20 fevereiro 2009

Um outro mundo


Nenhum plano pretende explicar ou esgotar o assunto: no estádio, vemos parte das arquibancadas com nossos personagens no centro da tela. O contracampo nos mostra a parte mais próxima do gramado, a linha lateral tomada em plongé. No balneário de Piriápolis ou em Montevidéu, temos apenas os enquadramentos necessários para acompanhar nossos soturnos personagens. No cassino, basta-nos observar os personagens principais jogando na máquina caça-níqueis ou depositando fichas na mesa da roleta. Tudo assim, economia de gestos, de olhares, de palavras, muito bem construído em um roteiro preciso, que relata uma história vazia e ao mesmo tempo dialoga com uma proposta dialética de múltiplos sentidos, ocultos à primeira vista. O olhar do espectador acompanha o desenrolar catatônico da história, mergulhando em seu non sense e questionando-se em que situação se dará o desfecho. Nada especial: a personagem feminina, Marta, em um táxi, segurando sem saber um pacote com muita grana que acabou de receber, o olhar perdido para além do veículo, para qualquer ponto na paisagem urbana adormecida.

A narrativa ocorre sempre neste ritmo taciturno. Três personagens convivem por alguns dias e nada fazem além de trocar algumas frases vazias, sem proporcionar qualquer expectativa frutífera nas relações. Depreendemos ao redor desses personagens sonambúlicos uma Montevidéu suspensa no tempo, indiferente ao avanço da modernidade, satisfeita em sua placidez, que indica um atraso tecnológico do qual não se envergonha. Tomando-se por base a cinematografia argentina recente – que busca também mostrar o marasmo social a partir da crise econômica – a realidade presente neste filme de Juan Pablo Rebella ultrapassa qualquer crítica ou qualquer presságio: é como se referendasse um pesar atávico, que não vislumbra transformação e muito menos almeja alguma solução. Basta a consciência de vermos transcorrer os fatos e os atos em sua continuidade espasmódica, sem dor, amor ou esperança.


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