24 maio 2015

As marcas da divisão social



Equivocam-se as vozes que afirmam de modo peremptório e tendencioso que o atual governo dirigido pelo PT promoveu o acirramento social entre classes e mesmo a xenofobia e preconceito. Ontem mesmo li o depoimento de um deputado da oposição afirmando isso. Nosso país nasce sob a égide que licenciou ao longo de cinco séculos as profundas marcas da desigualdade, não sou eu quem digo, mas mestres do calibre de Caio Prado Jr, Sérgio Buarque de Holanda, para ficarmos por aí. De outra parte, a luta para a preservação das culturas originárias sempre se processou com enormes dificuldades, sob intensa e calada luta. No insuspeito comentário de Darcy Ribeiro, "(...) mesmo submetidos a todos os flagelos da enfermidade, da escravidão, da compressão do fanatismo missionário, governamental, ou de qualquer índole, esses grupos permanecem (ainda hoje) eles mesmos enquanto podem, conservam um mínimo de seus membros que partilham da mesma identidade étnica (...)". Isso, como se vê, no que diz respeito às culturas indígenas. No que tange à população negra, Florestan Fernandes, profundo estudioso do tema, observa que "as transformações da estrutura da sociedade, apesar da extinção da escravidão e da universalização do trabalho livre, não afetaram de modo intenso, contínuo e extenso o padrão tradicionalista de acomodação racial e a ordem racial que (o brasileiro) presumia". 

De um modo geral, nos últimos doze anos, assistimos a um avanço relativamente bem sucedido de programas sociais inclusivos, que permitiram maior acesso às camadas menos favorecidas da população, dentre as quais, os negros e mulatos. A percepção da inserção social estão bem definidos nos estudos econômicos de Marcio Pochmann, e não entrarei aqui em detalhes, mas posso citar uma importante referência bibliográfica, "O mito da grande classe média" (Boitempo, 2010), em que, de modo didático, expõe a relevância das políticas públicas aplicadas nestes anos.

Da minha experiência pessoal, poderia destacar inúmeros testemunhos vivenciados em São Paulo, que expressaram a intolerância atávica de nossas classes mais favorecidas, no que diz respeito aos direitos de cidadania. Pior ainda, ao desconhecimento profundo de conceitos políticos e da realidade desigual de nossa sociedade. Na disputa eleitoral de 1989, polarizada entre Collor e Lula, foi possível identificar o forte embate entre os interesses classistas. Vivíamos o recente evento da queda do muro de Berlim, que iria marcar a economia de nosso país nos anos seguintes, tornando descartável, para não dizer proibitivo, o discurso baseado no bem estar social. A profunda divisão de nossa sociedade ali dava mais um longo suspiro, e o que acompanhamos foi a entrada triunfante do que se denomina neoliberalismo, cujo conceito abandonou as páginas das publicações de administração e economia para ganhar força nas decisões governamentais. E não podemos dizer que saímos melhor dessa dolorosa experiência, marcada pela dependência, pelo ideário privatista, pela redução do emprego. 

Alguns anos antes desse turning point que formatou os desígnios da realidade político-econômica do Brasil ao longo de mais de dez anos, recordo-me de uma situação limite que define o ódio classista da nossa elite contra aquilo que considera uma ameaça ao seu status. Fui convidado por meus pais a um jantar no apartamento de uma família amiga deles, no exclusivo bairro do Morumbi. Confesso que aceitei a contragosto, porque de fato não tinha a menor afinidade com ela. O homem, chamarei aqui de Rodolfo, fazia parte do staff da diretoria de um poderoso banco, e embora fosse uma possibilidade de realizar uma 'experiência de campo', na verdade não saberia o que dizer, como me expressar num ambiente de pessoas que ascendiam vertiginosamente ao poder e à riqueza. Não foi preciso dizer nada, logo ao entrar no apartamento, fui conduzido pelo braço por Rodolfo até seu quarto, onde apontou para um fuzil pendurado na parede. "Está vendo ali, Marco, é com aquilo que receberei a sua gente". Por 'sua gente', ficou claro que já se tratava da incômoda ascensão do PT na política brasileira. Considero este um exemplo acabado de que nossas elites sempre se esconderam atrás do que Florestan denominou 'o preconceito de não ter preconceito'.


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