01 abril 2011

Desintegração da verdade




Em tempos outros, menos brutalizados pela mercantilização da alma, o dia da mentira era de alguma forma comemorado pelas pessoas, com uma trama que se sustentava até o possível, e uma vez desvelada, emergia a sutileza da brincadeira, contada por diversas vozes. Para o dia da mentira fazer sentido, era importante a duração da mentira. Prolongada indefinidamente, a mentira tornava-se um engodo sem graça.

No mundo líquido-moderno, a mentira transformou-se em farsa, com o objetivo indefinido de postergar o embuste, a enganação. A mentira, que se tornou coisa burlesca, não tem tempo para terminar, ao contrário, a representação bem ou mal feita torna-se o fundamento do jogo neoliberal, postergando-se ao máximo. E uma vez desmascarada (e não revelada, como se fazia com a brincadeira), outra farsa é montada, pronta a disseminar-se, até que outra surja e assim por diante.

E perdura o tempo que se sustentar como um produto explorável. A farsa, o método da bufonaria, procede de acordo com a ideologia dominante. Seu discurso mais grandiloquente não sugere nada que o menor dos significados, mas a permanência de um insólito esvaziado. O método da pós-modernidade neoliberal é a antítese, e dela não escapa. Destruir para edificar, desinformar para formar, exceder para esvaziar... Para ser um vencedor, ignora-se o comportamento ético, e descartando a ética, estende-se a sensação fugidia do bem-estar.

A sensação fugidia do bem-estar é um dos pilares da publicidade de nossos dias, e como sabemos, ela se impregna por todos os poros, transformando em natural o artificioso, em falta o suficiente. Temos cada qual que desejarmos mais do que precisamos, alinhando-nos ao modo mais fácil de ser. Em outras palavras, o dia primeiro de abril não faz mais sentido, porque a mentira vinga como a grande verdade da vida.

Assim, chegam as disparatadas informações das agências noticiosas, dando conta que ora são os rebeldes, ora são as tropas de Gadafi que avançam e conquistam. Por trás de tudo, amarrando os acontecimentos descontextualizados, sabemos que os mísseis da Otan seguem caindo, em nome da segurança da população civil...

A intervenção midiática sobrevém e complementa a onda sísmica, não dos bombardeios, mas da trapaça informativa. O esforço das notícias compõe um quadro de confusão, a alimentar uma intervenção humanitária das potências industriais. É o sensacionalismo, estúpido! Quanto mais embuste se divulgar, menos se saberá onde está a verdade.

E então, de onde menos se espera, também o método da bufonaria em funcionamento. Surgem os cronistas e os filósofos de ocasião (que poderiam ser cronistas e filósofos da velocidade), propondo a revelação do que mais desejam esconder (ou do que menos se preocupam), a teleologia dos fatos. Quanto aos cronistas de ocasião, assumir uma função a serviço de interesses corporativos já não parece uma novidade, os temos em profusão suficiente para acreditar que a verdade seja a irrealidade criada em cada crônica, em cada artigo.

Mas quanto aos tais filósofos de ocasião, isso sim, me surpreende. Vê-los mergulhados até a alma nessa técnica oportunista, empenhados em difundir suas razões melífluas, que se escoram em um jogo perverso de surfar na onda (da ocasião), e amealhar muita grana com isso! Posto que se sacramentam, como fariseus do sistema capitalista, pautados na ideologia do sucesso a qualquer preço. Tudo o que podem oferecer, esses filósofos da velocidade, não vem do saber que acumulam, mas da espetaculosidade de suas técnicas de sedução.

De acordo com o espírito da antítese neoliberal, na qual se aprofundaram como poucos, a esses filósofos de ocasião não interessa a essência, mas a visibilidade; não a perenidade das ideias, mas a elaboração fortuita, que se esboroa ao primeiro vento. Adensam o choque provocador quanto mais faturam com isso, e são hábeis no trato de temas os mais diversos. As técnicas de sedução têm como ítem sagrado não permanecer nas mesmas ideias, multiplicá-las - com competência discursiva - para enredar a platéia. O filósofo de ocasião não crê em nada que subsista com consistência.

Temos, pois, o tempo da mentira, das palavras descartáveis, das ideias espúrias, das técnicas de explanação e de sedução, das explicações que não alimentam o desejo de serem compreendidas... Que jorrem pois os mísseis na Líbia, que se arroguem filosofar sobre os escritos de Nelson Rodrigues, quando pouco ou nada compreendem da obra de Nelson Rodrigues, que se desvirtue na edição das notícias, com mais estrepolias desconexas. Na modernidade-líquida, a diplomacia, como a filosofia de ocasião e a informação midiática, têm propósitos que poucas vezes contemplam a verdade.



18 março 2011

Desintegração da diplomacia



A se dar algum crédito nas informações que nos chegam das agências noticiosas hegemônicas, tudo está pronto para a intervenção militar na Líbia. França está pronta para atacar a Líbia com aval da ONU, estampa a manchete principal no sítio Globo.com. Em um trecho da matéria, afirma Hillary Clinton, Vamos continuar a trabalhar com nossos parceiros da comunidade internacional para pressionar Kadhafi a sair e vamos apoiar as aspirações legítimas do povo líbio.

O que seria esse apoio às aspirações legítimas do povo líbio, senão um jogo de retórica para encobrir os interesses do Ocidente aos recursos minerais do país? No portal do jornal O Estado de SP, o discurso surge sem tergiversações, Obama dá ultimato a Kadafi, seguindo um texto de cinco linhas. Nenhuma explicação, nenhum contexto, apenas o destaque das palavras de ordem, de acordo com o velho manual imperialista. E no UOL, França diz que está tudo pronto para intervir na Líbia.

Mal as tintas da resolução do Conselho de Segurança da ONU secaram no papel, temos o Ocidente sedento para invadir, para restaurar a democracia na Líbia, quando se sabe que o que menos as potências industriais acalentam é instaurar a democracia, na Líbia ou onde quer que seja. Um cheiro de Iraque 2003 no ar, aquela história de que era imprescindível atacar para neutralizar as armas de destruição maciça. Puro blefe, e como vemos, até hoje os soldados estadunidenses estão lá em seu encalço...

Não tenho o menor interesse em defender Kadafi, mas considero um absurdo a rapidez da implementação das decisões em andamento. Não há diplomacia, não há satisfação à opinião pública. Decisões distintas para crises semelhantes. A política de estado de Israel tem plena liberdade de ação para agredir a população palestina em Gaza. Ou como agora, no Iêmen, nenhuma comoção quando as forças do governo de Abdullah Saleh, há 32 anos no poder, abrem fogo contra a população, deixando 46 mortos e mais de cem feridos. O Iêmen não tem petróleo.

Os acontecimentos políticos no norte da África e Oriente Médio receberam desde sempre tratamento desigual, seja pelo tal Conselho de Segurança da ONU, seja pelas agências noticiosas internacionais. Os governos da Tunísia e do Egito eram tidos como estáveis, e apoiados pelo Ocidente. E nem um pio sobre as condições de vida nesses países. Como se sabe, no Egito 40% da população vivia (e ainda vive) abaixo da linha da pobreza, o que significa, segundo o Banco Mundial, menos de um dólar por dia; 54% dos empregos são informais, e 44% da força de trabalho é analfabeta...

Quando Ben Ali e Mubarak foram enxotados pela população (sem ameaças de intervenção das potências industriais, a despeito do caos e violência ocorridos), os fatos decorrentes de suas tiranias surgiram timidamente, contrapondo pela primeira vez a ideia de paraísos turísticos. Foram raras as oportunidades em que contemplei uma análise midiática denunciando as atrocidades contra a oposição política nesses países. E por que? Porque eram países alinhados aos interesses das potências industriais do ocidente.

Do silêncio entre os amigos, para as bravatas contra os inimigos. Até há bem pouco, Kadafi era acolhido nos fóruns mundiais pela redefinição de seu papel político, por seu petróleo, por seus polpudos investimentos financeiros. Recebeu o beija-mão de Berlusconi, apoiou com grana a candidatura de Sarkozy (que agora deseja atacá-lo), pagou a peso de ouro espetáculos pop em Trípoli (e uns tantos artistas resolveram limpar as mãos doando os cachês), enfim, em perfeita sintonia com o establishment dominante.

Agora, o desejo abrupto e vigoroso de se guerrear, de se avançar para destituir o tirano do poder. Quando não há mais lógica nas relações internacionais, esqueça a diplomacia. Estamos em tempos onde a palavra sucumbe ao gesto histriônico, marcado pela repercussão espetaculosa. E surge odienta, arrogante, incondicional, sem a menor intenção de negociar. Mais uma vez a desventura no Iraque e Afeganistão demonstra o quão equivocado é burlar da diplomacia, fazendo rugir os tambores da força.

Nada resta senão acompanharmos os desdobramentos de mais um embuste na política internacional. A evolução dos fatos e dos relatos emergirão para justificar os anseios das potências industriais. E não conte com a misericórdia de seus dirigentes, nem com o ludibrioso Conselho de Segurança da ONU. E tampouco com as verdades proclamadas pelas agências noticiosas hegemônicas!



09 março 2011

El Gato Díaz


Gato Diaz é uma dessas personagens marcantes, que uma vez lançadas ao proscênio, cumprem seu papel e se despedem com um gesto memorável. Assim como todos nós deveríamos cumprir nossos desígnios, Gato Díaz submete-se ao seu, sem alarde, movido pelo desejo do coração, o amor de la rubia de Ferreira. Talvez seja esse o punctum secreto do relato de Osvaldo Soriano em El penal más largo del mundo, o ensejo oculto que movimenta todas as peças da trama.

O jogo final, a emoção da torcida, o pênalti apontado no último minuto, o soco dado por Colo Rivero, que fez adormecer o árbitro Hermínio Silva, o adiamento por uma semana do lance derradeiro que decidiria o campeonato, a promessa de la rubia ao Gato Díaz, de que aceitaria o noivado se pegasse o pênalti, o ataque de epilepsia em Hermínio Silva, que faz com que o pênalti, chutado por Constante Gauna e defendido por Gato Díaz, seja batido pela segunda vez, todos esses fatos surgem adensados em um registro sutil, prazenteiro, que desvela a natureza de personagens contidos em um mundo de sentimentos genuínos, em um cantinho perdido da Patagônia. 

Mas nada, absolutamente nada, em minha opinião, se equipara à fineza do relato de Soriano quando ele demonstra a convicção de Gato Díaz de que defenderia pela segunda vez o pênalti, como se tratasse de um esforço banal... 'Então, o Gato Díaz apartou os que queriam acertar (o juiz) e disse que tinha de apressar-se, porque essa noite ele teria um encontro e uma promessa, e assim colocou-se mais uma vez sob o arco'...

E o que seria o desfecho natural de uma narrativa bem construída, a segunda defesa e o amor eterno de la rubia, torna-se um momento notável do passado, encoberto pelas brumas do tempo... Uma rápida elipse nos conduz à sequência final, que ameniza o clímax da defesa acompanhada por toda uma cidade, na exata proporção que o fato confere ao seu personagem principal, na breve continuidade do conto, a aura propícia de um mito.

Dois anos mais tarde, o Gato Díaz casado não com a rubia de Ferreira, mas com a irmã de Colo Rivero, está diante do jovem Soriano, o narrador, que tem um pênalti para si e o converte. Ao levantar-se, o goleiro lhe diz, 'Boa garoto, algum dia, quando for velho, estará a dizer que fizeste um gol no Gato Díaz, mas ninguém irá te acreditar'...

-o-

Foi um dos pequenos prazeres que me envolveram neste carnaval. Nada das mazelas bigbrotherianas, nada de notícias da Líbia, produzidas pelo oligopólio midiático. Aderi de corpo e alma ao tempo generoso, esse do ócio abrangente, aprofundando minha sensação de bem-estar com o mundo. Como as personagens do bucólico rincão patagônico, sem se preocupar com os caminhos, já que eles se definem com nossas escolhas... e com a firme convicção de que as boas surpresas da vida ainda estão por se pronunciar...


04 março 2011

Torpor


espaços urbanos, catacumbas humanas...


De sua parte, o senhor B. experimentava o desvario indigesto da especificidade, sensação que há muito não sentia. Os delírios febrís começaram a cobrar seu tributo tão logo se ele se estendeu por sob as cobertas,

o mosaico diabólico movendo suas peças em um rearranjo longe de ser perfeito, mas que o distraía para a sequência...

a música entre ecos, sinos, sinetas, o ranger de metais, sons acústicos, a voz modulada balbuciando frases desconexas...

a imagem do céu cinzento, ao longe o bramir das ondas rebentando na encosta rochosa, bateria e baixo, a voz modulada, 'look at the sky...', um soturno trompete, ao longe o suave toque, como a marcação musical, em tempo sincronizado... a voz modulada ganhando feições distorcidas, repetindo 'look at the sky...' e junto ao choro de uma criança, o mar bravio, a brisa fria de um cinza chumbo... o senhor B. lembra-se que deve ir ao encontro com a senhora M... 

... o vento o abraça solene, demoradamente, imobiliza-o em crescentes incertezas... tem o desejo de ir à beira-mar... a música entre ecos, o baixo acelerando a melodia, a nota esgarçada de um sintetizador, o corpo úmido... pensa que já é quinta feira, 'Não, não...' e sorri, porque gosta da reminiscência, um achado tão doce em uma jornada tão desconfortável... e sorri e as imagens se desvanecem logo ao surgirem, nenhum sentimento nem tampouco as visões do torpor persistem...


... o senhor B. volta-se para o outro lado, desaparecem as imagens e os sons por um instante, para ressurgirem no outro, pausados, distintos, agora as palavras do final de ano, um garçon em Berlim o convida para um drinque, '...this is champagne... merry christmas...', está em Berlim e o salão tão comum, gente transitando, o frio que vem de fora e penetra as grossas lãs... o senhor B. agora transita pelas ruas recobertas de neve... o som modulado, o prato da bateria delicadamente ressonado, o trompete... um jazz com batida rítmica, o baixo... 

... um tremor do corpo, o senhor B. não se sente confortável, mas as alucinações febris não o deixam, torna-se seu refém e tem consciência que enquanto a febre persistir, estará imerso em visões e sentimentos desconexos, imprecisos... lembra-se que tem um encontro, não pode faltar porque deseja dizer coisas muito importantes... a senhora M. talvez entenda um pequeno atraso, mas não esse atraso de duas horas... o café está vazio, as atendentes se esforçam para cobrir o sorriso e continuam com seus afazeres por trás do balcão...

... o senhor B. se aproxima, 'Por acaso viram a senhora M.?', ao que a atendente mais velha volta-lhe as costas, proferindo algo... 'O que disse, senhora?'... insiste o senhor B. e ela bem que se volta, sem o encarar diretamente... as três agora estão juntas, elas cozinham em um caldeirão atrás do balcão, são as três bruxas de Macbeth, o senhor B. sente bater-lhe às costas, é o garçon, 'I am the boss, this is champagne, merry christmas...

... um vago desejo de levantar da cama é logo portergado pela indisposição, então o senhor B. adormece por um lapso breve, para situar-se numa semiconsciência turva, e sente o corpo encharcado, e sabe que não conseguirá discernir se é hoje ou se é amanhã, e o encontro que não pode faltar, que não quer faltar... a batida ritmica, o sintetizador, um eco ressoando os instrumentos de percussão... a boca seca, talvez um café, mas a senhora M. não veio ao encontro... 

... dois alunos o aguardam do lado de fora, querem saber da prova, 'Não, depois...', e avança por sob a chuva fina, 'O céu ainda plúmbeo, penso que continuará assim por um bom tempo...' reflete o senhor B, empapado em suor, e chega a uma biblioteca vazia, os ecos dos sinos e dos pratos anunciando o desconsolo do desvario febril, mais e mais uma vez... e a incerteza de que encontrará a senhora M. com suas roupas de inverno, o grosso e aconchegante cachecol de flanela... 

... 'Onde você o comprou?', pergunta o senhor B. aproveitando que a vê de passagem, mas a senhora M. não se detém e prossegue em seu caminho, com a bolsa e os cadernos e os livros, e dobra o corredor... e o suave trompete, a batida ritmica, o baixo acústico, a voz mixada que não abandonam o sono do senhor B...



17 fevereiro 2011

Naima



Lá está ele, o senhor K, girando a colherzinha no café expresso. Sentado no ‘sofá’, as amplas janelas ao lado, a mesa diante de si, e ao redor, os murmúrios do ambiente. Deixa-se levar pela sonoridade vagamente audível, um saxofone persistente, que se desdobra, solitário. Gesto laborioso, frêmito que perdura diante da impossibilidade... e espontâneos, loquazes, o pensamento e a melodia... um e outro, breve ousadia enquanto desmobilizados, o escoar do tempo, a fragilidade em face do destino marcado...

Muitas imagens se acercam do senhor K, ou melhor dizendo, ele se precipita às impressões acumuladas, chorrilho de símbolos... A caneta solta sobre o caderno de anotações, no lugar do copo com uísque, a xícara de café, a esfriar enquanto move sem previsão a colherzinha... Sente-se íntegro como nunca, entorpecido pela alma adormecida. Quanto tempo, um dia, dois dias mais... uma semana, que importa... Alimenta-se do presente, e os resíduos se acumulam e quanto ao vestígio, se dissipa ao desejar tornar-se...

E se deixa levar... em seu presente... em sua escolha profunda... como o jazz que se estende, a intensidade sôfrega do saxofone, altos e baixos em meio aos improvisos... os fraseados prolongados, sequência de notas profusas, ternas, precisas... que avança pela redenção inescapável... o derradeiro sopro e como a melodia, o deleite não mais...

Outro fim de semana, com um horizonte imerso em tempo, as ideias esgarçadas e os propósitos, salutares, como sempre.



15 fevereiro 2011

Recortes urbanos (3)


Dresden, 2010

No último trem, o pinga-pinga me permitiu deparar com a cena cotidiana nada colorida de uma sociedade industrial avançada. O belo de seus cartões postais ficaram para trás, nos espaços consagrados pelo consumo globalizado. A elegância estética, sinônima de conforto e sedução. O trem avançava como podia, em meio à névoa cinzenta, com pontinhos cobertos até o pescoço avançando por caminhos lodosos, onde a neve derretida fundia-se aos poucos, em uma gosma escura, esmagada pela contínua passagem dos trabalhadores.

O trem avançava como podia... parando nas pequenas estações do caminho, que atendiam as demandas das fábricas, das escolas, e o horário me dizia que o turno de trabalho, e de estudos, se encerrava. No meu vagão, trabalhadores brancos, negros, árabes, adolescentes com suas mochilas, idosos, um entra e sai frenético. Situações ásperas, que me atravessavam de modo estranho, por não entender o código social daquela movimentação.

Por trás dos sujeitos que se acomodavam em seus modos taciturnos, a ideologia aprofundando-se nos rituais práticos do cotidiano. Para Althusser, "o que é representado não é o sistema das relações reais que governam a existência dos indivíduos, mas a relação imaginária destes indivíduos com as relações reais em que vivem". Em outras palavras, a dureza da reprodução daquelas condições de trabalho que se fazia, e se faz, em nome de uma expectativa de conquista fluida, amparada em um horizonte no mais das vezes inalcançável, porém estimulada em sua idealização pelos aparelhos de ideologia do estado (AIE).

Com a globalização, os aparelhos de ideologia ganharam uma dimensão mundial, com o estabelecimento de uma ideologia dominante, neoliberal. A aplicação dos AIE a serviço de uma interpretação classista se mantém, com uma burguesia mundial substituindo a burguesia nacional. Assim, a mídia corporativa, para ficar neste exemplo de AIE, tem sua função desdobrada na reprodução de uma compreensão de mundo que esteja alinhada com a ideologia dominante global. Podemos constatar facilmente o pastiche noticioso que amalgama os principais veículos de comunicação do mundo, todos alinhados com uma vertente hegemônica, variando apenas o grau de sutilidade do discurso.

E o trem prosseguiu em seu trajeto, avançando aos bocados, pelos subúrbios do capitalismo. Fixei-me na paisagem dura de um cotidiano oculto por trás dos biombos do mundo-espetáculo, e não me incomodei em perder a conexão em Amsterdã, que faria ainda naquela tarde. Deixei-me levar, meio viajante, meio turista, acompanhando o cansaço, as conversas, os silêncios, gestos e expressões mortiços, raramente exultantes. Perpassou-me o desconsolo da não-pertença, de estar ao lado e de não sentir-me parte. A cultura, o modo de ser local, atravessados por um torpor isolante, práticas reguladas por rituais, agora em sua uniformidade global, definidos pelos aparelhos ideológicos, agora em seu alcance global...

E embora pudesse pensar em Marx ou Althusser, aprofundou-se em mim a sensação de incômodo, a ausência completa de signos que promovessem um vínculo... o estranhamento absoluto, a reprodução da mesmice como componente vital nas relações de produção.



05 fevereiro 2011

Sobre a companhia

Cafeteria do museu de comunicação, Berlim



Fui à Confeitaria, para uma média com espuma. Para interromper um pouco as leituras. A noite urbana, com suas personagens características, desgarradas, ocupadas, adormecidas, poucos carros, um ar límpido, o desejo de colocar as mãos nos bolsos e caminhar indefinidamente...

Escolhi uma mesinha, em meio ao balbucio das personagens da noite, em sua maioria trabalhadores, que estão a pegar ou a largar o serviço. As conversas são mais sussurradas que durante o dia, se movem em outro ritmo, como se as apreensões cotidianas os deixassem por uns minutos, ou o contrário, eles esquecessem por uns minutos as apreensões cotidianas. Não importa, o ritual se conecta de modo harmônico, comem, bebem, sorriem, reclamam, acompanham as imagens das tevês... e naturalmente, o ambiente interno se esparrama para a rua, através da conversa. 


Clientes que conversam na saída com as caixas, com os porteiros, com seguranças, em breve confraternização... Arrastam-se para fora do recinto, transformam-se em cidadãos, sejam trabalhadores, turistas, desempregados, e na caminhada pelos logradouros, cruzam com prostitutas, que conversam com garis, que conversam com os guardadores de carros, que conversam com os mendigos, que continuam abandonados... Fluxo de relações que não se rompe, alimentadas pela informalidade do momento... A cidade não é assim, ganhará outra roupagem pela manhã, mas isso é outra conversa...

Esqueço o dinheiro, o chefe me conhece, pede para que eu não me preocupe, saio para a rua, uns poucos passos, ouço de passagem a conversa de três catadores de entulho diante de uma caçamba, em meio a falas mornas, divertidas, um defendendo a tradição do Corinthians, dois ironizando o argumento... mais adiante, já na esquina com a Augusta, um homem irrompe em minha frente, Um minuto, doutor, só um minuto... Sem que me detenha, ele me estende uma nota de 5 euros, a voz empostada, Só quero saber quanto vale isso?... Digo-lhe o valor aproximado e ele logo se junta ao amigo, comentando sem entusiasmo a informação obtida... Acompanho-os por um tempo, antes de desaparecerem na noite. Embrenham-se pelos desvãos infindáveis de um espaço que os ignora, essa invisibilidade empírica que nos interroga sem cessar, sempre a transcender as respostas praticadas nas reflexões acadêmicas...

Em casa, prossigo por mais um pouco na leitura, antes de ceder ao cansaço. Vem o sono, com ele os sonhos e em um deles, outro encontro: estamos em um colégio e fazemos uma prova com os alunos. Você está com as mãos carregadas de pastas e papéis, me lembra aquela menina com saia do Colégio. Ao final, nos encontramos em uma mesa da cantina. Então, você me diz que dará seu passeio pela orla, e pergunta se desejo acompanhá-la...

Enquanto deixamos a escola, ajudo-a com as pastas, e seguimos a caminho do mar, e penso, em busca da livraria de sua juventude, e de um sorvete de casquinha...




03 fevereiro 2011

Mubarak e Cortázar


Praça Tahir, Cairo


Trinta anos não foram suficientes para o ditador implantar sua política de plena restrição à democracia. Resiste teimosamente, como a prosseguir na construção de sua obra sinistra, expressão monolítica, a absorver a dinâmica espontânea de um povo. Ao longo desse tempo, o Egito subsistiu sem voz para externar seus desígnios de nação soberana, assimilando os interesses dos EUA no quadro geopolítico regional, com seus movimentos tíbios e silenciosos...
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Hosni Mubarak, o responsável por esse mórbido silêncio, permitiu o assassinato de milhares de palestinos, para ficarmos apenas neste exemplo. Mubarak gostou tanto do silêncio, que o transformou na simbologia melíflua de um tempo histórico, marcado pela ausência de vozes dissonantes. Fez o que sempre soube fazer, processar o martírio de milhares de compatriotas, e assim como Macbeth, carregar ao longo dos anos as mãos encharcadas de sangue...
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Mubarak, com seu governo inepto e exemplarmente corrupto, ignorou todos os sinais que indicavam a tragédia. A perfeita metáfora para a situação egípcia se revela em uma narrativa de Cortázar, Conto sem moral, onde o comerciante protagonista do texto surge diante de um ditador para vender suas últimas palavras, a serem proferidas quando chegasse o momento decisivo.
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Diante de sua taça de chá matinal, o verdugo questiona, 'E por que devo comprar as palavras que devo dizer?', ao que o negociante não se fez de rogado, 'O medo... o medo não lhe deixará falar... e quando brotar um gemido suplicando o perdão, já não haverá mais tempo e paciência, e o enforcarão'...
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Como todo tirano, encapsulado pelo terror que os paralisa no ocaso de seus mandatos, ele se convence em comprar suas últimas palavras, desautorizando a seus asseclas, que indignados pelo tratamento recebido, não tardam em fuzilá-lo, impedindo que use as últimas palavras.
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Ato contínuo da opereta, os generais e secretários buscam pela capital o comerciante, que a esse tempo passeava pelo mercado, vendendo pregões a saltimbancos. Ao detê-lo, torturam-no, para descobrir as tais últimas palavras. Sem sucesso, terminam por matá-lo a pontapés...
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As consequências, ora, as consequências, elas estão ao alcance dos nossos olhos, nas imagens vindas da praça Liberdade, que falam por si. Na narrativa de Cortázar, o comerciante, antes de ser detido e morto, oferece os gritos aos vendedores de rua, que multiplicaram os gritos nas esquinas, a senha para que o povo, uma vez contagiado, desencadeasse a revolução, que acabou com os generais e os secretários...
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Sobra-nos a afilada curiosidade: quais palavras e gritos teriam mobilizado tão vigorosamente a população, derrubando uma poderosa tirania? Sobre isso, Cortázar não nos fala, porém dos acontecimentos reais vindos do Egito, apreendemos o contagiante rastilho da indignação reverberada pelas mídias sociais, que desencadeou a ação social... Y se fueron pudriendo todos, el tiranuelo, el hombre y los generales y secretarios, pero los gritos resonaban de cuando en cuando en las esquinas.