e das representações, como enunciação genuína e, às vezes, legítima de conflitos vivenciados no dia a dia da vida social” (Pereira et al...). De modo que integrantes de uma prática cultural de resistência esforçam-se por desafiar a desigualdade social ao exercitarem em alto e bom som a voz não ouvida, afirmando uma identidade, a da quebrada, aquela legitimada por suas atitudes. Em suas manifestações performáticas, as poesias incorporam esse discurso, o corpo do poeta está nu, no sentido figurativo, pronto para gerar o seu tema na performance de cada verso declamado. (...)

(...) Uma vez estabelecidos os contornos da espacialidade intraurbana, transitamos em seus meandros e em suas interpretações a partir das narrativas de práticas culturais distintas – a escritura marginal e o cosplay – com leituras peculiares de comportamento social. Ainda que o entramado do espaço urbano seja percorrido por trajetórias que delineiam uma rede de circuitos sociais, persiste a estrutura física da cidade de muros, a exclusividade e o predomínio econômico de um setor associado à centralidade econômico-política denominado quadrante sudoeste. Persiste a desigualdade social, cartografada com ilhas de bem-estar por um lado e de espaços de precariedade de outro, imbricados e amalgamados nos interstícios da cidade. Se por um lado as vozes dos poetas periféricos preservam o tom da contestação e da resistência, por outro os jovens cosplayers desfrutam do prazer da cena, sem de alguma forma desconsiderar as relações sociais. Em ambos, a representação performática se mostra como um suporte semântico de múltiplos significados, definidos por heróis e enredos memoriais, que os impulsiona para novos desejos, para novas experiências coletivas, a partir de um crescente acesso aos bens de consumo. (...)"

Cena Cosplay: Comunicação, Consumo, Memória nas Culturas Juvenis. 
Mônica Rebecca F. Nunes (org.), Editora Sulina, 344p., 2015.


24 maio 2015

Dino Buzzati, um conto




Sinto de tempos em tempos a necessidade de retornar àquela literatura que um dia me cativou, marcando-me pela surpresa, pela precisão da narrativa. Normalmente são os contos, leitura concisa que nos permite retomar a intensidade da história em poucos minutos. Quando se trata de romances, busco partes específicas indicadas ao longo das anotações, nas margens, para reviver uma passagem marcante. Alguns autores tornaram-se uma espécie de guias espirituais, Cortázar, Sábato, Benedetti, Bowles, Márquez, Graciliano... Ressurgem de maneira casual e suas palavras recompõem a descrição que deslumbra e inspira em seus múltiplos significados. 

Desta vez foi Dino Buzzati, seus contos mágicos contidos no livrinho da Alianza Editorial, Los Siete Mensajeros. A literatura tem esse dom de nos comover em meio ao imaginário das coisas, dos lugares, de personagens que dialogam com nossa vida cotidiana. A magia da memória literária é esse vírus que nos acomete uma vez e não mais nos abandona, tomando-nos livremente, ao sabor do imponderável, e uma vez renovados pelas recordações de páginas e mais páginas narradas, acolhemos ainda uma vez o prazer de novo arrebatamento.

Acabei por me envolver na tarefa de traduzir o conto que nomeia o volume, Los Siete Mensajeros. Para realizá-la, utilizei-me de uma versão intermediária, em espanhol. Na medida do possível, realizei o cotejamento com o texto original, em italiano, principalmente nas partes onde permaneciam dúvidas sobre 'as faixas semânticas' mais adequadas, e o resultado me pareceu satisfatório. Seja como for, trata-se de um trabalho que contou com o cuidado em preservar o estilo do autor, o qual prioriza uma descrição objetiva dos fatos, com um desenvolvimento linear, sem um fraseado rebuscado. Gostaria de compartilhar os resultados obtidos, divulgando o texto a seguir. 

Antes, porém, considero importante destacar que os elementos da narrativa, como os mensageiros em seu distanciamento infindável, a própria determinação em cumprir suas tarefas, se submetem a uma sofisticada metáfora temporal. Seguindo esta linha, sem considerar as interferências dos acasos da vida, podemos desvelar cada situação de acordo com a proposta sensível do autor, qual seja, um presente desprovido de subterfúgios, tensionado inicialmente pela nostalgia do passado e mais ao final da narrativa, pelo desafio do futuro. Temos assim a resultante implacável de nossa condição de ser-aí, consciente de sua fragilidade e impossibilitado em fugir da construção de seu destino. 

Nas primeiras indicações do limite natural da aventura, o tempo exerce seu papel e aprofunda a finitude do corpo. A narrativa revela um dos eixos de sua metáfora, a vida em sua irrevogável incompletude. A descrição do supremo esforço do mensageiro Domenico no terreno a ser vencido e no tempo que irá levar com as mensagens se inscreve no lamento da perda definitiva do contato com o mundo que ficou para trás. O fenecimento do corpo é acompanhado pelas derradeiras lembranças, que cada vez mais se opõem aos horizontes vindouros da caminhada sem fim.

O segundo eixo desta bela narrativa de Buzzati é a meu ver, a dimensão temporal que a trespassa. Uma vez estabelecida a ruptura com o espaço-tempo de um passado que se esvai - a experiência vivida - a memória se incorpora às expectativas das fronteiras do reino, não mais que o futuro - o tempo a ser vivido. As novas missões dos mensageiros serão a de abrir caminho para o avanço às terras ignotas. 


Os sete mensageiros 
(Dino Buzzati)

Saí a explorar o reino de meu pai, porém dia a dia distancio-me da cidade e as notícias que me chegam são cada vez mais escassas. Comecei a viagem ao completar trinta anos e mais de oito se passaram, precisamente oito anos, seis meses e quinze dias de ininterrupta marcha. 

Quando parti, acreditava que em poucas semanas alcançaria com facilidade os confins do reino; entretanto, não deixei de encontrar novos lugares e pessoas, e em todas as partes homens que falavam a minha língua, que diziam serem meus súditos.

Por vezes penso que a bússola de meu geógrafo ficou maluca e que, convencidos de nos dirigir sempre para o norte, em realidade estejamos dando voltas ao redor de nós mesmos, sem aumentar a distância que nos separa da capital. Isso poderia explicar porque ainda não alcançamos a última fronteira.

Aos poucos, porém, atormenta-me a dúvida de que este confim não exista, de que o reino se estenda indefinidamente e de que, por mais que avance, nunca poderei chegar ao seu fim.

Dei início à tarefa quando tinha mais de trinta anos, talvez demasiado tarde. Meus amigos, meus próprios familiares, troçaram de meu projeto como sendo um desperdício dos melhores anos da vida. Na realidade, poucos dos que eram de minha confiança aceitaram me acompanhar. Embora despreocupado - muito mais do que estou agora - imaginei um modo de comunicar-me durante a viagem com as pessoas mais próximas e, dentre os cavaleiros da minha escolta, escolhi os sete melhores para que servissem de mensageiros.

Acreditava de maneira equivocada que dispor de sete mensageiros era mesmo um exagero. Com o correr do tempo observei que, ao contrário do que pensava, eram ridiculamente poucos, e isso sem considerar que algum deles caísse enfermo, ou fosse surpreendido por bandidos, ou esgotasse alguma montaria. Os sete mensageiros me serviram com uma tenacidade e uma devoção que dificilmente poderei recompensar.

Para distingui-los mais facilmente, eu os nomeei com as iniciais da ordem alfabética: Alessandro, Bartolomeo, Caio, Domenico, Ettore, Federico e Gregorio. Pouco habituado a distanciar-me de casa, enviei o primeiro, Alessandro, na noite do segundo dia de viagem, quando tínhamos percorrido umas oitenta léguas.

Para assegurar a continuidade das comunicações, na noite seguinte enviei o segundo, e em seguida o terceiro, o quarto, e assim sucessivamente até a oitava noite de viagem, quando partiu Gregório. O primeiro ainda não havia regressado.

Este nos alcançou na décima noite, enquanto montávamos o acampamento para pernoitar, em um vale desabitado. Soube por Alessandro que sua rapidez estava inferior ao previsto; tinha pensado que, viajando a sós e montando um magnífico corcel, poderia percorrer em um mesmo tempo o dobro da distância que faríamos, entretanto, somente pode cobrir o equivalente a uma vez e meia; em uma jornada, enquanto avançávamos quarenta léguas, ele devorava sessenta, não mais.

O mesmo ocorreu com os outros. Bartolomeo, que tomou o destino da cidade na terceira noite de viagem, retornou na décima quinta; Caio, que partiu na quarta, não regressou antes da vigésima. Logo constatei que bastava multiplicar por cinco os dias empregados por cada cavaleiro para saber quando nos alcançaria.

Como cada vez nos distanciávamos mais da capital, o itinerário dos mensageiros aumentava proporcionalmente. Transcorridos cinquenta dias de marcha, o intervalo entre a chegada de um mensageiro e o de outro começou a espaçar sensivelmente; enquanto que antes se via regressar ao acampamento um a cada cinco dias, o intervalo passou a ser de vinte e cinco. Desse modo, a voz de minha cidade se fazia cada vez mais débil; passavam semanas inteiras sem que tivesse qualquer notícia.

Passados seis meses - já havíamos atravessado os montes Fasano - o intervalo entre uma chegada e outra aumentou para quatro meses. Agora me traziam notícias distantes; os envelopes chegavam amassados, por vezes com manchas de umidade em razão das noites passadas ao relento pelo mensageiro.

Seguimos avançando. Em vão procurava me persuadir de que as nuvens que se formavam acima de mim eram parecidas com as de minha infância, de que o céu da cidade distante não era diferente da cúpula azul que pendia sobre mim, de que o ar era o mesmo, da mesma forma que o sopro do vento, o canto dos pássaros. As nuvens, o céu, o ar, os ventos, os pássaros, eram vistos por mim como coisas novas e diferentes; e eu me sentia um estrangeiro.

Adiante, adiante! Vagabundos que encontrávamos pelas planícies diziam-me que os confins não estavam distantes. Eu incitava meus homens a não descansar, sufocava as expressões de desalento que brotavam em seus lábios. Eram passados quatro anos desde a minha partida, que esforço mais prolongado! A capital, minha casa, meu pai, tornavam-se estranhamente remotos, vagamente reais. Vinte longos meses de silêncio e de solidão transcorriam agora entre as sucessivas chegadas dos mensageiros. Traziam-me curiosas cartas amareladas pelo tempo e nelas encontrava nomes esquecidos, formas de expressão insólitas, sentimentos que não conseguia compreender.

Na manhã seguinte, depois de uma breve noite de descanso, quando retomamos o caminho, o mensageiro partia na direção oposta, levando para a cidade as cartas que por um longo tempo eu havia preparado.

Transcorreram mais oito anos e meio. Esta noite eu jantava solitário em minha tenda, quando entrou Domenico, que esgotado pelo cansaço, ainda conseguiu sorrir. Havia quase sete anos que não o via. Durante todo esse longuíssimo período não fez outra coisa senão correr através dos prados, bosques e desertos, trocando quem sabe quantas vezes de cavalgadura para trazer-me esse maço de envelopes que ainda não tive vontade de abrir. Domenico já se retirou para descansar e partirá amanhã ao alvorecer.

Marchará pela última vez. Calculei em minhas anotações que, se tudo correr bem, eu prosseguindo em meu caminho como tenho feito até aqui e ele percorrer o seu, não verei Domenico antes de trinta e quatro anos. A essa altura estarei com setenta e dois anos. Mas começo a sentir-me cansado e é provável que a morte me leve antes. Desse modo, é provável que não mais o veja.

Dentro de trinta e quatro anos (como seria bom que fosse antes) Domenico vislumbrará de forma inesperada as fogueiras do meu acampamento e se perguntará por que percorri tão pouco caminho. Nessa mesma noite, o bondoso mensageiro entrará em minha tenda com as cartas amarelecidas pelos anos, cheias de absurdas notícias de um tempo já sepultado; se deterá sob o umbral, vendo-me imóvel, estendido sobre o leito, com dois soldados flanqueando-me com suas tochas, morto.

Ainda assim, segue, Domenico, e não me digas que sou cruel! Leva minha derradeira saudação à cidade onde nasci. Tu és o vínculo sobrevivente com o mundo que outrora foi também o meu. As últimas mensagens me fazem saber que muitas coisas mudaram, que meu pai morreu, que a coroa foi passada ao meu irmão mais velho, que me deram por perdido, que no lugar onde antes se encontravam os carvalhos sob os quais costumava brincar, construíram altos palácios de pedra. De todo modo, continua sendo a minha pátria.

Tu és o último vínculo com eles, Domenico. O quinto mensageiro, Ettore, que me alcançará, se Deus quiser, dentro de um ano e oito meses, não poderá partir porque não lhe daria tempo de regressar. Depois de ti, Domenico, o silêncio, a não ser que eu encontre, por fim, os esperados confins. Todavia, quanto mais avanço, mais me convenço de que não existe fronteira.

Não existe, suspeito eu, fronteira, ao menos no sentido em que estamos acostumados a pensar. Não há muralhas que separem, nem vales que dividam, nem montanhas que impeçam a passagem. Provavelmente cruzarei o limite sem me dar conta e, desconhecendo-o, continuarei a avançar. 

Por esta razão pretendo que, quando me alcançarem novamente, Ettore e os outros mensageiros que o seguem não partam de volta à capital, mas que cavalguem avante, precedendo-me, para que eu possa saber com antecedência aquilo que me aguarda.

Desde há um tempo, me desperta em plena noite uma agitação insólita, e não se trata de saudades das alegrias abandonadas, como ocorria nos primeiros tempos de viagem, mas uma impaciência em conhecer as terras ignotas às quais me dirijo.

Dia a dia, à medida que avanço para esse objetivo incerto, noto - e até aqui não o confessei a ninguém - como o céu resplandece uma luz insólita, jamais vista sequer em sonhos, e como as plantas, os montes, os rios que atravessamos, parecem feitos de uma essência distinta daquela de nossa terra, e o ar traz presságios que não sei expressar. 

A cada manhã uma nova esperança me arrasta para frente, para essas montanhas inexploradas que as sombras da noite ocultam. Uma vez mais levantarei acampamento, enquanto do outro lado Domenico desaparece no horizonte, portando para a remotíssima cidade minha inútil mensagem.



As marcas da divisão social




Equivocam-se as vozes que afirmam de modo peremptório e tendencioso que o atual governo dirigido pelo PT promoveu o acirramento social entre classes e mesmo a xenofobia e preconceito. Ontem mesmo li o depoimento de um deputado da oposição afirmando isso. Nosso país nasce sob a égide que licenciou ao longo de cinco séculos as profundas marcas da desigualdade, não sou eu quem digo, mas mestres do calibre de Caio Prado Jr, Sérgio Buarque de Holanda, para ficarmos por aí. De outra parte, a luta para a preservação das culturas originárias sempre se processou com enormes dificuldades, sob intensa e calada luta. No insuspeito comentário de Darcy Ribeiro, "(...) mesmo submetidos a todos os flagelos da enfermidade, da escravidão, da compressão do fanatismo missionário, governamental, ou de qualquer índole, esses grupos permanecem (ainda hoje) eles mesmos enquanto podem, conservam um mínimo de seus membros que partilham da mesma identidade étnica (...)". Isso, como se vê, no que diz respeito às culturas indígenas. No que tange à população negra, Florestan Fernandes, profundo estudioso do tema, observa que "as transformações da estrutura da sociedade, apesar da extinção da escravidão e da universalização do trabalho livre, não afetaram de modo intenso, contínuo e extenso o padrão tradicionalista de acomodação racial e a ordem racial que (o brasileiro) presumia". 

De um modo geral, nos últimos doze anos, assistimos a um avanço relativamente bem sucedido de programas sociais inclusivos, que permitiram maior acesso às camadas menos favorecidas da população, dentre as quais, os negros e mulatos. A percepção da inserção social estão bem definidos nos estudos econômicos de Marcio Pochmann, e não entrarei aqui em detalhes, mas posso citar uma importante referência bibliográfica, "O mito da grande classe média" (Boitempo, 2010), em que, de modo didático, expõe a relevância das políticas públicas aplicadas nestes anos.

Da minha experiência pessoal, poderia destacar inúmeros testemunhos vivenciados em São Paulo, que expressaram a intolerância atávica de nossas classes mais favorecidas, no que diz respeito aos direitos de cidadania. Pior ainda, ao desconhecimento profundo de conceitos políticos e da realidade desigual de nossa sociedade. Na disputa eleitoral de 1989, polarizada entre Collor e Lula, foi possível identificar o forte embate entre os interesses classistas. Vivíamos o recente evento da queda do muro de Berlim, que iria marcar a economia de nosso país nos anos seguintes, tornando descartável, para não dizer proibitivo, o discurso baseado no bem estar social. A profunda divisão de nossa sociedade ali dava mais um longo suspiro, e o que acompanhamos foi a entrada triunfante do que se denomina neoliberalismo, cujo conceito abandonou as páginas das publicações de administração e economia para ganhar força nas decisões governamentais. E não podemos dizer que saímos melhor dessa dolorosa experiência, marcada pela dependência, pelo ideário privatista, pela redução do emprego. 

Alguns anos antes desse turning point que formatou os desígnios da realidade político-econômica do Brasil ao longo de mais de dez anos, recordo-me de uma situação limite que define o ódio classista da nossa elite contra aquilo que considera uma ameaça ao seu status. Fui convidado por meus pais a um jantar no apartamento de uma família amiga deles, no exclusivo bairro do Morumbi. Confesso que aceitei a contragosto, porque de fato não tinha a menor afinidade com ela. O homem, chamarei aqui de Rodolfo, fazia parte do staff da diretoria de um poderoso banco, e embora fosse uma possibilidade de realizar uma 'experiência de campo', na verdade não saberia o que dizer, como me expressar num ambiente de pessoas que ascendiam vertiginosamente ao poder e à riqueza. Não foi preciso dizer nada, logo ao entrar no apartamento, fui conduzido pelo braço por Rodolfo até seu quarto, onde apontou para um fuzil pendurado na parede. "Está vendo ali, Marco, é com aquilo que receberei o seu pessoal". Por 'seu pessoal', esse modo tosco de se referir a um grupo de pessoas, ficou claro que já se tratava da incômoda ascensão do PT na política brasileira. Considero este um exemplo acabado de que nossas elites sempre se esconderam atrás do que Florestan denominou 'o preconceito de não ter preconceito'.