15 fevereiro 2011

Recortes urbanos (3)


No último trem, o pinga-pinga me permitiu deparar com a cena cotidiana nada colorida de uma sociedade industrial avançada. O belo de seus cartões postais ficaram para trás, nos espaços consagrados pelo consumo globalizado. A beleza estética, sinônima de conforto e sedução. O trem avançava como podia, em meio à névoa cinzenta, com pontinhos cobertos até o pescoço avançando por caminhos lodosos, onde a neve derretida fundia-se aos poucos, em uma gosma escura, esmagada pela contínua passagem dos trabalhadores.
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O trem avançava como podia... parando nas pequenas estações do caminho, que atendiam as demandas das fábricas, das escolas, e o horário me dizia que o turno de trabalho, e de estudos, se encerrava. No meu vagão, trabalhadores brancos, negros, árabes, adolescentes com suas mochilas, idosos, um entra e sai frenético. Situações ásperas, que me atravessavam de modo estranho, por não entender o código social daquela movimentação.
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Por trás dos sujeitos que se acomodavam em seus modos taciturnos, a ideologia aprofundando-se nos rituais práticos do cotidiano. Para Althusser, "o que é representado não é o sistema das relações reais que governam a existência dos indivíduos, mas a relação imaginária destes indivíduos com as relações reais em que vivem". Em outras palavras, a dureza da reprodução daquelas condições de trabalho que se fazia, e se faz, em nome de uma expectativa de conquista fluida, amparada em um horizonte no mais das vezes inalcançável, porém estimulada em sua idealização pelos aparelhos de ideologia do estado (AIE).
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Com a globalização, os aparelhos de ideologia ganharam uma dimensão mundial, com o estabelecimento de uma ideologia dominante, neoliberal. A aplicação dos AIE a serviço de uma interpretação classista se mantém, com uma burguesia mundial substituindo a burguesia nacional. Assim, a mídia corporativa, para ficar neste exemplo de AIE, tem sua função desdobrada na reprodução de uma compreensão de mundo que esteja alinhada com a ideologia dominante global. Podemos constatar facilmente o pastiche noticioso que amalgama os principais veículos de comunicação do mundo, todos alinhados com uma vertente hegemônica, variando apenas o grau de sutilidade do discurso.
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E o trem prosseguiu em seu trajeto, avançando aos bocados, pelos subúrbios do capitalismo. Fixei-me na paisagem dura de um cotidiano oculto por trás dos biombos do mundo-espetáculo, e não me incomodei em perder a conexão em Amsterdã, que faria ainda naquela tarde. Deixei-me levar, meio viajante, meio turista, acompanhando o cansaço, as conversas, os silêncios, gestos e expressões mortiços, raramente exultantes. Perpassou-me o desconsolo da não-pertença, de estar ao lado e de não sentir-me parte. A cultura, o modo de ser local, atravessados por um torpor isolante, práticas reguladas por rituais, agora em sua uniformidade global, definidos pelos aparelhos ideológicos, agora em seu alcance global...
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E embora pudesse pensar em Marx ou Althusser, aprofundou-se em mim a sensação de incômodo, a ausência completa de signos que promovessem um vínculo... o estranhamento absoluto, a reprodução da mesmice como componente vital nas relações de produção.
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