18 abril 2011

As cartas e os gestos decisivos



Johanna dispõe diante de si mais de 600 cartas enviadas pelo cunhado, Vincent, ao marido Théo. Além das cartas, o acervo de quadros encalhados, fruto de pouco mais de dez anos de trabalho. Seu irmão pede para que se desfaça do material maldito. Indecisa, Johanna lê as cartas, na esperança de rever, ainda que furtivamente, laivos do homem por quem se apaixonara e casara. Mas no lugar de Théo, encontra os olhos de Vincent, e por eles desvela todo o sentido para sua vida e sua obra. Algo a mobiliza, proveniente da compreensão de uma obra, envolta dia após dia na delicada apreensão de cada página. Johanna não deixou de se emocionar com a leitura dos textos, renovando a beleza das palavras, desvelando por consequência a doce rudeza contida em cada pincelada...

E retomou, decidida, o esforço de Théo em divulgar a obra de Vincent para o mundo...

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A primeira vez que ouvi de América Scarfó foi em uma deleitosa entrevista concedida pelo escritor e historiador argentino Osvaldo Bayer. Pude acompanhar sua maneira pausada em expor as memórias, límpida como o olhar sereno de quem jamais recusou o bom combate das ideias. Quando comentou sobre a jovem América, foi para dizer das cartas que Severino Giovani, um decidido líder anarquista, deixara para ela. No início dos anos 1930, o estado argentino as confiscou quando da prisão de Giovani, e depois de seu fuzilamento, delas nada se soube.

Pois nos anos 1990, as cartas foram finalmente resgatadas do museu policial. Osvaldo Bayer, envolvido na pesquisa desta história épica de amor e de luta, descreve a emoção de América, então uma mulher com quase noventa anos: Antes de morrer, gostaria de rever estas cartas para acariciar-me com elas...

Uma vez de posse delas, faleceria um ano mais tarde.

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A história de América e Giovani me recorda outra, ocorrida nos mesmos anos 1930, desvelada por uma inocente reportagem pela tevê, aqui em São Paulo. Tratava-se de uma investigação ordinária sobre achados e perdidos do metrô, e em dado momento, a câmera registra um diário com poemas, abandonado entre inúmeros outros objetos.

Dias mais tarde, um jornal de grande circulação deu prosseguimento à matéria, ao identificar a proprietária do caderno, uma jovem em seus oitenta e tantos anos, que relatava sua felicidade ao reencontrar os poemas escritos por seu amor, nos anos em que ainda namoravam. Tinha perdido (o diário) um dia desses e agora estou feliz por reencontrá-lo...

Os inefáveis caminhos do amor, a renovar o brilho de um sentimento desmedido...

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Naquela noite, estava imerso em pensamentos brumosos, sentado diante da escrivaninha, para escrever um pouco sobre o tema de minhas leituras recentes, os índios renqueles. Ao lado da janela, meu olhar vago percorreu o pátio interno, três andares abaixo, coberto pela neve. Não havia um motivo específico para acomodar a atenção nesse espaço desalentado pelo frio intenso. Talvez o tom azulado da noite, em contraponto com o improvável foco de luz à saída de um dos edifícios, me estimulasse a refletir nos homens renqueles, pacíficos, trabalhadores, e que tratavam respeitosamente suas mulheres... Segundo o coronel Rauch, o grande verdugo da nação indígena, os renqueles não tinham salvação porque não possuíam o sentido de propriedade...

Foi quando tive a atenção atraída para o movimento inopinado, um casal deixando o edifício ao fundo. Dois jovens encapotados, que se despediam desajeitadamente, sob o facho de luz. Ele acolheu o rosto da mulher para um derradeiro beijo e se afastou. Não deu três passos e talvez alertado por uma voz embargada, voltou-se para recolher uma carta, que lhe era estendida. O jovem tomou-a decidido, guardando-a no bolso, e embrenhou-se no silêncio da noite.



11 abril 2011

Sobre a vocação midiática



Senão vejamos:

O fim de mais um big brother, o de número 11, cuja duração, longe de registrar algum fato digno de destaque para além do mundo mercadológico, provocou tédio e, porque não acrescentar, repulsa.

Como os anteriores, pretensioso, vazio e descartável. Um desses acontecimentos midiáticos que se escoram no apelo indecente dos contratos assinados, esmorecem com o tempo e, sem que ninguém lamente, desaparecem como se jamais existissem.

A lamentar que o programa tenha concorrido com a realidade dolorosa das tragédias sociais, as da serra fluminense e do Japão. Fomos obrigados a nos condoer com a futilidade existencial sem competência para sustentar um discurso, enquanto o infortúnio rompia com o equilíbrio da vida.

Se por um lado, o artifício de um engodo, por outro, o drama autêntico da realidade. Alguma incongruência? Sim, e só a partir dela que os interesses midiáticos funcionam na pós-modernidade. Na maior parte do tempo, o espectador conduzido bovinamente, pela absoluta ausência de propósitos. E vez ou outra, sacudido pelo choque da notícia brutal, que repercute até que outro fato contundente surja para ser explorado.

Somos vítimas da indecência midiática (não há como não repetir essa constatação), que se desdobra em desapreço pelo cidadão, na exata medida em que intensifica a preocupação com o consumidor. Não somos mais do que o alvo de seus interesses, e desde que eles estejam contemplados, dane-se o resto.

Fim do big brother, o que não significa que estamos salvos. Ley de medios, impreterível! Sem o protagonismo social no debate da mídia pública, a manifestar os seus anseios de modo crítico e responsável, prosseguiremos nessa deriva medonha, que a nada nos conduz senão à apatia consumista.

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A principal personagem da oposição política deste país foi parada em uma blitz, teve a carteira de habilitação apreendida e recusou-se a fazer o teste de alcoolemia. Delitos graves para quem pretende se candidatar ao cargo máximo da nação.

Sobre a conduta indevida, uma leitura opaca e indulgente da grande mídia.


08 abril 2011

Sonhos de uma noite de outono




Dos fragmentos convulsos de imagens que intervieram em seu sono, restou-lhe a mais consistente e a mais deleitosa, e talvez por isso, a que repercutiria por toda a manhã, e pelas horas de solene devaneio, em que o silêncio se fez companhia. Sabia que elas desvaneceriam ao fim de cada reminiscência, dissolvendo a suave textura das expressões, os cabelos revoltos, a brisa persistente, atiçada pelo mar ao fundo, em seus tons mais sóbrios do crepúsculo...

Por isso escreveu logo após o primeiro despertar, coligindo os detalhes fugidios em meio à rememoração. E traçou os contornos sutis, como a face sorridente da felicidade, mas sobretudo esse olhar que o penetrava com ternura, o convite para uma longa caminhada juntos, imersos pelo tempo generoso, ao sabor das areias quentes e excitantes...


02 abril 2011

Cenas que se diluem com o tempo




Teve de atravessar o átrio para alcançar o Café da estação. Espaço receptivo para tomar o desjejum antes de alcançar a cidadezinha, logo após o bosque. Ao viajante M, como qualquer outro, lhe bastou uma rápida viagem para chegar até ali. Quem vem do norte e do oeste, um pouco mais de tempo, em torno de uma hora e um quarto. O viajante M veio do sul, precisou de 50 minutos, sob o movimento delicado dos ciprestes e o sol esmaecido de outono. Passou por pequenas cidadezinhas adormecidas em meio ao nevoeiro, até que, por fim, chegou ao seu destino. Toma agora um café negro com croissant, enquanto aprecia o ambiente.

Desvela o movimento sorumbático de braços, lábios, gestos comedidos, à espera do atendimento. Ao fundo, o balcão e as prateleiras de boa madeira, remetem a um tempo longínquo. Observa as garrafas com rótulos estranhos, perfiladas em impecável ordem, o barman a limpar uma taça após outra, pendurando-as em um tabuleiro suspenso. A luz indefinida acode o interior do Café, oriunda de três janelões à direita, e varre com seus fachos bacentos o caminho até se depositar nas mesas e nos rostos. O discreto som ambiente, Porcelain, de Moby.

O viajante M, como todos ali, não tem pressa. Separou o dinheiro, ao lado do copo com água, enquanto divisa o bêbado ao fundo, que até minutos antes estava mergulhado em profundo torpor. Aos poucos levanta-se, as pernas indecisas, derruba duas ou três moedas sobre a mesa e se retira. À esquerda, um pouco afastados, dois casais ocupam mesas distintas e sussurram sobre suas vidas. O barman deixa de limpar copos, sai detrás do balcão e faz o papel do garçom, recolhe as moedas deixadas pelo bêbado e circula pelas mesas, para atualizar os pedidos.

São quatro colunas, não muito largas e distantes entre si, que separam o recinto em duas partes, onde a decoração e distribuição das mesas seguem o mesmo padrão. O bêbado saiu pela porta à direita, cambaleante, impreciso, e diante do viajante M, acomodam-se duas mulheres, em mesas sucessivas, que recebem o desjejum. Mostram-lhe as costas, de modo que o viajante M, ao observá-las, apenas apreende os gestos dos braços e um leve menear das cabeças, quando elas avançam para as garfadas ou saboreiam os goles de café.

Nas paredes, dois grandes quadros com traços surrealistas, um em cada parte do salão. O que está disposto à frente do viajante M, e acima da mesa em que se encontrava o bêbado, descreve uma rua que termina em uma estação de trem, e a presença de uma mulher de chapéu, estática, em meio a um cenário esvaziado. O viajante M sente que é hora de partir, retira do bolso da jaqueta um endereço, rue Groening 2, e a anotação com letra feminina, "fundos com o canal, logo após a ponte, vindo da igreja".



01 abril 2011

Desintegração da verdade




Em tempos outros, menos brutalizados pela mercantilização da alma, o dia da mentira era de alguma forma comemorado pelas pessoas, com uma trama que se sustentava até o possível, e uma vez desvelada, emergia a sutileza da brincadeira, contada por diversas vozes. Para o dia da mentira fazer sentido, era importante a duração da mentira. Prolongada indefinidamente, a mentira tornava-se um engodo sem graça.

No mundo líquido-moderno, a mentira transformou-se em farsa, com o objetivo indefinido de postergar o embuste, a enganação. A mentira, que se tornou coisa burlesca, não tem tempo para terminar, ao contrário, a representação bem ou mal feita torna-se o fundamento do jogo neoliberal, postergando-se ao máximo. E uma vez desmascarada (e não revelada, como se fazia com a brincadeira), outra farsa é montada, pronta a disseminar-se, até que outra surja e assim por diante.

E perdura o tempo que se sustentar como um produto explorável. A farsa, o método da bufonaria, procede de acordo com a ideologia dominante. Seu discurso mais grandiloquente não sugere nada que o menor dos significados, mas a permanência de um insólito esvaziado. O método da pós-modernidade neoliberal é a antítese, e dela não escapa. Destruir para edificar, desinformar para formar, exceder para esvaziar... Para ser um vencedor, ignora-se o comportamento ético, e descartando a ética, estende-se a sensação fugidia do bem-estar.

A sensação fugidia do bem-estar é um dos pilares da publicidade de nossos dias, e como sabemos, ela se impregna por todos os poros, transformando em natural o artificioso, em falta o suficiente. Temos cada qual que desejarmos mais do que precisamos, alinhando-nos ao modo mais fácil de ser. Em outras palavras, o dia primeiro de abril não faz mais sentido, porque a mentira vinga como a grande verdade da vida.

Assim, chegam as disparatadas informações das agências noticiosas, dando conta que ora são os rebeldes, ora são as tropas de Gadafi que avançam e conquistam. Por trás de tudo, amarrando os acontecimentos descontextualizados, sabemos que os mísseis da Otan seguem caindo, em nome da segurança da população civil...

A intervenção midiática sobrevém e complementa a onda sísmica, não dos bombardeios, mas da trapaça informativa. O esforço das notícias compõe um quadro de confusão, a alimentar uma intervenção humanitária das potências industriais. É o sensacionalismo, estúpido! Quanto mais embuste se divulgar, menos se saberá onde está a verdade.

E então, de onde menos se espera, também o método da bufonaria em funcionamento. Surgem os cronistas e os filósofos de ocasião (que poderiam ser cronistas e filósofos da velocidade), propondo a revelação do que mais desejam esconder (ou do que menos se preocupam), a teleologia dos fatos. Quanto aos cronistas de ocasião, assumir uma função a serviço de interesses corporativos já não parece uma novidade, os temos em profusão suficiente para acreditar que a verdade seja a irrealidade criada em cada crônica, em cada artigo.

Mas quanto aos tais filósofos de ocasião, isso sim, me surpreende. Vê-los mergulhados até a alma nessa técnica oportunista, empenhados em difundir suas razões melífluas, que se escoram em um jogo perverso de surfar na onda (da ocasião), e amealhar muita grana com isso! Posto que se sacramentam, como fariseus do sistema capitalista, pautados na ideologia do sucesso a qualquer preço. Tudo o que podem oferecer, esses filósofos da velocidade, não vem do saber que acumulam, mas da espetaculosidade de suas técnicas de sedução.

De acordo com o espírito da antítese neoliberal, na qual se aprofundaram como poucos, a esses filósofos de ocasião não interessa a essência, mas a visibilidade; não a perenidade das ideias, mas a elaboração fortuita, que se esboroa ao primeiro vento. Adensam o choque provocador quanto mais faturam com isso, e são hábeis no trato de temas os mais diversos. As técnicas de sedução têm como ítem sagrado não permanecer nas mesmas ideias, multiplicá-las - com competência discursiva - para enredar a platéia. O filósofo de ocasião não crê em nada que subsista com consistência.

Temos, pois, o tempo da mentira, das palavras descartáveis, das ideias espúrias, das técnicas de explanação e de sedução, das explicações que não alimentam o desejo de serem compreendidas... Que jorrem pois os mísseis na Líbia, que se arroguem filosofar sobre os escritos de Nelson Rodrigues, quando pouco ou nada compreendem da obra de Nelson Rodrigues, que se desvirtue na edição das notícias, com mais estrepolias desconexas. Na modernidade-líquida, a diplomacia, como a filosofia de ocasião e a informação midiática, têm propósitos que poucas vezes contemplam a verdade.



18 março 2011

Desintegração da diplomacia



A se dar algum crédito nas informações que nos chegam das agências noticiosas hegemônicas, tudo está pronto para a intervenção militar na Líbia. França está pronta para atacar a Líbia com aval da ONU, estampa a manchete principal no sítio Globo.com. Em um trecho da matéria, afirma Hillary Clinton, Vamos continuar a trabalhar com nossos parceiros da comunidade internacional para pressionar Kadhafi a sair e vamos apoiar as aspirações legítimas do povo líbio.

O que seria esse apoio às aspirações legítimas do povo líbio, senão um jogo de retórica para encobrir os interesses do Ocidente aos recursos minerais do país? No portal do jornal O Estado de SP, o discurso surge sem tergiversações, Obama dá ultimato a Kadafi, seguindo um texto de cinco linhas. Nenhuma explicação, nenhum contexto, apenas o destaque das palavras de ordem, de acordo com o velho manual imperialista. E no UOL, França diz que está tudo pronto para intervir na Líbia.

Mal as tintas da resolução do Conselho de Segurança da ONU secaram no papel, temos o Ocidente sedento para invadir, para restaurar a democracia na Líbia, quando se sabe que o que menos as potências industriais acalentam é instaurar a democracia, na Líbia ou onde quer que seja. Um cheiro de Iraque 2003 no ar, aquela história de que era imprescindível atacar para neutralizar as armas de destruição maciça. Puro blefe, e como vemos, até hoje os soldados estadunidenses estão lá em seu encalço...

Não tenho o menor interesse em defender Kadafi, mas considero um absurdo a rapidez da implementação das decisões em andamento. Não há diplomacia, não há satisfação à opinião pública. Decisões distintas para crises semelhantes. A política de estado de Israel tem plena liberdade de ação para agredir a população palestina em Gaza. Ou como agora, no Iêmen, nenhuma comoção quando as forças do governo de Abdullah Saleh, há 32 anos no poder, abrem fogo contra a população, deixando 46 mortos e mais de cem feridos. O Iêmen não tem petróleo.

Os acontecimentos políticos no norte da África e Oriente Médio receberam desde sempre tratamento desigual, seja pelo tal Conselho de Segurança da ONU, seja pelas agências noticiosas internacionais. Os governos da Tunísia e do Egito eram tidos como estáveis, e apoiados pelo Ocidente. E nem um pio sobre as condições de vida nesses países. Como se sabe, no Egito 40% da população vivia (e ainda vive) abaixo da linha da pobreza, o que significa, segundo o Banco Mundial, menos de um dólar por dia; 54% dos empregos são informais, e 44% da força de trabalho é analfabeta...

Quando Ben Ali e Mubarak foram enxotados pela população (sem ameaças de intervenção das potências industriais, a despeito do caos e violência ocorridos), os fatos decorrentes de suas tiranias surgiram timidamente, contrapondo pela primeira vez a ideia de paraísos turísticos. Foram raras as oportunidades em que contemplei uma análise midiática denunciando as atrocidades contra a oposição política nesses países. E por que? Porque eram países alinhados aos interesses das potências industriais do ocidente.

Do silêncio entre os amigos, para as bravatas contra os inimigos. Até há bem pouco, Kadafi era acolhido nos fóruns mundiais pela redefinição de seu papel político, por seu petróleo, por seus polpudos investimentos financeiros. Recebeu o beija-mão de Berlusconi, apoiou com grana a candidatura de Sarkozy (que agora deseja atacá-lo), pagou a peso de ouro espetáculos pop em Trípoli (e uns tantos artistas resolveram limpar as mãos doando os cachês), enfim, em perfeita sintonia com o establishment dominante.

Agora, o desejo abrupto e vigoroso de se guerrear, de se avançar para destituir o tirano do poder. Quando não há mais lógica nas relações internacionais, esqueça a diplomacia. Estamos em tempos onde a palavra sucumbe ao gesto histriônico, marcado pela repercussão espetaculosa. E surge odienta, arrogante, incondicional, sem a menor intenção de negociar. Mais uma vez a desventura no Iraque e Afeganistão demonstra o quão equivocado é burlar da diplomacia, fazendo rugir os tambores da força.

Nada resta senão acompanharmos os desdobramentos de mais um embuste na política internacional. A evolução dos fatos e dos relatos emergirão para justificar os anseios das potências industriais. E não conte com a misericórdia de seus dirigentes, nem com o ludibrioso Conselho de Segurança da ONU. E tampouco com as verdades proclamadas pelas agências noticiosas hegemônicas!



09 março 2011

El Gato Díaz


Gato Diaz é uma dessas personagens marcantes, que uma vez lançadas ao proscênio, cumprem seu papel e se despedem com um gesto memorável. Assim como todos nós deveríamos cumprir nossos desígnios, Gato Díaz submete-se ao seu, sem alarde, movido pelo desejo do coração, o amor de la rubia de Ferreira. Talvez seja esse o punctum secreto do relato de Osvaldo Soriano em El penal más largo del mundo, o ensejo oculto que movimenta todas as peças da trama.

O jogo final, a emoção da torcida, o pênalti apontado no último minuto, o soco dado por Colo Rivero, que fez adormecer o árbitro Hermínio Silva, o adiamento por uma semana do lance derradeiro que decidiria o campeonato, a promessa de la rubia ao Gato Díaz, de que aceitaria o noivado se pegasse o pênalti, o ataque de epilepsia em Hermínio Silva, que faz com que o pênalti, chutado por Constante Gauna e defendido por Gato Díaz, seja batido pela segunda vez, todos esses fatos surgem adensados em um registro sutil, prazenteiro, que desvela a natureza de personagens contidos em um mundo de sentimentos genuínos, em um cantinho perdido da Patagônia. 

Mas nada, absolutamente nada, em minha opinião, se equipara à fineza do relato de Soriano quando ele demonstra a convicção de Gato Díaz de que defenderia pela segunda vez o pênalti, como se tratasse de um esforço banal... 'Então, o Gato Díaz apartou os que queriam acertar (o juiz) e disse que tinha de apressar-se, porque essa noite ele teria um encontro e uma promessa, e assim colocou-se mais uma vez sob o arco'...

E o que seria o desfecho natural de uma narrativa bem construída, a segunda defesa e o amor eterno de la rubia, torna-se um momento notável do passado, encoberto pelas brumas do tempo... Uma rápida elipse nos conduz à sequência final, que ameniza o clímax da defesa acompanhada por toda uma cidade, na exata proporção que o fato confere ao seu personagem principal, na breve continuidade do conto, a aura propícia de um mito.

Dois anos mais tarde, o Gato Díaz casado não com a rubia de Ferreira, mas com a irmã de Colo Rivero, está diante do jovem Soriano, o narrador, que tem um pênalti para si e o converte. Ao levantar-se, o goleiro lhe diz, 'Boa garoto, algum dia, quando for velho, estará a dizer que fizeste um gol no Gato Díaz, mas ninguém irá te acreditar'...

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Foi um dos pequenos prazeres que me envolveram neste carnaval. Nada das mazelas bigbrotherianas, nada de notícias da Líbia, produzidas pelo oligopólio midiático. Aderi de corpo e alma ao tempo generoso, esse do ócio abrangente, aprofundando minha sensação de bem-estar com o mundo. Como as personagens do bucólico rincão patagônico, sem se preocupar com os caminhos, já que eles se definem com nossas escolhas... e com a firme convicção de que as boas surpresas da vida ainda estão por se pronunciar...


04 março 2011

Torpor


espaços urbanos, catacumbas humanas...


De sua parte, o senhor B. experimentava o desvario indigesto da especificidade, sensação que há muito não sentia. Os delírios febrís começaram a cobrar seu tributo tão logo se ele se estendeu por sob as cobertas,

o mosaico diabólico movendo suas peças em um rearranjo longe de ser perfeito, mas que o distraía para a sequência...

a música entre ecos, sinos, sinetas, o ranger de metais, sons acústicos, a voz modulada balbuciando frases desconexas...

a imagem do céu cinzento, ao longe o bramir das ondas rebentando na encosta rochosa, bateria e baixo, a voz modulada, 'look at the sky...', um soturno trompete, ao longe o suave toque, como a marcação musical, em tempo sincronizado... a voz modulada ganhando feições distorcidas, repetindo 'look at the sky...' e junto ao choro de uma criança, o mar bravio, a brisa fria de um cinza chumbo... o senhor B. lembra-se que deve ir ao encontro com a senhora M... 

... o vento o abraça solene, demoradamente, imobiliza-o em crescentes incertezas... tem o desejo de ir à beira-mar... a música entre ecos, o baixo acelerando a melodia, a nota esgarçada de um sintetizador, o corpo úmido... pensa que já é quinta feira, 'Não, não...' e sorri, porque gosta da reminiscência, um achado tão doce em uma jornada tão desconfortável... e sorri e as imagens se desvanecem logo ao surgirem, nenhum sentimento nem tampouco as visões do torpor persistem...


... o senhor B. volta-se para o outro lado, desaparecem as imagens e os sons por um instante, para ressurgirem no outro, pausados, distintos, agora as palavras do final de ano, um garçon em Berlim o convida para um drinque, '...this is champagne... merry christmas...', está em Berlim e o salão tão comum, gente transitando, o frio que vem de fora e penetra as grossas lãs... o senhor B. agora transita pelas ruas recobertas de neve... o som modulado, o prato da bateria delicadamente ressonado, o trompete... um jazz com batida rítmica, o baixo... 

... um tremor do corpo, o senhor B. não se sente confortável, mas as alucinações febris não o deixam, torna-se seu refém e tem consciência que enquanto a febre persistir, estará imerso em visões e sentimentos desconexos, imprecisos... lembra-se que tem um encontro, não pode faltar porque deseja dizer coisas muito importantes... a senhora M. talvez entenda um pequeno atraso, mas não esse atraso de duas horas... o café está vazio, as atendentes se esforçam para cobrir o sorriso e continuam com seus afazeres por trás do balcão...

... o senhor B. se aproxima, 'Por acaso viram a senhora M.?', ao que a atendente mais velha volta-lhe as costas, proferindo algo... 'O que disse, senhora?'... insiste o senhor B. e ela bem que se volta, sem o encarar diretamente... as três agora estão juntas, elas cozinham em um caldeirão atrás do balcão, são as três bruxas de Macbeth, o senhor B. sente bater-lhe às costas, é o garçon, 'I am the boss, this is champagne, merry christmas...

... um vago desejo de levantar da cama é logo portergado pela indisposição, então o senhor B. adormece por um lapso breve, para situar-se numa semiconsciência turva, e sente o corpo encharcado, e sabe que não conseguirá discernir se é hoje ou se é amanhã, e o encontro que não pode faltar, que não quer faltar... a batida ritmica, o sintetizador, um eco ressoando os instrumentos de percussão... a boca seca, talvez um café, mas a senhora M. não veio ao encontro... 

... dois alunos o aguardam do lado de fora, querem saber da prova, 'Não, depois...', e avança por sob a chuva fina, 'O céu ainda plúmbeo, penso que continuará assim por um bom tempo...' reflete o senhor B, empapado em suor, e chega a uma biblioteca vazia, os ecos dos sinos e dos pratos anunciando o desconsolo do desvario febril, mais e mais uma vez... e a incerteza de que encontrará a senhora M. com suas roupas de inverno, o grosso e aconchegante cachecol de flanela... 

... 'Onde você o comprou?', pergunta o senhor B. aproveitando que a vê de passagem, mas a senhora M. não se detém e prossegue em seu caminho, com a bolsa e os cadernos e os livros, e dobra o corredor... e o suave trompete, a batida ritmica, o baixo acústico, a voz mixada que não abandonam o sono do senhor B...