02 abril 2011

Cenas que se diluem com o tempo


Teve de atravessar o átrio para alcançar o Café da estação. Espaço receptivo para tomar o desjejum antes de alcançar a cidadezinha, logo após o bosque. Ao viajante M, como qualquer outro, lhe bastou uma rápida viagem para chegar até ali. Quem vem do norte e do oeste, um pouco mais de tempo, em torno de uma hora e um quarto. O viajante M veio do sul, precisou de 50 minutos, sob o movimento delicado dos ciprestes e o sol esmaecido de outono. Passou por pequenas cidadezinhas adormecidas em meio ao nevoeiro, até que, por fim, chegou ao seu destino. Toma agora um café negro com croissant, enquanto aprecia o ambiente.

Desvela o movimento sorumbático de braços, lábios, gestos comedidos, à espera do atendimento. Ao fundo, o balcão e as prateleiras de boa madeira, remetem a um tempo longínquo. Observa as garrafas com rótulos estranhos, perfiladas em impecável ordem, o barman a limpar uma taça após outra, pendurando-as em um tabuleiro suspenso. A luz indefinida acode o interior do Café, oriunda de três janelões à direita, e varre com seus fachos bacentos o caminho até se depositar nas mesas e nos rostos. O discreto som ambiente, Porcelain, de Moby.

O viajante M, como todos ali, não tem pressa. Separou o dinheiro, ao lado do copo com água, enquanto divisa o bêbado ao fundo, que até minutos antes estava mergulhado em profundo torpor. Aos poucos levanta-se, as pernas indecisas, derruba duas ou três moedas sobre a mesa e se retira. À esquerda, um pouco afastados, dois casais ocupam mesas distintas e sussurram sobre suas vidas. O barman deixa de limpar copos, sai detrás do balcão e faz o papel do garçom, recolhe as moedas deixadas pelo bêbado e circula pelas mesas, para atualizar os pedidos.

São quatro colunas, não muito largas e distantes entre si, que separam o recinto em duas partes, onde a decoração e distribuição das mesas seguem o mesmo padrão. O bêbado saiu pela porta à direita, cambaleante, impreciso, e diante do viajante M, acomodam-se duas mulheres, em mesas sucessivas, que recebem o desjejum. Mostram-lhe as costas, de modo que o viajante M, ao observá-las, apenas apreende os gestos dos braços e um leve menear das cabeças, quando elas avançam para as garfadas ou saboreiam os goles de café.

Nas paredes, dois grandes quadros com traços surrealistas, um em cada parte do salão. O que está disposto à frente do viajante M, e acima da mesa em que se encontrava o bêbado, descreve uma rua que termina em uma estação de trem, e uma mulher de chapéu, estática, em meio a um cenário esvaziadItálicoo. O viajante M sente que é hora de partir, retira do bolso da jaqueta um endereço, rue Groening 2, e a anotação com letra feminina, "fundos com o canal, logo após a ponte, vindo da igreja".


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