17 agosto 2015

O disperso agregado

manifestação

Nada me pareceu tão vago quanto esta manifestação organizada pelas oposições no Brasil. Na verdade, mais um encontro do tipo convescote de final de semana ensolarado do que propriamente um movimento reivindicatório. O dia estava bonito, a força convocatória nas mídias em pleno vapor, então porque não ir até a Paulista com a família, vestindo as camisas amarelas? Como de costume, os carros de som se distribuíam pela avenida, martelando palavras de ordem proferidas ao sabor do ódio do momento, em falas curtas, nem sempre audíveis, finalizados com os chavões usuais que ditos com a fúria esperada, empolgam os participantes do pedaço. As diatribes geradas pelo sistema de som de um veículo nunca é o mesmo daquele outro, trezentos metros adiante, e assim, em cada pedaço da manifestação, uma sandice distinta da outra, animando a indignação de quem transita com suas faixas disformes. Aqui, uma em inglês rechaçando tornar-se uma Cuba, ali outra pedindo a intervenção militar, acolá uma justificando a sonegação como legítima defesa... Procurei caminhar por entre os manifestantes, não se nota unidade, mas fragmentos que circulam, como blocos no degelo de um caudaloso rio. Se persiste o sentimento de repúdio, não é menos verdade que ele não se integra em uma agenda, como disse acima, em um discurso consistente, que dê força e sentido ao movimento, fazendo-o avançar. Se não há representação política, se não há proposição organizada em um conjunto de demandas, então o que move aquelas pessoas? Quem são? Provêm de quais setores sociais? É difícil compreender que não se articulam em torno de uma finalidade a não ser a retirada de Dilma e do PT do poder. Também parece muito simplório dizer que sejam conduzidos por uma onda de desprezo gerada nas mídias hegemônicas, ou patrocinados por não sei quais corporações. O que sei é que desfilam de modo descontraído, milhares deles, em sua  maioria brancos, com aparência saudável, em família, com trajes verde-amarelo, exalando mais do que indignação, o vigor de uma repulsa raivosa, em muitos momentos grosseira, preconceituosa e presunçosa, e não raro, historicamente equivocada. O andar incerto de uma tarde, um disperso agregado que é sem se consubstanciar, sintoma de uma episteme que não se consolida, de um mal-estar que não se dilui, mas também não ganha força implacável. Temos um movimento contemporâneo, parido do ventre neoliberal, que se agrega de acordo com os matizes do momento, em torno de pequenos grupos que arregimentam com base em sua notoriedade efêmera, canalizando sentimentos fragmentários e como consequência, produzindo posicionamentos tão díspares quanto indefinidos. 

Eis meu esforço, em torno de palavras que não conseguem dimensionar a clara impressão dos fatos.


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