03 fevereiro 2011

Mubarak e Cortázar


Trinta anos não foram suficientes para o ditador implantar sua política de plena restrição à democracia. Resiste teimosamente, como a prosseguir na construção de sua obra sinistra, expressão monolítica, a absorver a dinâmica expontânea de um povo. Ao longo desse tempo, o Egito subsistiu sem voz para externar seus desígnios de nação soberana, assimilando os interesses dos EUA no quadro geopolítico regional, com seus movimentos tíbios e silenciosos...
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Hosni Mubarak, o responsável por esse mórbido silêncio, permitiu o assassinato de milhares de palestinos, para ficarmos apenas neste exemplo. Mubarak gostou tanto do silêncio, que o transformou na simbologia melíflua de um tempo histórico, marcado pela ausência de vozes dissonantes. Fez o que sempre soube fazer, processar o martírio de milhares de compatriotas, e assim como Macbeth, carregar ao longo dos anos as mãos encharcadas de sangue...
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Mubarak, com seu governo inepto e exemplarmente corrupto, ignorou todos os sinais que indicavam a tragédia. A perfeita metáfora para a situação egípcia se revela em uma narrativa de Cortázar, Conto sem moral, onde o comerciante protagonista do texto surge diante de um ditador para vender suas últimas palavras, a serem proferidas quando chegasse o momento decisivo.
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Diante de sua taça de chá matinal, o verdugo questiona, 'E por que devo comprar as palavras que devo dizer?', ao que o negociante não se fez de rogado, 'O medo... o medo não lhe deixará falar... e quando brotar um gemido suplicando o perdão, já não haverá mais tempo e paciência, e o enforcarão'...
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Como todo tirano, encapsulado pelo terror que os paralisa no ocaso de seus mandatos, ele se convence em comprar suas últimas palavras, desautorizando a seus asseclas, que indignados pelo tratamento recebido, não tardam em fuzilá-lo, impedindo que use as últimas palavras.
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Ato contínuo da opereta, os generais e secretários buscam pela capital o comerciante, que a esse tempo passeava pelo mercado, vendendo pregões a saltimbancos. Ao detê-lo, torturam-no, para descobrir as tais últimas palavras. Sem sucesso, terminam por matá-lo a pontapés...
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As consequências, ora, as consequências, elas estão ao alcance dos nossos olhos, nas imagens vindas da praça Liberdade, que falam por si. Na narrativa de Cortázar, o comerciante, antes de ser detido e morto, oferece os gritos aos vendedores de rua, que multiplicaram os gritos nas esquinas, a senha para que o povo, uma vez contagiado, desencadeasse a revolução, que acabou com os generais e os secretários...
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Sobra-nos a afilada curiosidade: quais palavras e gritos teriam mobilizado tão vigorosamente a população, derrubando uma poderosa tirania? Sobre isso, Cortázar não nos fala, porém dos acontecimentos reais vindos do Egito, apreendemos o contagiante rastilho da indignação reverberada pelas mídias sociais, que desencadeou a ação social... Y se fueron pudriendo todos, el tiranuelo, el hombre y los generales y secretarios, pero los gritos resonaban de cuando en cuando en las esquinas.
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