18 março 2009

Mulay Idriss



Uma vez na estrada, os passageiros animaram-se na conversa. Havia no meio deles um mufti vestindo um kaftan cinza, que aos poucos assumiu as atenções. Tinha o rosto bonachão, de homem que aliava sem esforço a teoria dos estudos com a prática da vivência, os demais o ouviam serenamente. Falava árabe, dava-me prazer ouvi-lo em seus gestos respeitosos, embora o calor estivesse abrasador e todos suássemos em bicas. Sentia-me um pouco deslocado no meio daquela conversação, mas de modo algum ignorado, talvez por respeitarem um estrangeiro em sua peregrinação solitária a Mulay Idriss. Próximo à cidade sagrada, o mufti dirigiu-me a palavra em seu francês escorreito, com leve acento árabe, perguntando sobre o motivo de minha viagem ao Marrocos. Respondi que iria até os contrafortes de Ouarzazate, ao alcance do deserto, e ele sorriu. Queria indagá-lo sobre o islã, mas o homem voltou-se para outro passageiro, como se fosse seu papel contemplar a cada um com sua atenção.

Avançávamos por uma pista sinuosa, que recortava um relevo de morros suaves e coberto por vegetação rala, que se sobrepunha melancolicamente. O mufti então arguiu para todos, A terra é fértil, é preciso criar a oportunidade para o desenvolvimento agrícola... Não foi à toa que os romanos vieram para cá há dois mil anos... Não eram palavras muito sábias, mas o tom ponderado de sua fala nos acalentava o espírito. Pensei com meus botões como seria Mulay Idriss e o que poderia ser os restos romanos de Volubilis. Há muito que era fascinado pelas ruínas, mas nunca antes ouvira da cidade sagrada dos muçulmanos, até me informarem adequadamente em Meknés sobre a rota mais correta. Tinha a expectativa de encontrar uma pequena cidade italiana da Toscana, encravada na montanha, com ruelas e caminhos acidentados, um comércio vigoroso, tendo por fundo a rica arquitetura islâmica. O que vi me trouxe de volta à realidade urbanística marroquina: uma cidade pobre, enigmática, com suas cores densas ao cair da tarde e seus habitantes circulando em torno de suas singelas tarefas, despreocupados com os movimentos do forasteiro extemporâneo.

Não foi difícil incorporar-me ao espaço urbano da cidade e acompanhar alguns aspectos de sua vida cotidiana.


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